sexta-feira, 16 de junho de 2023

Sensação de que?

 “Clichê, você sabe, é preguiça aliada à pressa. Quando não aparece a expressão exata, solta-se um. 

No esporte: ‘Realização de um sonho’. ‘Não encontro palavras para descrever.’ ‘É a conquista da superação.’

A política é uma chocadeira de clichês, que contaminam o jornalismo: político não mente, diz inverdades; não lista, elenca; e o mais em voga, não apresenta versões, mas narrativas, com sua reputação ilibada.

Me lembro como se fosse ontem quando um amigo cunhou pela primeira vez na capa do caderno cultural de um grande jornal o verbo incensar. Achei lindo, solar. Como o paciente zero de um vírus contagioso, espalhou-se numa pandemia sem vacina no meio jornalístico.

Como ‘sair da zona de conforto’, e os preferidos do meio empresarial, ‘quebra de paradigmas’ e ‘sinergia’. Mas tudo isso é passado. Novos clichês aparecem a cada ano. Me dói no ouvido quando se usa potência como adjetivo. Não quer dizer nada, e quer dizer muita coisa. É algo que todos e todas entendem.

Da primeira vez que ouvi, ‘tem muita potência nessa narrativa’, lembro-me do momento exato, e nunca mais me esqueci, como desidratar e empoderamento, termos mais recentes.

A linguagem é viva, se renova, termos entram e saem do vocabulário, são cancelados, como nas coxas (é mentira que a locução adverbial se refere a telhas defeituosas feitas em coxas de escravizadas, o molde era madeira), criado-mudo (nada a ver com o escravizado abanando seu senhoril ao lado do leito, pois é uma tradução literal do inglês ‘dumbwaiter’, e no próprio Machado de Assis está que criados não eram escravizados, mas trabalhadores pagos) e mulato (não vem de mula, mas do árabe ‘muallad’ ou ‘mowallad’, nascido de pai árabe e mãe estrangeira).

Porém, existe um clichê literário, inclusive entre autores jovens, que causa espanto, dói a vista e não sai de moda: ‘Fui tomado por uma sensação de...’ ou ‘sensações de... percorreram meu corpo’.

A pessoa não tem medo, nojo, raiva, ódio, ciúme, tristeza, alegria. Ela é tomada pela sensação de. Ou percorreram seu corpo, como uma entidade que possui a alma da vítima, ou o personagem é tomado por algo de fora, que percorre ou escraviza seu corpo.

Não é dele o medo, mas é algo de fora. É a intrusão do demo. Ele é inocente, o vento levou a sensação e o abduziu. Imagine se a expressão entrasse no nosso cotidiano:

‘Estou tomado pela sensação de assaltá-lo, passe-me o celular’.

‘Uma sensação de gritar percorre meu corpo, socorro!’

‘Estou tomado pela sensação de mostrar a minha arma.’

‘Não antes de percorrer no meu corpo a sensação de medo.’”

 

Marcelo Rubens Paiva – Escritor e dramaturgo