domingo, 23 de abril de 2017

Ler ou não ler, eis a questão.


"Ele não surgiu de família privilegiada. Seu pai era um modesto fabricante de luvas. O local de nascimento estava distante de centros cosmopolitas e pujantes. Nunca fez estudos superiores. Jamais cruzou os mares que cercavam sua ilha. Sua existência transcorreu num universo de poucos quilômetros. Casou-se com uma namorada já grávida. Para inspirar mais cuidados sobre um destino que já se anunciava comum, em vez de abraçar uma profissão bem aceita socialmente, manifestava desejo de fazer versos, atuar e escrever peças. Não tinha brilho no berço e suas escolhas indicavam um túmulo opaco. As lãs medíocres que teceriam sua vida estavam dadas ali, em 23 de abril de 1564. Origem não é destino e família não determina tudo. O homem que tudo tinha para ser medíocre e comum se tornou William Shakespeare, o maior autor de todos os tempos. Hoje, 23 de abril, lembramos seu aniversário de nascimento e de morte.
A frase mais conhecida de toda a literatura é o "ser ou não ser". Mesmo sem saber inglês, mesmo sem nunca ter enfrentado o monumento criativo chamado Hamlet, crianças aprendem a frase na boca de Nigel, a cacatua da animação Rio 2. A frase se transforma em signo aberto que voa por todos os lados. Da mesma forma, Romeu passa a ser sinônimo de jovem enamorado, Otelo, de ciúmes, Macbeth, de ambição, e Lear, de sandice desorientada. Talvez Harold Bloom tenha razão: Shakespeare inventou o humano como o entendemos hoje. Coisa de um bardólatra, um amante obsessivo da obra do filho de Stratford-upon-Avon, Provavelmente seja mesmo. Estamos condenados a uma cegueira neste mundo. Se vamos ser ofuscados, ao menos que seja pela luz de William Shakespeare.
Desde a primeira vez que li o Hamlet, imaginei: e se eu fosse livre como o príncipe dinamarquês? E se eu não estivesse preso a medos, convenções, covardias e ambiguidades e tivesse o impulso de focar até o fim em uma meta com consciência e inteligências? Nunca saberei, porque nunca fui tão livre como o melancólico Hamlet.
No filme As Pontes de Madison (1995, Clint Eastwood), Meryl Streep interpreta uma pacata dona de casa que se enamora de um fotógrafo que passa pela cidade. A paixão desestabiliza sua vida. A protagonista pensa em largar filhos, posição e marido e se lançar à aventura extrema de uma paixão fora do remanso fluido dos rios pequeno-burgueses. Há um momento-chave: o carro para e ela está nele com o marido. Ela quer seguir o coração, largar aqueles seres e correr para seu amor. A personagem, então, coloca a mão na maçaneta do veículo. Chove e o carro com o fotógrafo está à frente. O tempo é curto, a angústia dilacerante. Se ela abrir largará a honradez da dona de casa interiorana. Fugirá de tudo que a definiu e entrará numa zona nova, desafiadora e distante da única zona de conforto que conheceu. O olhar dela expressa tudo, a cena se desenrola por imagens e uma direção de câmera nervosa. Bem, nossa heroína afasta a mão da porta libertadora e aceita permanecer onde está e, onde ficará até a morte. Venceu a covardia ou a coragem? Dilema de Antígona: sigo o coração ou a lei?
A cena do cinema dialoga com o mundo shakespeariano. A diferença é que o drama da personagem não é uma cena filmada, mas um diálogo representado, uma reflexão que se desenrola. Tudo o que o olhar da esposa-mãe-amante do filme nos diz, indiretamente, o bardo desenvolve com os diálogos mais dilacerantes da literatura teatral.
As cenas são infinitas. Hamlet passa pelo odioso padrasto-assassino que, ajoelhado, reza. Pensa em matá-lo e desenvolve a possibilidade e suas consequências. A mão não está na maçaneta do carro, porém na lâmina que empunha. Mais longa ainda é a reflexão de Macbeth pouco antes de matar seu senhor e rei. Ninguém crava um punhal, mata ou morre, sem construir uma análise discursiva elaborada na obra de Shakespeare.
A hybris (o desequilíbrio) que rege a tragédia clássica continua na obra do inglês. O que diferencia o bardo de Sófocles, autor da Antígona ou do Édipo Rei é o salto do mundo interno, tímido no coro das obras gregas e avassalador nas peças do autor inglês.
É um salto enorme. Mesmo personagens que são criadas a partir de uma crítica ou preconceito, como Polônio (do Hamlet) ou Shylock (do Mercador de Veneza), dizem coisas sábias e ponderadas. As reflexões sobre poder do último rei York, Ricardo III, estão muito à frente da personagem central de House of Cards. Talvez pudéssemos supor que o deputado/presidente Francis Underwood só desnuda a ação política porque houve um Ricardo III.
Shakespeare é uma sementeira quase infinita. de ideias. Ele é um inesgotável poço de personagens e um guia luminoso para voar milhas acima das platitudes do mundo atual. William é um gênio da criação e um mestre da psique humana que possibilita, em poucas linhas, avançar quilômetros na compreensão do mundo. Eis Shakespeare, homem a quem devo uma parte expressiva da minha parca consciência. Desafie-se e leia uma grande peça dele. Se o momento for adequado (porque nem sempre estamos aptos a Shakespeare), a luz vai transformar sua vida. Se ainda não for sua hora de entrar na aventura, paciência, ele espera na estante até você crescer. Somos todos anões. Subir no ombro de gigantes permite-nos contemplar um horizonte espetacular. Happy birthday, Will! Bom domingo a todos vocês!"
 
