No primeiro triênio, a harmonia tinha reinado ao lado do desejo. Acertaram-se na sala e na cama. Acarinhavam-se. Incendiavam-se. A sogra do marido reconhecia que eles se pareciam com a música Côncavo e Convexo, de Roberto Carlos: “Cada parte de nós tem a forma ideal / Quando juntas estão, coincidência total / Do côncavo e o convexo / Assim é nosso amor no sexo”. Como um jogo de Lego, a peça de um tinha encontrado o perfeito encaixe no outro.
Veio o pequeno Jorge. A alegria renovou-se, mas... o desemprego de seis meses do marido trouxe a erosão das poucas economias. A casa foi assaltada, para piorar o quadro de amarguras. Quem se havia esquecido de trancar bem todas as portas? A imprecisão da culpa envenenou a relação.
Pouco dinheiro e um filho que demandava coisas combinavam-se para arranhar a beleza original da dupla. Ricardo, enfim, voltou a trabalhar. Havia dias bons, todavia um pouco de ressentimento tinha entrado sob a soleira, como o chorume de uma matéria viva de outrora. Por mais que ignorassem, havia algo de podre naquele pequeno reino.
Dispostos por orgulho e por pressão familiar a manter a família, seguiam juntos. A sociedade conjugal que antes deslizava como um navio em lago tranquilo avançava, agora, a remo forçado. Os silêncios tinham aumentado; o sexo conhecia espaçamentos frequentes. O endereço dos corpos era o mesmo, mas as almas tinham migrado dali.
Ricardo, como dito, já estava recolocado no mercado. Temendo novo momento de desamparo, Aparecida começou a fazer conservas e doces em potes. Recolhia vidros na vizinhança, fervia com zelo, cozinhava bem (uma das suas habilidades) e vendia na rua, quando o filho estava na escola. Era um complemento de renda, buscando restaurar a poupança evaporada.
Estaria solucionado o caso financeiro que cobrou um preço tão alto em um amor intenso? Sim e não. Por um lado, Cida comprou um pequeno furgão de entregas e já contava com quatro auxiliares. O que o marido obtinha como corretor de imóveis era, agora, 20% da renda do casal. O orgulhoso Ricardo era um quinto da felicidade, apenas. O sucesso era o brilho de uma pessoa. O chorume avolumou-se, as discussões aumentaram e ambos consideraram que o fim se aproximava.
Cida convidou-o para trabalharem juntos. Ele era hábil com números e poderia fazer entregas. Ela era a mais inteligente do casal, poderia empreender e coordenar tudo, desde que ele abrisse alguns potes de quando em vez. Não precisavam concorrer, poderiam recriar a sociedade afetiva e sexual, com paridade business. E toda esperança havia, então, renascido, por causa de uma tampa.”

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