quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Jack - O filho único criado pelos avós


Jack é o nome de um cachorro da raça Basset Hound, nasceu no dia 19 de Janeiro de 2.014 e foi adotado pela nossa família quando faltavam quatro dias para completar oito meses. O processo de adoção foi simples, pois ele pertencia a um casal amigos de meu filho que devido às turbulências da vida moderna decidiram doá-lo para quem pudesse dedicar mais tempo a ele. Desta forma, o Jack "faísca" apareceu em nossas vidas e foi muito bem vindo, adiante vocês saberão o porque.

Jack - Filhotinho
Minha esposa e eu fomos consultados pelo meu filho sobre a possibilidade de ficarmos com o cachorro. Ele mostrou fotos dele (ainda filhotinho), um vídeo com ele brincando no parque com outros cachorros e também fez vários comentários sobre a raça e as condições em que estava vivendo apesar de ser muito amado pelos ex-proprietários.
Animais domésticos sempre fizeram parte das nossas vidas. Num passado não muito distante chegamos a ter em casa, isto é, dentro de casa, sete cachorros, sendo quatro SRD e três Cocker Spaniel Inglês. Com exceção de uma vira lata de nome "Bebel" os demais morreram de complicações trazidas pela velhice. A "Bebel" está com aproximadamente quatorze anos e vive hoje em uma creche/hotel para animais de propriedade de minha filha, cuja profissão, é médica veterinária.

Jack - Filhotinho
Fomos convencidos, o Jack veio para casa no dia 15 de setembro de 2.014. A partir desta data ele passou a ser "um neto" criado pelos avós e além de nós tem como companhia três gatos (Simba, Bela e Charlote). Fim do nosso sossego! E dos gatos também!
Como era de se esperar, chegou com alguns vícios, principalmente o de fazer suas necessidades fisiológicas de acordo com suas conveniências, isto é, em qualquer lugar da casa. Com muito esforço e determinação, após dois meses e pouco, minha esposa conseguiu educá-lo para que somente desse suas aliviadas em local determinado. Apesar do seu deliberado ar molengão e cativante comportamento bonacheirão, ele é muito inteligente, aprendeu rápido e toda vez que agia de forma correta ganhava um petisco, o sistema de premiação continua e agora logo após suas idas ao "pipi-house" ele nos procura como querendo dizer: é aí gente cadê o meu prêmio?
Estabelecemos que durante o dia ele teria acesso livre a todas as dependências da casa e à noite dormiria no "quarto de empregada" anexo à uma área de lazer que conecta direto com a casa, desta forma, ele teria espaço mais que suficiente para passar a noite. Apesar do seu uivar melodioso nos primeiros minutos que ficava sozinho o primeiro mês foi tranquilo, porém, à medida em que ele foi conhecendo a rotina da casa e passou a conviver mais tempo conosco as coisas começaram a complicar-se um pouco. Numa madrugada de domingo para segunda-feira por volta das 2:00hs ele começou a uivar ininterruptamente, acredito que a ponto de até incomodar os vizinhos, então não tivemos outra saída senão a de abrir a porta e deixá-lo entrar. Assim, calmamente, balançando o rabo o danado foi para a sala de estar, subiu no sofá e ali dormiu o resto da madrugada. Julguei que pelo fato dele ter passado mais tempo no sábado e domingo com a família toda sentiu-se solitário. Ledo engano meu, no dia seguinte ele nem esperou dar meia noite e começou a uivar novamente sem parar. Abrimos a porta e devido a sua teimosia  a porta está aberta até hoje. Perdemos esta.

