Segundo uma
tradição, a atarefada fugiu para o sul da França. Instalada em Tarascon, venceu
um dragão. Os santos que matam dragões (sauróctonos tais quais Jorge ou Marcelo
de Paris) simbolizam a luta contra o paganismo e o demônio. Continuou ativa.
Marta era uma
trabalhadora; Maria uma mística. A família de Betânia se completou com o famoso
Lázaro. Viraram um refúgio para Jesus. Ali tivemos três exemplos complementares
de comunidade religiosa: a fé que age, a que contempla e aquela que ressuscita.
Fui a um
casamento muito elegante na Fundação Maria Luísa e Oscar Americano em fevereiro
deste ano. A festa foi perfeita, das mesas ao cardápio. Havia um batalhão de
“Martas” ali. Rondando com bandejas, auxiliando com travessas, recolhendo
coisas: muitas pessoas silenciosas e ágeis cuidavam do ambiente, para que tudo
ficasse agradável aos convidados. São muros de arrimo do que ocorre na nossa
vida. Em cada sala que adentro e, ali, noto limpeza, mesmo não percebendo a
figura de quem assim deixou, penso no imenso silêncio de Marta.
O curioso do
trabalho braçal é que ele, quando perfeitamente eficaz, fica invisível.
Notamos, de imediato, uma sala muito suja. No entanto, raramente nos damos
conta do momento em que ela está sem pó. São “fantasmas laborais”, que agem
calados. Chegam antes, circulam invisíveis, retiram-se sem ruído. Se
funcionarem 100%, não serão lembrados. Se houver uma falha, serão culpados.
Eu gosto muito da expressão que usamos na classe média e alta do Brasil. A comida é servida, a casa está limpa, tudo brilha, mas a pessoa que recebe, elogiada, diz que tem boas “auxiliares”. No rigor da expressão, a gentil senhora estaria no chão, encerando. Ao lado dela, uma funcionária ajudaria com panos novos o afã da proprietária. Isso seria uma “auxiliar”. O grosso do trabalho corre por minha conta; outras pessoas a quem eu pago me “auxiliam”. Sabemos que não é assim. Para que Maria escute, feliz, Marta deve trabalhar muito e, amiúde, sozinha.
Fui educado
para considerar digno todo trabalho honesto. Certa vez, fui dar uma aula
particular em um prédio de luxo. Na entrada, expliquei o que eu iria fazer. O
porteiro pediu que eu subisse pelo elevador de serviço. Segui por ele. A dona
da casa ficou horrorizada e ligou, com insultos, para a portaria. Achei
curioso: eu era um trabalhador que iria prestar um serviço pago; a entrada não
“ofenderia” minha honra. É uma herança ruim da tradição escravocrata: o trabalho
(especialmente o físico) é algo estranho, que deve ser ocultado.
Temos
hierarquias sociais e de poder. Meu texto não as ataca. Fui contratado por
muitas instituições de ensino. Eu era um empregado e cumpria as determinações
de superiores. Teria recusado se alguma ofendesse aquilo em que eu acredito.
Também, eu recusaria uma ordem para algo ilícito. Assim não ocorrendo, convivo
bem com ambientes de chefes e de ordens. Nunca me esqueço de uma proprietária
de escola que ouviu uma professora indicar como iria desenvolver uma filosofia
pedagógica para o lugar onde trabalhávamos. A dona ouviu e disse com atenção e
calma: “Excelente! Compre uma escola e faça do seu jeito”. Parecia o conselho
de Assis Chateaubriand quando um jornalista indicava mudanças no rumo das
empresas do célebre paraibano.
Aceito
hierarquias. Não sou ressentido com o poder. Exijo sempre o respeito ao
trabalho. Há cargos e poderes. A dignidade pertence, por igual, à faxineira e à
diretora. Não precisamos amar todas as pessoas no ambiente laboral: basta
respeitá-las.
Uma senhora de
estirpe elevada me contou que estimulava os filhos a não terem patrão. Acho a
vocação do empreendedorismo rara e muito específica. Penso ser útil estimular
todo mundo a crescer, a estudar, a buscar desafios. Porém, se você vai abrir
seu próprio negócio, deve saber que negociar com fornecedores e atender
clientes obriga-o a um jogo de habilidades muito maior do que ter apenas um
chefe. Empreenda, se desejar. Descobrirá que o mundo tem um milhão de pequenos
poderes, quase todos problemáticos. Candidatando-se a um concurso público ou
buscando um arriscado negócio seu, busque o melhor de si, ao estilo de uma
Marta, diligente, valorizando sempre todos os que trabalham perto de você.
Respeitar o diretor e desrespeitar a faxineira, já escrevi, é puro oportunismo
cínico. Há hierarquias variadas, todavia nunca percamos o horizonte de que
todos os seres humanos ao nosso redor são, por definição, seres humanos. Parece
tautologia, mas é puro humanismo sofisticado.
Por fim: Marta
é uma “tarefeira”. Ela precisa aprender com a irmã a parar e pensar. Toda Maria
só existe porque Marta está servindo. Toda Marta, para crescer, precisa pensar
como Maria. Precisamos aprender com uma e outra. Tenho esperança de que
possamos servir ao Mestre e... ouvi-lo."
Leandro Karnal

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