domingo, 6 de novembro de 2022

Uma carta para Freud

“Caro Freud

Resolvi lhe escrever uma carta porque o senhor anda muito ocupado e eu demoro demais para me fazer compreender verbalmente. Aqui, nesta carta, acho que consigo ser franco e direto. E franqueza é algo que me escapa pelos dedos, especialmente quando estou diante de alguém tão mal encarado como o senhor (sem ofensas, por favor). Mas, se pelo menos o senhor desse um sorrisinho de vez em quando, ajudaria muito nossas consultas. Mas enfim…

Hoje resolvi aplicar alguns de seus conselhos. E outros do Facebook. A propósito, já lhe contei que meu mural parece um livro de autoajuda? Desse jeito, acho que o senhor vai precisar mudar de profissão.

Bom, voltando aos conselhos. O senhor mencionou que eu precisava encontrar prazer no meu trabalho. Pois bem, resolvi espalhar chocolate em todas as mesas, pias, balcões e até no banheiro. Preciso admitir que o senhor estava com toda a razão. De fato, todo o ambiente está mais prazeroso e há docilidade por todos os lados. As formigas têm a mesma opinião.

Romanticamente, a história é mais complicada. Sempre que nos encontramos, o senhor pergunta: “E as namoradas, como vão?”. Realmente, doutor Freud, nunca entendi o porquê do plural. Mas já que tocamos no assunto, acho que precisarei de um pouco mais do que chocolate para resolver este problema.

O senhor disse que o segredo do sucesso é fazer as mulheres rirem. Mas rir de mim também conta? E aquela história de conversar com a garota sobre assuntos que a interessam? Conheci uma garota e já fui puxando assunto sobre rímel, blush, cílios postiços e batom. Não sei não Freud, mas tem certeza de que esse conselho funciona? A garota soltou um “ihhh” e saiu de perto. Sabe esses “ihs” que podem significar um milhão de coisas e todas elas péssimas para a nossa reputação?

O senhor também mencionou que eu não poderia deixar as garotas me encararem como amigo, não foi? “Mulheres nunca se apaixonam por amigos”. Tentei aplicar este conselho. Uma amiga minha, a Miriam, uma ruiva de um metro e setenta, dois imensos olhos caramelo, dois lábios carnudos que são pura covardia. Pois bem, ela me disse que precisava contar um segredo. Sacou né? Coisa de amigos, papo de segredos, essas coisas. Não hesitei. Já soltei um: “Nem vem com essas fofoquinhas tolas que me dão nos nervos. Se quiser algo de verdade, te dou um beijo de desentupir pia. Agora se quiser ficar nessas conversinhas frívolas e inúteis, vai procurar tua turma de tagarelas descerebrados”. O senhor poderia ler esta frase novamente e me dizer onde errei? Porque acho que errei em algum ponto, levando-se em consideração o peso do tapa na minha cara.

Ah, meu amigo Sigmund. A vida não é nada fácil. Pela expressão fechada em seu rosto, o senhor deve me entender. Talvez o senhor devesse parar um pouco com esses assuntos melancólicos e se dedicar um tempo a escrever alguns textos humorísticos. Além disso, precisamos conversar mais. Mas não dentro daquele seu consultório mórbido. Podíamos sair para tomar uma cerveja. Ver luzes, ouvir pessoas, essas coisas. Acho que lhe faria bem, também.

Quando quiser, só me avisar. Mas o senhor paga. E não vem com história de que está sem dinheiro, porque aí quem vai dizer “ihhh” sou eu.”

 

Juliano Martinz


terça-feira, 26 de julho de 2022

A ex

"Ele era romântico em qualquer sentido do termo. Um homem dado a declarações de amor, oferta de flores e banhos de hidro, ao entardecer, com vinho. Heitor era um cavalheiro, um bom amante e muito atencioso aos detalhes. Estela, a namorada, parecia descobrir novo encanto a cada dia.

O namoro estava perto de completar dois anos e não poderia estar melhor. Ele tinha anunciado que ela estivesse pronta para um lugar especial naquele sábado frio de julho. Ela intuiu que seria pedida em casamento. 

