...continuação
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| Rolos de fumo de corda |
...vender fumo de corda e vassouras
era outro motivo para divertimento, o freguês chegava ao empório
e perguntava como (isto é, de que forma) nos vendíamos
o fumo de corda, se era por quilo ou pedaço e eu para brincar dizia que era por
corrida. Como assim? Perguntavam. E eu respondia:- é assim:
quanto mais o freguês corre mais fumo leva! Quanto às
vassouras, é claro que a brincadeira não era aplicada para todas as
freguesas, eu só brincava com as conhecidas perguntando quando elas compravam
esse utensilio doméstico: quer que embrulhe ou já vai sair voando?! Mesmo brincando só
com as “mais chegadas” de vez em quando eu era repreendido
por elas, que normalmente diziam: toma sua linha moleque, assim que eu ver a
dona Diva por aqui eu vou contar para ela o que você me disse.
Ainda bem que com o passar do tempo elas esqueciam.
Desta forma, comecei a trabalhar com
nove anos e meio. Ainda novo já tinha responsabilidades, meu
amadurecimento foi precoce, o que fortaleceu muito meu caráter.
Mas o que eu vivi na minha infância e posteriormente até
os meus quinze/dezesseis anos de idade foi maravilhoso, acredito que muita
gente que tornaram-se adulto com idade acima de vinte anos não
tiveram um terço da infância que eu tive, o que é
uma pena.
Mas voltemos ao assunto. Mesmo com as
minhas atividades de balconista de empório eu tinha tempo para brincar com
meus amigos na rua (vivia com a agenda cheia). Como às vezes eu
queria ir brincar na área plana da rua mas não
podia porque estava tomando conta do empório e em frente de casa tinha uns
terrenos vazios, num dia de relampejo criativo decidi dar uma capinada num que ficava bem na frente do
empório e ali montar uma (só uma) trave de campo de futebol para
ficar brincando enquanto tomava conta do negócio. Nós brincávamos ali de “disputar pênaltis
com direito à rebote”, quem foi moleque por volta desta época
sabe do que estou falando, tinha até regra, era assim: quando convertido,
o gol direto valia 1, o rebote valia 2 e bola na trave valia 3. Precisava de no
mínimo
dois e no máximo seis moleques para brincar a disputa. Além
de jogar bola, em frente ao empório também dava para rodar pião,
jogar bolinha de gude, figurinha a bafo, etc., quando necessário interrompia o divertimento, ia atender o freguês e depois voltava para a peleja, bom, dava para conciliar o
trabalho com lazer só que ao mesmo tempo, não primeiro um e depois o outro. (Tem gente que
faz isso até hoje).
O empório mudou muita coisa na vida de nossa
família. Além do divertimento na rua, com
brilhantina no cabelo cortado tipo escovinha (americano) comecei a ir aos
domingos à tarde assistir as matinês no antigo Cine Astro na Av. Cupece,
perto da Casa Palma, que antes era conhecido como Cine Ouro Verde, depois o
local virou salão de baile, igreja e hoje é uma empresa. Nesta época
eu tinha duas fontes de renda para satisfazer minhas vontades. Uma delas
provinha do meu trabalho de engraxate aos sábados e domingos na porta do empório
(eram os dias da minha folga) e a outra para complementar, vinha do caixa do bar
que eventualmente, durante a semana, sem que meus pais soubessem, de forma
comedida, eu creditava aos meus bolsos parte dos lucros, pois a minha atividade não
era remunerada. A minha participação no negócio, dentro
desta modalidade “controversa”, foi o que proporcionou fundos para
que eu fugisse de casa aos 12 anos de idade.
Com o tempo, mas ainda moleque, as
guloseimas (doces, balas, chocolates, etc.) foram sendo substituídas
pelos refrigerantes, salgadinhos, etc. Adorava dar umas escapadas na parte da tarde
e ir até uma padaria chamada Castelo Branco (próximo
da rua Baquirivu, o local era tambem conhecido na época por "Ponto Final") na Cidade Ademar tomar Coca-Cola e comer torta de palmito e
na volta para casa, como era no caminho, passar na lagoa do “seu
João”
para dar uns mergulhos (capítulo à parte) e fumar uns cigarrinhos
escondido na beira da lagoa. (Quando falo em cigarrinhos eu quero dizer o
cigarro convencional, nunca usei qualquer tipo de “droga”, naquela época a palavra “maconha”
era impronunciável, ela estava ligada ao crime, aos bandidos e nós
tínhamos
medo até de passar perto de pessoas que sabidamente eram usuários).
Fiquei 10 anos de minha vida sem
beber bebidas alcoólicas. É isso mesmo, 10 anos! É brincadeira?! Sempre que digo isto as pessoas perguntam se eu estava doente, se era grave, etc. Mas a verdade é que até
os meus 5 anos de idade levei a vida na base do leite e dos 5 aos 10 na base de sucos e
refrigerantes, depois desse período ingressei (não
de cabeça) num mundo totalmente novo. O mundo dos etílicos e sedentos. Comecei a molhar as palavras cedo.
O empório
facilitava muito as coisas, minha primeira bebida “forte”
foi cachaça com groselha (mais groselha que cachaça)
mas o suficiente para me deixar nas nuvens e bem “alegrinho” por longo
período. Depois desta mistura que veio a ser mais divulgada nos
anos 80 batizada com o nome de “bombeirinho” passei a
apreciar a “cachaça coquinho” ela tinha um
sabor suave e doce. Vale lembrar que eu só bebia recreativamente, principalmente
a “cuba
libre” nos bailinhos em finais de semana. Tomei muitas carraspanas na minha vida, porém,
hoje em dia, só de vez em quando...e ainda sob os protestos da família...Ah! ia esquecendo, recentemente fiz uma ultra sonografia do abdome total e quanto ao fígado o resultado foi o seguinte: "Fígado com dimensões normais, contornos regulares e bordos finos. Parêquemia com ecotextura homogênea. Veias hepáticas e ramos portais preservados". Joinha né?!
Continua na semana seguinte...





Parabéns pelo texto!
ResponderExcluirBelo texto. Por coincidência estou escrevendo uma matéria sobre o antigo cine astro. Continue a escrever. Abraços.
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