Continuação...
Quando eu retornava da escola, lá por volta das 11:30hs, a primeira
coisa que fazia era tirar o uniforme escolar e colocar o famoso calção
branco feito de saco de farinha de trigo, eu tinha vários, era o
meu segundo uniforme. A bem da verdade, grande maioria da molecada trajava esse
modelito, isto é, andavamos somente de calção branco (não usávamos
cueca), sem camisa e sem chinelos. Éramos quase todos iguais. Uns “melquetrefezinhos”.
Digamos que era a socialização dos costumes. Andar mais ou menos “ajambrado”
era só para ocasiões especiais (visitar parentes, ir à
missa, festas de casamentos, etc.).
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| Arapuca artesanal |
O bairro onde morávamos ainda tinha ares rurais com
muita arborização nativa e pequenos riachos de agua cristalina. Então,
haviam dias que saíamos à caça de passarinhos, coquinho jerivá,
gabiroba, girinos, peixinhos, etc. Assim, munidos de nossos embornais
procuramos por tudo aquilo que poderia ser apanhado com uma arapuca de madeira,
peneira, estilingue, bodoque (vocês sabem o que é um bodoque?),
etc. Desta forma, com toda esta parafernália, sempre rendia alguma coisa.
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| Garoto com um bodoque e embornal a tira-colo |
Um dia, numa tarde de aventuras no meio do mato descobrimos uma
lagoa e perto dela a uma distância de aproximadamente uns trezentos
metros uma casa que quase não dava para se ver devido à
altura do mato nas redondezas. O local era calmo, tranquilo, muito silêncio,
era um “oásis” no meio do mato. Porém,
percebemos que não fomos os primeiros a descobrir a lagoa, ela já
tinha sido frequentada por outros. Bom, e daí? Vamos também brincar
nela, e katchabum! Todos caíram na agua!
A lagoa era formada ao lado de um brejo, tinha muita “taboa”
em sua volta, a agua era escura, barrenta e, dando meu pitacozinho de especialista
em geologia, achava que era devido à formação do solo.
Depois deste achado, pelo menos uma vez por semana nos íamos
dar umas “barrigadas” na lagoa, claro que sem nossos pais
saberem. No princípio, nadávamos com os nossos calções
brancos e quando saiamos da agua era só torce-lo e mete-lo no corpo novamente,
o resto da secagem a natureza através do sol cuidava no caminho de volta
para casa e, tinha que secar bem para que nossas mães não
percebessem por onde tínhamos andado. Outra coisa que também
tínhamos
que tomar cuidado era com os cabelos, pois não podiam estar molhados quando chegássemos
em casa. Para secar o cabelo nós tínhamos uma técnica infalível,
usávamos
um pedaço fino de graveto para passar na cabeça da mesma
forma como um pente. O movimento rápido do graveto (fricção)
na cabeça fazia com que a agua espalhasse desprendendo-se rapidamente
do cabelo, pois é, aqui vale aquele ditado de Platão: “a
necessidade é a mãe de toda invenção”.
Porém, por mais cuidado que tomássemos para que nossas mães
não
soubessem por onde tínhamos andado naquelas lindas tardes
as coisas começaram a complicar um pouquinho. Quando a gente não
dava umas “freadas” no calção que justificasse a troca ele era
utilizado quatro/cinco dias na semana e com o tempo eles começaram
a ficar encardidos devido a cor barrenta da agua da lagoa. Ainda bem que percebi
isto antes da dona Diva e pus-me a raciocinar na busca de uma solução
para o problema. Não demorou muito e, uma luz divina caiu sobre mim. Eu não
trocava de calção todo dia mas todo dia tinha que tomar banho, então,
quando percebia que a coisa ia ficar preta eu pegava escondido da dona Diva um
calção limpo e ia para o banho. No banheiro eu molhava e torcia
bem o calção sujo para que ele ficasse com menor volume e jogava-o no
forro da casa através do alçapão. E assim, por um bom tempo o paliativo resolveu a situação. Estava tudo indo muito bem até o dia em que a dona Diva percebeu que
meu estoque de calção estava diminuindo. Falei pra ela que talvez alguém
os tinha roubado do varal, acho que não fui muito convincente, mas era o que
eu tinha para o momento. A verdade não veio à tona, entretanto, daquele dia em diante passei nadar pelado.
A título de curiosidade, um dia meu pai resolveu limpar a caixa
d’agua
que ficava no forro da casa bem em cima do banheiro. Advinha! Achou uma coleção
completa de calções encardidos e enrolados que nem corda de sisal. Fedeu de novo! Tive que contar a verdade e, como passei a nadar pelado disse que nunca mais
tinha voltado à lagoa, tanto é, que os calções não
sumiram mais. Acho que a dona Diva acreditou.