Sim: o plano do bravo Heitor era esse. Um anel foi comprado. Naquela noite, no lugar que ele amava, com vista para toda a cidade, ele tentaria o upgrade de namoro para noivado. 

A Lua foi cúmplice dos enamorados e apresentou-se cheia em céu límpido de inverno. O anel exalava uma onda de emoção do seu silencioso estojo, quase gritando para ir ao dedo da eleita. O homem planejava o momento certo de fazer o pedido. A mulher intuía, arfante, que seria uma noite perfeita. 

Um pouco antes do pedido do vinho, Heitor percebeu o vulto de Isabela em um canto do restaurante. Eles estiveram casados por seis anos. Amaram-se e, por decisão tranquila e consensual do casal, separaram-se. Isabela se casara de novo e tinha uma filha com o atual esposo, o qual a acompanhava na noite em questão. Perseguição? Não, Isabela era um modelo de equilíbrio e jamais faria algo assim. Pura e absoluta coincidência. 

Havia um problema que chegava à consciência de Heitor aos poucos e tomava sua paz. Ele pedira Isabela no mesmo restaurante. Sim, podemos acusar nosso romântico de, talvez, pouco criativo. 

Ele começou a ficar inquieto. Dissera à ex que a amaria para sempre e que seriam felizes até ambos ficarem velhinhos. Tinha prometido que iriam juntos ao geriatra, de mãos dadas. As promessas duraram seis belos verões. Ele sentira o amor absoluto no momento do pedido e, poucos anos depois, tinham formado um casal indiferente, sem que nenhum tivesse um deslize grave a acusar no outro. Separam-se não por colisão, simplesmente por falta de combustível, pane seca na estrada da vida, talvez. 

Heitor passou a duvidar do seu futuro com Estela. E se Estela fosse, de novo, a história de Isabela? A quase rima pobre dos dois nomes o incomodava mais. Estela/Isabela agora dançavam na sua cabeça. Repetira o restaurante, escolhera nomes (e tipos físicos) parecidos e agora, quase oito anos depois, estava prestes a fazer a mesma cena no mesmo lugar. Uma angústia nova o incomodou ainda mais agora: o modelo do anel de noivado, a lapidação do diamante e as curvas da platina eram... quase idênticos nos dois pedidos. Ele se percebia uma cópia de si, uma farsa repetida, um apaixonado tomado pelo momento que encenaria a mesma pantomima – com risco idêntico de fracasso.

De boa memória, Heitor tinha exata lembrança de que sentia um amor intenso e que suspirava por eternidade quando pediu a primeira esposa. Enganou-se. O que garantia que não estava equivocado novamente? Nada, matematicamente nada. Era um salto no escuro, excessivamente claro, em meio a todas as incertezas que o futuro sempre apresenta em alguma borda de abismo. 

Heitor foi ficando lívido. Sua certeza do que fazer naquela noite de Lua cheia tinha sido abalada. Mais: tinha dúvida de qualquer compromisso permanente, agora que sabia que seu coração não era sólido, todavia um pântano inseguro de promessas feitas e, depois, esquecidas. Ele não se considerava confiável e supunha que o amor não era mais um fato seguro. A presença da ex era uma fissura funda no bloco granítico do outrora decidido Heitor. Ela, Isabela, era a prova viva de que tudo passa e que Cupido, como bem advertia o Padre Vieira, era uma criança, porque os amores humanos não se tornavam adultos. Seu casamento morrera antes de chegar a alguma boda adolescente. Tinha terminado na primeira infância, com apenas seis anos de contato. 

