Continuação...
O tempo fluía
na tranquilidade em que se vivia. O empório
foi se solidificando em termos de negócio,
não sobrava muito
dinheiro mas também não faltava, a manutenção da casa passou a ser
custeada com os recursos excedentes do negócio.
Desta forma, meu pai pode empregar o seu salário
em outras coisas que almejava. Uma delas foi a aquisição de um automóvel.
Apesar de pouco tempo antes ter levado uma "fubecada", isto é, um golpe financeiro de um tal de
"Consórcio
Nacional de Veículos"
não desistiu da idéia. Então, um dia ele apareceu em
casa com um Chevrolet 1938 azul-marinho. A rua ficou em festa, os vizinhos com
a molecada vieram ver o carro, era uma novidade, foi o primeiro carro da rua
Valdomiro na vila Marari. Adivinham onde foi parar o meu orgulho! Claro que nas
nuvens! Quando eu queria ranhetar com as outras crianças eu dizia cantarolando: "bem
feitooooo! o meu pai tem carro o seu não
teeeem! Coisa de moleque.
![]() |
| Chevrolet 1938 |
No início
o carro ficava no quintal de casa, meu pai continuou a ir trabalhar de
bicicleta, depois com o tempo, como tinham outros vizinhos que dependiam de ônibus para ir trabalhar,
meu pai começou a
explorar economicamente o carro transportando o pessoal que ia para mesma região que ele. O carro virou
um "lotação"
particular. Dava para pagar a gasolina e o pessoal tinha mais conforto.
Nos finais de tarde eu ficava esperando meu pai voltar do
trabalho, dava para avistá-lo
a umas três ruas
paralelas devido ao declive dos terrenos em frente de casa. Assim que eu o via,
saía correndo ao seu
encontro para voltar pendurado no estribo do carro segurando-se na coluna. Era
muita emoção, a
adrenalina ia a mil.
Naquela época,
dois passeios eram obrigatórios
para quem tinha um carro: visitar Aparecida do Norte e ir à Santos. Conhecer o
litoral era o sonho de todos no bairro, quando ouvíamos dizer que fulano ou ciclano esteve na
praia dava uma pontinha de inveja, só
gente que tinha alguma "posse" podia fazer isso. Não era necessário dizer que você esteve na praia, bastava
observar no dia seguinte, principalmente na escola, qualquer um com as
bochechas, testa e nariz rebocado com creme dental branco, parecendo um palhaço, desfilando todo
imponente e esbarrando em todo mundo para chamar a atenção (que nem precisava) para concluir que ele
lá esteve. O creme
dental aliviava as queimaduras provocadas pelo sol e dava um certo charme e
"status" social ao usuário.
Era coisa de pobre, mas era chique.
Até então, nossa família só conhecia o mar descrito
nos livros e nas histórias
contadas por quem lá já tinha ido. Tínhamos um vizinho
conhecido pelo nome de Mota e sua esposa dona Hermínia que já
tinham tido esta experiência.
Num dia de domingo qualquer, o seu Mota, que adorava uma
"branquinha", em conversa com meu pai no empório, depois de "umas e outras",
prontificou-se a nos acompanhar até
a praia do Gonzaga em Santos, dizendo que conhecia "o caminho das
pedras" para passarmos um dia agradável.
O dia foi marcado. Eu não
conseguia me conter de tanta ansiedade, contava os dias, espalhei pra vila
inteira que tal dia iríamos
pra Santos, meu conceito com as meninas aumentou, considerando a margem de erro
meu ibope estava acima dos oitenta por cento. Finalmente o dia chegou! Os
preparativos foram feitos na véspera,
inclusive o frango com farofa. A dona Diva foi quem preparou tudo, afinal, o
seu Mota e a dona Hermínia
eram nossos convidados. Eles não
tinham carro então
fomos em seis pessoas (quatro adultos eu e minha irmã) no Chevrolet 38 descendo serra abaixo com o
porta-malas repleto de coisas.
| Area de descanso - Via Anchieta subida da serra |
Depois de estacionar o carro, tirar
todo conteúdo do porta malas e nos acomodar na areia eu e minha irmã
fomos brincar na água sob os olhares da dona Diva e da dona Hermínia.
Adivinhem onde foram os outros dois? Acertou quem julgou que eles foram
escorropichar algumas garrafas de cerveja.
O dia não estava ensolarado, mas estava
quente, abafado, um mormaço danado. Particularmente, o mar,
devido à sua agitação e a força das ondas não
me atraiu muito, gostava mais da lagoa do seu João onde reinava a calmaria, mas a sua
beleza e imensidão eram incomparáveis com qualquer coisa que já
tinha visto em minha vida, iria render muita história para contar pra molecada da vila.
Por outro lado, a atmosfera e o ambiente na praia eram formidáveis,
nunca tinha visto tanta mulher (ao vivo) de biquíni, muitas musas ficaram na minha memória
e posteriormente foram ótimas fontes de inspiração.
Enfim, foi um um dia maravilhoso,
muitos sorvetes e refrigerantes alojaram-se no meu estômago. À
tarde caía, tínhamos que regressar para casa. Na
subida da serra o motor do Chevrolet ferveu, começou uma fumaceira danada na frente do
carro. Na primeira área de descanso meu pai estacionou o
carro e esperamos que o motor esfriasse. Era um local que possuía
uma fonte d'agua (existe até hoje). Assim que a temperatura
baixou, a água do radiador foi completada, porém, meu pai
deu a partida no motor e nada do carro funcionar.
Tentou com a manivela e nada
também. (naquela época era usado também uma manivela para fazer o motor funcionar) Então tivemos que empurrar o carro várias
vezes num espaço de aproximadamente cem metros, pra cima e pra baixo, até
que depois de muito tempo o danado voltou a funcionar. Chegamos em casa
beirando meia noite.
| Detalhe da fonte d'agua |
No dia seguinte fui para a escola com
creme dental espalhado no nariz e nas orelhas, com muitas histórias
e vantagens para contar para meus amigos que me ouviram atentos com os olhos
brilhando.
Dois meses depois o Chevrolet teve o
seu motor retificado e com um pedaço de papel de embrulhar pão (*)
colocado no vidro traseiro do carro escrito: "MOTOR AMACIANDO", fomos
para Aparecida do Norte.
(*) Não se utilizavam saquinhos para acondicionar os pães (conheceram o "filão e a bengala"?). O papel de embrulhar pão tambem tinha uma aplicação semelhante ao da folha A4 hoje em dia.
Continua na semana seguinte...

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