terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

Você enxerga o copo meio cheio ou meio vazio?

Diante de um copo com água até a metade, três olhares distintos podem surgir: o do otimista, o do pessimista e o do realista. Cada um desses pontos de vista reflete a forma como as pessoas interpretam a vida e enfrentam desafios.

O otimista, sempre inclinado a enxergar o lado positivo das situações, vê o copo como meio cheio. Para ele, há algo a ser aproveitado, há potencial e esperança. Ele acredita que, mesmo em tempos difíceis, há razões para seguir em frente e buscar soluções. Seu olhar não nega a realidade, mas foca nas possibilidades, na capacidade de preencher o restante do copo ou de encontrar satisfação com o que já há dentro dele.

O pessimista, por outro lado, tem uma perspectiva contrária. Para ele, o copo está meio vazio. A falta é mais evidente do que a presença, e o que não está ali ganha mais importância do que o que já existe. Esse olhar pode gerar desânimo e dificuldades em perceber oportunidades. O pessimismo pode ser fruto de experiências passadas ou de uma visão mais cautelosa, mas, quando exagerado, pode impedir o progresso e a satisfação com o que se tem.

Já o realista busca um equilíbrio entre as duas visões. Ele enxerga que o copo tem água, mas também nota que há um espaço vazio. Diferente do otimista, ele não ignora as dificuldades; diferente do pessimista, não se prende apenas ao que falta. O realista encara a vida com pragmatismo, reconhecendo tanto os desafios quanto as oportunidades. Ele entende que, dependendo da situação, o copo pode ser suficiente ou precisar ser preenchido.

Essas três visões moldam as atitudes das pessoas diante dos acontecimentos da vida. Nenhuma delas está certa ou errada por completo, pois tudo depende do contexto e da forma como cada um lida com suas próprias experiências. O importante é saber quando adotar uma postura mais otimista para seguir em frente, quando ser realista para tomar decisões conscientes e até mesmo quando o pessimismo pode servir de alerta para evitar riscos. Afinal, a vida é feita de perspectivas, e compreender diferentes formas de enxergar um simples copo de água pode nos ajudar a entender melhor a nós mesmos e aos outros.


By COC


domingo, 9 de fevereiro de 2025

Você é melhor hoje do que há 20 anos?

"Você mudou? Consegue mudar? É melhor hoje do que há 20 anos?

Tudo que vou narrar aqui ocorreu. Interessa-me a “moral da história” mais do que a identificação. Acompanhem.

Um rapaz trabalha em uma empresa e torna-se o braço direito do proprietário. O dono atende pelo nome de Francisco. O trabalhador é inteligente e dedicado. Como acontece por vezes, identifica-se com o lugar e passa a ter um foco similar ao do chefe. Trabalha mais de dez horas por dia e, em momentos-chave, atravessa a noite resolvendo questões. Sobe na hierarquia e cresce aos olhos do dono. Márcio (vamos chamá-lo assim) é o tipo ideal de colaborador.

O aumento expressivo da carga horária não é acompanhado de expansão salarial. O jovem, já casado, decide com a esposa abrir a própria e empresa. Genuinamente preocupado com o vazio de sua saída, comunica ao dono que terá, em seis meses, outro destino profissional. Considera o chefe um amigo e quer ajudar a treinar o substituto. Francisco recebe mal a notícia. O papel que deseja para o empregado é o de colaborador permanente. Márcio sai como “mais um” apenas.

Abrindo sua própria marca e ainda considerando o ex-chefe um amigo, pede conselhos e recebe frieza e silêncio. Não oferecendo mais seu sangue, torna-se irrelevante aos olhos do antigo contratante. Com dificuldades, o jovem segue a jornada. O ex-patrão nega apoio e ainda renega a importância de Márcio como ex-colaborador.

