sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Infância Maravilhosa – A rua de casa - V


...continuação




 
Rolos de fumo de corda
...vender fumo de corda e vassouras era outro motivo para divertimento, o freguês chegava ao empório e perguntava como (isto é, de que forma) nos vendíamos o fumo de corda, se era por quilo ou pedaço e eu para brincar dizia que era por corrida. Como assim? Perguntavam. E eu respondia:- é assim: quanto mais o freguês corre mais fumo leva! Quanto às vassouras, é claro que a brincadeira não era aplicada para todas as freguesas, eu só brincava com as conhecidas perguntando quando elas compravam esse utensilio doméstico: quer que embrulhe ou já vai sair voando?! Mesmo brincando só com as mais chegadas de vez em quando eu era repreendido por elas, que normalmente diziam: toma sua linha moleque, assim que eu ver a dona Diva por aqui eu vou contar para ela o que você me disse. Ainda bem que com o passar do tempo elas esqueciam.

Desta forma, comecei a trabalhar com nove anos e meio. Ainda novo já tinha responsabilidades, meu amadurecimento foi precoce, o que fortaleceu muito meu caráter. Mas o que eu vivi na minha infância e posteriormente até os meus quinze/dezesseis anos de idade foi maravilhoso, acredito que muita gente que tornaram-se adulto com idade acima de vinte anos não tiveram um terço da infância que eu tive, o que é uma pena.

Mas voltemos ao assunto. Mesmo com as minhas atividades de balconista de empório eu tinha tempo para brincar com meus amigos na rua (vivia com a agenda cheia). Como às vezes eu queria ir brincar na área plana da rua mas não podia porque estava tomando conta do empório e em frente de casa tinha uns terrenos vazios, num dia de relampejo criativo decidi dar uma capinada num que ficava bem na frente do empório e ali montar uma (só uma) trave de campo de futebol para ficar brincando enquanto tomava conta do negócio. Nós brincávamos ali de disputar pênaltis com direito à rebote, quem foi moleque por volta desta época sabe do que estou falando, tinha até regra, era assim: quando convertido, o gol direto valia 1, o rebote valia 2 e bola na trave valia 3. Precisava de no mínimo dois e no máximo seis moleques para brincar a disputa. Além de jogar bola, em frente ao empório também dava para rodar pião, jogar bolinha de gude, figurinha a bafo, etc., quando necessário interrompia o divertimento, ia atender o freguês e depois voltava para a peleja, bom, dava para conciliar o trabalho com lazer só que ao mesmo tempo, não primeiro um e depois o outro. (Tem gente que faz isso até hoje).

O empório mudou muita coisa na vida de nossa família. Além do divertimento na rua, com brilhantina no cabelo cortado tipo escovinha (americano) comecei a ir aos domingos à tarde assistir as matinês no antigo Cine Astro na Av. Cupece, perto da Casa Palma, que antes era conhecido como Cine Ouro Verde, depois o local virou salão de baile, igreja e hoje é uma empresa. Nesta época eu tinha duas fontes de renda para satisfazer minhas vontades. Uma delas provinha do meu trabalho de engraxate aos sábados e domingos na porta do empório (eram os dias da minha folga) e a outra para complementar, vinha do caixa do bar que eventualmente, durante a semana, sem que meus pais soubessem, de forma comedida, eu creditava aos meus bolsos parte dos lucros, pois a minha atividade não era remunerada. A minha participação no negócio, dentro desta modalidade controversa, foi o que proporcionou fundos para que eu fugisse de casa aos 12 anos de idade.

Com o tempo, mas ainda moleque, as guloseimas (doces, balas, chocolates, etc.) foram sendo substituídas pelos refrigerantes, salgadinhos, etc. Adorava dar umas escapadas na parte da tarde e ir até uma padaria chamada Castelo Branco (próximo da rua Baquirivu, o local era tambem conhecido na época por "Ponto Final") na Cidade Ademar tomar Coca-Cola e comer torta de palmito e na volta para casa, como era no caminho, passar na lagoa do seu João para dar uns mergulhos (capítulo à parte) e fumar uns cigarrinhos escondido na beira da lagoa. (Quando falo em cigarrinhos eu quero dizer o cigarro convencional, nunca usei qualquer tipo de droga, naquela época a palavra maconha era impronunciável, ela estava ligada ao crime, aos bandidos e nós tínhamos medo até de passar perto de pessoas que sabidamente eram usuários).

Fiquei 10 anos de minha vida sem beber bebidas alcoólicas. É isso mesmo, 10 anos! É brincadeira?! Sempre que digo isto as pessoas perguntam se eu estava doente, se era grave, etc. Mas a verdade é que até os meus 5 anos de idade levei a vida na base do leite e dos 5 aos 10 na base de sucos e refrigerantes, depois desse período ingressei (não de cabeça) num mundo totalmente novo. O mundo dos etílicos e sedentos. Comecei a molhar as palavras cedo.
O empório facilitava muito as coisas, minha primeira bebida forte foi cachaça com groselha (mais groselha que cachaça) mas o suficiente para me deixar nas nuvens e bem alegrinho por longo período. Depois desta mistura que veio a ser mais divulgada nos anos 80 batizada com o nome de bombeirinho passei a apreciar a cachaça coquinho ela tinha um sabor suave e doce. Vale lembrar que eu só bebia recreativamente, principalmente a cuba libre nos bailinhos em finais de semana. Tomei muitas carraspanas na minha vida, porém, hoje em dia, só de vez em quando...e ainda sob os protestos da família...Ah! ia esquecendo, recentemente fiz uma ultra sonografia do abdome total e quanto ao fígado o resultado foi o seguinte: "Fígado com dimensões normais, contornos regulares e bordos finos. Parêquemia com ecotextura homogênea. Veias hepáticas e ramos portais preservados". Joinha né?!

 
Continua na semana seguinte...

 

2 comentários:

  1. Belo texto. Por coincidência estou escrevendo uma matéria sobre o antigo cine astro. Continue a escrever. Abraços.

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