terça-feira, 24 de setembro de 2019

Assim de ladinho



"Não, não foi ela quem teve a ideia de arrumar meus livros pelo critério cor & tamanho, criando assim um harmonioso caos do qual levei tempo para sair, conforme contei na semana passada.
Também não é a mesma que me pedia para comprar detergente ou sabão em pó quando fosse ao "espermercado". Nem a outra que, depois de me contar que o marido, além de desempregado, andava agora pelos cantos, na maior tristeza, marcou posição, enfática: "Eu sou contra a depressão!". E muito menos se trata daquela que, insatisfeita com o desempenho libidinal do novo namorado, em permanente modo avião, queixou-se de que ele não fazia ''volume'',
diferentemente do anterior, que só de vê-la "ficava todo enfeitado".

Para começar, a doce e eficiente criatura que tenho em casa duas vezes por semana, já faz anos, não pertence ao gênero declaratório das supracitadas. E muito menos, benza Deus, ao gênero canoro de uma antiga faxineira do vizinho de baixo, incapaz de abrir torneira ou gás sem abrir também a goela e fazer jorrar, com voz esganiçada, alguma cantaria religiosa, dessas de levar à exasperação, não sei se o Senhor nas Alturas, mas certamente este senhor aqui em cima.

Uma das benditas marcas da empregada (desculpe a crueza do rótulo, mas ainda não consegui aderir ao "secretária do lar", equivalente doméstico do "colaborador" das empresas modernas), eu dizia, da empregada que tenho a imerecida sorte de abrigar sob o meu teto é justamente um silêncio de monja, de monja das antigas, do tempo da missa em latim, sem espevitação de noviça rebelde. .

Entre o bom-dia e o boa-tarde, mal ouço a sua voz. Na verdade, por pouco também quase não a vejo, fiapo de gente a deslizar de lá para cá um corpinho esguio e esquálido que, quando de perfil, sugere o mapa do Chile.

Desta cadeira do escritório, olhos fincados no retângulo luminoso de que sou escravo, às vezes custo a perceber que ela, discreta e silenciosa, estacionou sob o marco da porta, à espera de um segundo em que eu suspenda o trabalho e volte os olhos na sua direção, para só então, sorridente e tartamuda, comunicar que em algum dos vasos da área de serviço, ou do peitoril da janela da sala, temos uma iminência de flor. Em três ocasiões, como já contei, a novidade era mais do que uma flor: era um pequeno abacaxi, abacaxi doméstico, felizmente sem sentido figurado, que semanas adiante haveríamos de saborear, ela e eu, não sem antes, ainda íntegro, ser documentado em foto, de modo a fazer prova junto a amigos e parentes que a inveja torna incrédulos.

Eu até gostaria, que ela fosse, de vez em quando, contadeíra de causos como algumas que tive em casa, loquacidade que, como se vê, pode render matéria-prima para cronistas à míngua de assunto. Mas nosso papo não progride. Em parte, porque esta senhora nada boba, ao contrário, bem matreira, cuja idade nunca tive coragem de perguntar, jamais discorda de algo que lhe diga o dono da casa, por absurdo que seja. Trata-se, nesse particular, de uma caricatura extremada da tal conciliação mineira. Amostra de diálogo mil vezes repetido quando vou à área de serviço para conferir o céu:

- Estou achando que vai chover.
- Ah, vai mesmo, agorinha!
-Se bem que daqui a pouco o tempo pode abrir.
- Ah, com certeza abre! - concorda ela, e encerra a conversa: - Vem um vento dos bão e abana essas nuve ...
 
 Fosse ela aqui a escrever, não eu, e o personagem da crônica, não menos burlesco, seria um senhor incapaz de sair para a rua sem voltar em seguida, não raro mais de uma vez, qual patético ioiô humano, para buscar alguma coisa que na primeira tentativa esqueceu de levar.

