"E se hoje, apenas hoje, exclusivamente no momento em que
começou a ler esta coluna, começasse uma fase completamente diferente da sua vida,
um instante a partir do qual você recusaria convites que nada acrescentam, com
pessoas que dizem sempre mesma coisa, indo aos mesmos lugares e fotografando
sem parar tudo porque nada acontece de verdade? Se apenas no glorioso dia em curso
você se assumisse sem culpa cedendo ao inesperado, sem ser o que o mundo
desenha para sua pessoa há anos? Se exclusivamente agora fizesse algo que adia
sempre? Apenas no rico e atual instante tudo ocorresse sem ser por um roteiro
alheio que você incorporou como o educado, o correto, o adequado, aquilo que
lhe faz amada ou amado? E se conseguisse dizer que o valor “chave” para ser querido
tornou você um ser apenas previsível, domesticável, adestrável, limpa ou limpo,
palatável para padrões que você nem imagina se são seus ou não porque jamais
foram questionados?
No lindo dia adiante, existe a primeira e espetacular chance
de pensar se o rumo está correto, se sua função profissional trouxe o que
esperava, se suas relações afetivas funcionam e se a maneira de você utilizar
seu tempo faz crer em vida e não em ampulheta automática que está se esgotando?
Um dia, como pensou Thoreau, para ir ao "tutano das
coisas", para saber que vale a pena o resto da sua biografia, uma ocasião
para não prestar contas, evitar fórmulas desgastadas e essa data para deixar de
ser fora de si. Só exclusivamente hoje, como imaginam os sábios métodos dos
Alcoólicos Anônimos, só pela jornada até a meia-noite você acordasse em outra
versão de si próprio, incorporando o que nunca conseguiu expressar, vivendo,
intensamente, aproveitando, apenas?
E se, finalmente, entendesse agora que não pode mudar o
mundo de acordo com sua vontade, que cada um segue seu caminho e seu ritmo e
que quando concordam ou discordam de você nada disso tem relação com suas atitudes
ou conselhos. Se apenas agora você imaginasse o mundo como algo dado e que não
será redimido com sua pressa, com sua impaciência, com sua raiva ou com sua boa
intenção? E se somente agora você decidisse por um lema para deixar as coisas
seguirem, que vai do "che sera sera" a "hakuna matata", de
"deixa a vida me levar, vida leva eu" ao mais sábio de todos os
lemas, o mais grandiloquente, o mais retumbante por todos os séculos: o
silêncio?
E se hoje a insanidade alheia não o incomodasse, se o cara
que buzina parecesse um ser que precisa transferir raiva de uma vida humilhante
para o trânsito, se os grunhidos dos
transeuntes fossem sons de pessoas solitárias, fingindo ocupação em seus celulares?
E se apenas no instante em curso você entendesse que nada existe a ser feito
por aqueles que precisam ainda trilhar muito e que você não é mais ou menos do
que eles, apenas não tem a chave para a descoberta alheia? Que dia seria este?
Finalmente, se toda a gritaria ao seu redor cessasse e você
ouvisse sua voz, aquela apagada, profunda, estranha pela raridade, a que
responde por você e não pelo filho que sua mãe esperava, pela esposa que seu
marido pede ou pelo pai que a propaganda insiste que você seja? E se hoje você
atendesse pessoas no consultório, desse aulas na escola, dirigisse seu táxi,
varresse calçadas ou administrasse empresas pensando que o máximo da sua
capacidade é insuficiente para muitos, mas suficiente para você?
Se as horas que restam do dia em curso fossem usadas para
fazer algo significativo e adiado há tempo sob vários pretextos? Se aquela vida
nova não fosse postergada mais, porém, subitamente, começasse agora. Se os sonhos
não fossem mais empurrados e se a vida imaginada desse seu primeiro passo após
essas poucas linhas?
E se agora fosse o momento certo de parar de escrever melhor
o roteiro da sua vida e começasse a frase do diretor: ação? E agora, você
chutaria a bola em direção ao gol, parando de pensar na velocidade do vento, no
olhar hostil do goleiro e na vastidão da trave? Se fosse o momento de fazer e a
estratégia tivesse como novo nome o aqui e agora?
Que dia glorioso seria! Não a jornada de fogos de artifício
e de elogios, de aprovação geral com suas boas ações. Não! Seria exatamente o
oposto: o mundo no qual você não mais esperaria espetáculos pirotécnicos ou
aplausos. Em que errar seria verbo positivo, necessário, sinônimo de vaguear. Sua
vida deixaria de ser um show de domingo em caça de ibope e os atos seguiriam
sua consciência tranquila. Que dia! Que jornada gloriosa e inovadora! Que
espaço revolucionário de horas estaria aberto diante de sua vida!
Entretanto, como você não tem mais 11 anos de idade, sabe
que tais dias são raros. O comum é seguir levando, vendo como as coisas se desenrolam,
reagindo a coisas maiores, exclamando o mesmo sempre e fotografando muito para
ninguém. E chegarão os dias depois de hoje com a mesma e repetitiva carga de compromissos
que você, como pessoa responsável e confiável, cumprirá com desvelo. E tudo se
repetirá até o fim. Um dia, cercado(a) de parentes e colegas zelosos, sua lápide
registrará que ali jaz alguém que consumiu todos os dias existindo apenas. Foi
exemplar, dirão todos, sem especificar exemplos. Deixou de existir sem nunca
ter sido, pensarão os mais críticos. É preciso ter esperança, ao menos no dia
de hoje que, em horas, terá passado para sempre."
Leandro Karnal - Jornal o Estado de São Paulo - 21/08/2019


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