Ele tinha sua opinião:
- A gente vive, em média, 60 ou 70 anos. Mas a morte dura para sempre. Por que vou fazer planos para uma vida tão curta, se posso fazer planos para a morte eterna?
Os parentes ficaram preocupados, temendo que ele cometesse alguma loucura. Não adiantavam argumentos, não lhe influenciavam conselhos. Tonho queria uma morte grandiosa, televisionada e eternamente memorizada. Queria que ditados fossem reformulados: “Melhor morrer como um Tonho do que viver como um veado”. Uma placa em sua homenagem. Marchas comemorativas. Feriado municipal.
No dia em que entraram em seu quarto e descobriram planos para sua “morte gloriosa” cuidadosamente registrados, os parentes decidiram pela internação. Os enfermeiros, a princípio, precisaram arrastá-lo para fora do apartamento. Apenas “a princípio”, porque assim que percebeu que resistindo, poderia cair, bater com a cabeça e morrer – uma morte indigna, pobre e sem graça – Tonho acabou colaborando com os enfermeiros. Até mesmo acautelou-os, enquanto saiam da portaria para a ambulância:
- Cuidado com o degrau!
Uma semana após o internamento de Tonho, houve um terrível incêndio no hospício. Em poucos minutos, o prédio todo estava em chamas. Bombeiros, curiosos, a equipe da TV – uma multidão ao redor do hospício. E de repente, de entre as fumaças negras, surge um homem franzino carregando um interno para fora do prédio tomado pelas labaredas. É o Tonho! Desespero da família e dos amigos. Mas Tonho não atende aos pedidos de ninguém, nem às ordens dos bombeiros: a cada interno trazido para fora, ele investe destemido prédio adentro para salvar mais um (mas não antes de dar um aceno e um sorriso para a equipe de televisão). Logo, todos os internos e funcionários estão a salvo… exceto Tonho, que ainda permanece dentro do prédio. Os bombeiros tentam controlar o fogo e salvar o “Salvador”, como já fora batizado nas chamadas ao vivo na televisão. Mas todo o derradeiro esforço prova-se vão. Tonho ainda aparece na janela do andar superior, como um deus grego saído de alguma epopéia, com um sorriso confiante nos lábios, acenando para a multidão. A última coisa que se vê em Tonho, antes de ser subvertido pela fumaça negra e pelas labaredas, é a expressão dum homem realizado.
Com o passar dos anos, a rua do hospício ganhou o nome de Antônio Cerqueira da Silva. O próprio hospício mudou seu nome para Centro de Recuperação Antônio Cerqueira. Um busto seu foi colocado em uma praça, e no aniversário de sua morte, até o dia de hoje, soltam-se rojões em sua homenagem.
Mas os parentes podiam jurar – muito embora sempre tenham feito silêncio sobre o caso – que nas fotos em que o Tonho aparece na janela, no andar superior, enquanto acena para a multidão, ele ostenta em uma das mãos, como se fosse um troféu, um modesto e discreto isqueiro."
Juliano Martinz


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