Não vai ser sempre assim.
Vai chegar o dia em que seremos felizes outra vez.
Você não será mais acordada com a notícia de amigos, de amigos dos amigos ou de
amáveis desconhecidos partindo por uma doença implacável.
Vai chegar o dia em que o alerta do celular vai
trazer recados triviais, fofoquinhas inocentes, nudes solicitados ou, na pior
das hipóteses, lembretes de algum boleto esquecido.
Neste dia, você vai acordar depois de um sonho bom, sem medo e
revigorada. Vai tomar aquele banho demorado e cantar no chuveiro um clássico
como Purple Rain (usando
um frasco de xampu como microfone).
Ao se olhar no espelho vai reconhecer, depois de
muito tempo, a própria beleza – e as gotas espessas de esperança escorrendo
pela pele.
Neste dia, você não vai passar o café em casa. Ao
contrário, você vai vestir uma roupa colorida e procurar uma padaria.
E você vai fechar os olhos para morder o pão. Vai
ter manteiga escorrendo pelo canto da sua boca. Vai ter suco de laranja. Vai
ter geleia. E vai ter um estranho rindo do seu brunch em êxtase.
E você vai tirar o dia para passear. Vai perceber
que o bairro em que mora também mudou. Você vai entender que as velhas ruas
precisam ser exploradas novamente. E você vai gostar da ideia de fazer turismo
pelo próprio bairro.
Você vai pular em uma “amarelinha” já meio apagada
e perceber que está sendo observada.
Você vai atravessar a rua para abraçar uma amiga,“ um
amigo”. E vocês vão colocar a conversa em dia dentro de uma confeitaria.
Acredite, a bomba de chocolate será incrível (e não irá engordar ninguém). E
vocês vão falar de viagens, dos colegas de trabalho e de uma festa marcada para
daqui 15 dias.
Você vai sentir uma ansiedade boa. Um frio na
barriga. Uma vontade de conhecer gente nova.
E depois você vai querer tomar um chope. Um chope
cremoso, quase pornográfico. Um chope que vai descer macio, que vai ser um
acalanto etílico, um chope redentor.
(...)
..., você tem uma vida inteira pela frente, você e
sua família, você e seus amigos, você e aqueles que ainda nem teve a oportunidade
de conhecer, você e a torcida do Flamengo.
Acalme o coração, esse dia vai chegar. Fique firme. Tenha esperança. Por
enquanto, use máscara,
beba água, vacine quando chegar a sua vez, faça ioga, sexo virtual, escreva
bobagens no WhatsApp e tente não morrer.”
Crônicas de SP – jornal O Estado de S. Paulo – 21/06/21
Gilberto Amendola
Repórter do Estadão e observador da vida urbana
