domingo, 24 de agosto de 2025

O que é aquele negocinho no braço?


Pausa nas etimologias. É que o tema de hoje vem tirando o sono de muita gente que já viu um curioso acessório em filmes de época e na série ‘Peaky Blinders’. Quem gosta de História, assim como eu, repara em tudo: o que é aquela faixa que os homens antigamente usavam no braço? Aquilo tem alguma função prática?

Muito do que já foi moda não era só capricho, mas atendia a alguma necessidade da época. Depois, são deixados para trás e eventualmente voltam por pura estética. Hoje, vemos uns acessórios sendo usados mais para dar um ar diferenciado – o que nos mostra como as peças perderam suas funcionalidades.

Um elemento que saiu de moda e é visto atualmente em poucos casos é conhecido em inglês como ‘sleeve garter’ (‘liga de manga’ ou ‘jarreteira de manga’) ou ‘armband’ (braçadeira), usado em pares, um em cada braço. Foi uma peça usada amplamente pelos homens da Inglaterra e EUA, do final do século XIX até a década de 1930. Podia ser de couro, tecido ou até elástico, mas o gângster inglês Thomas Shelby usava um mais chique, de prata.

O terno foi inventado na França, no século XVIII, segundo dizem, por ordem do rei Luís XIV, que pretendia usar roupas mais casuais. Terno vem do latim ‘ternus’, que significa ‘três itens’. O terno clássico é composto por paletó (ou casaca), colete e calça.

No começo do século passado, todo homem que quisesse passar uma boa impressão pelas suas vestimentas tinha de usar terno, gravata e chapéu. No Brasil, mesmo com esse calorão todo, também já se pegou essa moda copiada da Europa. Com o tempo (ufa!), o colete saiu do conjunto.

Qualquer alfaiate sabia: a camisa ideal para o terno era aquela cujos punhos das mangas passavam um pouco dos punhos do paletó. Quando mostravam as abotoaduras, então, mais chiquetoso era. Até hoje, os estilistas alertam para cuidar desse detalhe. É bom que se deixe coisa de uns 1,5 cm para além do punho do paletó.

Na segunda metade do século XIX, a venda de camisas já prontas, sem a necessidade de se gastar com alfaiate, começou a se popularizar. Apareceram as camisarias. Os modelos da roupa geralmente eram maiores, pois tinha que se considerar o encolhimento do tecido de algodão. Uma estratégia bem comum foi a de usar algo no braço, por cima da manga, para se regular a altura dos punhos. Bastava puxar o tecido para cima, que a liga o prendia e o deixava na medida certa. Usado por baixo do paletó, esse macete não ficava visível.

Mas é claro que, em vários momentos, principalmente em ambientes internos (mais quentinhos), o paletó podia ser retirado e os ‘sleeve garters’ apareciam.

Mesmo que a camisa já tivesse o comprimento ideal das mangas, o acessório se fazia útil em vários casos. Escrever com as canetas-tinteiro era uma lambança só. Demoravam a se secar e costumavam respingar, assim, poderiam, por descuido, manchar o punho da camisa clara. Com as ‘sleeve garters’, bastava puxar a manga um pouco para cima que se evitava um desastre no punho.

Quando menos se percebeu, os que trabalhavam com papéis diversos, documentos importantes, dinheiro e tudo mais que pudesse sujar a manga da camisa, ostentavam as ‘sleeve garters’ nos braços. Muitas profissões ficaram estereotipadas com o uso da liga de manga. É por isso que vemos nos filmes antigos homens de negócios, banqueiros, contadores (este com uma viseira verde na cabeça) e escritores. Outras profissões também faziam uso do acessório como pianistas, barbeiros, atendentes de bar, crupiês (os que dão as cartas no cassino).

Na sexta e última temporada da série Peaky Blinders (2022) você poderá reparar nesses e noutros detalhes: corrente do relógio de bolso, colarinho arredondado, prendedor de colarinho, abotoaduras, boina oitavada (ou boné de jornaleiro), gravata-borboleta, anel de mindinho, cigarreira, broche de lapela. Você já usou um desses?

 

Esta postagem foi publicada por ordem dos @ peakyblindersofficial. Referência: ‘Dress Like a 1920s Gangster: Clothes of Boardwalk Empire’, de ‘The Gutter Monkey’ na página ‘Bellatory’ (nov. 2019).

