terça-feira, 28 de abril de 2020

Reflexões de um septuagenário renovado

"Tempo de pandemia. Tempo de reclusão. Tempo de pensar. Tempo de refletir sobre o que você fez, faz e poderá fazer no futuro. Por pior que seja o momento que você atravessa, há sempre algo que o ajude a se auto renovar. É o que aconteceu comigo quando descobri várias coisas que me ajudaram nessa renovação as quais gostaria de compartilhar com vocês.
Primeira descoberta:
Descobri a verdadeira importância da LIBERDADE. Sempre fui muito caseiro por natureza e nunca me importei de ficar, às vezes dias, sem sair de casa. Mas só de saber que não podia sair a qualquer hora , quando sentisse vontade, me deixou asfixiado. Mas você não disse que é caseiro??? Sim, mas sabia que era livre para sair a qualquer hora que me aprouvesse. Isto me fez pensar em como deve ser a vida das pessoas em países em que elas não têm liberdade para se deslocar de acordo com sua vontade, para expressar o que pensam, para comprar o que desejam, para viajar para outros lugares. Por isto temos de lutar com todas nossas forças para que o Brasil seja sempre um país livre.

Segunda descoberta:
Descobri que existem pessoas na comunidade em que moro que têm o espírito apurado de servir. Pessoas que imaginava serem distantes e que se mostraram bem PRÓXIMAS. Por outro lado descobri também que existem pessoas que, infelizmente, se apegam às riquezas da terra. Li uma matéria que dizia que 45% das DIARISTAS perderam seu trabalho nesta quarentena e não tiveram nenhuma ajuda de seus patrões. E isto aconteceu, infelizmente, também em nossa comunidade, segundo relato de algumas diaristas. Para esses patrões deixo a passagem bíblica Mateus 6:19-21 “Não acumulem para vocês tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem destroem, e onde os ladrões arrombam e furtam. Mas acumulem para vocês tesouros no céu, onde a traça e a ferrugem não destroem, e onde os ladrões não arrombam e nem furtam. POIS ONDE ESTIVER O SEU TESOURO, AÍ TAMBÉM ESTARÁ SEU CORAÇÃO”.

Terceira descoberta:
Há relatos que neste período muitas brigas entre casais estão ocorrendo e até divórcios acontecendo.
Eu e minha esposa estamos sós em casa pois todos nossos filhos já se casaram e têm suas famílias e suas próprias vidas. Estamos casados há 50 anos e sempre amei muito minha esposa. Descobri na bendita quarentena que além de amá-la muito, ela é IMPRESCINDÍVEL PARA A MINHA VIDA. Sem ela minha vida não teria sentido algum.
Quarta descoberta:
Descobri também que chorar é ótimo. E que chorar é só para os FORTES pois os fracos não têm coragem de mostrar o mais puro e notável sentimento: jorrar lágrimas. Lágrimas por ver uma cena em um filme, por ver uma mulher solitária
em uma praça pública vazia ser arrastada e presa pelo simples fato de estar livre, sem molestar ninguém, perdida em seus próprios pensamentos: minhas lagrimas jorraram como uma cachoeira.
Chorar por receber uma mensagem de amor profundo de um filho. QUE BOM SABER E PODER CHORAR.
Quando tudo isto passar quero aproveitar os anos que tenho pela frente para viver intensamente, presencialmente e não virtualmente, com a família e as pessoas que sempre fizeram parte de minha vida mas de quem, antes da minha renovação, não usufruí como deveria.
HÁ TEMPO PARA SER MUITO MAIS FELIZ."


