"Você é do signo de Libra e tem aniversário por estes dias? Bem, todos do zodíaco podem ler esta crônica. Ela é democrática, aberta aos horóscopos e aos registros civis. Falaremos das ambiguidades natalícias no escritório.
Qual seria a origem do
constrangimento? Fui testemunha de um ritual em escolas: o aniversariante/aluno
é atingido por saraivada de ovos e de farinha na saída. Torna-se alguém imundo.
Todos riem. Objetivo? Celebrar o dia da nova idade! O que diria um antropólogo
que encontrasse esse rito em uma tribo perdida?
Entre adultos, há pouca
prática dos ovos e da farinha. Acho que o preço dos produtos desestimula mentes
que sabem o custo de tais alegrias. Porém... sobrevive algo da cerimônia
punitiva nas empresas.
A cena é patética: um bolo e uma ou várias velas, uma música conhecida por todos e por ninguém bem cantada: Parabéns a Você! As notas são simples, mas a letra, pobre em recursos poéticos. Quase sempre é entoada a muitas vozes, nenhuma dentro da mesma linha melódica ou tom. Por vezes, uma fuga: uma parte do público está no meio de um verso e outra avança mais. São batidas as palmas (descobri que não em todos os países), com o desastre melódico acompanhado pela polirritmia. Alguns seguem o compasso 2/4; outros criam síncopes com tempos assíncronos.
Pode piorar? Sim, muito!
Terminado o martírio em que o aniversariante fica olhando com cara de flato,
segue-se a repetição da melodia, em andamento acelerado. Passamos do “allegro”
sofredor para uma “presto agitato” e discordante ao extremo. Os defeitos da
primeira tentativa crescem exponencialmente. Ufa, terminou! Não! Ainda há
gritos de guerra: “E para X como é que é? É pique, é pique...”. Há gaiatos que
substituem o “pique” por outro termo falocêntrico. O cafona transmuta-se em
rito “quinta-série-kitsch-freudiano”.
O pior canto coral do planeta encerrou-se. O mais tenebroso dos tenores já se calou. Restam as velas acesas. No pós-pandemia, surge a questão de soprar sobre o bolo. É um pacto sanitário, e as alternativas são variadas. O ordálio prossegue: há velas “teimosas” que voltam a acender, como uma magia Disney de orçamento limitado. Presenciei uma que se abre em pétalas e gira. Nosso feliz aniversariante já pode descansar da pantomima? Talvez ainda exista um presente coletivo. A chance de acerto é baixa. Pensamos: fizeram uma “vaquinha” com tantas pessoas e deu nisto? Com quanto cada um teria contribuído? Dois centavos? Se houver uma pessoa inspirada e com alma escolar, surgirá um cartão assinado por quase todos. Urge lê-lo publicamente. É conveniente emocionar-se um pouco e elaborar um penúltimo degrau da dor: uma breve peça de retórica sobre a alegria em fazer parte daquela “família” unida e afetiva.
Passou? Nunca! O aniversariante deve cortar o bolo, segundo instruções herméticas. De cima para baixo, a partir de um determinado ponto e pensando em algo positivo para si. Então, deve dar a primeira fatia para aquele de quem mais gosta no grupo. No escritório, é fácil: o chefe! Quem controla meu CPF é minha paixão mais sincera! Os pratos são de papel ou de plástico vagabundo. Os garfinhos ordinários não resistem ao bolo mais macio. Quebram facilmente. Quem comprou o confeito da data revela que ele é de uma padaria especial.
Os corantes tingem as
línguas. Colegas perguntam se a vítima gostou. Obrigatória é a nova onda
emotiva e, talvez, permitindo o número de presentes, agradecer um a um o
cartão, o bolo, os presentes e a festa-surpresa. É ocasião para ouvir sobre as
dificuldades estratégicas em esconder tudo de você. Mais imperativo ainda –
diga que tudo foi inesperado. O sorriso deve ser permanente como se estivesse
posando para uma... foto. Ah, sim! Faltou falar da foto coletiva. Das
coletivas, corrijo-me. Porque quem bateu a primeira também quer aparecer
naquele registro iconográfico de importância capital. Serão vários, mas nunca
teremos uma boa compressão das pessoas ao centro. Aqui vale o mesmo cuidado da
foto familiar: coloque os de trânsito mais rápido nas bordas para facilitar o
corte. No registro da imagem, cunhados e estagiários sempre devem estar fora do
núcleo duro.
A cena foi concluída. O
chefe (ou o mais caxias) vai lembrar que devemos voltar ao trabalho. É de bom
tom um último agradecimento e algum serviço voluntário de limpeza pela vítima,
digo, aniversariante.
As vinganças não são
eticamente válidas. Há duas, apesar de tudo, que podem ser realizadas sem
grande arranhão moral. Aos seus rebentos (ou alunos) deseje, intensamente, que
tenham filhos com boa saúde e pouca necessidade de sono. Aos colegas do escritório,
vá até o mural de avisos e consulte o que o RH já providenciou: a lista dos
sentenciados do mês. Identifique o próximo e anuncie com olhar terno: “Você é o
seguinte!”. A vida não é justa, mas permite pequenas vinganças. E, na hora
aprazada, reúna toda a energia dos seus pulmões para a liturgia, com a certeza
de que um dia é do aniversariante e outro... do caçador. Hoje, os librianos
sofreram; daqui a pouco, o vingativo povo de Escorpião experimentará o veneno.
Parabéns a você, com esperança de uma vida nova! Muitas felicidades! Muitos
anos de vida na firma!"
Leandro Karnal


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