quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Ressaca

"Hoje, existem pílulas milagrosas, mas eu ainda sou do tempo das grandes ressacas. As bebedeiras de antigamente eram mais dignas, porque você as tomava sabendo que no dia seguinte estaria no inferno. Além de saúde era preciso coragem. As novas gerações não conhecem ressaca, o que talvez explique a falência dos velhos valores. A ressaca era a prova de que a retribuição divina existe e que nenhum prazer ficará sem castigo.
Cada porre era um desafio ao céu e às suas feras. E elas vinham: Náusea, Azia, Dor de Cabeça, Dúvidas Existenciais – as golfadas. Hoje, as bebedeiras não têm a mesma grandeza. São inconsequentes, literalmente. Não é que eu fosse um bêbado, mas me lembro de todos os sábados de minha adolescência como uma luta desigual entre a cuba-libre e o meu instinto de autopreservação. A cuba-libre ganhava sempre. Já dos domingos me lembro de muito pouco, salvo a tontura e o desejo de morte.
Jurava que nunca mais ia beber, mas, antes dos trinta, “nunca mais” dura pouco. Ou então o próximo sábado custava tanto a chegar que parecia mesmo uma eternidade. Não sei o que a cuba-libre fez com meu organismo, mas até hoje quando vejo uma garrafa de rum os dedos do meu pé encolhem.
Tentava-se de tudo para evitar a ressaca. Eu preferia um Alka-Seltzer e duas aspirinas antes de dormir. Mas no estado em que chegava nem sempre conseguia completar a operação. Às vezes dissolvia as aspirinas num copo de água, engolia o Alka-Seltzer e ia borbulhando para a cama, quando encontrava a cama. Mas os métodos variavam.
Por exemplo:
Um cálice de azeite antes de começar a beber – O estômago se revoltava, você ficava doente e desistia de beber.
Tomar um copo de água entre cada copo de bebida – O difícil era manter a regularidade. A certa altura, você começava a misturar a água com a bebida, e em proporções cada vez menores. Depois, passava a pedir um copo de outra bebida entre cada copo de bebida.
Suco de tomate, limão, molho inglês, sal e pimenta – Para ser tomado no dia seguinte, de jejum. Adicionando vodca ficava um bloody-mary, mas isto era para mais tarde um pouco.
Sumo de uma batata, sementes de girassol e folhas de gelatina verde dissolvidas em querosene – Misturava-se tudo num prato pirex forrado com velhos cartões do sabonete Eucalol. Embebia-se um algodão na testa e deitava-se com os pés na direção da ilha de Páscoa. Ficava-se imóvel durante três dias, no fim dos quais o tempo já teria curado a ressaca de qualquer maneira.
Uma cerveja bem gelada na hora de acordar – Por alguma razão o método mais popular.
Canja – Acreditava-se que uma boa canja de galinha de madrugada resolveria qualquer problema. Era preciso especificar que a canja era para tomar. No entanto, muitos mergulhavam o rosto no prato e tinham de ser socorridos às pressas antes do afogamento.
Minha experiência maior era com a cuba-libre, mas conheço outros tipos de ressaca, pelo menos de ouvir falar. Você sabia que o uísque escocês que tomara na noite anterior era paraguaio quando acordava se sentindo como uma harpa guarani. Quando a bebedeira com uísque falsificado era muito grande, você acordava se sentindo como uma harpa guarani e no depósito de instrumentos da boate Catito’s em Assunção.
A pior ressaca era de gim.
Na manhã seguinte, você não conseguia abrir os dois olhos ao mesmo tempo. Abria um e quando abria o outro, o primeiro se fechava. Ficava com o ouvido tão aguçado que ouvia até os sinos da catedral de São Pedro, em Roma.
Ressaca de martini doce: você ia se levantar da cama e escorria para o chão como óleo. Pior é que você chamava a sua mãe, ela entrava correndo no quarto, escorregava em você e deslocava a bacia.
Ressaca de vinho. Pior era a sede. Você se arrastava até a cozinha, tentava alcançar a garrafa de água e puxava todo o conteúdo da geladeira em cima de você. Era descoberto na manhã seguinte imobilizado por hortigranjeiros e laticínios e mastigando um chuchu para alcançar a umidade. Era deserdado na hora.
Ressaca de cachaça. Você acordava sem saber como, de pé num canto do quarto. Levava meia hora para chegar até a cama porque se esquecera como se caminhava: era pé ante pé ou mão ante mão? Quando conseguia se deitar, tinha a sensação que deixara as duas orelhas e uma clavícula no canto.
Olhava para cima e via que aquela mancha com uma forma vagamente humana no teto finalmente se definira. Era o Peter Pan e estava piscando para você.
Ressaca de licor de ovos. Um dos poucos casos em que a lei brasileira permite a eutanásia.
Ressaca de conhaque. Você acordava lúcido. Tinha, de repente, resposta para todos os enigmas do universo. A chave de tudo estava no seu cérebro. Devia ser por isso que aqueles homenzinhos estavam tentando arrombar a sua caixa craniana. Você sabia que era alucinação, mas por via das dúvidas, quando ouvia falar em dinamite, saltava da cama ligeiro.
Hoje não existe mais isto. As pessoas bebem, bebem e não acontece nada. No dia seguinte estão saudáveis, bem-dispostas e fazem até piadas a respeito.
De vez em quando alguns dos nossos se encontram e se saúdam em silêncio. Somos como veteranos de velhas guerras lembrando os companheiros caídos e o nosso heroísmo anônimo.
Estivemos no inferno e voltamos, inteiros.
Um brinde.
E um Engov."

