domingo, 12 de julho de 2015

... o caminho do amor por uma mulher - (final).

continuação...
 
"(....)

- Porém, não acredite – declarou Darnay, em cujos ouvidos a voz pesarosa soou como uma censura – que se um dia eu tivesse a sorte de torná-la minha esposa, seria capaz de criar qualquer separação entre ela e o senhor, isso posso lhe jurar. Além de inútil, sei que seria uma grande maldade. Se essa possibilidade sequer existisse, mesmo que daqui a muitos anos, acolhida em meus pensamentos, e escondida em meu coração (se um dia ela tivesse existido), eu agora não poderia apertar a sua honrada mão.
Ele pôs a mão sobre a dele ao falar isso.
- Não, doutor Manette. Assim como o senhor, exilei-me voluntariamente da França; assim como o senhor, fui distanciado daquela nação pelas distrações, opressões e misérias que a dominavam; assim como o senhor, luto para viver longe daquela nação através de meus próprios esforços e confio num futuro melhor; desejo apenas partilhar de sua sorte, partilhar com o senhor sua vida e seu lar, e ser-lhe leal até a morte. Não quero dividir com Lucie o privilégio que ela tem de ser sua filha, companheira e amiga, mas sim de vir em seu auxílio e aproximá-la ainda mais do senhor, se tal coisa for possível.
Sua mão permanecia sobre a mão do pai de Lucie. Respondendo ao toque por um instante, mas não com frieza, o pai apoiou as mãos nos braços da poltrona e ergueu os olhos pela primeira vez desde o início da conversa. Seu semblante evidenciava uma batalha: a batalha contra aquele olhar ocasional que tendia para a dúvida sombria me o temor.
- O senhor fala com tanta sensibilidade e coragem, Charles Darnay, que lhe agradeço do fundo da alma, e abrirei meu coração totalmente... ou quase. O senhor tem algum motivo para crer que Lucie o ama?
- Nenhum. Por enquanto, nenhum.
- Seria o principal intuito dessa sua confidência averiguar se este seria o caso, com o meu conhecimento?
- Nem isso. Talvez eu não tenha confiança para fazê-lo daqui algumas semanas; talvez (enganado ou não) eu tenha confiança para fazê-lo amanhã.
- O senhor espera que eu lhe dê alguma orientação?
- Não lhe peço isso, senhor. Mas me ocorreu que talvez o senhor pudesse me dá-la, se o senhor achar essa atitude correta.
- O senhor espera que eu lhe faça alguma promessa?
- Isso sim, eu espero.
- Qual promessa?
- Entendo muito bem que, sem a ajuda do senhor não me restam esperanças. Entendo muito bem que, mesmo que neste momento a senhorita Manette me tivesse em seu coração inocente (não pense que tenho a presunção de crer em tal hipótese), eu não poderia manter-me dentre dele contra o amor que ela tem pelo pai.
- Se for este o caso, o senhor vê o que, por outro lado, isso envolve?
- Entendo igualmente bem que uma palavra do pai dela a favor de qualquer pretendente teria mais valor que eu e que o mundo inteiro. Por essa razão, doutor Manette – disse Darnay, modesto, mas firme -, eu não pediria tal palavra, nem se ela fosse salvar minha vida.
- Tenho certeza disso. Charles Darnay, mistérios surgem tanto do amor íntimo como do grande distanciamento; neste último caso, são sutis e delicados, e difíceis de se penetrar. Nesse aspecto, minha filha é para mim um grande mistério; não posso palpitar sobre o que se passa em seu coração.
- Posso lhe perguntar se o senhor acha que ela... – Como ele hesitou, o pai preencheu a lacuna.
- Que ela tem outro pretendente?
- É isso o que eu tinha a intenção de perguntar.
O pai refletiu por um instante antes de responder:
- O senhor mesmo já viu o senhor Carton aqui. O senhor Stryver também vem aqui de vez em quando. Se há algum pretendente, só pode ser um desses dois.
- Ou os dois – disse Darnay.
- Não pensei nos dois; provavelmente nem pensaria em um ou em outro. O senhor que uma promessa minha. Diga-me qual.
- A de que, se em algum momento a senhorita Manette lhe confidenciar algo semelhante ao que ousei lhe confidenciar, o senhor servirá de testemunha do que eu disse e de sua crença no que eu disse. Espero que o senhor me tenha em tão alta conta que não a influencie contra mim. Não direi mais nada a respeito de meu interesse; é isso que lhe peço. O senhor pode me impor quaisquer condições para acatar meu pedido, e é inegável que o senhor tem o direito de me impor condições e eu as aceitarei de imediato.
- Dou-lhe minha palavra – afirmou o doutor -, sem impor nenhuma condição. Acredito que sua intenção seja, pura e genuinamente, a que foi declarada. Acredito que sua finalidade seja perpetuar, e não enfraquecer, os laços que existem entre mim e meu ser mais querido. Se um dia ela me disser que o senhor é fundamental para que ela seja plenamente feliz, eu entregarei a mão dela ao senhor. Se havia... Charles Darnay, se havia...
O jovem pegara sua mão com gratidão; suas mãos estavam unidas quando o doutor continuou:
- ...Quaisquer ilusões, razões, apreensões, qualquer coisa, seja recente ou antiga, contra o homem que ela amasse de verdade... sendo que a responsabilidade por isso não coubesse de fato a ele... tudo haveria de ser esquecido pelo bem de minha filha. Ela é tudo para mim; mais do que o sofrimento, mais do que a injustiça, mais do que... Bem! Isso é conversa fiada.
Tão estranho foi o modo como ele mergulhou no silêncio e tão estranho foi seu olhar fixo ao parar de falar, que Darnay sentiu a própria mão esfriar sob a mão que devagar foi soltando e a largou....”
 
Extrato do livro: Um conto de duas cidades – Charles Dickens