Jack - 11 meses
Sendo ele inteligente, o que nos pode por vezes parecer teimosia, poderá ser mais propriamente atribuído a uma ingenuidade propositada para atingir os seus objetivos. É da natureza dele primar por tentar levar as coisas à sua maneira e para isso vale tudo.
Apesar da sua aparência, ele tem personalidade forte, é impulsivo e não aceita comandos, seu temperamento enérgico e teimoso é legendário. Acho que ele ainda não sabe que seu nome é Jack. Na rua, quando o levo para passear, ele não me escuta, não atende pelo nome e a todo custo define o trajeto que quer fazer, não reconhece o som das palavras "NÃO JACK". Por outro lado, é bem amigável, está sempre disposto a fazer novas amizades, tanto com outros animais, inclusive com  gatos, como com pessoas, especialmente crianças.
Minha esposa julgou pelas primeiras fotos que ele seria sempre um cachorro pequeno, que poderia colocá-lo numa sacolinha e passear com ele no shopping. Que decepção! Hoje, com um pouco mais de onze meses, ele está pesando vinte e três quilos. Passear com ele, só na guia, coisa que ele ainda não assimilou muito bem, pois detesta o peitoral. Sempre que o local permite eu retiro o peitoral para ele ficar mais à vontade. Tentamos colocar no pescoço dele uma corrente com placa de identificação, mas foi em vão, ele travou, não saía do lugar, ficou imóvel chorando, tempo perdido.
 

Jack - 11 meses
Ele adora passear. Levo-o duas vezes por dia em uma praça existente próximo de casa onde existe uma área especial para cães, totalmente cercada, com aproximadamente três mil metros quadrados, inaugurada há uns três meses. Lá, além de exercitar o seu poderoso faro e aguçar seu instinto de caçador, ele brinca com outros cachorros, principalmente com os das raças de porte maior. Volta para casa exausto. Ambos, eu e ele, fizemos várias amizades neste local, a maioria de nós, os acompanhantes dos animais, ainda não nos conhecemos pelos nomes, desta forma, quando necessário fazer alguma referência a pessoas dizemos assim: o avô do Jack, a mãe ou pai do Thor, do Torremos, da Luna, do Astor, do Hulk, da Julie, do Tell, do Bart, do Aquiles, etc, etc, etc. (Me perdoe caro (a) leitor(a) se você é frequentador deste local e não mencionei o nome do seu cão, por favor, não vão soltar os cachorros atrás de mim.)

Oh! Pra vocês!
O Jack é muito sensível, carinhoso, dócil e ciumento. Late quando quer algo ou quer sugerir que não gosta de algo, usa também de uma lamentação baixa, quase um murmúrio, para chamar a atenção e sempre consegue. Em casa ele gosta de participar de tudo, sempre está enroscado nos pés de alguém, correndo atrás de um gato, comendo folhas de plantas, mudando seus mimos de um lugar para outro, no colo de alguém assistindo televisão, deitado no sofá com as pernas para o ar, enfim, muito preocupado com a vida.

Fazendo uso antropomórfico de minha percepção, tenho conversado bastante com ele. Disse-me que, com o passar do tempo, seu comportamento se estabilizará. Porém, por ora, só agito, brincadeiras, longe de problemas, curtir a vida, viver feliz...

...é isso aí catcholinho!
 
Feliz Natal!
 
 

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Infância Maravilhosa - Carro, praia e creme dental.

Continuação...
 