 

domingo, 17 de agosto de 2025

Para minha velhice

 

“Tenho 62 anos e já uso filas preferenciais e vagas exclusivas. Sou, juridicamente, um idoso, melhor idade ou quaisquer eufemismos que sejam inventados. Tenho pensado na ambiguidade dos “early sixties”: sou a velhice da juventude e a juventude da velhice.

Tenho amigos octogenários e nonagenários. Convivendo com eles, observei lições para o Leandro de 82 anos. São coisas que testemunhei em muitas pessoas que cruzaram a marca das oito décadas. São conselhos meus para mim a partir do que vejo hoje. Veja com o que você concorda e do que discorda.

Caro Leandro de 82 anos:

• Tente manter o peso mais baixo. Sobrepeso estoura articulações. Não é um debate sobre ideal estético: é Newton. Massa maior sobrecarrega joelhos. A mobilidade faz encontrar pessoa e adia demência. Mobilidade é ouro!

• Evite a teimosia, uma das marcas da terceira idade. Ela se disfarça de hábitos. A vida recomenda alguma flexibilidade.

• Não fique em casa lamentando que amigos, filhos ou netos (se houver) visitam pouco. Reflita sobre o motivo da raridade da presença. Que ambiente encontram? Há reclamações e conversas de doenças? Melhore a beleza das flores do jardim e pare de chorar pelas borboletas ausentes.

• Se ainda existir zap ou similar, evite excesso de mensagens e imagens. Veja que as pessoas não respondem a seu fluxo de bom dia, boa tarde, boa noite. Não vire tiozão ou avozão do zap. Cuidado com imagens de flores. Atenção especial a teorias conspiratórias: elas denunciam o fim do seu mundo e não o fim do mundo.

• Reprima o desejo infinito de aconselhar. Espere ser consultado ou demandado. Não invada espaços, não forneça análises não solicitadas. Bêbados, crianças e velhos perdem um pouco do controle vocal. Recupere-o. Cale mais, pergunte mais, ouça mais.

• Movimente-se. Visite pessoas próximas. Escreva cartões. Caminhe. Alongue-se. Coloque barras na casa toda e no box. Fuja de sapatos perigosos e de chinelos. Ande. Nade se conseguir. Aprenda algo novo.

• Reveja bons filmes e coloque alguns novos no cardápio visual. Insista em museus. A maioria oferece vantagens para público mais experiente. Aprenda sempre.

• Reaja contra a tristeza. Saia e converse com alguém. Leia coisas boas. Respire fundo, tome uma água boa, erga um brinde ao que você já fez na vida e faça planos. O horizonte de amanhã é forte para afastar névoas melancólicas.

• Pessoas mais velhas possuem o dom de errar ao dar presentes para jovens. Pergunte mais e descubra o que a pessoa gostaria de ganhar de verdade. Não se presenteie ao comprar algo para outra pessoa.

• Se possível, procure um geriatra para coordenar os muitos médicos da terceira idade. O navio do seu corpo precisa de um capitão. Consulta a um geriatra aos 45 é treinamento de incêndio; aos 85 é luta para que o fogo não consuma tudo. Comece cedo.

• Cachorros e gatos são boas companhias. Se gostar, tenha um ou dois. Adote.

• Releia livros como: Antes de Partir – os cinco principais arrependimentos que as pessoas têm antes de morrer (Bronnie Ware, Geração) e todos os livros da doutora Anna Claudia Quintana Arantes, especialmente Histórias Lindas de Morrer. Decore uma poesia nova por mês.

• Há borboletas que duram 48 horas. Há tartarugas que passam de 200 anos. Há tubarões que vivem séculos. A vida não deve ser medida pela quantidade numérica, mas pela qualidade de usufruir o tempo. Tem gente que vive bem 60 anos e outros se arrastam por 90.

• Os enterros aumentam com o tempo. Temos de ir a muitos. Insista em visitar também recém-nascidos. Viva mais inaugurações do que encerramentos.

• Há bons motivos para brigar e boas causas para defender. A maioria dos enfrentamentos pode ser superada analisando seu ego e não o caso em si. Como brigar na terceira idade é perigoso, escolha bem suas guerras e entre naquelas raras que são muito importantes.