Custei a compreender como estilo de decoração aquilo que no começo me parecia decorrer de acidente ou descuido: depois de sua passagem, haverá sempre algum móvel ou objeto posto em posição enviesada. Não se trata de algo casual; pertence à mesma natureza do impulso que leva um camarada meu, o Jônatas, a dispor tudo lado a lado, arrumadinho, simétrico, naquilo que nós, seus amigos, batizamos de Universo Paralelo, Dizem que não pega no sono se os chinelos, ao lado da cama, não estiverem obedecendo ao mais rigoroso paralelismo, prontos para caminhar rumo ao infinito sem jamais se tocarem,

Outro dia soube que o arranjo enviesado de minha faxineira está longe de ser exclusividade sua, Contei numa roda e pipocaram depoimentos idênticos – o que me animou a sugerir que se dê nome ao estilo em questão:' menesguei. '

A palavra, cuja origem desconheço, ainda não está nos dicionários convencionais, mas já comparece na internet, para designar modo ou jeito de quebrar alinhamento ou simetria: de lado, de ladinho, de banda, de soslaio, de viés, de esguelha, de través. Vale também para manhas de gente que, não querendo dar bandeira, trata de olhar de menesguei alguma pessoa ou cena.

Mas já chega de conversa. Hora de sair - de sair assim de ladinho em homenagem à minha faxineira, agora também personagem, mesmo que seja para voltar em seguida, como costuma acontecer, atrás de alguma coisa que esqueci de levar."
 
 
Humberto Werneck
Jornal "O Estado de São Paulo"
24/09/2019




quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Só hoje


"E se hoje, apenas hoje, exclusivamente no momento em que começou a ler esta coluna, começasse uma fase completamente diferente da sua vida, um instante a partir do qual você recusaria convites que nada acrescentam, com pessoas que dizem sempre mesma coisa, indo aos mesmos lugares e fotografando sem parar tudo porque nada acontece de verdade? Se apenas no glorioso dia em curso você se assumisse sem culpa cedendo ao inesperado, sem ser o que o mundo desenha para sua pessoa há anos? Se exclusivamente agora fizesse algo que adia sempre? Apenas no rico e atual instante tudo ocorresse sem ser por um roteiro alheio que você incorporou como o educado, o correto, o adequado, aquilo que lhe faz amada ou amado? E se conseguisse dizer que o valor “chave” para ser querido tornou você um ser apenas previsível, domesticável, adestrável, limpa ou limpo, palatável para padrões que você nem imagina se são seus ou não porque jamais foram questionados?
No lindo dia adiante, existe a primeira e espetacular chance de pensar se o rumo está correto, se sua função profissional trouxe o que esperava, se suas relações afetivas funcionam e se a maneira de você utilizar seu tempo faz crer em vida e não em ampulheta automática que está se esgotando?
Um dia, como pensou Thoreau, para ir ao "tutano das coisas", para saber que vale a pena o resto da sua biografia, uma ocasião para não prestar contas, evitar fórmulas desgastadas e essa data para deixar de ser fora de si. Só exclusivamente hoje, como imaginam os sábios métodos dos Alcoólicos Anônimos, só pela jornada até a meia-noite você acordasse em outra versão de si próprio, incorporando o que nunca conseguiu expressar, vivendo, intensamente, aproveitando, apenas?
E se, finalmente, entendesse agora que não pode mudar o mundo de acordo com sua vontade, que cada um segue seu caminho e seu ritmo e que quando concordam ou discordam de você nada disso tem relação com suas atitudes ou conselhos. Se apenas agora você imaginasse o mundo como algo dado e que não será redimido com sua pressa, com sua impaciência, com sua raiva ou com sua boa intenção? E se somente agora você decidisse por um lema para deixar as coisas seguirem, que vai do "che sera sera" a "hakuna matata", de "deixa a vida me levar, vida leva eu" ao mais sábio de todos os lemas, o mais grandiloquente, o mais retumbante por todos os séculos: o silêncio?
E se hoje a insanidade alheia não o incomodasse, se o cara que buzina parecesse um ser que precisa transferir raiva de uma vida humilhante para o trânsito, se os grunhidos  dos transeuntes fossem sons de pessoas solitárias, fingindo ocupação em seus celulares? E se apenas no instante em curso você entendesse que nada existe a ser feito por aqueles que precisam ainda trilhar muito e que você não é mais ou menos do que eles, apenas não tem a chave para a descoberta alheia? Que dia seria este?
Finalmente, se toda a gritaria ao seu redor cessasse e você ouvisse sua voz, aquela apagada, profunda, estranha pela raridade, a que responde por você e não pelo filho que sua mãe esperava, pela esposa que seu marido pede ou pelo pai que a propaganda insiste que você seja? E se hoje você atendesse pessoas no consultório, desse aulas na escola, dirigisse seu táxi, varresse calçadas ou administrasse empresas pensando que o máximo da sua capacidade é insuficiente para muitos, mas suficiente para você?
Se as horas que restam do dia em curso fossem usadas para fazer algo significativo e adiado há tempo sob vários pretextos? Se aquela vida nova não fosse postergada mais, porém, subitamente, começasse agora. Se os sonhos não fossem mais empurrados e se a vida imaginada desse seu primeiro passo após essas poucas linhas?
E se agora fosse o momento certo de parar de escrever melhor o roteiro da sua vida e começasse a frase do diretor: ação? E agora, você chutaria a bola em direção ao gol, parando de pensar na velocidade do vento, no olhar hostil do goleiro e na vastidão da trave? Se fosse o momento de fazer e a estratégia tivesse como novo nome o aqui e agora?
Que dia glorioso seria! Não a jornada de fogos de artifício e de elogios, de aprovação geral com suas boas ações. Não! Seria exatamente o oposto: o mundo no qual você não mais esperaria espetáculos pirotécnicos ou aplausos. Em que errar seria verbo positivo, necessário, sinônimo de vaguear. Sua vida deixaria de ser um show de domingo em caça de ibope e os atos seguiriam sua consciência tranquila. Que dia! Que jornada gloriosa e inovadora! Que espaço revolucionário de horas estaria aberto diante de sua vida!
Entretanto, como você não tem mais 11 anos de idade, sabe que tais dias são raros. O comum é seguir levando, vendo como as coisas se desenrolam, reagindo a coisas maiores, exclamando o mesmo sempre e fotografando muito para ninguém. E chegarão os dias depois de hoje com a mesma e repetitiva carga de compromissos que você, como pessoa responsável e confiável, cumprirá com desvelo. E tudo se repetirá até o fim. Um dia, cercado(a) de parentes e colegas zelosos, sua lápide registrará que ali jaz alguém que consumiu todos os dias existindo apenas. Foi exemplar, dirão todos, sem especificar exemplos. Deixou de existir sem nunca ter sido, pensarão os mais críticos. É preciso ter esperança, ao menos no dia de hoje que, em horas, terá passado para sempre."
 