O tempo fluía na tranquilidade em que se vivia. O empório foi se solidificando em termos de negócio, não sobrava muito dinheiro mas também não faltava, a manutenção da casa passou a ser custeada com os recursos excedentes do negócio. Desta forma, meu pai pode empregar o seu salário em outras coisas que almejava. Uma delas foi a aquisição de um automóvel. Apesar de pouco tempo antes ter levado uma "fubecada", isto é, um golpe financeiro de um tal de "Consórcio Nacional de Veículos" não desistiu da idéia. Então, um dia ele apareceu em casa com um Chevrolet 1938 azul-marinho. A rua ficou em festa, os vizinhos com a molecada vieram ver o carro, era uma novidade, foi o primeiro carro da rua Valdomiro na vila Marari. Adivinham onde foi parar o meu orgulho! Claro que nas nuvens! Quando eu queria ranhetar com as outras crianças eu dizia cantarolando: "bem feitooooo! o meu pai tem carro o seu não teeeem! Coisa de moleque.
Chevrolet 1938
No início o carro ficava no quintal de casa, meu pai continuou a ir trabalhar de bicicleta, depois com o tempo, como tinham outros vizinhos que dependiam de ônibus para ir trabalhar, meu pai começou a explorar economicamente o carro transportando o pessoal que ia para mesma região que ele. O carro virou um "lotação" particular. Dava para pagar a gasolina e o pessoal tinha mais conforto.
Nos finais de tarde eu ficava esperando meu pai voltar do trabalho, dava para avistá-lo a umas três ruas paralelas devido ao declive dos terrenos em frente de casa. Assim que eu o via, saía correndo ao seu encontro para voltar pendurado no estribo do carro segurando-se na coluna. Era muita emoção, a adrenalina ia a mil.
Naquela época, dois passeios eram obrigatórios para quem tinha um carro: visitar Aparecida do Norte e ir à Santos. Conhecer o litoral era o sonho de todos no bairro, quando ouvíamos dizer que fulano ou ciclano esteve na praia dava uma pontinha de inveja, só gente que tinha alguma "posse" podia fazer isso. Não era necessário dizer que você esteve na praia, bastava observar no dia seguinte, principalmente na escola, qualquer um com as bochechas, testa e nariz rebocado com creme dental branco, parecendo um palhaço, desfilando todo imponente e esbarrando em todo mundo para chamar a atenção (que nem precisava) para concluir que ele lá esteve. O creme dental aliviava as queimaduras provocadas pelo sol e dava um certo charme e "status" social ao usuário. Era coisa de pobre, mas era chique.
Até então, nossa família só conhecia o mar descrito nos livros e nas histórias contadas por quem lá já tinha ido. Tínhamos um vizinho conhecido pelo nome de Mota e sua esposa dona Hermínia que já tinham tido esta experiência. Num dia de domingo qualquer, o seu Mota, que adorava uma "branquinha", em conversa com meu pai no empório, depois de "umas e outras", prontificou-se a nos acompanhar até a praia do Gonzaga em Santos, dizendo que conhecia "o caminho das pedras" para passarmos um dia agradável. O dia foi marcado. Eu não conseguia me conter de tanta ansiedade, contava os dias, espalhei pra vila inteira que tal dia iríamos pra Santos, meu conceito com as meninas aumentou, considerando a margem de erro meu ibope estava acima dos oitenta por cento. Finalmente o dia chegou! Os preparativos foram feitos na véspera, inclusive o frango com farofa. A dona Diva foi quem preparou tudo, afinal, o seu Mota e a dona Hermínia eram nossos convidados. Eles não tinham carro então fomos em seis pessoas (quatro adultos eu e minha irmã) no Chevrolet 38 descendo serra abaixo com o porta-malas repleto de coisas.
Area de descanso - Via Anchieta
subida da serra
Depois de estacionar o carro, tirar todo conteúdo do porta malas e nos acomodar na areia eu e minha irmã fomos brincar na água sob os olhares da dona Diva e da dona Hermínia. Adivinhem onde foram os outros dois? Acertou quem julgou que eles foram escorropichar algumas garrafas de cerveja.
O dia não estava ensolarado, mas estava quente, abafado, um mormaço danado. Particularmente, o mar, devido à sua agitação e a força das ondas não me atraiu muito, gostava mais da lagoa do seu João onde reinava a calmaria, mas a sua beleza e imensidão eram incomparáveis com qualquer coisa que já tinha visto em minha vida, iria render muita história para contar pra molecada da vila. Por outro lado, a atmosfera e o ambiente na praia eram formidáveis, nunca tinha visto tanta mulher (ao vivo) de biquíni, muitas musas ficaram na minha memória e posteriormente foram ótimas fontes de inspiração.
Enfim, foi um um dia maravilhoso, muitos sorvetes e refrigerantes alojaram-se no meu estômago. À tarde caía, tínhamos que regressar para casa. Na subida da serra o motor do Chevrolet ferveu, começou uma fumaceira danada na frente do carro. Na primeira área de descanso meu pai estacionou o carro e esperamos que o motor esfriasse. Era um local que possuía uma fonte d'agua (existe até hoje). Assim que a temperatura baixou, a água do radiador foi completada, porém, meu pai deu a partida no motor e nada do carro funcionar.
Detalhe da fonte d'agua
Tentou com a manivela e nada também. (naquela época era usado também uma manivela para fazer o motor funcionar) Então tivemos que empurrar o carro várias vezes num espaço de aproximadamente cem metros, pra cima e pra baixo, até que depois de muito tempo o danado voltou a funcionar. Chegamos em casa beirando meia noite.
No dia seguinte fui para a escola com creme dental espalhado no nariz e nas orelhas, com muitas histórias e vantagens para contar para meus amigos que me ouviram atentos com os olhos brilhando.
Dois meses depois o Chevrolet teve o seu motor retificado e com um pedaço de papel de embrulhar pão (*) colocado no vidro traseiro do carro escrito: "MOTOR AMACIANDO", fomos para Aparecida do Norte.
 
