Tenho amigos octogenários
e nonagenários. Convivendo com eles, observei lições para o Leandro de 82 anos.
São coisas que testemunhei em muitas pessoas que cruzaram a marca das oito
décadas. São conselhos meus para mim a partir do que vejo hoje. Veja com o que
você concorda e do que discorda.
Caro Leandro de
82 anos:
• Tente manter
o peso mais baixo. Sobrepeso estoura articulações. Não é um debate sobre ideal
estético: é Newton. Massa maior sobrecarrega joelhos. A mobilidade faz
encontrar pessoa e adia demência. Mobilidade é ouro!
• Evite a
teimosia, uma das marcas da terceira idade. Ela se disfarça de hábitos. A vida
recomenda alguma flexibilidade.
• Não fique em
casa lamentando que amigos, filhos ou netos (se houver) visitam pouco. Reflita
sobre o motivo da raridade da presença. Que ambiente encontram? Há reclamações
e conversas de doenças? Melhore a beleza das flores do jardim e pare de chorar
pelas borboletas ausentes.
• Se ainda
existir zap ou similar, evite excesso de mensagens e imagens. Veja que as
pessoas não respondem a seu fluxo de bom dia, boa tarde, boa noite. Não vire
tiozão ou avozão do zap. Cuidado com imagens de flores. Atenção especial a
teorias conspiratórias: elas denunciam o fim do seu mundo e não o fim do mundo.
• Reprima o
desejo infinito de aconselhar. Espere ser consultado ou demandado. Não invada
espaços, não forneça análises não solicitadas. Bêbados, crianças e velhos
perdem um pouco do controle vocal. Recupere-o. Cale mais, pergunte mais, ouça
mais.
• Movimente-se.
Visite pessoas próximas. Escreva cartões. Caminhe. Alongue-se. Coloque barras
na casa toda e no box. Fuja de sapatos perigosos e de chinelos. Ande. Nade se
conseguir. Aprenda algo novo.
• Reveja bons
filmes e coloque alguns novos no cardápio visual. Insista em museus. A maioria
oferece vantagens para público mais experiente. Aprenda sempre.
• Reaja contra
a tristeza. Saia e converse com alguém. Leia coisas boas. Respire fundo, tome
uma água boa, erga um brinde ao que você já fez na vida e faça planos. O
horizonte de amanhã é forte para afastar névoas melancólicas.
• Pessoas mais
velhas possuem o dom de errar ao dar presentes para jovens. Pergunte mais e
descubra o que a pessoa gostaria de ganhar de verdade. Não se presenteie ao
comprar algo para outra pessoa.
• Se possível,
procure um geriatra para coordenar os muitos médicos da terceira idade. O navio
do seu corpo precisa de um capitão. Consulta a um geriatra aos 45 é treinamento
de incêndio; aos 85 é luta para que o fogo não consuma tudo. Comece cedo.
• Cachorros e
gatos são boas companhias. Se gostar, tenha um ou dois. Adote.
• Releia livros
como: Antes de Partir – os cinco principais arrependimentos que as pessoas têm
antes de morrer (Bronnie Ware, Geração) e todos os livros da doutora Anna
Claudia Quintana Arantes, especialmente Histórias Lindas de Morrer. Decore uma
poesia nova por mês.
• Há borboletas
que duram 48 horas. Há tartarugas que passam de 200 anos. Há tubarões que vivem
séculos. A vida não deve ser medida pela quantidade numérica, mas pela
qualidade de usufruir o tempo. Tem gente que vive bem 60 anos e outros se
arrastam por 90.
• Os enterros
aumentam com o tempo. Temos de ir a muitos. Insista em visitar também
recém-nascidos. Viva mais inaugurações do que encerramentos.
• Há bons
motivos para brigar e boas causas para defender. A maioria dos enfrentamentos
pode ser superada analisando seu ego e não o caso em si. Como brigar na
terceira idade é perigoso, escolha bem suas guerras e entre naquelas raras que
são muito importantes.
• Meu velho:
você seduziu homens e mulheres há décadas? Era uma pessoa arrasadora em
corações e corpos? O cacoete sobrevive mais do que a libido. O hábito é forte e
você pode confundir coisas. Nem todo sorriso é um convite à orgia. A moça ou o
rapaz podem estar achando você um vovô simpático ou uma vovó catita. Você pode
ser um sedutor ou uma sedutora até idade avançada. Apenas precisamos de mais
cuidados e discernimento na etapa final.
• Velhice é
muito cara. Guarde dinheiro. Não seja um faraó que começa a fazer seu túmulo no
dia da coroação. Evite uma vida fúnebre. Fuja também da ideia de imortalidade.
Freud disse que temos resistência a pensar na nossa morte. Pense um pouco, não
pense demais. Plano de saúde, reserva e um plano funerário: são ideias úteis.
Faça por escrito um testamento e fale das suas vontades. Não fale sempre e nem
muito. Fale de forma clara uma ou duas vezes nos encontros familiares. Quer ser
cremado? Prefere um túmulo que nunca será visitado? Contemplará apenas
herdeiros necessários? É um doador de órgãos? Cuidado com contas a que só você
tem acesso. Não precisa ser um faraó e nem um deus perene. Seja humano. Um bom
livro tem um capítulo final. O último texto não salva a obra, mas pode
complicá-la se for confuso.
Depois de tudo
decidido e preparado, viva intensamente a experiência única da vida. Morra só
uma vez, em um dia e para sempre. Antes disso, cultive a esperança, ela deve
ser a última a sair da Caixa de Pandora. Que a morte o encontre vivo.”
O Estado de S. Paulo. 17 Aug 2025 - Leandro Karnal – Historiador, escritor, Membro da Academia Paulista de Letras.

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