 
Leandro Karnal - Jornal o Estado de São Paulo - 21/08/2019
 

domingo, 10 de março de 2019

Buscamos o princípio de tudo

"Nada é permanente, exceto a mudança"
(Heráclito de Éfeso, filósofo)



"A essência de todas as coisas está nas pequenas atitudes, nos pequenos gestos e no que fazemos em nosso cotidiano. Está no olhar para a vida como algo precioso e finito. Dar valor ao que se tem e não somente aos bens materiais.

Quem já porventura não leu o clássico infantil "0 Pequeno Príncipe" publicado em 1943, por Antoine de Saint-Exupéry. Ele certamente reúne grandes histórias e lições de vida.

A primeira delas é que devemos nos reconectar com a nossa criatividade da infância. Adultos, por muitas vezes, preferem números e ideias, mas se esquecem de olhar além, deixar fluir e ser criativo e imaginativo.


 Em segundo plano, precisamos ser menos sérios. Estudos afirmam que não há nada melhor do que uma boa gargalhada para levantar o ânimo e melhorara qualidade de vida.

Dar um tempo a si mesmo também é importante para achar o caminho para a felicidade. Para isso, você precisará dar-se um tempo para se desconectar do trabalho e das questões do dia a dia. E apreciar cada minuto que passa como se fosse único.

Também é preciso ter coragem para sair da "zona de conforto" e arriscar mais. Devemos usar o tempo que temos para ter experiências diferentes, conhecer novas pessoas, viajar pelo mundo, enfim, explorar as possibilidades que nos rodeiam. Afinal, adaptar-se às mudanças nos ajuda a sermos mais afiados e atentos.

