segunda-feira, 21 de junho de 2021

Para ler nos dias ruins


“Isso não é uma crônica. Sei lá o que é. Você pode chamar de placebo. Em suma, dê o nome que quiser. 

Isso aqui é um comprimido para você tomar nas tardes frias e nos dias ruins. 

Não vai ser sempre assim. 

Vai chegar o dia em que seremos felizes outra vez. Você não será mais acordada com a notícia de amigos, de amigos dos amigos ou de amáveis desconhecidos partindo por uma doença implacável.

Vai chegar o dia em que o alerta do celular vai trazer recados triviais, fofoquinhas inocentes, nudes solicitados ou, na pior das hipóteses, lembretes de algum boleto esquecido. 

Neste dia, você vai acordar depois de um sonho bom, sem medo e revigorada. Vai tomar aquele banho demorado e cantar no chuveiro um clássico como Purple Rain (usando um frasco de xampu como microfone).

Ao se olhar no espelho vai reconhecer, depois de muito tempo, a própria beleza – e as gotas espessas de esperança escorrendo pela pele. 

Neste dia, você não vai passar o café em casa. Ao contrário, você vai vestir uma roupa colorida e procurar uma padaria. 

E você vai fechar os olhos para morder o pão. Vai ter manteiga escorrendo pelo canto da sua boca. Vai ter suco de laranja. Vai ter geleia. E vai ter um estranho rindo do seu brunch em êxtase. 

E você vai tirar o dia para passear. Vai perceber que o bairro em que mora também mudou. Você vai entender que as velhas ruas precisam ser exploradas novamente. E você vai gostar da ideia de fazer turismo pelo próprio bairro. 

Você vai pular em uma “amarelinha” já meio apagada e perceber que está sendo observada.

Você vai atravessar a rua para abraçar uma amiga,“ um amigo”. E vocês vão colocar a conversa em dia dentro de uma confeitaria. Acredite, a bomba de chocolate será incrível (e não irá engordar ninguém). E vocês vão falar de viagens, dos colegas de trabalho e de uma festa marcada para daqui 15 dias.

Você vai sentir uma ansiedade boa. Um frio na barriga. Uma vontade de conhecer gente nova. 

E depois você vai querer tomar um chope. Um chope cremoso, quase pornográfico. Um chope que vai descer macio, que vai ser um acalanto etílico, um chope redentor.

(...)

..., você tem uma vida inteira pela frente, você e sua família, você e seus amigos, você e aqueles que ainda nem teve a oportunidade de conhecer, você e a torcida do Flamengo.

Acalme o coração, esse dia vai chegar. Fique firme. Tenha esperança. Por enquanto, use máscara, beba água, vacine quando chegar a sua vez, faça ioga, sexo virtual, escreva bobagens no WhatsApp e tente não morrer.”


Crônicas de SP – jornal O Estado de S. Paulo – 21/06/21

Gilberto Amendola  

Repórter do Estadão e observador da vida urbana


segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Janeiros de esperanças - A vacina é sexy

"Por direito e tradição, janeiro é o mês da esperança. Acreditar que alguma coisa pode ser melhor no ano que se inicia é um empurrão fundamental para suportar os outros 365 dias.

Em 2021, minha maior esperança mora na ponta de uma agulha. Tenho vivido a expectativa daquele algodão umedecido tocando minha pele e preparando o braço para uma gentil picadinha.

Vai rolar um arrepio. Vai ser sexy.

Quero música na "Hora V", quero espelho no teto, quero ver, quero ouvir... 

"Foi bom pra você?"

E depois, amante insaciável, quero a segunda dose.

Nosso segundo encontro, vacina, vai ser ainda melhor.

Que mudar de posição? Se dou o braço, você também vai querer a mão?

Vem vacina, me chama de jacaré.

A esperança é um mingau nutritivo, eu posso até usar um garfo, mas vou continuar insistindo.

Preciso estar imune ao vírus para ser infectado pela vida. Preciso da vacina para seguir exposto ao mundo.

Se quero correr o risco de mais um ano, preciso sobreviver à pandemia que me guarda em casa, que me fez estátua e que me tirou o sabor suculento dos sábados.

Quero, de novo, desgastar meus cotovelos no balcão de uma bar. Quero a possibilidade de ser o melhor amigo de pessoas que nunca vi. Quero a saideira depois das 3hs da manhã. Quero voltar para casa trançando as pernas e dando bom dia para as árvores e os vira-latas.

Em janeiro, quero sonhar com minhas férias, subir em um avião, me aglomerar em alguma festa e ficar loucão.

Vacinado, vírus controlado, quero voltar a ser irresponsável. Não quero ser uma pessoa melhor. Quero ser uma pessoa mais intensa.

Em janeiro, quero planejar meu carnaval fora de época. Quero escolher uma fantasia, quero decorar marchinhas contra o presidente.

Neste janeiro, quero ser aquele que sonha, aquele que acredita, aquele meio bobo e iludido.

Ano que passou foi muito duro.

Vem vacina, vem me deixar facinho, facinho.

Vem me causar reações.

Só de pensar em você, já estou reagindo."


Gilberto Amendola - reporte do "Estadão" e observador da vida urbana