A namorada percebeu o incômodo do nosso dividido homem e perguntou se ele estava bem. O anel que fulgurava de forma invisível no bolso do blazer, agora, era uma pedra fria e incômoda. Quantos outros anéis ele daria a quantas outras mulheres, até que o fim tornasse o último casamento eterno, não por decisão de um coração romântico, porém por falha cardíaca mesmo? Só a morte seria o cumprimento de toda promessa matrimonial? Por isso, o padre dissera: “Até que a morte os separe!”. Heitor duvidava de tudo. Perdera a fé no amor, em si e em diamantes. Alegou um mal-estar por causa da comida e do vinho, pediu a conta e despediu-se apressadamente da atônita Estela. Ela, Estela, e ela, Isabela, tinham sido involuntárias placas tectônicas que rompiam a calma superfície do homem outrora romântico e talhado para o casamento. 

Não preciso dizer, apaixonada leitora e enlevado leitor, que o sol da primavera não brilhou sobre o casal. Constrangido, ele rompeu três dias depois. Guardou o anel, para refletir – diante do óbvio – como pessoas volúveis apostavam em materiais permanentes como amuleto. “Fadiga de material humano”, comentou o desolado Heitor. Nunca mais daria diamantes. 

Doravante, convidaria suas eleitas para um... sorvete. Sim, o doce gelado era efêmero. Funcionava feliz por alguns minutos e passava, como o amor. Lambiam a casquinha, beijavam-se e se separavam. “Assim deve ser, sorvete e namoro, nunca mais diamantes e casamento...”, filosofava Heitor. 

No mundo, deveria existir a esperança de diamantes, convivendo com sorvetes."

Leandro Karnal

"O Estado de São Paulo 24/07/22"

sexta-feira, 3 de junho de 2022

Está rindo do quê?


Mais um atentado contra a Mona Lisa. Sua fama e sorriso enigmático agridem pessoas transtornadas. Estou sofrendo, e ela está lá, impassível, impávida, por séculos.

Atravessamos holocaustos e os maiores horrores que a Humanidade é capaz de produzir, e ela não liga, não muda, não se indigna. Atravessamos mundos dantes não navegados, conhecemos novos mundos, escravizamos continentes, indígenas e negros, incendiamos cidades e florestas.

Extinguimos animais, povos, línguas. Com a pólvora, as guerras se tornaram cada vez mais cruéis e destrutivas. Com a bomba atômica, autodestrutivas, definitivas. Tímida, introvertida, você, Gioconda, seduz. Talvez seja o rosto mais conhecido. Está no nosso imaginário.

Da Vinci tinha apego. Nunca a vendeu e a levou quando se mudou para Paris. Ficou exposta em Versalhes. Depois da Revolução, Louvre. Napoleão se apaixonou e dormia com ela. Foi escondida durante guerras, foi roubada, ganhou uma tela de vidro à prova de bala, protegida como uma líder mundial. Claro. Jogaram ácido sobre ela, café, apedrejaram. E agora, uma torta.

Não tem joias e é anônima, renascentistas não nomeavam seus quadros. Ninguém sabe ao certo a identidade. A historiadora Maike Vogt-Lüerssen a descreveu como a esposa mais infeliz do mundo. Afirma que é o retrato de uma duquesa de Milão de 17 anos, Isabella de Aragon, infeliz no casamento com seu primo, bêbado impotente que batia nela. As roupas pesadas indicariam luto.

Outros dizem ser mulher do rico comerciante Francesco del Giocondo, que ou estaria grávida ou tinha acabado de parir, por conta do véu. Seria a felicidade da supremacia do ato de ser mãe. Para Freud, representa o desejo erótico pela mãe.

Raio X, scanners a laser, supercomputadores, algoritmos tentam desvendar se a mãe ou noiva está feliz, infeliz, com dor, passando mal. Um computador da Holanda via comparações, indicou que ela era uma mulher feliz. Gioconda é alegre em italiano.

É o rosto mais pop (mais famoso que Os Beatles), reproduzido por Warhol, Duchamp, Dalí, retratada por Rossellini e Visconti. Já sugeriram ser um autorretrato do próprio pintor, Leonardo.

Lasciva, recentemente best-sellers de ficção e thriller policial encontraram segredos em camadas que revelariam a localização do Santo Graal, e que Madalena era esposa de Jesus, apóstola decisiva nos rumos do cristianismo.

