segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Sobre caminhadas e cabrestos

"Em 515 anos de história o Brasil pós-cabralino foi atravessado por toda espécie de vícios, do patrimonialismo ao mandonismo, típicos de uma sociedade que se erigiu sob o signo da violência, tanto por parte de seus colonizadores quanto por parte das elites formadas em seu solo.
O alvo dessa violência todos nós conhecemos: o povo, o mesmo povo que, na visão de muitos analistas, saiu do ovo há poucas décadas, constituindo uma garatuja de traços frágeis e pouco definidos. Mesmo que consideremos o inegável avanço dos últimos decênios, marcados pela experiência democrática, há muito a ser feito no sentido de plasmar a cidadania e possibilitar aos eleitores uma participação mais efetiva nos processos políticos que, bem ou mal, dão rumo ao país.
Como realizar essa tarefa hercúlea sem investir em educação? Qualquer país que se pretenda democrático tem a obrigação de formar o povo, isto é, dar-lhe os instrumentos necessários ao exercício da cidadania. Assim não sendo, ele continuará apenas um esboço, uma mera expressão nos discursos políticos, dos mais esdrúxulos aos mais polidos, com vistas a angariar votos.
Dado o contexto do mundo contemporâneo, não é mais possível nem desejável que as elites brasileiras continuem a reproduzir velhas fórmulas de dominação, restringindo o espaço de participação política, tocando a massa amorfa como boiada. Precisamos de uma vez por todas nos livrar desta persistente herança coronelista  e elitista que atravanca a democracia.
Quem sabe  assim possamos vivenciar um protagonismo autêntico, rompendo com esse arcaísmo atávico e pesaroso que, embrenhado de vilanias e truculências diversas, se exprime na forma de exclusão material e cultural. Trata-se, pois, de escolher entre fixar o olhar no passados uno futuro.
Prefiro olhar o horizonte longínquo que, como diz Eduardo Galeano, nos obriga a andar para frente. No entanto, isso não significa não voltar a cabeça para trás para perceber o quanto nos deslocamos, mesmo porque isso seria um sinal de que ainda não nos livramos completamente dos velhos cabrestos.
O movimento do olhar é o termômetro de nossa real liberdade para caminhar."
 
Sidnei Ferreira de Vares
Professor da UNIFAI

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