O tempo flui. Márcio cresce em parceria com Ana, sua companheira. Passam-se quinze anos. Do nada, recebe uma mensagem do primeiro chefe. O homem havia entrado em processo terapêutico com um psicólogo. Em meio a memórias e dores, o profissional recomendou a Francisco que pedisse perdão por coisas ruins que tivesse feito no passado. A consciência do ex-chefe é de que não apoiou o rapaz, explorou-o em excesso e, assim que Márcio decidiu crescer, abandonou-o como um qualquer. Francisco, mais velho, sente-se culpado. 

Na meia-idade, erros anteriores crescem e tornam-se mais amargos. O retrato de Dorian Gray do sótão fica mais feio.

Márcio recebe mal a mensagem. Primeiro, porque ainda tem mágoas. Depois, porque entende o óbvio: o chefe não o via naquela época e continua não o vendo agora. O egoísmo de Francisco é o mesmo, querendo apenas a reconciliação consigo. Como o jovem entende, é uma Des/Culpa, uma tentativa de expiar a própria culpa, não uma ida ao encontro de Márcio. Mais: sendo Márcio um sucesso atualmente, Francisco deseja ser considerado como parte ou alavanca do êxito atual. Não é uma penitência sobre o passado, é o mesmo coração duro que só enxerga a si. Francisco busca seu próprio benefício sempre: antes, como empreendedor; agora, como psicanalisado.

A resposta de Márcio é ponderada. Não oferece o perdão balsâmico. Apenas pede que o outro nunca mais pise em alguém ou abandone um amigo. Relembra como foi difícil e não concede o teatro do abraço fraterno, que acalmaria o outro.

A história é absolutamente real e ensina-nos muito. Francisco errou como eu e você, querida leitora e estimado leitor. Viver implica errar. Aprendemos, vezes muitas, e passamos a cometer equívocos em novos lugares com a sabedoria adquirida. O que vimos aqui é um processo complicado: é difícil saber se Francisco, de fato, arrependeu-se ou se, apenas agora, vendo o sucesso do ex-colaborador, quer algum tipo de mérito na trajetória do outro. Assemelha-se a um pai que, tendo expulsado o filho do lar, vê o rebento prosperar enormemente e reflete sobre seu ato pretérito. No fundo, o genitor gostaria do fracasso do filho, pois isso comprovaria a sabedoria da exclusão. Quando o mundo acolhe quem eu considerei indigno, demonstra meu equívoco. Ver afundar quem condenamos (ou não apoiamos) é um alívio para a maioria.

A primeira lição é: erros não remediados tendem a virar feridas complexas. Responder com frieza a quem ofereceu afeto e dedicação tem um custo alto que, macerado, ulcera. Segundo aprendizado: a desculpa não pode ser apenas para meu coração atormentado ou minha consciência inquieta. Deveria ser algo que, enfim, olhasse para o outro. Ouvi os áudios de Francisco.

Sou amigo de Márcio. Nada havia na voz que indicasse uma transformação daquele homem. Era um egoísta envelhecendo e com novos receios. Continuava um canalha. Lembrei-me de uma fala popular: “As cobras trocam de pele porque ficam maiores, não porque deixam de ser cobras”. O medo do inferno nunca fez alguém santo; tão somente o amor faz essa transformação.

Tudo tem seu tempo e sua hora? O momento de consertar é próximo da dor causada. A hora de refazer algo envolve entrega genuína e mudança efetiva.

A dúvida é válida: alguém deixa de ser o que era? De verdade? Não gosto de receitas fixas ou de modelos universais. Faço a mim, com esperança, a pergunta que transmito às leitoras e leitores: você mudou? Você consegue mudar? Você é melhor hoje do que há 20 anos? Boa semana a todos que se incomodam com o passado e ainda conseguem ter coração humano."

 

Leandro Karnal - Historiador, escritor, membro da Academia Paulista de Letras e autor de ‘A Coragem da Esperança’ entre outros. - O Estado de São Paulo – Cultura & Comportamento – Edição de 09/02/2025