Ela parece ter vida, seus olhos acompanham quem a vê de frente. Observa-nos como uma deusa. Por que me interpretam tanto? Cruzou a revolução industrial e tecnológica, modernismo e o pós. Testemunha nossa imprudência. Ironiza nossa incapacidade de evoluir.

 

Marcelo Rubens Paiva – Escritor e Dramaturgo

Jornal 0 Estado de São Paulo - Cultura & Comportamento

quarta-feira, 16 de março de 2022

Manual de instruções dos humanos

 

 “Antropólogos marcianos estavam em um congresso interplanetário. Conheciam a tribo humana. A abertura foi feita pela doutora Thavas, renomada especialista de lá:

Sugiro um Manual de Instruções. Após anos de observações, identifiquei cinco princípios gerais importantes. Quantos colegas, baseados em estudos isolados, ficaram perdidos diante de ações contraditórias dos humanos? Com estas Cinco Leis Gerais, pretendo eliminar parte do equívoco. 

1 – Lei geral do duplo sentido. Diferentemente de Marte, quando um humano diz que ama a família, isso não deve ser lido como afeto real. Constitui um desejo, uma projeção, uma frase importante de aceitação social. Quando submetidos a festas familiares ou viagens, brigam o tempo todo. Assim, devemos entender que o que sai da boca humana não corresponde a um sentimento de fato.

2 – Lei humana da causa oculta: todas as brigas entre os terráqueos não têm como causa real o objeto da discussão. Quando eles discutem no trânsito, não discutem a ultrapassagem perigosa. Estão debatendo a insatisfação sexual e econômica. É fundamental entender essa premissa para saber falar com eles.

3 – Lei do espelho: os povos do terceiro planeta não conseguem se ver. Existe uma membrana no olho que impede a percepção de si. Sua única capacidade é a projeção nos outros. Toda fala é sobre algo deles que foi projetado na imagem alheia. Levanto a hipótese de ser uma tática evolutiva que criou essa disposição genética.

4 – Lei da crítica invertida: este axioma se relaciona com o anterior. Cheguei a considera-lo como uma divisão interna do terceiro. Todavia, tem sua especificidade. A crítica de um humano a outro é um elogio de si. Sempre. “Você é preguiçoso” implica dizer “eu sou trabalhador”. “Você nunca chega na hora” é igual a “veja como sou pontual”. É uma espécie de vaidade com vetor trocado.

5 – Lei negativa geral: quando um humano anunciar que deseja ser breve na fala, será excessivo. Toda vez que alguém enunciar na tribo de lá “sem querer atrapalhar”, a pessoa atrapalhará. “Não quero ser invasivo”, “Deus me livre fazer fofoca”, “Não desejo abusar da sua paciência” significam, necessariamente, que tudo isso que está sendo negado será levado adiante.

A doutora Thavas foi ovacionada. Era uma inovação científica bem fundamentada. As cinco regras logo se ampliaram e eu decidi compartilhar com você. Podem ajudar na próxima reunião ou almoço de família. A antropologia marciana ainda tem esperança na gente.”

 

Leandro Karnal

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

40 Conselhos de um senhor de 75 anos

 