Com o tempo descobri que a lagoa pertencia a um tal de Sr. João
que morava naquela casa próxima dela e que ele não
gostava que nós frequentássemos aquela área. Ouvíamos
dizer que ele de vez em quando dava tiros de sal na molecada com uma espingarda
de chumbinho, diziam os meninos de outras vilas que doía e ardia “pacas”.
O falatório não nos assustou, mas passamos a fazer menos
algazarras para não dar sinal de que lá estávamos, nos divertindo.
Numa bela tarde, eu, o Mário e o seu irmão o Maurinho
fomos para a lagoa. Lá chegando observamos que não
tinha ninguém nadando, mas a beira da lagoa estava bastante pisoteada,
era pé de moleque para todo lado, eram pisadas bem recentes, então
concluímos que os outros chegaram mais cedo e já
tinham ido embora. Tiramos nossas roupas, escondemo-las numa touceira de sapé
e katchabum! Dez minutos depois olhamos para a beira da lagoa e avistamos com
as nossas roupas na mão o tal do seu João.
Nadamos (tipo cachorrinho) até ele e pedimos que devolvesse nossas
roupas. Foi em vão. Então ele disse: “hoje vocês
vão
voltar pelado para casa.” Virou as costas e caminhou em direção
à
sua casa. A lagoa situava-se na parte dos fundos da casa onde ficava a cozinha.
Sem muito tempo a perder, pelados, corremos atrás dele e alcançamos o já
próximo
à
porta da cozinha, ele entrou e nós entramos atrás. Já
quase chorando imploramos para que ele devolvesse nossa roupa, nesse interim,
apareceu a mulher e as três filhas (já
crescidinhas) que ele tinha e, as quatro ficaram apreciando a negociação
entre três moleques pelados protegendo o “bilau”
e o seu João com nossas roupas na mão no meio da sua cozinha. O homem não
cedia e dizia: “vão embora, não quero ver
vocês mais por aqui, e não vou devolver as roupas, sumam.”
Então eu disse: “seu João, daqui até chegarmos em
casa são quase dois quilômetros, como é que nós
vamos pelado até lá?” – “Isso é problema de vocês,
sumam daqui molecada, vão embora que eu preciso sair com a
minha família”, disse ele. Fedeu! Quando vimos que não
ia mesmo ter jeito, desatamos a chorar de verdade, bateu um desespero, e chorando, de
joelhos no chão, com as mãos juntas como se estivesse rezando
tentei uma negociação prometendo que nunca mais voltaríamos lá
e também não deixaríamos que qualquer moleque da vila por
lá
aparecesse. O homem não se sensibilizou. O Maurinho começou
a desesperar-se, chorava berrando, soluçava e tossia e o ranho escorrendo solto pelo nariz afora,
coisa normal para ele (entre nós). Foi então, que a esposa dele entrou no meio da
conversa pedindo para ele que devolvesse nossas roupas e acabasse com aquilo. As meninas vendo nossa situação não falavam nada, assistiam a tudo soltando de vez em quando umas risadinhas sarcásticas e isto nos deixava mais
nervosos e furiosos, com elas e com a insistência do homem. Não
podíamos fazer nada, estávamos à mercê do seu João, pelados,
na sua cozinha. Deu-se um minuto de silencio e então ele disse: “Tá
bom, eu vou devolver a roupa e, espero que vocês cumpram o que prometeram, caso contrário,
da próxima vez a coisa vai ser pior” – “O senhor pode ficar tranquilo”
disse eu já catando os calções da mão dele. Vestimo-nos e saímos
rapidinho e aliviados. A uns cinquenta metros de distância olhei pra trás
e vi que ele estava na porta da cozinha apoiado no batente da porta olhando
para nós. Então procurei me vingar. Abaixei o calção
e com uma mão chacoalhando o “bilau” gritei o mais forte e alto que pude: “Seu
João,
seu filho duma puta! Vai tomar no seu cú! Olha aqui pra você,
seu viado! Enfia a lagoa no rabo!” e perna pra quem tem.
Um mês depois, pelados, porém, com nossa roupas bem escondidas, estávamos de volta dando nossas barrigadas na lagoa...é isso aí..."no risk no fun"...
Um mês depois, pelados, porém, com nossa roupas bem escondidas, estávamos de volta dando nossas barrigadas na lagoa...é isso aí..."no risk no fun"...
Os anos se passaram, eu cresci, o seu João mudou-se com a família, a lagoa foi aterrada e sob ela foi construído uma escola que existe até hoje chamada E.E. Professor João Evangelista Costa que fica localizada quase em frente ao Parque do Nabuco. Dúvidas: seria o "nosso" seu João esse tal de professor João Evangelista Costa?...
Continua na próxima semana...



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