“Clichê, você sabe, é preguiça aliada à pressa. Quando não aparece a expressão exata, solta-se um.
No esporte: ‘Realização de um sonho’. ‘Não encontro palavras para descrever.’ ‘É a conquista da superação.’
A
política é uma chocadeira de clichês, que contaminam o jornalismo: político não
mente, diz inverdades; não lista, elenca; e o mais em voga, não apresenta
versões, mas narrativas, com sua reputação ilibada.
Me
lembro como se fosse ontem quando um amigo cunhou pela primeira vez na capa do
caderno cultural de um grande jornal o verbo incensar. Achei lindo, solar. Como
o paciente zero de um vírus contagioso, espalhou-se numa pandemia sem vacina no
meio jornalístico.
Como
‘sair da zona de conforto’, e os preferidos do meio empresarial, ‘quebra de
paradigmas’ e ‘sinergia’. Mas tudo isso é passado. Novos clichês aparecem a
cada ano. Me dói no ouvido quando se usa potência como adjetivo. Não quer dizer
nada, e quer dizer muita coisa. É algo que todos e todas entendem.
Da primeira vez que ouvi, ‘tem muita potência nessa narrativa’, lembro-me do momento exato, e nunca mais me esqueci, como desidratar e empoderamento, termos mais recentes.
A
linguagem é viva, se renova, termos entram e saem do vocabulário, são cancelados,
como nas coxas (é mentira que a locução adverbial se refere a telhas
defeituosas feitas em coxas de escravizadas, o molde era madeira), criado-mudo
(nada a ver com o escravizado abanando seu senhoril ao lado do leito, pois é
uma tradução literal do inglês ‘dumbwaiter’, e no próprio Machado de Assis está
que criados não eram escravizados, mas trabalhadores pagos) e mulato (não vem
de mula, mas do árabe ‘muallad’ ou ‘mowallad’, nascido de pai árabe e mãe
estrangeira).
Porém,
existe um clichê literário, inclusive entre autores jovens, que causa espanto,
dói a vista e não sai de moda: ‘Fui tomado por uma sensação de...’ ou ‘sensações
de... percorreram meu corpo’.
A
pessoa não tem medo, nojo, raiva, ódio, ciúme, tristeza, alegria. Ela é tomada
pela sensação de. Ou percorreram seu corpo, como uma entidade que possui a alma
da vítima, ou o personagem é tomado por algo de fora, que percorre ou escraviza
seu corpo.
Não
é dele o medo, mas é algo de fora. É a intrusão do demo. Ele é inocente, o
vento levou a sensação e o abduziu. Imagine se a expressão entrasse no nosso
cotidiano:
‘Estou
tomado pela sensação de assaltá-lo, passe-me o celular’.
‘Uma
sensação de gritar percorre meu corpo, socorro!’
‘Estou
tomado pela sensação de mostrar a minha arma.’
‘Não
antes de percorrer no meu corpo a sensação de medo.’”
Marcelo Rubens Paiva –
Escritor e dramaturgo