Por fim, é melhor escolher com o coração. Usar a intuição ajuda a equilibrar as decisões entre razão e instinto; entre razão e emoção.

Vamos nos dedicar as amizades verdadeiras e a fazer da nossa vida uma experiência rica e plena. O ser humano em sua essência busca o amor, busca a felicidade, busca Deus e acaba, mesmo sem perceber, às vezes, que todas essas buscas são a busca de si mesmo; da alma que quer sempre evoluir.

Você abraçou um ente querido hoje e já disse que o ama? Já doou uma parte do seu tempo a uma obra de caridade? Disse aos seus amigos o quão importantes são?

Não percamos mais tempo pensando em crises futuras.

Vamos fazer nosso melhor hoje e quem sabe, talvez, o mundo se transforme em um lugar muito melhor e mais prazeroso para se viver."



Editorial do Correio dos Bairros
São Bernardo do Campo - SP
Março/19 - Edição 51


 

domingo, 20 de janeiro de 2019

O que significa "No frigir dos ovos"?

"Não é a toa que os estrangeiros acham nossa língua muito difícil. Como a língua portuguesa é rica em expressões. Veja o quanto o vocabulário "alimentar" está presente nas nossas metáforas do dia-a-dia. Aí vai.
Pergunta:
- Alguém sabe me explicar, num português claro e direto, sem figuras de linguagem, o que quer dizer a expressão "no frigir dos ovos"?
Resposta:
- Quando comecei, pensava que escrever sobre comida seria sopa no mel, mamão com açúcar. Só que depois de um certo tempo dá crepe, você percebe que comeu gato por lebre e acaba ficando com uma batata quente nas mãos. Como rapadura é doce mas não é mole, nem sempre você tem idéias e pra descascar esse abacaxi só metendo a mão na massa. E não adianta chorar as pitangas ou, simplesmente mandar tudo às favas. Já que é pelo estômago que se conquista o leitor, o negócio é ir comendo o mingau pelas beiradas, cozinhando em banho-maria, porque é de grão em grão que a galinha enche o papo. Contudo é preciso tomar cuidado para não azedar, passar do ponto, encher linguiça demais. Além disso, deve-se ter consciência de que é necessário comer o pão que o diabo amassou para vender seu peixe. Afinal não se faz uma boa omelete sem antes quebrar os ovos. Há quem pense que escrever é como tirar doce da boca de criança e vai com muita sede ao pote.
 Mas como o apressado come cru e quente, essa gente acaba falando muito abobrinha, são escritores de meia tigela, trocam alhos por bugalhos e confundem Carolina de Sá Leitão com caçarolinha de assar leitão. Há também aqueles que são arroz de festa, com a faca e o queijo nas mãos, eles se perdem em devaneios (piram na batatinha, viajam na maionese... etc.). Achando que beleza não se põe na mesa, pisam no tomate, enfiam o pé na jaca, e no fim quem paga o pato é o leitor que sai com cara de quem comeu e não gostou. O importante é não cuspir no prato em que se come, pois quem lê não é tudo farinha do mesmo saco. Diversificar é a melhor receita para engrossar o caldo e oferecer um texto de se comer com os olhos, literalmente. Por outro lado se você tiver os olhos maiores que a barriga o negócio desanda e vira um verdadeiro angu de caroço. Aí, não adianta chorar sobre o leite derramado porque ninguém vai colocar uma azeitona na sua empadinha, não. O pepino é só seu, e o máximo que você vai ganhar é uma banana, afinal pimenta nos olhos dos outros é refresco.... A carne é fraca, eu sei. Às vezes dá vontade de largar tudo e ir plantar batatas. Mas quem não arrisca não petisca, e depois quando se junta a fome com a vontade de comer as coisas mudam da água pro vinho. Se embananar, de vez em quando, é normal, o importante é não desistir mesmo quando o caldo entornar. Puxe a brasa para a sua sardinha, que no frigir dos ovos a conversa chega na cozinha e fica de se comer rezando. Daí, com água na boca, é só saborear, porque o que não mata engorda.
Entendeu o que significa "no frigir dos ovos"?"