Texto de autoria de Antonio Augusto Santos publicado no Facebook em 27/04/2020

Meus agradecimentos meu amigo.




sábado, 18 de abril de 2020

O estranho procedimento de dona Dolores


“Começou na mesa do almoço. A família estava comendo — pai, mãe, filho e filha — e de repente a mãe olhou para o lado, sorriu e disse:
— Para a minha família, só serve o melhor. Por isso eu sirvo arroz Rizobon. Rende mais e é mais gostoso.
O pai virou-se rapidamente na cadeira para ver com quem a mulher estava falando. Não havia ninguém.
— O que é isso, Dolores?
— Tá doida, mãe?
Mas dona Dolores parecia não ouvir. Continuava sorrindo. Dali a pouco levantou-se da mesa e dirigiu-se para a cozinha. Pai e filhos se entreolharam.
— Acho que a mamãe pirou de vez.
— Brincadeira dela...
A mãe voltou da cozinha carregando uma bandeja com cinco taças de gelatina.
— Adivinhem o que tem de sobremesa?
Ninguém respondeu. Estavam constrangidos por aquele tom jovial de dona Dolores, que nunca fora assim.
— Acertaram! — exclamou dona Dolores, colocando a bandeja sobre a mesa. — Gelatina Quero Mais, uma festa em sua boca. Agora com os novos sabores framboesa e manga.
O pai e os filhos começaram a comer a gelatina, um pouco assustados. Sentada à mesa, dona Dolores olhou de novo para o lado e disse:
— Bote esta alegria na sua mesa todos os dias. Gelatina Quero Mais. Dá gosto comer!
Mais tarde o marido de dona Dolores entrou na cozinha e a encontrou segurando uma lata de óleo à altura do rosto e falando para uma parede.
— A saúde da minha família em primeiro lugar. Por isto, aqui em casa só uso o puro óleo Paladar.
— Dolores...
Sem olhar para o marido, dona Dolores o indicou com a cabeça.
— Eles vão gostar.
O marido achou melhor não dizer nada. Talvez fosse caso de chamar um médico. Abriu a geladeira, atrás de uma cerveja. Sentiu que dona Dolores se colocava atrás dele. Ela continuava falando para a parede.
— Todos encontram tudo o que querem na nossa Gelatec Espacial, agora com prateleiras superdimensionadas, gavetas em Vidro-Glass e muito, mas muito mais espaço. Nova Gelatec Espacial, a cabe-tudo.
— Pare com isso, Dolores.
Mas dona Dolores não ouvia.
Pai e filhos fizeram uma reunião secreta, aproveitando que dona Dolores estava na frente da casa, mostrando para uma platéia invisível as vantagens de uma nova tinta de paredes.
— Ela está nervosa, é isso.
— Claro. É uma fase. Passa logo.
— É melhor nem chamar a atenção dela.
— Isso. É nervos.
Mas dona Dolores não parecia nervosa. Ao contrário, andava muito calma. Não parava de sorrir para o seu público imaginário. E não podia passar por um membro da família sem virar-se para o lado e fazer um comentário afetuoso:
— Todos andam muito mais alegres desde que eu comecei a usar Limpol nos ralos.
Ou:
— Meu marido também passou a usar desodorante Silvester. E agora todos aqui em casa respiram aliviados.
Apesar do seu ar ausente, dona Dolores não deixava de conversar com o marido e com os filhos.
— Vocês sabiam que o laxante Vida Mansa agora tem dois ingredientes recém-desenvolvidos pela ciência que o tornam duas vezes mais eficiente?
— O quê?
— Sim, os fabricantes de Vida Mansa não descansam para que você possa descansar.
— Dolores...
Mas dona Dolores estava outra vez virada para o lado, e sorrindo:
— Como esposa e mãe, eu sei que minha obrigação é manter a regularidade da família. Vida Mansa, uma mãozinha da ciência à Natureza. Experimente!
Naquela noite o filho levou um susto. Estava escovando os dentes quando a mãe entrou de surpresa no banheiro, pegou a sua pasta de dentes e começou a falar para o espelho.
— Ele tinha horror de escovar os dentes até que eu segui o conselho do dentista, que disse a palavra mágica: Zaz. Agora escovar os dentes é um prazer, não é, Jorginho?
— Mãe, eu...
— Diga você também a palavra mágica. Zaz! O único com HXO.
O marido de dona Dolores acompanhava, apreensivo, da cama, o comportamento da mulher. Ela estava sentada na frente do toucador e falando para uma câmara que só ela via, enquanto passava creme no rosto.
— Marcel de Paris não é apenas um creme hidratante. Ele devolve à sua pele o frescor que o tempo levou, e que parecia perdido para sempre. Recupere o tempo perdido com Marcel de Paris.
Dona Dolores caminhou, languidamente, para a câmara, deixando cair seu robe de chambre no caminho. Enfiou-se entre os lençóis e beijou o marido na boca. Depois, apoiando-se num cotovelo, dirigiu-se outra vez para a câmara.
— Ele não sabe, mas estes lençóis são da nova linha Passional da Santex. Bons lençóis para maus pensamentos. Passional da Santex. Agora, tudo pode acontecer...”