 
(*) Não se utilizavam saquinhos para acondicionar os pães (conheceram o "filão e a bengala"?). O papel de embrulhar pão tambem tinha uma aplicação semelhante ao da folha A4 hoje em dia.
 
Continua na semana seguinte...

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Infância Maravilhosa – A lagoa do seu João


Continuação...

Quando eu retornava da escola, lá por volta das 11:30hs, a primeira coisa que fazia era tirar o uniforme escolar e colocar o famoso calção branco feito de saco de farinha de trigo, eu tinha vários, era o meu segundo uniforme. A bem da verdade, grande maioria da molecada trajava esse modelito, isto é, andavamos somente de calção branco (não usávamos cueca), sem camisa e sem chinelos. Éramos quase todos iguais. Uns melquetrefezinhos”. Digamos que era a socialização dos costumes. Andar mais ou menos ajambrado era só para ocasiões especiais (visitar parentes, ir à missa, festas de casamentos, etc.).
Arapuca artesanal
O bairro onde morávamos ainda tinha ares rurais com muita arborização nativa e pequenos riachos de agua cristalina. Então, haviam dias que saíamos à caça de passarinhos, coquinho jerivá, gabiroba, girinos, peixinhos, etc. Assim, munidos de nossos embornais procuramos por tudo aquilo que poderia ser apanhado com uma arapuca de madeira, peneira, estilingue, bodoque (vocês sabem o que é um bodoque?), etc. Desta forma, com toda esta parafernália, sempre rendia alguma coisa.
Garoto com um bodoque
e embornal a tira-colo
 Um dia, numa tarde de aventuras no meio do mato descobrimos uma lagoa e perto dela a uma distância de aproximadamente uns trezentos metros uma casa que quase não dava para se ver devido à altura do mato nas redondezas. O local era calmo, tranquilo, muito silêncio, era um oásis no meio do mato. Porém, percebemos que não fomos os primeiros a descobrir a lagoa, ela já tinha sido frequentada por outros. Bom, e daí? Vamos também brincar nela, e katchabum! Todos caíram na agua!
A lagoa era formada ao lado de um brejo, tinha muita taboa em sua volta, a agua era escura, barrenta e, dando meu pitacozinho de especialista em geologia, achava que era devido à formação do solo.
Depois deste achado, pelo menos uma vez por semana nos íamos dar umas barrigadas na lagoa, claro que sem nossos pais saberem. No princípio, nadávamos com os nossos calções brancos e quando saiamos da agua era só torce-lo e mete-lo no corpo novamente, o resto da secagem a natureza através do sol cuidava no caminho de volta para casa e, tinha que secar bem para que nossas mães não percebessem por onde tínhamos andado. Outra coisa que também tínhamos que tomar cuidado era com os cabelos, pois não podiam estar molhados quando chegássemos em casa. Para secar o cabelo nós tínhamos uma técnica infalível, usávamos um pedaço fino de graveto para passar na cabeça da mesma forma como um pente. O movimento rápido do graveto (fricção) na cabeça fazia com que a agua espalhasse desprendendo-se rapidamente do cabelo, pois é, aqui vale aquele ditado de Platão: a necessidade é a mãe de toda invenção.
Porém, por mais cuidado que tomássemos para que nossas mães não soubessem por onde tínhamos andado naquelas lindas tardes as coisas começaram a complicar um pouquinho. Quando a gente não dava umas freadas no calção que justificasse a troca ele era utilizado quatro/cinco dias na semana e com o tempo eles começaram a ficar encardidos devido a cor barrenta da agua da lagoa. Ainda bem que percebi isto antes da dona Diva e pus-me a raciocinar na busca de uma solução para o problema. Não demorou muito e, uma luz divina caiu sobre mim. Eu não trocava de calção todo dia mas todo dia tinha que tomar banho, então, quando percebia que a coisa ia ficar preta eu pegava escondido da dona Diva um calção limpo e ia para o banho. No banheiro eu molhava e torcia bem o calção sujo para que ele ficasse com menor volume e jogava-o no forro da casa através do alçapão. E assim, por um bom tempo o paliativo resolveu a situação. Estava tudo indo muito bem até o dia em que a dona Diva percebeu que meu estoque de calção estava diminuindo. Falei pra ela que talvez alguém os tinha roubado do varal, acho que não fui muito convincente, mas era o que eu tinha para o momento. A verdade não veio à tona, entretanto, daquele dia em diante passei nadar pelado.