Luis Fernando Verissimo

 

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Conselhos de um velho apaixonado!




Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos, preste atenção: pode ser a pessoa mais importante da sua vida. Se os olhares se cruzarem e, neste momento, houver o mesmo brilho intenso entre eles, fique alerta: pode ser a pessoa que você está esperando desde o dia em que nasceu. Se o toque dos lábios for intenso, se o beijo for apaixonante, e os olhos se encherem da água neste momento, perceba: existe algo mágico entre vocês.

Se o primeiro e o último pensamento do seu dia for essa pessoa, se a vontade de ficar juntos chegar a apertar o coração, agradeça: Algo do céu te mandou um presente divino : O Amor.
Se um dia tiverem que pedir perdão um ao outro por algum motivo e, em troca, receber um abraço, um sorriso, um afago nos cabelos e os gestos valerem mais que mil palavras, entregue-se: vocês foram feitos um pro outro.

Se por algum motivo você estiver triste, se a vida te deu uma rasteira e a outra pessoa sofrer o seu sofrimento, chorar as suas lágrimas e enxugá-las com ternura, que coisa maravilhosa: você poderá contar com ela em qualquer momento de sua vida. Se você conseguir, em pensamento, sentir o cheiro da pessoa como se ela estivesse ali do seu lado...   

Se você achar a pessoa maravilhosamente linda, mesmo ela estando de pijamas velhos, chinelos de dedo e cabelos emaranhados... Se você não consegue trabalhar direito o dia todo, ansioso pelo encontro que está marcado para a noite... Se você não consegue imaginar, de maneira nenhuma, um futuro sem a pessoa ao seu lado... Se você tiver a certeza que vai ver a outra envelhecendo e, mesmo assim, tiver a convicção que vai continuar sendo louco por ela... Se você preferir fechar os olhos, antes de ver a outra partindo: é o amor que chegou na sua ida.

Muitas pessoas apaixonam-se muitas vezes na vida, mas poucas amam ou encontram um amor verdadeiro. Às vezes encontram e, por não prestarem atenção nesses sinais, deixam o amor passar, sem deixá-lo acontecer verdadeiramente. É o livre-arbítrio. Por isso, preste atenção nos sinais. Não deixe que as loucuras do dia-a-dia o deixem cego para a melhor coisa da vida: O Amor. Ame muito... Muitíssimo...