Luis Fernando Veríssimo

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Crônica de um caipira urbano.


“Quando uma viola toca, o meu olhar se perde ao longe e viajo pelas lembranças, movido pela saudade.
Como uma canoa invisível que desce rio abaixo nas minhas veias, virando um turburinho quando meu coração, aperreado pelo acúmulo de tantas coisas até então esquecidas, explode qual cachoeira, pois minha memória parece querer reviver tudo de uma vez só, expelindo as lembranças pelos meus poros, como gotas de suor saídas da alma.
Ah, que dom tem a viola de mexer tanto com a gente.
Quem foi da roça, então, quanta emoção, quanto sentimento, que me faz vislumbrar na retina coisas da minha infância.
Aquele nó na garganta, que nem sobe nem desce, numa mistura de tristeza e alegria que só a saudade sabe criar.
Dá até para sentir o cheiro da terra, o toque da textura do chão molhado sob meus pés descalços de criança caipira.
Fecho os olhos e mergulho de vez neste mundo, agora ouvindo até aquela algazarra típica da roça: os grilos, os sapos, as galinhas, as vacas mugindo e até, juro, o gemido de um carro de boi que parece prantear minha ausência.
Na estradinha que vai pra lagoa, a poeira levanta um redemoinho, e eu, sem peneira! Podia ser um saci.
O barulho de um machado cortando lenha. É São João e vai ter fogueira, com milho e batata assada na brasa.
O cheiro forte de café novo coado, que vem do fogão de lenha, me cutuca a consciência para lembrar as minhas mãos furtivas á cata de um pão de queijo, de um biscoito ou de uma broa de milho.
Na roça, a gente não tinha riqueza mas tinha fartura.
Ah, viola, como mexe com a gente, como me faz bem ouvir seus acordes.
Mesmo hoje, com as garças perdendo lugar para os quero-queros e os pés de mixirica sendo trocados pelas gôndolas do mercado, eu ainda sei viajar nos ponteios das cordas duplas, o último baluarte de quem tem mistura de terra no sangue, de quem, feito estranho em mundo novo, ainda teima em dar bom dia ou boa tarde mesmo para os desconhecidos.
Ainda paro para ver um bem-te-vi solitário numa arvore perdida nos concretos; ainda sei curtir as floradas dos ipês roxos e amarelos que acompanham meu caminho, feito bandeiras desfraldadas que resistem ao tempo e ao homem.
Até encontrei um joão-de-barro com sua casa nova numa sibipiruna comida pelos cupins. Passei então a torcer pra sua ninhada crescer antes da árvore cair.
Enfim, nessa cidade grande onde a rotina pela sobrevivência nos obriga a viver a vida dos outros, o som de uma viola soa mágico, me libertando por algum momento dos grilhões do lugar comum, fazendo com que meu olhar pareça perdido no nada, mas com minha mente recarregando minha alma na energia das lembranças dos bons tempos que deixei para trás.
À noite, já em casa, meus pés descalços no assoalho frio não me dão sensação nada parecida com o que eu sentia, ao contrário, um súbito arrepio prenuncia um início de resfriado ou alergia, que logo espanto com uma cachaça mineira que sempre costumo ter.
Ponho então um disco de viola e viajo novamente, meu coração guiando.
Ah, viola, que dom você tem de mexer tanto com a gente; de nos fazer sentir novamente pessoas; de nos fazer pequenos frente ao destino, mas grandes quanto ao futuro.
Ou isso só funciona com caipira?”


