sexta-feira, 29 de novembro de 2024

Ulysses e a Arte de Não Ceder ao Tempo

Argos(*) e Ulysses
A vida é feita de etapas, e cada uma delas traz desafios únicos. Mas será que existe uma idade certa para pendurar as botas e desistir de novas aventuras? Se perguntarmos ao poeta inglês Alfred, Lord Tennyson, a resposta será um sonoro "não!"

No poema Ulysses, Tennyson nos apresenta um Ulisses inquieto, já avançado em anos, mas cheio de vontade de viver. Após retornar a Ítaca e cumprir o papel de marido e governante, ele percebe que uma vida de rotinas pacatas não basta para saciar seu espírito explorador. Ulisses declara que, mesmo com as limitações da idade, ainda há muito a buscar.

E quem de nós não sente, vez ou outra, a inquietação de querer mais? Pode ser aprender algo novo, redescobrir um antigo hobby ou até se lançar em projetos ousados. Como diz Ulysses:

"Embora muito tenha sido tirado, muito permanece."

Essas palavras são um lembrete de que o passar dos anos tira a força do corpo, mas não a energia do espírito. E no final do poema, Ulisses nos inspira com um chamado à ação:

"Ainda podemos, buscar, encontrar e não ceder."

Não é maravilhoso pensar que a vida, mesmo em seus capítulos finais, pode ser cheia de descobertas? Ulysses nos ensina que nunca é tarde para nos aventurarmos, seja em viagens, ideias ou na simples busca por propósito.

O poema é muitas vezes lido como uma celebração da vida em todas as suas etapas, incluindo a velhice. Ele sugere que, mesmo quando as capacidades físicas diminuem, o espírito de exploração e aprendizado pode continuar forte. Ulisses não busca descanso; ele anseia por propósito, ação e conexão com o vasto desconhecido.

Então, que tal? Que aventuras você ainda quer viver?

Segue abaixo uma tradução livre de forma resumida do poema.

 

Ulisses
por Alfred Tennyson 

Não vale a pena este repouso que me cansa,
Reinar entre homens de corações dormentes,
Que comem, dormem e nada sabem ou pensam.
Eu não posso parar; minha alma anseia e dança
Com fome de seguir além do horizonte,
Sempre em busca de novos mundos e verdades.

Este é meu destino: jamais me conformar,
Pois há vida em mim que o tempo não apaga.
Muito vi, muito sofri, muito lutei
Com aqueles que amei — companheiros do mar.
Troianos e trovões, nós enfrentamos juntos,
Fortes de alma e firmes na tempestade.

Mas não somos o que já fomos na juventude;
O tempo enfraquece o corpo, mas não o espírito.
A vontade persiste, a coragem persiste,
E a busca pela glória jamais perecerá.
Há muito por fazer antes que a noite caia,
Muito por conhecer antes que a vida finde.

Partamos, então, sem medo, sem desânimo,
Embora muito tenha sido tirado, muito permanece.
Pois não é tarde demais para novos mundos.
Ainda somos feitos de coragem e força,
De corações que batem como uma maré firme,
E, embora o destino nos seja incerto,
Ainda podemos, buscar, encontrar e não ceder.

 

By COC - Baseado no poema Ulysses, de Alfred, Lord Tennyson (1809–1892), e adaptado para inspirar os leitores a viver plenamente em qualquer idade.


(*) A fidelidade de Argos


O lendário cão Argos (um Galgo) conhecido pela sua velocidade e inteligência, esperou 20 anos pelo retorno de seu amado dono, Ulisses (Odisseu), a Ítaca. Quando Odisseu se aproximou de sua casa, ele encontrou Argos velho, abandonado, maltratado, cheio de parasitas, vítima de malfeitores que tomaram sua terra, ameaçando e matando quem ousasse enfrentá-los. O único que reconheceu Ulisses disfarçado de mendigo imediatamente foi seu cão Argos, nem seu velho amigo o reconheceu. O cão Argos ainda tinha um pouco de forças para baixar as orelhas e abanar o rabo, como que querendo se despedir, mas não conseguia se levantar. Incapaz de cumprimentar seu amado cachorro pois esse gesto revelaria sua verdadeira identidade, Ulisses passou por Argos (com os olhos marejados de lágrimas). Argos morreu abanando o rabo depois de ter reencontrado com Ulisses, após 20 longos anos. Não existe criatura mais fiel que um cachorro!

 

domingo, 3 de novembro de 2024

Subindo o sarrafo com boas companhias

Para atingir um padrão maior de excelência, busque a companhia de quem o leve para novos desafios.