 
Carlos Drummond de Andrade

O Brasil explicado em galinhas!


"Pegaram o cara em flagrante roubando galinhas de um galinheiro e levaram para a delegacia.
- Que vida mansa, heim, vagabundo? Roubando galinha pra ter o que comer sem precisar trabalhar. Vai pra cadeia!
- Não era pra mim não. Era pra vender.
- Pior. Venda de artigo roubado. Concorrência desleal com o comércio estabelecido. Sem-vergonha!
- Mas eu vendia mais caro.
- Mais caro?
- Espalhei o boato que as galinhas do galinheiro eram bichadas e as minhas não. E que as do galinheiro botavam ovos brancos enquanto as minhas botavam ovos marrons.
- Mas eram as mesmas galinhas, safado.

- Os ovos das minhas eu pintava.
- Que grande pilantra
... Mas já havia um certo respeito no tom do delegado.
- Ainda bem que tu vai preso. Se o dono do galinheiro te pega...
- Já me pegou. Fiz um acerto com ele. Me comprometi a não espalhar mais boato sobre as galinhas dele, e ele se comprometeu a aumentar os preços dos produtos dele para ficarem iguais aos meus. Convidamos outros donos de galinheiro a entrar no nosso esquema. Formamos um oligopólio. Ou, no caso, um ovigopólio.
-  E o que você faz com o lucro do seu negócio?
- Especulo com dólar. Invisto alguma coisa no tráfico de drogas. Comprei alguns deputados. Dois ou três ministros. Consegui a exclusividade no suprimento de galinhas e ovos para os programas de alimentação do governo e superfaturo os preços.
O delegado mandou pedir um cafezinho para o preso e perguntou se a cadeira estava confortável, se ele não queria uma almofada. Depois perguntou:
-  Doutor, não me leve a mal, mas com tudo isso, o senhor não está milionário?
- Trilionário. Sem contar o que eu sonego do Imposto de Renda e o que tenho depositado ilegalmente no exterior.
- E, com tudo isso, o senhor continua roubando galinhas?
- Às vezes. Sabe como é.
- Não sei não, excelência. Me explique.
- É que, em todas essas minhas atividades, eu sinto falta de uma coisa. Do risco, entende? Daquela sensação de perigo, de estar fazendo uma coisa proibida, da iminência do castigo. Só roubando galinhas eu me sinto realmente um ladrão, e isso é excitante. Como agora. Fui pego, finalmente. Vou para a cadeia. É uma experiência nova.
- O que é isso, excelência? O senhor não vai ser preso não.
- Mas fui pego em flagrante pulando a cerca do galinheiro!
- Sim. Mas primário, e com esses antecedentes..."


Luis Fernando Verissimo


                                                                                            
                                                                              
 

