domingo, 21 de maio de 2023

O preço de mentir ou dizer a verdade

 “Um ditado brasileiro: “A mentira tem perna curta”. Os americanos afirmam que o defeito é mais grave: “A lie has no legs/A mentira não tem pernas”. Reconheçamos que, tendo pernas curtas ou arrastando-se sem elas, a mentira anda. Por andar, compensa imediatamente. Claudicante ou reduzida, movendo-se para bem perto ou por outras metáforas, ela vai e, indo, resolve o problema do momento.

Quando eu minto, não penso em ir ao Nepal... Basta que a falsidade me retire daquele momento e lugar imediatamente. O mentiroso não busca uma estratégia de longo prazo ou uma viagem distante, quer apenas sair do aperto. A mentira não é uma ponte bem construída para outro território: é simplesmente uma boia feia em um mar revolto. Sim, pernas curtas, entretanto a competição não coloca em jogo a medalha de ouro dos cem metros rasos. Basta sair dali...

E a verdade brilha soberana com suas pernas de Ana Hickmann. Orgulhosa, a verdade anda à luz do dia e vai aonde deseja, mesmo sem convite claro. Foi louvada por Jesus: “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. É imortal: quando esmagada por ditaduras, recolhe-se ao fundo de um calabouço e, no momento certo, ressurge gloriosa.

A mentira claudicante tem um preço. Quero trazer um dado incômodo: a verdade não é gratuita e, algumas vezes, custa mais. A mentira varia no bandejão das almas e depende do tamanho para avaliar seu custo. A verdade é quase sempre cara. 

Na política, a verdade é a morte: “Terminou a carreira do deputado? Sim, morreu de sincericídio”. Nas relações amorosas, a verdade tem o poder da pimenta-malagueta: pode enriquecer ou invalidar um prato. No mundo do trabalho, a sinceridade absoluta entra em choque com o organograma do poder. Vista de cima implica processo de assédio e, emergindo das bases, elimina a carreira no lugar. Destruidora de currículos e de lares, a verdade seria desejável?

Foi dito que a polarização política semeou a cizânia em muitas famílias. Pode ser. Camisetas vermelhas ou verde-amarelas enfrentaram maiores obstáculos para compartilhar o mesmo peru de Natal. Agora imagine o levantar do véu político e a exibição da verdadeira crítica que a disputa petista-bolsonarista mais velou que revelou. Imagine que os ódios eram anteriores e que, embasados em ideologias de direita ou de esquerda, apenas encontraram apoio externo a lutas intestinas. Aquele tio sempre foi um homem com ideias ofensivas ao artigo 5.º da nossa Constituição. Vovô emitia opiniões inafiançáveis ou imprescritíveis desde o tricampeonato do futebol brasileiro no México. O que mudou foi a lei, mas não o caráter do patriarca.

Creio que ficou até mais fácil reduzir o atrito ao mundo bipolar. Mais simples contemplar um Muro de Berlim doméstico do que dizer a verdade. Muito antes de Lula ou de Bolsonaro, tudo era assim. Tudo sempre foi assim: apenas mentíamos melhor, mais e com menos pudor.

A mentira custa, a verdade também. É preciso invocar o melhor dos Evangelhos ou da Ética de Aristóteles para ficar ao lado da verdade. Dizer tudo que pensamos (que não implica sequer dizer a verdade, já que meu pensamento não é sinônimo dela) é tão devastador como mostrar o rosto da Górgona. Ser educado é mentir quase o tempo todo. Conviver em família sempre implicará grupo B, C, D de WhatsApp, sem uma pessoa.

Fofocar é sempre mentir, mesmo quando o tema for real. É faltar com a verdade, porque implicará silêncio sobre o teor da fofoca com a única pessoa interessada. Ao reencontrá-la, sorrimos, cinicamente. Ninguém sai da fofoca e, encontrando o alvo, dirá: “Nossa, acabamos de falar de você, criticamos sua roupa, seu corpo, seus casos e sua orientação sexual”. Quanto pior a detração, mais rasgado será o sorriso posterior com a pessoa atacada.

“Traí minha esposa, traí meu marido. Devo contar?” Existem a resposta do teólogo honesto e a resposta do cínico confesso. O primeiro dirá: “Sempre!”. O outro reforçará o pior em nós, falando relativismos: “Quem não trai? Esconda!”. Ambos são comprometidos com um princípio geral em relação à verdade e à mentira. Sempre diga/nunca fale seriam cara e coroa de uma moeda de mesmo metal! Eu, que não sou teólogo nem cínico contumaz, diria: “Depende! Do quê? Do preço que você pode ou quer pagar”.

Há dez anos, você traiu, mas nunca mais repetiu, foi um deslize, o casamento oficial seguiu bom e produtivo. Quer demolir o prédio por causa da pedra mal posta? Você pode ouvir o teólogo correto e o cínico convicto. Pode também ponderar por si e sem princípios absolutos. Não é um conselho direto: trata-se de uma avaliação subjetiva e individual.

“Sou gay. Devo dizer aos meus pais? Colei em uma prova da faculdade. Devo invalidar meu diploma obtido há alguns anos? Estacionei em lugar proibido. Devo me apresentar ao departamento de trânsito e exigir uma multa póstuma?” Para casos grandes e pequenos, sempre uma planilha de custos deve ser avaliada. “Leandro! Isso é cinismo puro! Eu jamais menti.” Fico feliz, nunca conheci uma pessoa de outro planeta. “Prazer, sou daqui da Terra mesmo.” A esperança é mais barata”.

 

LEANDRO KARNAL

HISTORIADOR, ESCRITOR, MEMBRO DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS

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