"Existe uma armadilha na vida: nosso entorno. As pessoas da família, amigos, colegas de trabalho: todos estabelecem padrões de qualidade. Andando com eles, tendemos a incorporar as réguas médias do grupo. Exemplo: se ninguém fala inglês na minha casa, meu domínio fraco da língua de Shakespeare será o melhor sob aquele teto. Eu receberei elogios, por ter conseguido entender um título de filme naquele idioma e serei apontado como “o bilíngue da família”. Se meus amigos concluíram apenas o ensino médio, mas eu estou cursando uma graduação a distância (EAD), minha titulação será uma colina poderosa em uma planície. Se meu grupo possui renda mensal média de cinco mil reais por mês, esse “sarrafo” medirá o sucesso como quinze mil reais. Qual é o problema?

O primeiro diz respeito a algo que já tratei aqui e é conhecido como efeito Dunning-Kruger. Uma pessoa com baixa habilidade tende a considerar superior o que excede seu horizonte. Um entorno medíocre pode reforçar o efeito descrito. Sabendo quase nada, porém cercado de pessoas com ainda menos conhecimento, vou superestimar meu desempenho em algum campo.

O segundo efeito ruim de um meio de baixo desempenho é que ele me acomoda. Se eu consigo ganhar 20% a mais do que a média dos meus amigos de futebol, se meu carro é um pouco mais novo do que o deles, se meu apartamento tem um quarto a mais do que o dos meus irmãos, vou declarar isso como um sucesso. Bem, é uma conquista, especialmente se derivada de trabalho duro. O problema é que, talvez, eu poderia fazer muito mais do que isso e acabo tomando como modelo algo fraco. Veja bem: nunca se mede o êxito por metros quadrados do imóvel. O que estou desenvolvendo aqui é uma crença limitante derivada do entorno.

Se você consegue ler textos simples em inglês e estabelece uma comunicação básica com um cidadão anglófono, parabéns! É uma vitória! Se seu grupo de amigos traduz autores complexos, como James Joyce, e mantém debates de alto nível em língua estrangeira, isso pode desafiá-lo a um padrão maior de excelência. Ao ver que você está em uma parte mediana da pirâmide, haverá mais chance de continuar investindo em formação.

Somos animais gregários. Fazer parte de um grupo nos salva desde o Paleolítico. Ser excluído, nas savanas da África, implicava morrer. Queremos grupos de apoio em casa, na rua e no trabalho. Quem consegue evitar a companhia dos outros humanos será, para Aristóteles, ou uma fera ou um deus. Aceito que sou um animal político e, como tal, vivo em sociedade. Recomendo aqui que você busque deliberadamente um grupo com padrões exigentes.

Se eu tivesse que dizer às pessoas sobre o grupo mais positivo, seria aquele em que você fosse o pior corpo, o menor conhecimento, a renda mais baixa, o mais deselegante. Se você conseguir negociar com seu narciso essa posição, sua biografia ganhará um desafio importante. Pessoas com o sarrafo lá em cima vão estabelecer o quanto ainda deve ser feito para se atingirem certos patamares.

Ambição é um tema delicado. Ter metas altas não é sinônimo de felicidade; desempenho forte garante mais burnout do que alegria. Eu me refiro à chance de auto aperfeiçoamento, ao caráter perfectível de todos nós, ao desafio de vencer a si mesmo (e não aos outros) ao expandir os horizontes. Para isso, uma pergunta deve ser respondida com clareza: dinheiro é um fator que alimenta minha tranquilidade? Se sim, quanto? Quero o suficiente para viver bem ou muito para outras metas? Respondendo a isso, eu posso me aproximar, por exemplo, de pessoas que investem ou que sabem fazer aplicações estratégicas. Meu corpo é funcional? Ele atende ao que preciso durante o dia? Gostaria, além da funcionalidade, de uma estética melhor? Respondendo a isso, eu me aproximo de pessoas que decidiram explorar mais limites na sua própria consciência corporal. Domino as línguas que desejo, começando pela portuguesa? Quero melhorar? Ao lado de pessoas fracas na expressão linguística, eu me sentirei acomodado. Isso vale para todos os campos. É um princípio que posso adaptar do grande Isaac Newton: quanto maior a massa, maior a atração, mas... a força depende da proximidade. O que estiver perto de mim, adaptando o físico inglês, vai me atrair mais.

Sua avó perguntava e ensinava sobre as “más companhias”. Pouco se falava sobre as boas. “Dize-me com quem andas e te direi quem és” é um adágio parcialmente verdadeiro. Não sou uma esponja automática, mas, sem dúvidas, meu grupo pode ser um estímulo ou um obstáculo. Você sabe que os “nerds” ficam juntos na sala e no pátio da escola. Aquele grupo se auto alimenta com exemplos e auxílios.

É gostoso ser o melhor em algum lugar, e o conforto disso costuma tecer um aconchegante ninho de acomodação. Não se compare com terceiros. Crie seu sarrafo para chegar ao que você indica como adequado. Se quiser crescer (e isso for importante), saia com gente que o atraia para novos desafios. Crie esperança, que é o sentimento de um futuro melhor." 


O Estado de S. Paulo.
3 Nov 2024 - Cultura & Comportamento
Leandro Karnal
Historiador, escritor, membro da Academia Paulista de Letras