sábado, 4 de agosto de 2018

O deus das pequenas coisas


“Existe a grande ética, aquela analisada por Aristóteles e que fala das escolhas corretas para atingir a felicidade verdadeira. Também a grande ética contemporânea trata da lisura nos negócios públicos e privados e inunda nossas manchetes há alguns anos. A grande ética filosófica e política é um debate fundamental e uma prática indispensável. Hoje quero tratar da pequena ética, a etiqueta.
Muita gente imagina que aprender etiqueta é distinguir o copo correto para o vinho adequado, a maneira apropriada de segurar o escargot ou instruções para que o uso da lavanda seja natural. Lembre-se: alguém de família aristocrática nunca precisou de uma aula sobre a lavanda porque nasceu vendo seu uso. O nosso nobre não aprendeu o correto uso do guardanapo com uma professora de boas maneiras ou em algum livro, ele viu sua mãe usando desde a infância. O ramo formal da etiqueta tem algumas regras de bom senso e outras absolutamente ridículas. Volto à origem do termo. No Antigo Regime, quando alguém que não pertencia ao círculo da polidez da nobreza recebia um convite para visitar a corte, recebia uma etiqueta, um pequeno "rótulo" com as instruções do que fazer e do que não fazer.
Não quero falar do campo do uso dos garfos e facas. Não desejo distribuir etiquetas de visita ao rei. Quero falar da etiqueta como pequena ética. O centro da etiqueta é fazer com que meu comportamento exista em harmonia com os outros, sem perturbar, invadir, desagradar ou agredir pessoas de forma intencional. Se a grande ética mira na convivência da polis e das suas instituições, a pequena ética fala do respeito microfísico do poder da gentileza. Explorei a relação entre ambas em um texto de 2016. 
No recorte que quero abordar hoje, o primeiro passo é multiplicar expressões que me desloquem do centro do universo. Com palavras e gestos, devo indicar que faço parte de um todo maior e que existo, mas não vivo isolado. Assim, "por favor", "com licença"; "muito obrigado" e o coloquial "me desculpe" indicam que desejo me harmonizar com outras pessoas, respeitar suas existências.' Todos os indivíduos que me proporcionam benefícios devem ser notados para retirar seu caráter de robôs e reintegrá-los ao mundo humano. O "por favor" e o "muito obrigado" têm, ambos, o dom de aplainar o automatismo das ações, reconhecer que existe um ser humano que está me servindo e que, por pequeno que seja o gesto, deve ser notado. Se o gesto for feito por alguém que não tem nenhuma necessidade de me dirigir uma ajuda, as expressões se tornam mais enfáticas ainda. Se a pessoa que me serve, por motivos profissionais, cumpre seu estatuto laboral, as duas expressões revestem o servido com a aura da gentileza e da humanidade, reconhecendo o bom serviço e o humano que ali trabalha e cumpre bem seu ofício.
"Com licença" implica a plena consciência de que necessito invadir um, espaço que não é meu. O coloquial e proclítico "me desculpe" afirma ao mundo minha falibilidade e meu arrependimento por um gesto ou expressão inadequados. Um pedido de desculpas, pequeno ou grande, é o simbólico reconhecimento da nossa igualdade e de que somos perfectíveis, não perfeitos.
As quatro expressões utilizadas devem ser enunciadas de forma clara e olhando nos olhos da pessoa. Sem esse cuidado, ingressam no campo do automatismo e deixam de ser uma pequena ética para se diluírem no campo oco da formalidade fria.
A cena· se repete diariamente nos restaurantes. O indivíduo faz um pedido olhando para o prato ou, pior, digitando algo no celular. Sem contato visual e com a voz projetada para baixo, amiúde não é entendido e chega a se irritar com a falha que, na origem, é dele. Depois, recebe o pedido e de novo não agradece ou sorri. Malgrado o gesto grosseiro e vulgar, utiliza o talher correto para o peixe e harmoniza o vinho com sabedoria. Ele compreendeu o acessório e ignorou o principal. Se fosse um católico, saberia todas as respostas da missa com clareza, só não sabe o sentido real, da sua presença na igreja.
 
A gentileza é a chave da etiqueta...
A etiqueta empurra nosso egocentrismo para a jornada de purificação e o começo da ascensão moral. A gentileza é a chave de uma canastra inaudita que libera surpresas positivas, Ser gentil desarma cenhos e punhos. A gentileza é o deus das pequenas coisas, o antídoto ao Neandertal permanente que nos acompanha no trânsito, à mesa e no leito. A grosseria é densa e esconde nosso ser dos outros, pois é uma defesa. A gentileza traz à tona o melhor de cada um...
 
..."me desculpem". É preciso manter a esperança.”
 
Leandro Karnal - Jornal o Estado de São Paulo 01/08/2018

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Desabafos de um bom marido...