• Meu velho: você seduziu homens e mulheres há décadas? Era uma pessoa arrasadora em corações e corpos? O cacoete sobrevive mais do que a libido. O hábito é forte e você pode confundir coisas. Nem todo sorriso é um convite à orgia. A moça ou o rapaz podem estar achando você um vovô simpático ou uma vovó catita. Você pode ser um sedutor ou uma sedutora até idade avançada. Apenas precisamos de mais cuidados e discernimento na etapa final.

• Velhice é muito cara. Guarde dinheiro. Não seja um faraó que começa a fazer seu túmulo no dia da coroação. Evite uma vida fúnebre. Fuja também da ideia de imortalidade. Freud disse que temos resistência a pensar na nossa morte. Pense um pouco, não pense demais. Plano de saúde, reserva e um plano funerário: são ideias úteis. Faça por escrito um testamento e fale das suas vontades. Não fale sempre e nem muito. Fale de forma clara uma ou duas vezes nos encontros familiares. Quer ser cremado? Prefere um túmulo que nunca será visitado? Contemplará apenas herdeiros necessários? É um doador de órgãos? Cuidado com contas a que só você tem acesso. Não precisa ser um faraó e nem um deus perene. Seja humano. Um bom livro tem um capítulo final. O último texto não salva a obra, mas pode complicá-la se for confuso.

Depois de tudo decidido e preparado, viva intensamente a experiência única da vida. Morra só uma vez, em um dia e para sempre. Antes disso, cultive a esperança, ela deve ser a última a sair da Caixa de Pandora. Que a morte o encontre vivo.”

 

O Estado de S. Paulo. 17 Aug 2025 - Leandro Karnal – Historiador, escritor, Membro da Academia Paulista de Letras.

domingo, 3 de agosto de 2025

“Mão Morta”: o sistema que pode acabar com a humanidade

Não, não é uma daquelas histórias de filme de terror em que a mão do defunto se mexe sozinha — embora, curiosamente, a ideia seja quase essa.

A expressão "mão morta" (em inglês, Dead Hand), no contexto de armamentos nucleares, se refere a um sistema automático de retaliação nuclear desenvolvido pela União Soviética durante a Guerra Fria, chamado oficialmente de "Perímetro".

O que é o sistema "mão morta"?

O sistema Perímetro foi criado para garantir um contra-ataque nuclear automático, mesmo que a liderança soviética estivesse totalmente destruída ou incapacitada após um ataque nuclear inimigo (como dos EUA). Ou seja:

Se ninguém sobrevivesse para dar a ordem de retaliação, o sistema daria essa ordem sozinho.

Em outras palavras: não importa se estamos mortos — vamos levar vocês conosco. Um tipo de vingança póstuma que faria até a sogra mais ranzinza parecer um anjo de bondade.

Como funcionava?

O funcionamento (pelo menos conforme o que se sabe publicamente) era mais ou menos assim:

Sensores e sistemas de monitoramento detectariam sinais de um ataque nuclear massivo em território soviético (explosões, radiação, falhas de comunicação etc.).

Se esses sinais fossem confirmados e nenhum comando de parada viesse de autoridades humanas — ou seja, se ninguém dissesse “calma, é só um teste”, e a cadeia de comando estivesse destruída — o sistema assumiria que o pior havia acontecido.

Então, ele dispararia automaticamente mísseis de retaliação, mesmo que todos já estivessem em cinzas.

Um míssil especial de comando seria lançado, voando sobre a Rússia e enviando sinais de disparo para os silos de mísseis e lançadores móveis, iniciando um ataque nuclear maciço contra o inimigo.

Por que o nome "mão morta"?

O nome vem da ideia de que, mesmo morto, o "corpo" (no caso, o Estado soviético) ainda pode reagir com violência extrema — como se fosse um cadáver cuja mão ainda estivesse apertando o gatilho.
Uma última ação póstuma... de destruição.

Finalidade estratégica

O sistema tinha objetivos claros:

Dissuadir ataques nucleares preventivos: qualquer agressão garantiria uma retaliação devastadora.

Reduzir a dependência de decisões humanas sob pressão extrema.

Aumentar a incerteza do inimigo, tornando a retaliação inevitável, mesmo no caso de colapso total do governo soviético.

