"Você está instalado confortavelmente no ventre da mãe, que
lhe provém de tudo, no morno entorno do útero, e ainda assim, de vez em quando
lhe dá uns coices.
Você começou de um ovo, com a união do espermatozoide com o óvulo. A princípio,
era uma coisa insignificante, e chegou a ser quase um peixe, com guelras. Foi
evoluindo para a forma humana, enquanto a barriga da mãe também estufava cada
vez mais.
Até que nove meses depois (ou menos, para alguns apressadinhos), começaram em
torno de você uns empurrões para botá-lo para fora, quando não sabia ainda que
havia um fora, mas só um dentro. Os empurrões tornaram-se insuportáveis, até
que você botou a cabeça para fora, e alguém o agarrou pelo pescoço e pelos
ombros e o arrancou do lugar onde você estava antes tão bem.
Este parteiro, ou parteira, ainda por cima, segurando-o pelos pés, dá-lhe umas
palmadas na bunda, para que você chore e respire. Foi a primeira agressão que
você sofreu, das muitas que receberá ainda durante o resto da vida.
Cortaram-lhe então o cordão umbilical e o amarraram, para que você se
desligasse de sua mãe, que estava inundada de suor e gemia. Limpado, foi
embrulhado e posto nos braços da mãe, que logo lhe ofereceria os seios
túrgidos, para que você mamasse.
Mais alguns dias, e você já mama com furor, o leite escorrendo da boca, e ainda
dá umas cabeçadas naqueles seios, para que saia mais leite. Depois, outra
palmadinha nas costas, e você arrota. É um menino! Ou é uma menina! gritaram as
pessoas em torno. E você quase imediatamente recebe um nome que não escolheu, e
tão desastrosamente às vezes escolhido, que você o carregará com vergonha pelos
anos a fora.
Principia então suportar a burocracia em que estará envolvido durante anos e
anos: você vai ser registrado no Cartório das Pessoas Naturais, e batizado numa
igreja e numa religião de que nunca ouviu falar.
Ainda bem que, nos primeiros meses, você apenas mame, dorme, chore e desperte.
E começa então a enxergar. Vê vultos ao seu redor, e que logo se delinearão, e
você reconhece primeiramente a sua mãe, pelo seu cheiro, e pelo calor de seu
corpo.
Escuta barulhos, estouros e, para acalmá-lo, metem-lhe um bico de borracha na
boca, até, que já mais crescidinho, retiram-lhe o bico, e você vai aprendendo
confusamente que a vida é uma negação das coisas de que gostava.
As pessoas então começam a ensiná-lo a falar a sua língua, as palavras. Você
aprende o alemão, o francês, o italiano, ou o português, conforme o lugar em
que nasceu. Aprende também palavrões, mas imediatamente o repreendem ou lhe dão
palmadas, se os repetir.
Você já se arrasta pelo chão e, logo mais, começará a ficar de pé, como os
outros. Enquanto isso, inábil, leva tombos.
Já enxerga, fora, as árvores, os passarinhos; vê a chuva que cai; sente o
calorão do Verão e o frio do Inverno. Vestem-no de roupa.
Familiariza-se com os bichos, com o cachorro, com o gato, com as galinhas e com
o galo. Também, já está comendo, às colheradas, papinhas, pois o leite dos
seios da mãe vai sendo cortado. Recebe presentes, como o ursinho de pelúcia.
Recebe também beliscões inexplicáveis. É-lhe imposto saber que existem regras a
ser observadas, e que você não o fez. É proibido mijar na cama.
Alguns anos a mais, você é levado à escola, para aprender besteiras. Mais tarde
ainda, ouvirá falar do Binômio de Newton, e da hipotenusa. E terá de se
defender dos meninos mais crescidos, que o agridem.
Já então, sabe ler e escrever, e escreve nos muros.
De calças compridas, admoestam-no de que é preciso trabalhar, para viver. E se
você recalcitra, exclamam: “Vá trabalhar, vagabundo!” E chegam a botá-lo para
fora de casa.
Terá então sabido que existe o sexo. Que você tem um pênis ou uma vagina. Que
há o tal de orgasmo, e que é assim também que se fazem os filhos.
Você encontrou uma sociedade já constituída, e um Estado. Está sujeito a ele, à
polícia, ao patrão. A ordem é obedecer.
Há também o pecado e outras restrições. Ameaçam-no com o inferno. E há doenças
inevitáveis, e o envelhecimento.
E você afinal morre, sem ter aprendido muito bem esta dura arte de viver."
Aníbal Augusto da Gama


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