"Ele era romântico em qualquer sentido do termo. Um homem dado a declarações de amor, oferta de flores e banhos de hidro, ao entardecer, com vinho. Heitor era um cavalheiro, um bom amante e muito atencioso aos detalhes. Estela, a namorada, parecia descobrir novo encanto a cada dia.
O namoro estava perto de
completar dois anos e não poderia estar melhor. Ele tinha anunciado que ela
estivesse pronta para um lugar especial naquele sábado frio de julho. Ela
intuiu que seria pedida em casamento.
Sim: o plano do bravo Heitor
era esse. Um anel foi comprado. Naquela noite, no lugar que ele amava, com
vista para toda a cidade, ele tentaria o upgrade de namoro para noivado.
A Lua foi cúmplice dos
enamorados e apresentou-se cheia em céu límpido de inverno. O anel exalava uma
onda de emoção do seu silencioso estojo, quase gritando para ir ao dedo da
eleita. O homem planejava o momento certo de fazer o pedido. A mulher intuía,
arfante, que seria uma noite perfeita.
Um pouco antes do pedido do
vinho, Heitor percebeu o vulto de Isabela em um canto do restaurante. Eles
estiveram casados por seis anos. Amaram-se e, por decisão tranquila e
consensual do casal, separaram-se. Isabela se casara de novo e tinha uma filha
com o atual esposo, o qual a acompanhava na noite em questão. Perseguição? Não,
Isabela era um modelo de equilíbrio e jamais faria algo assim. Pura e absoluta
coincidência.
Havia um problema que
chegava à consciência de Heitor aos poucos e tomava sua paz. Ele pedira Isabela
no mesmo restaurante. Sim, podemos acusar nosso romântico de, talvez, pouco
criativo.
Heitor passou a duvidar do
seu futuro com Estela. E se Estela fosse, de novo, a história de Isabela? A
quase rima pobre dos dois nomes o incomodava mais. Estela/Isabela agora
dançavam na sua cabeça. Repetira o restaurante, escolhera nomes (e tipos
físicos) parecidos e agora, quase oito anos depois, estava prestes a fazer a
mesma cena no mesmo lugar. Uma angústia nova o incomodou ainda mais agora: o
modelo do anel de noivado, a lapidação do diamante e as curvas da platina
eram... quase idênticos nos dois pedidos. Ele se percebia uma cópia de si, uma
farsa repetida, um apaixonado tomado pelo momento que encenaria a mesma
pantomima – com risco idêntico de fracasso.
De boa memória, Heitor tinha
exata lembrança de que sentia um amor intenso e que suspirava por eternidade
quando pediu a primeira esposa. Enganou-se. O que garantia que não estava
equivocado novamente? Nada, matematicamente nada. Era um salto no escuro,
excessivamente claro, em meio a todas as incertezas que o futuro sempre
apresenta em alguma borda de abismo.
Heitor foi ficando lívido.
Sua certeza do que fazer naquela noite de Lua cheia tinha sido abalada. Mais:
tinha dúvida de qualquer compromisso permanente, agora que sabia que seu
coração não era sólido, todavia um pântano inseguro de promessas feitas e,
depois, esquecidas. Ele não se considerava confiável e supunha que o amor não
era mais um fato seguro. A presença da ex era uma fissura funda no bloco
granítico do outrora decidido Heitor. Ela, Isabela, era a prova viva de que
tudo passa e que Cupido, como bem advertia o Padre Vieira, era uma criança,
porque os amores humanos não se tornavam adultos. Seu casamento morrera antes
de chegar a alguma boda adolescente. Tinha terminado na primeira infância, com
apenas seis anos de contato.
A namorada percebeu o
incômodo do nosso dividido homem e perguntou se ele estava bem. O anel que
fulgurava de forma invisível no bolso do blazer, agora, era uma pedra fria e
incômoda. Quantos outros anéis ele daria a quantas outras mulheres, até que o
fim tornasse o último casamento eterno, não por decisão de um coração
romântico, porém por falha cardíaca mesmo? Só a morte seria o cumprimento de
toda promessa matrimonial? Por isso, o padre dissera: “Até que a morte os
separe!”. Heitor duvidava de tudo. Perdera a fé no amor, em si e em diamantes.
Alegou um mal-estar por causa da comida e do vinho, pediu a conta e despediu-se
apressadamente da atônita Estela. Ela, Estela, e ela, Isabela, tinham sido
involuntárias placas tectônicas que rompiam a calma superfície do homem outrora
romântico e talhado para o casamento.
Não preciso dizer,
apaixonada leitora e enlevado leitor, que o sol da primavera não brilhou sobre
o casal. Constrangido, ele rompeu três dias depois. Guardou o anel, para
refletir – diante do óbvio – como pessoas volúveis apostavam em materiais
permanentes como amuleto. “Fadiga de material humano”, comentou o desolado
Heitor. Nunca mais daria diamantes.
Doravante, convidaria suas
eleitas para um... sorvete. Sim, o doce gelado era efêmero. Funcionava feliz
por alguns minutos e passava, como o amor. Lambiam a casquinha, beijavam-se e
se separavam. “Assim deve ser, sorvete e namoro, nunca mais diamantes e
casamento...”, filosofava Heitor.
No mundo, deveria existir a
esperança de diamantes, convivendo com sorvetes."
Leandro Karnal
"O Estado de São Paulo 24/07/22"