 "Minha esposa e eu temos o segredo pra fazer um casamento durar: duas vezes por semana, vamos a um ótimo restaurante, com uma comida gostosa, uma boa bebida, e um bom companheirismo.
Ela vai às terças-feiras, e eu às quintas.
Nós também dormimos em camas separadas. A dela é em Fortaleza e a minha em São Paulo.
Eu levo minha esposa a todos os lugares, mas ela sempre acha o caminho de volta.
Perguntei a ela onde ela gostaria de ir no nosso aniversário de casamento.
- 'Em algum lugar que eu não tenha ido há muito tempo!' ela disse.
Então eu sugeri a cozinha.
Nós sempre andamos de mãos dadas. Se eu soltar, ela vai às compras. Ela tem um liquidificador elétrico, uma torradeira elétrica, e uma máquina de fazer pão elétrica. Então ela disse:
- 'Nós temos muitos aparelhos, mas não temos lugar pra sentar'.
Daí, comprei pra ela uma cadeira elétrica.
Lembrem-se, o casamento é a causa número um para o divórcio. Estatisticamente, 100 % dos divórcios começam com o casamento. Eu me casei com a 'Sra. Certa'. Só não sabia que o primeiro nome dela era 'Sempre'.
Já fazem 18 meses que não falo com minha esposa. É que não gosto de interrompê-la. Mas tenho que admitir, a nossa última briga foi culpa minha.
Ela perguntou:
- 'O que tem na TV?'
E eu disse:
- 'Poeira'
No começo Deus criou o mundo e descansou. Então, Ele criou o homem e descansou. Depois, criou a mulher.
Desde então, nem Deus, nem o homem, nem Mundo tiveram mais descanso.
'Quando o nosso cortador de grama quebrou, minha mulher ficava sempre me dando a entender que eu deveria consertá-lo.
Mas eu sempre acabava tendo outra coisa para cuidar antes: o caminhão, o carro, a pesca, sempre alguma coisa mais importante para mim.
Finalmente ela pensou num jeito esperto de me convencer.
Certo dia, ao chegar em casa, encontrei-a sentada na grama alta, ocupada em podá-la com uma tesourinha de costura.
 Eu olhei em silêncio por um tempo, me emocionei bastante e depois entrei em casa.
Em alguns minutos eu voltei com uma escova de dentes e lhe entreguei.
- Quando você terminar de cortar a grama,' eu disse, 'você pode também varrer a calçada.'
Depois disso não me lembro de mais nada. Os médicos dizem que eu voltarei a andar, mas mancarei pelo resto da vida.
'O casamento é uma relação entre duas pessoas na qual uma está sempre certa e a outra é o marido...'"


 
 Luís Fernando Veríssimo
 

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Haja sacos!

