quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Infância Maravilhosa - Carro, praia e creme dental.

Continuação...
 
O tempo fluía na tranquilidade em que se vivia. O empório foi se solidificando em termos de negócio, não sobrava muito dinheiro mas também não faltava, a manutenção da casa passou a ser custeada com os recursos excedentes do negócio. Desta forma, meu pai pode empregar o seu salário em outras coisas que almejava. Uma delas foi a aquisição de um automóvel. Apesar de pouco tempo antes ter levado uma "fubecada", isto é, um golpe financeiro de um tal de "Consórcio Nacional de Veículos" não desistiu da idéia. Então, um dia ele apareceu em casa com um Chevrolet 1938 azul-marinho. A rua ficou em festa, os vizinhos com a molecada vieram ver o carro, era uma novidade, foi o primeiro carro da rua Valdomiro na vila Marari. Adivinham onde foi parar o meu orgulho! Claro que nas nuvens! Quando eu queria ranhetar com as outras crianças eu dizia cantarolando: "bem feitooooo! o meu pai tem carro o seu não teeeem! Coisa de moleque.
Chevrolet 1938
No início o carro ficava no quintal de casa, meu pai continuou a ir trabalhar de bicicleta, depois com o tempo, como tinham outros vizinhos que dependiam de ônibus para ir trabalhar, meu pai começou a explorar economicamente o carro transportando o pessoal que ia para mesma região que ele. O carro virou um "lotação" particular. Dava para pagar a gasolina e o pessoal tinha mais conforto.
Nos finais de tarde eu ficava esperando meu pai voltar do trabalho, dava para avistá-lo a umas três ruas paralelas devido ao declive dos terrenos em frente de casa. Assim que eu o via, saía correndo ao seu encontro para voltar pendurado no estribo do carro segurando-se na coluna. Era muita emoção, a adrenalina ia a mil.
Naquela época, dois passeios eram obrigatórios para quem tinha um carro: visitar Aparecida do Norte e ir à Santos. Conhecer o litoral era o sonho de todos no bairro, quando ouvíamos dizer que fulano ou ciclano esteve na praia dava uma pontinha de inveja, só gente que tinha alguma "posse" podia fazer isso. Não era necessário dizer que você esteve na praia, bastava observar no dia seguinte, principalmente na escola, qualquer um com as bochechas, testa e nariz rebocado com creme dental branco, parecendo um palhaço, desfilando todo imponente e esbarrando em todo mundo para chamar a atenção (que nem precisava) para concluir que ele lá esteve. O creme dental aliviava as queimaduras provocadas pelo sol e dava um certo charme e "status" social ao usuário. Era coisa de pobre, mas era chique.
Até então, nossa família só conhecia o mar descrito nos livros e nas histórias contadas por quem lá já tinha ido. Tínhamos um vizinho conhecido pelo nome de Mota e sua esposa dona Hermínia que já tinham tido esta experiência. Num dia de domingo qualquer, o seu Mota, que adorava uma "branquinha", em conversa com meu pai no empório, depois de "umas e outras", prontificou-se a nos acompanhar até a praia do Gonzaga em Santos, dizendo que conhecia "o caminho das pedras" para passarmos um dia agradável. O dia foi marcado. Eu não conseguia me conter de tanta ansiedade, contava os dias, espalhei pra vila inteira que tal dia iríamos pra Santos, meu conceito com as meninas aumentou, considerando a margem de erro meu ibope estava acima dos oitenta por cento. Finalmente o dia chegou! Os preparativos foram feitos na véspera, inclusive o frango com farofa. A dona Diva foi quem preparou tudo, afinal, o seu Mota e a dona Hermínia eram nossos convidados. Eles não tinham carro então fomos em seis pessoas (quatro adultos eu e minha irmã) no Chevrolet 38 descendo serra abaixo com o porta-malas repleto de coisas.
Area de descanso - Via Anchieta
subida da serra
Depois de estacionar o carro, tirar todo conteúdo do porta malas e nos acomodar na areia eu e minha irmã fomos brincar na água sob os olhares da dona Diva e da dona Hermínia. Adivinhem onde foram os outros dois? Acertou quem julgou que eles foram escorropichar algumas garrafas de cerveja.
O dia não estava ensolarado, mas estava quente, abafado, um mormaço danado. Particularmente, o mar, devido à sua agitação e a força das ondas não me atraiu muito, gostava mais da lagoa do seu João onde reinava a calmaria, mas a sua beleza e imensidão eram incomparáveis com qualquer coisa que já tinha visto em minha vida, iria render muita história para contar pra molecada da vila. Por outro lado, a atmosfera e o ambiente na praia eram formidáveis, nunca tinha visto tanta mulher (ao vivo) de biquíni, muitas musas ficaram na minha memória e posteriormente foram ótimas fontes de inspiração.
Enfim, foi um um dia maravilhoso, muitos sorvetes e refrigerantes alojaram-se no meu estômago. À tarde caía, tínhamos que regressar para casa. Na subida da serra o motor do Chevrolet ferveu, começou uma fumaceira danada na frente do carro. Na primeira área de descanso meu pai estacionou o carro e esperamos que o motor esfriasse. Era um local que possuía uma fonte d'agua (existe até hoje). Assim que a temperatura baixou, a água do radiador foi completada, porém, meu pai deu a partida no motor e nada do carro funcionar.
Detalhe da fonte d'agua
Tentou com a manivela e nada também. (naquela época era usado também uma manivela para fazer o motor funcionar) Então tivemos que empurrar o carro várias vezes num espaço de aproximadamente cem metros, pra cima e pra baixo, até que depois de muito tempo o danado voltou a funcionar. Chegamos em casa beirando meia noite.
No dia seguinte fui para a escola com creme dental espalhado no nariz e nas orelhas, com muitas histórias e vantagens para contar para meus amigos que me ouviram atentos com os olhos brilhando.
Dois meses depois o Chevrolet teve o seu motor retificado e com um pedaço de papel de embrulhar pão (*) colocado no vidro traseiro do carro escrito: "MOTOR AMACIANDO", fomos para Aparecida do Norte.
 
 
(*) Não se utilizavam saquinhos para acondicionar os pães (conheceram o "filão e a bengala"?). O papel de embrulhar pão tambem tinha uma aplicação semelhante ao da folha A4 hoje em dia.
 
Continua na semana seguinte...

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