“Existe
a grande ética, aquela analisada por Aristóteles e que fala das escolhas
corretas para atingir a felicidade verdadeira. Também a grande ética contemporânea
trata da lisura nos negócios públicos e privados e inunda nossas manchetes há
alguns anos. A grande ética filosófica e política é um debate fundamental e uma
prática indispensável. Hoje quero tratar da pequena ética, a etiqueta.
Muita
gente imagina que aprender etiqueta é distinguir o copo correto para o vinho
adequado, a maneira apropriada de segurar o escargot ou instruções para que o
uso da lavanda seja natural. Lembre-se: alguém de família aristocrática nunca
precisou de uma aula sobre a lavanda porque nasceu vendo seu uso. O nosso nobre
não aprendeu o correto uso do guardanapo com uma professora de boas maneiras ou
em algum livro, ele viu sua mãe usando desde a infância. O ramo formal da etiqueta
tem algumas regras de bom senso e outras absolutamente ridículas. Volto à origem
do termo. No Antigo Regime, quando alguém que não pertencia ao círculo da
polidez da nobreza recebia um convite para visitar a corte, recebia uma
etiqueta, um pequeno "rótulo" com as instruções do que fazer e do que
não fazer.
Não
quero falar do campo do uso dos garfos e facas. Não desejo distribuir etiquetas
de visita ao rei. Quero falar da etiqueta como pequena ética. O centro da
etiqueta é fazer com que meu comportamento exista em harmonia com os outros,
sem perturbar, invadir, desagradar ou agredir pessoas de forma intencional. Se
a grande ética mira na convivência da polis e das suas instituições, a pequena
ética fala do respeito microfísico do poder da gentileza. Explorei a relação entre
ambas em um texto de 2016.
No recorte
que quero abordar hoje, o primeiro passo é multiplicar expressões que me
desloquem do centro do universo. Com palavras e gestos, devo indicar que faço
parte de um todo maior e que existo, mas não vivo isolado. Assim, "por
favor", "com licença"; "muito obrigado" e o coloquial "me
desculpe" indicam que desejo me harmonizar com outras pessoas, respeitar suas existências.' Todos os indivíduos que me proporcionam benefícios
devem ser notados para retirar seu caráter de robôs e reintegrá-los ao mundo
humano. O "por favor" e o "muito obrigado" têm, ambos, o dom
de aplainar o automatismo das ações, reconhecer que existe um ser humano que
está me servindo e que, por pequeno que seja o gesto, deve ser notado. Se o
gesto for feito por alguém que não tem nenhuma necessidade de me dirigir uma
ajuda, as expressões se tornam mais enfáticas ainda. Se a pessoa que me serve,
por motivos profissionais, cumpre seu estatuto laboral, as duas expressões revestem
o servido com a aura da gentileza e da humanidade, reconhecendo o bom serviço e
o humano que ali trabalha e cumpre bem seu ofício.
"Com
licença" implica a plena consciência de que necessito invadir um, espaço
que não é meu. O coloquial e proclítico "me desculpe" afirma ao mundo
minha falibilidade e meu arrependimento por um gesto ou expressão inadequados.
Um pedido de desculpas, pequeno ou grande, é o simbólico reconhecimento da nossa
igualdade e de que somos perfectíveis, não perfeitos.
As
quatro expressões utilizadas devem ser enunciadas de forma clara e olhando nos
olhos da pessoa. Sem esse cuidado, ingressam no campo do automatismo e deixam
de ser uma pequena ética para se diluírem no campo oco da formalidade fria.
A
cena· se repete diariamente nos restaurantes. O indivíduo faz um pedido olhando
para o prato ou, pior, digitando algo no celular. Sem contato visual e com a
voz projetada para baixo, amiúde não é entendido e chega a se irritar com a
falha que, na origem, é dele. Depois, recebe o pedido e de novo não agradece ou
sorri. Malgrado o gesto grosseiro e vulgar, utiliza o talher correto para o
peixe e harmoniza o vinho com sabedoria. Ele compreendeu o acessório e ignorou
o principal. Se fosse um católico, saberia todas as respostas da missa com clareza,
só não sabe o sentido real, da sua presença na igreja.
A
gentileza é a chave da etiqueta...
A
etiqueta empurra nosso egocentrismo para a jornada de purificação e o começo da
ascensão moral. A gentileza é a chave de uma canastra inaudita que libera
surpresas positivas, Ser gentil desarma cenhos e punhos. A gentileza é o deus das
pequenas coisas, o antídoto ao Neandertal permanente que nos acompanha no
trânsito, à mesa e no leito. A grosseria é densa e esconde nosso ser dos
outros, pois é uma defesa. A gentileza traz à tona o melhor de cada um...
..."me
desculpem". É preciso manter a esperança.”
Leandro
Karnal - Jornal
o Estado de São Paulo 01/08/2018