"O cronista já foi menos antipático, dirá você ao se dar conta de que o assunto, desta vez, é pipoca no cinema, e mais, que a opinião do camarada, nesse particular, está longe de ser positiva. Ele gostaria que ainda assim você o acompanhasse até a última linha deste arrazoado, com a disposição de quem, esgotadas as pipocas, considera a possibilidade de encarar, lá no fundo do pacote, os piruás, ou que outro nome tenham esses grãos de milho que, mesmo submetidos a temperaturas abrasadoras, resistiram à pressão para explodirem em flores brancas comestíveis.
Seja dito que o cronista, tanto quanto você, adora pipoca, e que eventualmente as come às baciadas, chegando mesmo, numa devoração desvairada, a proporcionar aos circunstantes um espetáculo digno do mais indecoroso Pantagruel. Nunca o fez, porém, numa sala de cinema, ambiente onde sua abstenção pipocal se escora em numerosas razões, sendo a gordura do petisco apenas uma delas.
Acha ele que nenhum guardanapo dá conta de eliminar integralmente os traços de manteiga ou de óleo ordinário, nunca se sabe que a pipoca fatalmente deixa na polpa dos dedos, resquícios untuosos que alguns (jamais você, é claro), em sub-reptícia esfregação, não hesitam em transferir para o braço da poltrona, e até para as bordas acolchoadas do assento sobre o qual, na sessão seguinte, outras nádegas haverão de se acomodar.
Há também, prossegue o antipático, a questão do cheiro, aquele mesmo que, no saguão do cinema, atiçou apetites, e que, na sala de projeções, veio a compor uma espécie de trilha olfativa do filme, ainda quando este tenha como tema as privações alimentares de um faquir. Comedores ou não, no escurinho estamos todos condenados ao odor gordurento da pipoca.
Fosse apenas isso, o cheiro - mas não: há também, ainda mais incomodativo, o inconveniente acústico, não só dos sacos de papel sendo escarafunchados por dedos gulosos, como também dos maxilares a triturar o que de lá os dedos extraíram. Talvez haja um pouco de nostalgia da parte de quem, em outros tempos, habituou-se à trilha sonora adicional, mais palatável, gerada pelos pares de enamorados cujos beijos, por vezes, de tão fogosos, chegavam a sugerir salva-vidas engalfinhados em procedimentos de mútua respiração boca a boca.
Nada contra, apressa-se o cronista em posicionar-se. Ele apenas lamenta que ao smack-smack dos casais se sobreponha o crunch-crunch dos mastigadores de pipoca – ruído quase sempre desencadeado, no início da sessão, pelo plec metálico de latinhas de refrigerante sendo desvirginadas em todo canto da sala. E, mais adiante, pelo fragor de pacotes, agora vazios, sendo reduzidos a bolas de papel, as quais serão em seguida, nem tão discretamente assim, postas a rolar sob a poltrona em frente.        
Desconfia o cronista que os donos das salas não estarão gostando nada deste papo, de vez que, segundo informações confiáveis, a venda de pipoca em cinema chega a ombrear com a renda da bilheteria, ou mesmo a superá-la. Se assim é, não será impossível que aspirantes a carreiras empresariais estejam a pôr na balança: exibidor de filmes ou pipoqueiro?
Por muito tempo hesitou o escriba em tornar público o desconforto que lhe causa a ruidosa e olorosa comilança em que se transformou a aventura de ir ao cinema. Limita-se, quando muito, a buscar asilo nalgum ponto da sala onde não haja piquenique. Riscou do mapa as salas dos shoppings centers, nas quais, a seu ver, em breve será indispensável apresentar, mais que um ingresso, um saco de pipoca. Em dia de pavio especialmente curto e plateia especialmente esfaimada, exasperou-se ele, em meio ao filme: "Gente, pipoca engorda!". A saraivada de insultos que seu quixotesco protesto suscitou só não foi mais encorpada, supõe porque incontáveis bocas, de gordos e de magros, estavam ocupadas em mastigar.
Se ele agora se anima a deixar por escrito o que pensa a respeito dessa comezaina, é porque acaba de ler uma crônica em que Carlos Drummond de Andrade, então com 25anos, protestou - sob pseudônimo, é verdade - contra um fenômeno semelhante, que em 1927 infernizava a vida dos cinéfilos de Belo Horizonte, com o agravante de ser ainda tempo do cinema mudo. "A um1igeiro movimento que fiz", escreve 'I.', "qualquer coisa estalou no chão".
Espalhadas no piso de toda a sala, era impossível não pisar em cascas de amendoim - bolotinhas do assumido agrado do jovem cronista, e às quais se atribuem propriedades afrodisíacas.
"Ora viva o amendoim", saúda o poeta no verso que fecha O procurador do amor. Até por isso, quem sabe, recomendava ele a seus leitores: "Amigos, comei o vosso amendoim em casa, de pijama, chinelos e quarto fechado". Das profundezas de sua insignificância, este cronista subscreve o que disse o mestre, apenas trocando por pipoca o amendoim."