Leandro Karnal (Cronista de "o Estado de São Paulo")






 

domingo, 2 de abril de 2017

O que acaba com a amargura de um homem?


"Era um chinês elegante, sem sombra de dúvida. Feio, porém elegante. Era calvo. É raro imaginar, quando se menciona um chinês, alguém sem cabelo, mas este, de fato, não os tinha. Estava frequentemente ali, no restaurante do hotel lisboeta, na mesma mesa, na mesma cadeira, no mesmo horário. Sentava-se de frente para a televisão sintonizada na CNN e observava as notícias com ar severo.
Aliás, ele não tinha outro ar além do severo. Seu invariável terno cinza era bastante mais claro do que o astral que ele evidenciava. Era magro e alto, com um belo porte, mas tinha vincos marcados na testa, porque ela estava constantemente franzida. Era como se ele estivesse sempre descontente com alguma coisa, formando aquela ruga entre as sobrancelhas, que as pessoas descontentes sempre tem.
Via-se que ele ocupava algum cargo importante. O hotel, o terno e o astral cor de carvão não metiam. E seu ar tão compenetrado nas desgraças cotidianas anunciadas pela CNN alocava-o facilmente em alguma multinacional à qual cada movimento na economia e na política norte-americana interessava muito. Sem dúvidas, era presidente, CEO, CFO ou qualquer outra sigla moderna que representasse poder e angústia.
Ninguém gostaria de tê-lo como chefe. A sensação era a de que ele, apesar dos gestos delicados para espetar os pedaços de abobrinha, poderia, a qualquer momento, fechar aquela mão magra e longa, dando um soco silencioso na mesa, que assustaria muito mais do que berros escandalosos e raivosos de figuras menos austeras. Era um homem silencioso. Sua voz não existia. E eu tinha medo dele, apesar de ele nunca ter me dirigido um único olhar naquele restaurante que dividíamos algumas vezes por semana.
Perguntava-me se a total ausência de leveza ou de qualquer indício distante de sorriso era fruto de uma infância dura, de um regime totalitário, de uma carreira sofrida ou, simplesmente, de uma personalidade amarga. Julgava-o absolutamente incapaz de sorrir. Estava certa de que era um homem que não sabia sentir. Que era composto unicamente por regras, horários, metas e planilhas.
Até que aconteceu. Agarota entrou pela porta automática do hotel, coma pressa típica dos 17 anos. Era bonita, alta, rosto branco e oval, rasgado por um par de olhos asiáticos perfeitamente enfeitados com delineador preto. Os cabelos lisos tinham as pontas pintadas de vermelho e as longas pernas eram coroadas por um par de botas coturno. Vinha apressada em direção ao restaurante, com sua mochila roxa pendurada em um ombro só, quando ele a viu.
Ela, sorrindo por inteira, disse "Pai!", bem alto, em chinês. Eu não sei como se diz pai em chinês. Mas qualquer um, croata, indiano ou uruguaio, identificaria que aquela expressão de conforto e aqueles braços que se abriam só poderiam dizer "pai". O chinês levantou-se automaticamente, num inédito gesto brusco.
Seus olhos apáticos foram acometidos de uma overdose de vida. Seus ombros se alargaram, seu peito magro cresceu. As rugas da testa que pareciam não resistir a dose nenhuma de botox, subitamente desapareceram por completo. Seus dentes apareceram, pela primeira vez.
Numa fração de segundos, seus olhos ficaram umedecidos, seus braços se esticaram na direção da
menina e sua voz ecoou uma palavra doce, que eu reconheceria até em sânscrito. Filha, filha, filha, filha. Ele repetia com uma voz alegre e trêmula que eu jamais poderia imaginar naquela figura. Abraçaram-se. A mochila roxa caiu no chão.
Aquele homem amargo e impassível foi embora no instante em que a menina chegou. No lugar dele, um homem desconhecido floresceu. O chinês já nem era mais feio. E já nem era tão elegante. O chinês já não dava medo, nem inspirava angústia. Já não era executivo nem CEO. O chinês era só um pai. Era sua melhor versão." 

Ruth Manus - Cronista do "O Estado de São Paulo"