Mais um atentado contra a Mona Lisa. Sua fama e sorriso enigmático agridem pessoas transtornadas. Estou sofrendo, e ela está lá, impassível, impávida, por séculos.
Atravessamos holocaustos e os
maiores horrores que a Humanidade é capaz de produzir, e ela não liga, não
muda, não se indigna. Atravessamos mundos dantes não navegados, conhecemos
novos mundos, escravizamos continentes, indígenas e negros, incendiamos cidades
e florestas.
Extinguimos animais, povos,
línguas. Com a pólvora, as guerras se tornaram cada vez mais cruéis e
destrutivas. Com a bomba atômica, autodestrutivas, definitivas. Tímida,
introvertida, você, Gioconda, seduz. Talvez seja o rosto mais conhecido. Está
no nosso imaginário.
Da Vinci tinha apego. Nunca a vendeu
e a levou quando se mudou para Paris. Ficou exposta em Versalhes. Depois da
Revolução, Louvre. Napoleão se apaixonou e dormia com ela. Foi escondida
durante guerras, foi roubada, ganhou uma tela de vidro à prova de bala,
protegida como uma líder mundial. Claro. Jogaram ácido sobre ela, café,
apedrejaram. E agora, uma torta.
Outros dizem ser mulher do rico
comerciante Francesco del Giocondo, que ou estaria grávida ou tinha acabado de
parir, por conta do véu. Seria a felicidade da supremacia do ato de ser mãe.
Para Freud, representa o desejo erótico pela mãe.
Raio X, scanners a laser,
supercomputadores, algoritmos tentam desvendar se a mãe ou noiva está feliz,
infeliz, com dor, passando mal. Um computador da Holanda via comparações,
indicou que ela era uma mulher feliz. Gioconda é alegre em italiano.
É o rosto mais pop (mais famoso
que Os Beatles), reproduzido por Warhol, Duchamp, Dalí, retratada por
Rossellini e Visconti. Já sugeriram ser um autorretrato do próprio pintor,
Leonardo.
Lasciva, recentemente best-sellers
de ficção e thriller policial encontraram segredos em camadas que revelariam a
localização do Santo Graal, e que Madalena era esposa de Jesus, apóstola
decisiva nos rumos do cristianismo.
Ela parece ter vida, seus olhos
acompanham quem a vê de frente. Observa-nos como uma deusa. Por que me
interpretam tanto? Cruzou a revolução industrial e tecnológica, modernismo e o
pós. Testemunha nossa imprudência. Ironiza nossa incapacidade de evoluir.
Marcelo Rubens Paiva – Escritor e
Dramaturgo
Jornal 0 Estado de São Paulo - Cultura & Comportamento
