"No seu primeiro encontro romântico com uma garota, levou junto a mãe. Rapaz criado sob os mimos da mãe viúva e de duas tias solteironas, não se sentia seguro nem para assinar o próprio nome. A ausência de qualquer uma das três figuras femininas fazia com que Alfredo perdesse até a fala.
A independente Paloma, que se produzira para o grande encontro com tamanha vivacidade, agora olhava para a cena berrante com uma estranheza perturbadora.
- Oi Paloma, essa é minha mamãe.
Após uma eternidade para recuperar o fôlego, Paloma manteve o decoro e não tocou no assunto. Trocou dois beijinhos com o Alfredo, dois beijinhos com a mãe e se sentou à mesa do restaurante. Durante o jantar, a mãe, sob os tufos de cabelos brancos e uma pele desgastada, falava sem parar. Até de boca cheia. Falava sobre receitas, o clima, a violência da cidade, e sobre cada um dos programas de TV, desde os Bom Dia Qualquer Coisa até os Boa Noite Coisa Qualquer.
Em dado momento, a mãe foi ao banheiro. Delicada como uma duquesa, disse sem rodeios:
- Dá licencinha que vou ali no banheiro dar uma urinadinha, mas já volto. Vocês esperem eu voltar pra conversar que não quero perder nadinha. – Era só o que faltava.
Foi só a figura embalsamada desaparecer, e Paloma disse entre dentes:
- Alfredo, você tá louco? Por que você trouxe sua mãe no nosso encontro?
- Ah, Paloma, me desculpe, mas eu não podia deixar a mamãe em casa. Ela tem medo de ficar sozinha.
- Medo de ficar sozinha? Medo de ficar sozinha? E o que eu tenho a ver com isso?
- Mas, o que você queria que eu fizesse?
- Eu queria que… – Falar e bufar são duas coisas difíceis de se fazer ao mesmo tempo. – Eu queria que você tivesse feito qualquer coisa, qualquer coisa: deixado ela sozinha, levado ela pra casa do vizinho, acertado ela com uma pá e enterrado no fundo do quintal, menos ter trazido ela com você pro nosso encontro.
- Oi Paloma, essa é minha mamãe.
Após uma eternidade para recuperar o fôlego, Paloma manteve o decoro e não tocou no assunto. Trocou dois beijinhos com o Alfredo, dois beijinhos com a mãe e se sentou à mesa do restaurante. Durante o jantar, a mãe, sob os tufos de cabelos brancos e uma pele desgastada, falava sem parar. Até de boca cheia. Falava sobre receitas, o clima, a violência da cidade, e sobre cada um dos programas de TV, desde os Bom Dia Qualquer Coisa até os Boa Noite Coisa Qualquer.
Em dado momento, a mãe foi ao banheiro. Delicada como uma duquesa, disse sem rodeios:
- Dá licencinha que vou ali no banheiro dar uma urinadinha, mas já volto. Vocês esperem eu voltar pra conversar que não quero perder nadinha. – Era só o que faltava.
Foi só a figura embalsamada desaparecer, e Paloma disse entre dentes:
- Alfredo, você tá louco? Por que você trouxe sua mãe no nosso encontro?
- Ah, Paloma, me desculpe, mas eu não podia deixar a mamãe em casa. Ela tem medo de ficar sozinha.
- Medo de ficar sozinha? Medo de ficar sozinha? E o que eu tenho a ver com isso?
- Mas, o que você queria que eu fizesse?
- Eu queria que… – Falar e bufar são duas coisas difíceis de se fazer ao mesmo tempo. – Eu queria que você tivesse feito qualquer coisa, qualquer coisa: deixado ela sozinha, levado ela pra casa do vizinho, acertado ela com uma pá e enterrado no fundo do quintal, menos ter trazido ela com você pro nosso encontro.
- Puxa, Paloma. Como você é insensível. Até parece que nunca teve uma mamãe.
- Para, para. Ela não é sua “mamãe”.
- Como não?
- Ela é sua “mãe”. Você já tá crescidinho demais pra ficar com essa de “mamãe” daqui, “mamãe” dali.
- Na verdade, eu costumo chamar ela de “mamãezinha”, mas achei que você ia me achar meio infantil.
- Oh, você infantil? Imagina, Alfredo! Um homem que traz a “mamãe” num primeiro encontro não tem nada de infantil.
- Eu não gosto desse seu cinismo.
- Homens infantis fazem outras coisas: fazem xixi no penico, usam shampoo de bebê, e só dormem com a luz acesa.
Alfredo ficou embaraçado. Tentou desviar os olhos, mas o encabulamento o entregou.
- Eu não acredito, Alfredo. Eu não acredito. Qual dessas três coisas você faz ainda?
- Ééé…
- Todas elas
- Não, todas não. Eu não durmo com a luz acesa. Porque a luz incomoda a mamãe.
- O quê??? Você dorme com sua mãe?
- E com as minhas tias, também. Mas por elas, poderia deixar a luz acesa.
- Com as suas…? Não, não. Pra mim, chega. Adeus.
- Paloma, espera. Espera.
Apesar das súplicas de Alfredo, ela se levanta e desaparece de sua vista.
Quando a mãe volta, percebe o filho sozinho e triste, e pergunta:
- Que foi, meu bebê? Que cara é essa?
- Mamãe, tenho uma notícia triste pra te dar.
- O quê?
- A Paloma terminou com a gente."
Juliano Martinz
- Para, para. Ela não é sua “mamãe”.
- Como não?
- Ela é sua “mãe”. Você já tá crescidinho demais pra ficar com essa de “mamãe” daqui, “mamãe” dali.
- Na verdade, eu costumo chamar ela de “mamãezinha”, mas achei que você ia me achar meio infantil.
- Oh, você infantil? Imagina, Alfredo! Um homem que traz a “mamãe” num primeiro encontro não tem nada de infantil.
- Eu não gosto desse seu cinismo.
- Homens infantis fazem outras coisas: fazem xixi no penico, usam shampoo de bebê, e só dormem com a luz acesa.
Alfredo ficou embaraçado. Tentou desviar os olhos, mas o encabulamento o entregou.
- Eu não acredito, Alfredo. Eu não acredito. Qual dessas três coisas você faz ainda?
- Ééé…
- Todas elas
- Não, todas não. Eu não durmo com a luz acesa. Porque a luz incomoda a mamãe.
- O quê??? Você dorme com sua mãe?
- E com as minhas tias, também. Mas por elas, poderia deixar a luz acesa.
- Com as suas…? Não, não. Pra mim, chega. Adeus.
- Paloma, espera. Espera.
Apesar das súplicas de Alfredo, ela se levanta e desaparece de sua vista.
Quando a mãe volta, percebe o filho sozinho e triste, e pergunta:
- Que foi, meu bebê? Que cara é essa?
- Mamãe, tenho uma notícia triste pra te dar.
- O quê?
- A Paloma terminou com a gente."
Juliano Martinz
