Muito do que já foi moda não era só capricho, mas atendia a
alguma necessidade da época. Depois, são deixados para trás e eventualmente
voltam por pura estética. Hoje, vemos uns acessórios sendo usados mais para dar
um ar diferenciado – o que nos mostra como as peças perderam suas
funcionalidades.
Um elemento que saiu de moda e é visto atualmente em poucos
casos é conhecido em inglês como ‘sleeve garter’ (‘liga de manga’ ou ‘jarreteira
de manga’) ou ‘armband’ (braçadeira), usado em pares, um em cada braço. Foi uma
peça usada amplamente pelos homens da Inglaterra e EUA, do final do século XIX
até a década de 1930. Podia ser de couro, tecido ou até elástico, mas o
gângster inglês Thomas Shelby usava um mais chique, de prata.
O terno foi inventado na França, no século XVIII, segundo
dizem, por ordem do rei Luís XIV, que pretendia usar roupas mais casuais. Terno
vem do latim ‘ternus’, que significa ‘três itens’. O terno clássico é composto
por paletó (ou casaca), colete e calça.
No começo do século passado, todo homem que quisesse passar
uma boa impressão pelas suas vestimentas tinha de usar terno, gravata e chapéu.
No Brasil, mesmo com esse calorão todo, também já se pegou essa moda copiada da
Europa. Com o tempo (ufa!), o colete saiu do conjunto.
Qualquer alfaiate sabia: a camisa ideal para o terno era
aquela cujos punhos das mangas passavam um pouco dos punhos do paletó. Quando
mostravam as abotoaduras, então, mais chiquetoso era. Até hoje, os estilistas
alertam para cuidar desse detalhe. É bom que se deixe coisa de uns 1,5 cm para
além do punho do paletó.
Na segunda metade do século XIX, a venda de camisas já
prontas, sem a necessidade de se gastar com alfaiate, começou a se popularizar.
Apareceram as camisarias. Os modelos da roupa geralmente eram maiores, pois
tinha que se considerar o encolhimento do tecido de algodão. Uma estratégia bem
comum foi a de usar algo no braço, por cima da manga, para se regular a altura
dos punhos. Bastava puxar o tecido para cima, que a liga o prendia e o deixava
na medida certa. Usado por baixo do paletó, esse macete não ficava visível.
Mas é claro que, em vários momentos, principalmente em
ambientes internos (mais quentinhos), o paletó podia ser retirado e os ‘sleeve
garters’ apareciam.
Mesmo que a camisa já tivesse o comprimento ideal das
mangas, o acessório se fazia útil em vários casos. Escrever com as
canetas-tinteiro era uma lambança só. Demoravam a se secar e costumavam
respingar, assim, poderiam, por descuido, manchar o punho da camisa clara. Com
as ‘sleeve garters’, bastava puxar a manga um pouco para cima que se evitava um
desastre no punho.
Quando menos se percebeu, os que trabalhavam com papéis
diversos, documentos importantes, dinheiro e tudo mais que pudesse sujar a
manga da camisa, ostentavam as ‘sleeve garters’ nos braços. Muitas profissões
ficaram estereotipadas com o uso da liga de manga. É por isso que vemos nos
filmes antigos homens de negócios, banqueiros, contadores (este com uma viseira
verde na cabeça) e escritores. Outras profissões também faziam uso do acessório
como pianistas, barbeiros, atendentes de bar, crupiês (os que dão as cartas no
cassino).
Na sexta e última temporada da série Peaky Blinders (2022) você poderá reparar nesses e noutros detalhes: corrente do relógio de bolso, colarinho arredondado, prendedor de colarinho, abotoaduras, boina oitavada (ou boné de jornaleiro), gravata-borboleta, anel de mindinho, cigarreira, broche de lapela. Você já usou um desses?
Esta postagem foi publicada por ordem dos @ peakyblindersofficial. Referência: ‘Dress Like a 1920s Gangster: Clothes of Boardwalk Empire’, de ‘The Gutter Monkey’ na página ‘Bellatory’ (nov. 2019).