Jesus de Burarama

sábado, 4 de abril de 2020

Assalto a Banco


"Alô? Quem tá falando? — Aqui é o ladrão.
— Desculpe, a telefonista deve ter se enganado, eu não queria falar com o dono do banco. Tem algum funcionário aí?
— Não, os funcionário tá tudo refém.
— Há, eu entendo. Afinal, eles trabalham quatorze horas por dia, ganham um salário ridículo, vivem levando esporro, mas não pedem demissão porque não encontram outro emprego, né? Vida difícil... mas será que eu não poderia dar uma palavrinha com um deles?
— Impossível. Eles tá tudo amordaçado.
— Foi o que pensei. Gestão moderna, né? Se fizerem qualquer crítica, vão pro olho da rua. Não haverá, então, algum chefe por aí?
— Claro que não mermão. Quanta inguinorânça! O chefe tá na cadeia, que é o lugar mais seguro pra se comandar assalto!
— Bom... Sabe o que que é? Eu tenho uma conta...
— Tamo levando tudo, ô bacana. O saldo da tua conta é zero!
— Não, isso eu já sabia. Eu sou professor! O que eu queria mesmo era uma informação sobre juro.
— Companheiro, eu sou um ladrão pé-de-chinelo. Meu negócio é pequeno. Assalto a banco, vez ou outra um sequestro. Pra saber de juro é melhor tu ligá pra Brasília.
— Sei, sei. O senhor ta na informalidade, né? Também, com o preço que tão cobrando por um voto hoje em dia... mas, será que não podia fazer um favor pra mim? É que eu atrasei o pagamento do cartão e queria saber quanto vou pagar de taxa.
— Tu tá pensando que eu tô brincando? Isso é um assalto!
— Longe de mim pensar que o senhor está de brincadeira! Que é um assalto eu sei perfeitamente; ninguém no mundo cobra os juros que cobram no Brasil. Mas queria saber o número preciso: seis por cento, sete por cento?
— Eu acho que tu não tá entendendo, ô mané. Sou assaltante. Trabalho na base da intimidação e da chantagem, saca?
— Ah, já tava esperando. Você vai querer vender um seguro de vida ou um título de capitalização, né?
— Não...já falei...eu sou... Peraí bacana... hoje eu tô bonzinho e vou quebrar o teu galho.
(um minuto depois)
— Alô? O sujeito aqui tá dizendo que é oito por cento ao mês.
— Puxa, que incrível!
— Incrive por que? Tu achava que era menos?
— Não, achava que era mais ou menos isso mesmo. Tô impressionado é que, pela primeira vez na vida, eu consegui obter uma informação de uma empresa prestadora de serviço pelo telefone em menos de meia hora e sem ouvir 'Pour Elise'.
— Quer saber? Fui com a tua cara. Acabei de dar umas bordoadas no gerente e ele falou que vai te dar um desconto. Só vai te cobrar quatro por cento, tá ligado?
— Não acredito! E eu não vou ter que comprar nenhum produto do banco?
— Nadica de nada, já ta tudo acertado!
— Muito obrigado, meu senhor. Nunca fui tratado dessa...
(De repente, ouvem-se tiros, gritos)
— Ih, sujou! Puliça!
— Polícia? Que polícia? Alô? Alô?
(sinal de ocupado)
— Droga! Maldito Estado: quando o negócio começa a funcionar, entra o Governo e estraga tudo!"



Luis Fernando Verissimo