 Humberto Werneck
(Jornal O Estado de São Paulo 24/04/2108)

sábado, 27 de janeiro de 2018

A aliança


"Esta é uma história exemplar, só não está muito claro qual é o exemplo. De qualquer jeito, mantenha-a longe das crianças. Também não tem nada a ver com a crise brasileira, o apartheid, a situação na América Central ou no Oriente Médio ou a grande aventura do homem sobre a Terra. Situa-se no terreno mais baixo das pequenas aflições da classe média. Enfim. Aconteceu com um amigo meu. Fictício, claro.
Ele estava voltando para casa como fazia, com fidelidade rotineira, todos os dias à mesma hora. Um homem dos seus 40 anos, naquela idade em que já sabe que nunca será o dono de um cassino em Samarkand, com diamantes nos dentes, mas ainda pode esperar algumas surpresas da vida, como ganhar na loto ou furar-lhe um pneu. Furou-lhe um pneu.
 
Com dificuldade ele encostou o carro no meio-fio e preparou-se para a batalha contra o macaco, não um dos grandes macacos que o desafiavam no jângal dos seus sonhos de infância, mas o macaco do seu carro tamanho médio, que provavelmente não funcionaria, resignação e reticências… Conseguiu fazer o macaco funcionar, ergueu o carro, trocou o pneu e já estava fechando o porta-malas quando a sua aliança escorregou pelo dedo sujo de óleo e caiu no chão. Ele deu um passo para pegar a aliança do asfalto, mas sem querer a chutou.
A aliança bateu na roda de um carro que passava e voou para um bueiro. Onde desapareceu diante dos seus olhos, nos quais ele custou a acreditar. Limpou as mãos o melhor que pôde, entrou no carro e seguiu para casa. Começou a pensar no que diria para a mulher. Imaginou a cena. Ele entrando em casa e respondendo às perguntas da mulher antes de ela fazê-las.

— Você não sabe o que me aconteceu!
— O quê?
— Uma coisa incrível.
— O quê?
— Contando ninguém acredita.
— Conta!
— Você não nota nada de diferente em mim? Não está faltando nada?
— Não.
— Olhe.
E ele mostraria o dedo da aliança, sem a aliança.
— O que aconteceu?
E ele contaria. Tudo, exatamente como acontecera. O macaco. O óleo. A aliança no asfalto. O chute involuntário. E a aliança voando para o bueiro e desaparecendo.
— Que coisa – diria a mulher, calmamente.
— Não é difícil de acreditar?
— Não. É perfeitamente possível.
— Pois é. Eu…
— SEU CRETINO!
— Meu bem…
— Está me achando com cara de boba? De palhaça? Eu sei o que aconteceu com essa aliança.
Você tirou do dedo para namorar. É ou não é? Para fazer um programa. Chega em casa a esta hora e ainda tem a cara-de-pau de inventar uma história em que só um imbecil acreditaria.
— Mas, meu bem…
— Eu sei onde está essa aliança. Perdida no tapete felpudo de algum motel. Dentro do ralo de alguma banheira redonda. Seu sem-vergonha!
E ela sairia de casa, com as crianças, sem querer ouvir explicações.  
 

Ele chegou em casa sem dizer nada. Por que o atraso? Muito trânsito. Por que essa cara? Nada, nada. E, finalmente:
— Que fim levou a sua aliança? E ele disse:
— Tirei para namorar. Para fazer um programa. E perdi no motel. Pronto. Não tenho desculpas. Se você quiser encerrar nosso casamento agora, eu compreenderei.
Ela fez cara de choro. Depois correu para o quarto e bateu com a porta. Dez minutos depois reapareceu. Disse que aquilo significava uma crise no casamento deles, mas que eles, com bom-senso, a venceriam.
— O mais importante é que você não mentiu pra mim.
E foi tratar do jantar."

Luis  Fernando Verissímo