A título de curiosidade, um dia meu pai resolveu limpar a caixa dagua que ficava no forro da casa bem em cima do banheiro. Advinha! Achou uma coleção completa de calções encardidos e enrolados que nem corda de sisal. Fedeu de novo! Tive que contar a verdade e, como passei a nadar pelado disse que nunca mais tinha voltado à lagoa, tanto é, que os calções não sumiram mais. Acho que a dona Diva acreditou.
Com o tempo descobri que a lagoa pertencia a um tal de Sr. João que morava naquela casa próxima dela e que ele não gostava que nós frequentássemos aquela área. Ouvíamos dizer que ele de vez em quando dava tiros de sal na molecada com uma espingarda de chumbinho, diziam os meninos de outras vilas que doía e ardia pacas. O falatório não nos assustou, mas passamos a fazer menos algazarras para não dar sinal de que lá estávamos, nos divertindo.
Numa bela tarde, eu, o Mário e o seu irmão o Maurinho fomos para a lagoa. Lá chegando observamos que não tinha ninguém nadando, mas a beira da lagoa estava bastante pisoteada, era pé de moleque para todo lado, eram pisadas bem recentes, então concluímos que os outros chegaram mais cedo e já tinham ido embora. Tiramos nossas roupas, escondemo-las numa touceira de sapé e katchabum! Dez minutos depois olhamos para a beira da lagoa e avistamos com as nossas roupas na mão o tal do seu João. Nadamos (tipo cachorrinho) até ele e pedimos que devolvesse nossas roupas. Foi em vão. Então ele disse: hoje vocês vão voltar pelado para casa. Virou as costas e caminhou em direção à sua casa. A lagoa situava-se na parte dos fundos da casa onde ficava a cozinha. Sem muito tempo a perder, pelados, corremos atrás dele e alcançamos o já próximo à porta da cozinha, ele entrou e nós entramos atrás. Já quase chorando imploramos para que ele devolvesse nossa roupa, nesse interim, apareceu a mulher e as três filhas (já crescidinhas) que ele tinha e, as quatro ficaram apreciando a negociação entre três moleques pelados protegendo o bilau e o seu João com nossas roupas na mão no meio da sua cozinha. O homem não cedia e dizia: vão embora, não quero ver vocês mais por aqui, e não vou devolver as roupas, sumam. Então eu disse: seu João, daqui até chegarmos em casa são quase dois quilômetros, como é que nós vamos pelado até lá? Isso é problema de vocês, sumam daqui molecada, vão embora que eu preciso sair com a minha família, disse ele. Fedeu! Quando vimos que não ia mesmo ter jeito, desatamos a chorar de verdade, bateu um desespero, e chorando, de joelhos no chão, com as mãos juntas como se estivesse rezando tentei uma negociação prometendo que nunca mais voltaríamos lá e também não deixaríamos que qualquer moleque da vila por lá aparecesse. O homem não se sensibilizou. O Maurinho começou a desesperar-se, chorava berrando, soluçava e tossia e o ranho escorrendo solto pelo nariz afora, coisa normal para ele (entre nós). Foi então, que a esposa dele entrou no meio da conversa pedindo para ele que devolvesse nossas roupas e acabasse com aquilo. As meninas vendo nossa situação não falavam nada, assistiam a tudo soltando de vez em quando umas risadinhas sarcásticas e isto nos deixava mais nervosos e furiosos, com elas e com a insistência do homem. Não podíamos fazer nada, estávamos à mercê do seu João, pelados, na sua cozinha. Deu-se um minuto de silencio e então ele disse: Tá bom, eu vou devolver a roupa e, espero que vocês cumpram o que prometeram, caso contrário, da próxima vez a coisa vai ser pior O senhor pode ficar tranquilo disse eu já catando os calções da mão dele. Vestimo-nos e saímos rapidinho e aliviados. A uns cinquenta metros de distância olhei pra trás e vi que ele estava na porta da cozinha apoiado no batente da porta olhando para nós. Então procurei me vingar. Abaixei o calção e com uma mão chacoalhando o bilau gritei o mais forte e alto que pude: Seu João, seu filho duma puta! Vai tomar no seu cú! Olha aqui pra você, seu viado! Enfia a lagoa no rabo! e perna pra quem tem.
Um mês depois, pelados, porém, com nossa roupas bem escondidas, estávamos de volta dando nossas barrigadas na lagoa...é isso aí..."no risk no fun"...
Os anos se passaram, eu cresci,  o seu João mudou-se com a família, a lagoa foi aterrada e sob ela foi construído uma escola que existe até hoje chamada E.E. Professor João Evangelista Costa que fica localizada quase em frente ao Parque do Nabuco. Dúvidas: seria o "nosso" seu João esse tal de professor João Evangelista Costa?...
 