1. Evite fazer observações sarcásticas.
2. Se entrar em uma briga, bata primeiro e bata com força.
3. Nunca ignore uma mão estendida.
4. Tenha um aperto de mão firme.
5. Escute o que as pessoas têm a dizer. Não interrompa, deixe-as falar.
6. Guarde segredos.
7. Empreste apenas os livros que você espera não ver novamente.
8. Seja corajoso. Mesmo se não for, ao menos finja ser. Ninguém consegue perceber a diferença.
9. Olhe nos olhos das pessoas.
10. Escolha o companheiro da sua vida com cuidado. A partir dessa decisão, virão 80% de toda a sua felicidade ou miséria.
11. Se a casa do seu vizinho está em chamas, a sua também está em perigo.
12. Nunca elogie a si mesmo, se houver elogios, que venham dos outros.
13. Seja um bom vencedor.
14. Solte-se. Relaxe. Exceto por raros assuntos de vida ou morte, nada é tão grave como parece à primeira vista.
15. Quando aflito: respire fundo, assovie ou cantarole.
16. Dê às pessoas uma segunda chance, mas nunca uma terceira.
17. Cuidado ao queimar pontes. Você ficará surpreso quantas vezes precisará atravessar o mesmo rio.
18. Seja rápido em reconhecer aqueles que o ajudaram.
19. Guarde bem o nome das pessoas.
20. Assuma o controle da sua atitude. Não deixe que outra pessoa fale ou faça escolhas por você.
21. Visite amigos e parentes quando estiverem no hospital, você só precisa ficar alguns minutos.
22. A maior riqueza é a saúde.
23. Atenda ao telefone com energia em sua voz.
24. Mantenha um bloco de anotações e um lápis em sua mesa de cabeceira. Ideias que valem milhões de reais normalmente surgem às 3 da manhã.
25. Mostre respeito por todos que trabalham para viver. Não importa o quão simples seja a profissão.
26. Vista-se adequadamente.
27. Elogie a refeição quando for hóspede na casa de alguém.
28. Não permita que o telefone interrompa momentos importantes. Ele está lá para sua conveniência, não para a de quem liga.
29. A menos que ela seja da sua família, sempre cumprimente uma mulher comprometida com um leve aperto de mão.
30. Não se demore onde você não é bem recebido.
31. Todo mundo “gosta” de ver você crescer, isso, até você começar a superá-los.
32. A inveja de um amigo é pior que o ódio de um inimigo.
33. Cuidado com as pessoas que não têm nada a perder.
34. Nunca pegue o que não é seu. Conquiste.
35. Se a bagunça é sua, limpe você mesmo. Termine o que começou.
36. Lembre-se de que 70% do sucesso em qualquer área se baseia na capacidade de lidar com pessoas. 
37. Defenda os menores. Proteja os indefesos.
38. Não espere que a vida seja justa com você.
39. Ouça os mais velhos.
40. Jamais se esqueça de onde veio e lembre-se diariamente onde quer chegar.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

Homem trocado

 

"O homem acorda da anestesia e olha em volta. Ainda está na sala de recuperação. Há uma enfermeira do seu lado. Ele pergunta se foi tudo bem.

– Tudo perfeito - diz a enfermeira, sorrindo.
– Eu estava com medo desta operação...
– Por quê? Não havia risco nenhum.
– Comigo, sempre há risco. Minha vida tem sido uma série de enganos... E conta que os enganos começaram com seu nascimento.

Houve uma troca de bebês no berçário e ele foi criado até os dez anos por um casal de orientais, que nunca entenderam o fato de terem um filho claro com olhos redondos. Descoberto o erro, ele fora viver com seus verdadeiros pais. Ou com sua verdadeira mãe, pois o pai abandonara a mulher depois que esta não soubera explicar o nascimento de um bebê chinês.

– E o meu nome? Outro engano.
– Seu nome não é Lírio?
– Era para ser Lauro. Se enganaram no cartório e... Os enganos se sucediam.

Na escola, vivia recebendo castigo pelo que não fazia. Fizera o vestibular com sucesso, mas não conseguira entrar na universidade. O computador se enganara, seu nome não apareceu na lista.

– Há anos que a minha conta do telefone vem com cifras incríveis. No mês passado tive que pagar mais de R$ 3 mil.
– O senhor não faz chamadas interurbanas?
– Eu não tenho telefone!

Conhecera sua mulher por engano. Ela o confundira com outro. Não foram felizes.

– Por quê?
– Ela me enganava.

Fora preso por engano. Várias vezes. Recebia intimações para pagar dívidas que não fazia. Até tivera uma breve, louca alegria, quando ouvira o médico dizer: - O senhor está desenganado. Mas também fora um engano do médico. Não era tão grave assim. Uma simples apendicite.

– Se você diz que a operação foi bem...

A enfermeira parou de sorrir.

– Apendicite? - perguntou, hesitante.
– É. A operação era para tirar o apêndice.
– Não era para trocar de sexo?"


Luis Fernando Verissimo