Situação atual

O sistema "Perímetro" ainda existe, mas não se sabe se está ativo.
A Rússia mantém sigilo sobre seu status atual, embora algumas fontes indiquem que ele foi modernizado e poderia ser ativado em momentos de crise.

Reflexão para hoje

Nos tempos atuais, talvez o que mais precisemos seja da mão viva: Aquela que acolhe, que escreve mensagens de paz, que acena com esperança.

A "mão morta" nos lembra de um tempo em que confiávamos demais na tecnologia — e de menos no diálogo.

Talvez a verdadeira evolução seja aprender a resolver as coisas antes que a mão precise tremer no botão... ou no caixão.


By C.O.C

Este texto contém contribuições do ChatGPT para melhor desenvolvimento do conteúdo.

sexta-feira, 1 de agosto de 2025

O que é a Lei Magnitsky?

A Lei Magnitsky (Magnitsky Act) é uma legislação originalmente americana, criada para sanções direcionadas contra indivíduos envolvidos em corrupção e violações graves dos direitos humanos — congelando seus bens e proibindo sua entrada nos Estados Unidos.

Com o tempo, esse modelo foi adotado por outros países, ganhando alcance internacional e se tornando um instrumento simbólico e prático de pressão contra abusos de poder.

Origem da Lei

A lei leva o nome de Sergei Magnitsky, um advogado e auditor russo que em 2008 denunciou um esquema de corrupção envolvendo autoridades russas. Como retaliação, ele foi preso sem julgamento, torturado e morreu na prisão em 2009, após quase um ano encarcerado e sem atendimento médico adequado.

O caso gerou comoção internacional, especialmente por pressão de Bill Browder, ex-chefe de Magnitsky e ativista político, que lutou para responsabilizar os envolvidos. Em 2012, o Congresso dos EUA aprovou a Russia and Moldova Jackson–Vanik Repeal and Sergei Magnitsky Rule of Law Accountability Act, conhecida como Lei Magnitsky.

Principais pontos da lei (versão global)

Sanções individuais: congelamento de bens em território nacional (ex.: EUA, Canadá, Reino Unido, União Europeia) e proibição de entrada no país.

Foco em violações graves: Tortura, Execuções extrajudiciais, Detenções arbitrárias, Corrupção em larga escala

Aplicação extraterritorial: os alvos não precisam ser cidadãos ou estar no país sancionador — basta haver evidências.

Transparência: os nomes dos sancionados são, em geral, divulgados publicamente.

Abrangência internacional: Após os EUA, outros países aprovaram leis similares: Canadá, - Grã-Bretanha - Reino Unido - União Europeia - Austrália - Estônia e Letônia.

A “Lei Magnitsky Global”, portanto, não é uma única norma, mas um modelo de legislação internacional voltada à responsabilização individual por crimes graves contra os direitos humanos e corrupção sistêmica.

 Consequências da aplicação

1. Isolamento de violadores: - Sanções específicas causam impacto financeiro e simbólico - Dificultam acesso a contas bancárias, investimentos e viagens.

2. Pressão política internacional: - Países e regimes que cometem abusos passam a enfrentar consequências - Aumenta o custo de impunidade para elites corruptas.

3. Reações adversas: - A Rússia, por exemplo, reagiu proibindo adoções de crianças russas por americanos - Muitos governos veem essas leis como ingerência em assuntos internos.

4. Uso estratégico

A lei também pode ser usada geopoliticamente — escolhendo alvos que interessem estrategicamente às nações sancionadoras, o que levanta questionamentos sobre seletividade.

Pontos positivos: Responsabiliza indivíduos em vez de punir populações inteiras (como em embargos econômicos). Incentiva a transparência e defesa dos direitos humanos.

Críticas: Pode ser usada com viés político. Falta de padronização entre países. Dificuldade de acesso à defesa legal por parte dos sancionados.

Conclusão:

A Lei Magnitsky representa um avanço no combate à impunidade internacional, focando em responsabilização pessoal por corrupção e violações de direitos humanos. Ao se espalhar por diversos países, ela fortalece a rede global de combate a abusos, mas também carrega desafios — como uso seletivo e reação política dos países-alvo.


By COC (Texto elaborado com apoio de IA)