Continua na próxima semana...

 

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Comentários sobre as postagens no blog


Olá caros leitores e leitoras!
 
A partir desta data encontra-se disponível no final de cada publicação um espaço para comentários e sugestões em geral. A opinião de vocês é muito importante para a melhoria da qualidade das publicaçoes. Abraços!

Siga os passos:
a) Click em comentários
b) Digite seu comentário (se possível, no final do comentário mencione seus dados para contato)
c) Comentar como: Anônimo
d) Prove que você não é um computador e digite o texto que aparece no quadro (2 palavras separadas)
d) Click em publicar
 

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Infância Maravilhosa – A rua de casa - V


...continuação




 
Rolos de fumo de corda
...vender fumo de corda e vassouras era outro motivo para divertimento, o freguês chegava ao empório e perguntava como (isto é, de que forma) nos vendíamos o fumo de corda, se era por quilo ou pedaço e eu para brincar dizia que era por corrida. Como assim? Perguntavam. E eu respondia:- é assim: quanto mais o freguês corre mais fumo leva! Quanto às vassouras, é claro que a brincadeira não era aplicada para todas as freguesas, eu só brincava com as conhecidas perguntando quando elas compravam esse utensilio doméstico: quer que embrulhe ou já vai sair voando?! Mesmo brincando só com as mais chegadas de vez em quando eu era repreendido por elas, que normalmente diziam: toma sua linha moleque, assim que eu ver a dona Diva por aqui eu vou contar para ela o que você me disse. Ainda bem que com o passar do tempo elas esqueciam.

Desta forma, comecei a trabalhar com nove anos e meio. Ainda novo já tinha responsabilidades, meu amadurecimento foi precoce, o que fortaleceu muito meu caráter. Mas o que eu vivi na minha infância e posteriormente até os meus quinze/dezesseis anos de idade foi maravilhoso, acredito que muita gente que tornaram-se adulto com idade acima de vinte anos não tiveram um terço da infância que eu tive, o que é uma pena.

