Para atingir um padrão maior de excelência, busque a companhia de quem o leve para novos desafios.
O primeiro diz respeito a algo que já tratei aqui e é
conhecido como efeito Dunning-Kruger. Uma pessoa com baixa habilidade tende a
considerar superior o que excede seu horizonte. Um entorno medíocre pode
reforçar o efeito descrito. Sabendo quase nada, porém cercado de pessoas com
ainda menos conhecimento, vou superestimar meu desempenho em algum campo.
O segundo efeito ruim de um meio de baixo desempenho é que
ele me acomoda. Se eu consigo ganhar 20% a mais do que a média dos meus amigos
de futebol, se meu carro é um pouco mais novo do que o deles, se meu
apartamento tem um quarto a mais do que o dos meus irmãos, vou declarar isso
como um sucesso. Bem, é uma conquista, especialmente se derivada de trabalho
duro. O problema é que, talvez, eu poderia fazer muito mais do que isso e acabo
tomando como modelo algo fraco. Veja bem: nunca se mede o êxito por metros
quadrados do imóvel. O que estou desenvolvendo aqui é uma crença limitante
derivada do entorno.
Se você consegue ler textos simples em inglês e estabelece
uma comunicação básica com um cidadão anglófono, parabéns! É uma vitória! Se
seu grupo de amigos traduz autores complexos, como James Joyce, e mantém
debates de alto nível em língua estrangeira, isso pode desafiá-lo a um padrão
maior de excelência. Ao ver que você está em uma parte mediana da pirâmide,
haverá mais chance de continuar investindo em formação.
Se eu tivesse que dizer às pessoas sobre o grupo mais
positivo, seria aquele em que você fosse o pior corpo, o menor conhecimento, a
renda mais baixa, o mais deselegante. Se você conseguir negociar com seu
narciso essa posição, sua biografia ganhará um desafio importante. Pessoas com
o sarrafo lá em cima vão estabelecer o quanto ainda deve ser feito para se
atingirem certos patamares.
Ambição é um tema delicado. Ter metas altas não é sinônimo
de felicidade; desempenho forte garante mais burnout do que alegria. Eu me
refiro à chance de auto aperfeiçoamento, ao caráter perfectível de todos nós,
ao desafio de vencer a si mesmo (e não aos outros) ao expandir os horizontes.
Para isso, uma pergunta deve ser respondida com clareza: dinheiro é um fator
que alimenta minha tranquilidade? Se sim, quanto? Quero o suficiente para viver
bem ou muito para outras metas? Respondendo a isso, eu posso me aproximar, por
exemplo, de pessoas que investem ou que sabem fazer aplicações estratégicas.
Meu corpo é funcional? Ele atende ao que preciso durante o dia? Gostaria, além
da funcionalidade, de uma estética melhor? Respondendo a isso, eu me aproximo
de pessoas que decidiram explorar mais limites na sua própria consciência
corporal. Domino as línguas que desejo, começando pela portuguesa? Quero
melhorar? Ao lado de pessoas fracas na expressão linguística, eu me sentirei
acomodado. Isso vale para todos os campos. É um princípio que posso adaptar do
grande Isaac Newton: quanto maior a massa, maior a atração, mas... a força
depende da proximidade. O que estiver perto de mim, adaptando o físico inglês,
vai me atrair mais.
Sua avó perguntava e ensinava sobre as “más companhias”.
Pouco se falava sobre as boas. “Dize-me com quem andas e te direi quem és” é um
adágio parcialmente verdadeiro. Não sou uma esponja automática, mas, sem
dúvidas, meu grupo pode ser um estímulo ou um obstáculo. Você sabe que os
“nerds” ficam juntos na sala e no pátio da escola. Aquele grupo se auto
alimenta com exemplos e auxílios.
É gostoso ser o melhor em algum lugar, e o conforto disso costuma tecer um aconchegante ninho de acomodação. Não se compare com terceiros. Crie seu sarrafo para chegar ao que você indica como adequado. Se quiser crescer (e isso for importante), saia com gente que o atraia para novos desafios. Crie esperança, que é o sentimento de um futuro melhor."
O Estado de S. Paulo.
3 Nov 2024 - Cultura & Comportamento
Leandro Karnal
Historiador, escritor, membro da Academia Paulista de Letras

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