domingo, 28 de junho de 2015

... o caminho do amor por uma mulher.



"...
Diante dele, aparecia agora Charles Darnay, cuja visão o fez deixar de lado o livro e estender a mão.
- Charles Darnay! É um prazer vê-lo. Estávamos contando com o seu retorno há uns três ou quatro dias. O senhor Stryver e Sydney Carton estiveram aqui ontem, e ambos disseram que já passava da hora do senhor voltar.
- Tenho de agradecê-los por se interessarem por esta questão – respondeu ele, um pouco frio  com relação aos dois, mas bastante caloroso com o médico. – A senhorita Manette...
- Está bem – disse o médico, interrompendo-o -, e seu retorno agrada a todos nós. Ela saiu para tratar de algumas questões domésticas, mas chegará em breve.
- Doutor Manette, eu sabia que ela não estaria em casa. Aproveitei a oportunidade para pedir o favor de conversar com o senhor.
Fez-se um silêncio absoluto.
- Sim? – disse o médico, visivelmente constrangido. – Traga sua cadeira até aqui e fale.
Ele obedeceu no que dizia respeito à cadeira, mas parecia achar mais difícil a parte da fala.
- Eu tive a felicidade, doutor Manette, de ter me tornado amigo íntimo da família – começou após longa pausa – há cerca de um ano e meio, então espero que o assunto no qual tocarei não cause...
Ele foi interrompido quando o doutor estendeu a mão com a intenção de para-lo. Depois de permanecer assim durante um curto intervalo, ele disse, recolhendo-a:
- O assunto é Lucie?
- É sim.
É-me difícil falar sobre ela, não importa quando. É-me difícil ouvir alguém falando sobre ela nesse seu tom de voz, Charles Darnay.
- É um tom de admiração fervorosa, respeito genuíno e amor profundo, doutor Manette! Declarou Charles respeitosamente.
De novo fez-se um silêncio absoluto antes que o pai da moça respondesse:
- Eu acredito nisso. Faço-lhe jus: acredito nisso.
Seu constrangimento era tão óbvio, e também era óbvio que se originava de sua relutância em abordar o assunto, que Charles Darnay hesitou.
- Devo prosseguir, senhor?
Outro silêncio.
- Sim, prossiga,
- O senhor pode prever o que vou dizer, mas não tem como saber a seriedade com que o digo, a seriedade com que sinto, sem conhecer os segredos do meu coração e as esperanças, temores  e angústias que ele carrega já faz muito tempo. Caro doutor Manette, a filha do senhor afetuosamente, ternamente, desinteressadamente, devotamente. Se um dia já houve amor neste mundo, eu a amo. O senhor mesmo já amou: deixe que seu antigo amor fale por mim!
 O médico estava sentado com o rosto virado para o outro lado e os olhos mirando no chão. Ao ouvir essas últimas palavras, ele tornou a esticar a mão, às pressas, e lamentou:
- Isso não! Deixe isso de lado! Eu lhe imploro, senhor, não traga isso à tona!
Seu lamento era tão similar a um verdadeiro lamento de dor, que ecoou nos ouvidos de Charles Darnay muito depois de ter cessado. Ele gesticulou com a mão que havia estendido, e pareceu uma súplica para que Darnay parasse. Este aceitou o pedido e permaneceu calado.
- Peço-lhe perdão – disse o doutor, num tom suave, alguns instantes depois. – Não duvido do seu amor por Lucie; esta satisfação eu posso lhe dar.
Ele virou-se na direção de Darnay, mas não o encarou nem ergueu os olhos. Apoiou o queixo na mão e o cabelo grisalho lhe toldou o rosto:
- O senhor falou com Lucie?
- Não
- Nem lhe escreveu?
- Nunca.
- Seria mesquinho fingir que não sei que sua abnegação se deve à consideração que tens pelo pai dela. O pai dela lhe agradece.
Ofereceu-lhe a mão; porém, os olhos não a acompanharam.
- Eu sei, doutor Manette – disse Darnay de modo respeitoso -, como não poderia saber? Eu, que vejo ambos juntos todos os dias, vejo que entre o senhor e a senhorita Manette existe um afeto tão incomum, tão comovente, tão específico às circunstâncias em que ele foi cultivado, que não pode haver paralelos, nem mesmo na ternura existente entre um pai e uma filha. Sei, doutor Manette (como não poderia saber?), que, misturado ao afeto e ao dever de uma filha que já se tornou mulher, há no coração dela, em relação ao senhor, todo o amor e dependência próprios à infância. Eu sei que, como na infância ela não teve os pais, hoje ela lhe é devotada com toda a constância e o fervor próprios à sua idade e caráter atuais, combinados com a confiança e o apego dos primeiros anos, em que ela pensava tê-lo perdido. Sei muito bem que, caso o senhor tivesse voltado para ela d’além desta vida, dificilmente teria, aos olhos dela, uma natureza ainda mais sagrada do que esta que ela já lhe atribui. Sei que quando o abraça, é ao mesmo tempo com as mãos do bebê, da criança e da mulher que ela envolve seus ombros. Eu sei que, no amor que ela lhe devota, ela enxerga e ama a mãe quando tinha sua mesma idade, enxerga e ama o senhor na minha idade, ama sua mãe de coração partido, ama o senhor durante sua terrível provação e em sua abençoada recuperação. Sei disso, dia e noite, desde o momento em que conheci a ambos dentro de casa.
O pai dela permaneceu calado, de cabeça baixa. Sua respiração ficou um pouco mais curta; entretanto, reprimia todos os outros sinais de agitação.
- Caro doutor Manette, sabendo sempre disso, vendo sempre o senhor e sua filha com esta luz santificada que os envolve, eu me contive, e continuei me contendo, por todo o tempo que a natureza de um homem seria capaz de permitir. Eu sentia, e ainda sinto, que colocar meu amor...  até o meu próprio... entre o senhor e sua filha é tocar a história que existe entre os doi que não lhe faz jus. Porém eu a amo. Deus é testemunha de que a amo!
- Eu acredito nisso – respondeu o pai, pesaroso. – Eu já pensava ser este o caso. Eu acredito.
- Porém, não acredite – declarou Darnay, em cujos ouvidos a voz pesarosa soou como uma censura – que se um dia eu tivesse a sorte de torná-la minha esposa, seria capaz de criar qualquer separação entre ela e o senhor, ...” (continua na próxima postagem).
 
Extrato do livro: Um conto de duas cidades – Charles Dickens