Mas voltemos ao assunto. Mesmo com as minhas atividades de balconista de empório eu tinha tempo para brincar com meus amigos na rua (vivia com a agenda cheia). Como às vezes eu queria ir brincar na área plana da rua mas não podia porque estava tomando conta do empório e em frente de casa tinha uns terrenos vazios, num dia de relampejo criativo decidi dar uma capinada num que ficava bem na frente do empório e ali montar uma (só uma) trave de campo de futebol para ficar brincando enquanto tomava conta do negócio. Nós brincávamos ali de disputar pênaltis com direito à rebote, quem foi moleque por volta desta época sabe do que estou falando, tinha até regra, era assim: quando convertido, o gol direto valia 1, o rebote valia 2 e bola na trave valia 3. Precisava de no mínimo dois e no máximo seis moleques para brincar a disputa. Além de jogar bola, em frente ao empório também dava para rodar pião, jogar bolinha de gude, figurinha a bafo, etc., quando necessário interrompia o divertimento, ia atender o freguês e depois voltava para a peleja, bom, dava para conciliar o trabalho com lazer só que ao mesmo tempo, não primeiro um e depois o outro. (Tem gente que faz isso até hoje).

O empório mudou muita coisa na vida de nossa família. Além do divertimento na rua, com brilhantina no cabelo cortado tipo escovinha (americano) comecei a ir aos domingos à tarde assistir as matinês no antigo Cine Astro na Av. Cupece, perto da Casa Palma, que antes era conhecido como Cine Ouro Verde, depois o local virou salão de baile, igreja e hoje é uma empresa. Nesta época eu tinha duas fontes de renda para satisfazer minhas vontades. Uma delas provinha do meu trabalho de engraxate aos sábados e domingos na porta do empório (eram os dias da minha folga) e a outra para complementar, vinha do caixa do bar que eventualmente, durante a semana, sem que meus pais soubessem, de forma comedida, eu creditava aos meus bolsos parte dos lucros, pois a minha atividade não era remunerada. A minha participação no negócio, dentro desta modalidade controversa, foi o que proporcionou fundos para que eu fugisse de casa aos 12 anos de idade.

Com o tempo, mas ainda moleque, as guloseimas (doces, balas, chocolates, etc.) foram sendo substituídas pelos refrigerantes, salgadinhos, etc. Adorava dar umas escapadas na parte da tarde e ir até uma padaria chamada Castelo Branco (próximo da rua Baquirivu, o local era tambem conhecido na época por "Ponto Final") na Cidade Ademar tomar Coca-Cola e comer torta de palmito e na volta para casa, como era no caminho, passar na lagoa do seu João para dar uns mergulhos (capítulo à parte) e fumar uns cigarrinhos escondido na beira da lagoa. (Quando falo em cigarrinhos eu quero dizer o cigarro convencional, nunca usei qualquer tipo de droga, naquela época a palavra maconha era impronunciável, ela estava ligada ao crime, aos bandidos e nós tínhamos medo até de passar perto de pessoas que sabidamente eram usuários).

Fiquei 10 anos de minha vida sem beber bebidas alcoólicas. É isso mesmo, 10 anos! É brincadeira?! Sempre que digo isto as pessoas perguntam se eu estava doente, se era grave, etc. Mas a verdade é que até os meus 5 anos de idade levei a vida na base do leite e dos 5 aos 10 na base de sucos e refrigerantes, depois desse período ingressei (não de cabeça) num mundo totalmente novo. O mundo dos etílicos e sedentos. Comecei a molhar as palavras cedo.
O empório facilitava muito as coisas, minha primeira bebida forte foi cachaça com groselha (mais groselha que cachaça) mas o suficiente para me deixar nas nuvens e bem alegrinho por longo período. Depois desta mistura que veio a ser mais divulgada nos anos 80 batizada com o nome de bombeirinho passei a apreciar a cachaça coquinho ela tinha um sabor suave e doce. Vale lembrar que eu só bebia recreativamente, principalmente a cuba libre nos bailinhos em finais de semana. Tomei muitas carraspanas na minha vida, porém, hoje em dia, só de vez em quando...e ainda sob os protestos da família...Ah! ia esquecendo, recentemente fiz uma ultra sonografia do abdome total e quanto ao fígado o resultado foi o seguinte: "Fígado com dimensões normais, contornos regulares e bordos finos. Parêquemia com ecotextura homogênea. Veias hepáticas e ramos portais preservados". Joinha né?!

 
Continua na semana seguinte...