domingo, 28 de setembro de 2014

Saúde - O cardíaco!


...certas pessoas carregam consigo o eterno e sombrio medo de uma doença. São os hipocondríacos que podem ser polivalentes, quando acreditam terem dezenas de doenças simultâneas e sem orientação médica tomam muitos e variados remédios indiscriminadamente, sem a menor preocupação de se intoxicarem ou agravarem a situação.
Porém, existe aquele que elege uma doença, e com ela convive muito tempo, e até compete com qualquer um numa discussão sobre os males de saúde, a dele sempre é a mais grave, a pior! O Adamastor é um caso típico.
Emprego bem sucedido em uma grande multinacional alemã do setor de bens de capital, tinha pela empresa um plano de saúde que cobria até os seus pés em dias de frio. Era completo. E a generosa empresa ainda pagava-lhe também, os remédios, exames, enfim, uma verdadeira mãe médico-hospitalar!
Adamastor, descobriu que era cardíaco, tinha sopro no coração, o que espalhava para todo mundo até com certo orgulho e uma cara de idiota sofredor e carente. Na sua assinatura eletronica de e-mails além das informações básicas, tinha a seguinte observação logo após a ultima informação: "sou cardíaco, tenho sopro no coração".
Sua mulher o deixou um ano depois. Dizia que ele não queria sobrecarregar nenhum músculo do corpo e ela cansou de esperar, por "aquele" músculo que ficava tão longe do coração dele é tão perto, das suas mais legítimas fantasias libidinosas, funcionar. E Adamastor...nada...e nada...e nada!
Seu médico mandava ele fazer exatamente, o contrário, mas Adamastor queria curtir aquele "sopro", como se estivesse dirigindo uma Ferrari Testarossa. Vermelha! Cuidadosamente!
Se ele fosse um iatista a sua embarcação jamais sentiria a calmaria do mar, pois um sopro nas velas destes barcos é tudo que se deseja.
Em festa de aniversário o seu sopro deixava a criança aniversariante sempre chateada, pois era ele quem sempre apagava todas as velinhas. Tinha sopro de sobra!
Várias consultas por mês, o que elevou muito a sinistralidade do plano de saúde, exames caríssimos, remédios aos quilos, tudo patrocinado pela sua generosa empresa.
Sua conversa era uma verdadeira ventania, pois não tinha outro assunto. Quem encontrasse ia logo perguntando ao pé do ouvido: - Você também, também, tem sopro no coração?
Qualquer que fosse a resposta do interlocutor, Adamastor deitava falação sobre sua pior e "gravíssima doença", cultivada com muito carinho, amor e abnegação.
Andava feito um bonequinho de louça, devagar, respirando compassadamente e poupando o mais possível as suas energias.
Sua alimentação era semelhante a dos coelhos ou urso-panda, exclusivamente folhas e legumes, pois nada podia forçar-lhe a digestão e quem sabe, possivelmente exigir muito do seu "sôfrego" e exagerado sopro do coração.
Um belo dia Adamastor foi à cidade e passou embaixo de uma construção. Um andaime despencou-lhe a cabeça. Adamastor teve afundamento craniano e, segundos antes de morrer, pelos ferimentos fatais e irreversíveis, estas foram as suas últimas palavras ao médico da ambulância em plena via pública:
-    Doutor, muito cuidado, pois tenho sopro no coração.
Foram os seus últimos suspiros!
 
Adaptações & Ilustrações por C. de O.C. - texto básico de Paulo Tamburro

sábado, 27 de setembro de 2014

Sobre o Futuro



Todo espírito preocupado com o futuro é infeliz. O mais corriqueiro dos erros humanos é o futuro. Ele falseia a nossa imaginação, ainda que ignoremos totalmente onde nos leva.
Quando pensamos no futuro, nunca estamos em nós. Estamos sempre além.
O medo, o desejo, a esperança jogam-nos sempre para o futuro, sonegando-nos o sentimento e o exame do que é, para distrair-nos com o que será, embora o tempo passe e já não sejamos mais.

Montaigne


 

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Infância Maravilhosa - Primeiros anos de vida! - I


Foi no início de uma madrugada, madrugada de um azul profundo, madrugada que preparava-se para romper a aurora, muito fria, porém, um frio que mantinha-se fora dos nossos corações, quando as trombetas sob a lua crescente e a proteção do Anjo Nanael anunciavam a vinda deste leonino a este mundo. Minha mãe deu à luz esta criatura às zero hora e doze minutos numa quinta-feira de um 23 de Julho qualquer no Hospital Santa Helena na rua São Joaquim, bairro da Liberdade. O hospital nunca mais foi o mesmo, mas, assim como eu, graças a Deus, sobrevive até hoje.
Moramos até os meus dois anos e pouco de vida na Av. Iraí em Moema em uma casa que pertencia a um tio chamado Antônio (tio Toni), irmão de meu pai, cuja arquitetura tenho até hoje em minha mente. Posteriormente mudamos, mesmo que precariamente, para um loteamento denominado Vila Mararí na Cidade Ademar, cujo terreno fora adquirido em prestações por meu pai.
Não existiam ruas no loteamento, eram trilhas que nos conduzia aonde queríamos chegar, a área possuia muita arborização nativa. Ainda possuía ares de zona rural, o que na minha opinião contribuiu para nossa assimilaçao às variaveis da vida. 
A casa, construída com a ajuda de parentes e colegas do meu pai, era pequena e ficou inacabada por um bom tempo, tinha três cômodos, sem forro no teto, o piso era terra batida, as paredes não tinham reboco, existia somente as portas que davam acesso externo, isto é, duas, a da cozinha e a da sala, internamente no local das portas eram colocadas nos vãos,  presas em barbante, cortinas de plástico para dar privacidade aos ambientes.
Da direita para a esquerda, meu pai, minha mãe com
minha irmã no colo em frente à janela da cozinha da
nossa casa, eu provavelmente devia estar fazendo
alguma "arte" pelo quintal afora, neste momento.
O loteamento não possuía infraestrutura básica, isto é, energia elétrica, água e esgoto. A iluminação era à base do lampião a querosene, a água era obtida com o auxílio de  um balde amarrado à ponta de uma corda e a outra extremidade a um sarilho devidamente instalados em um poço cavado no terreno a dois metros da porta da cozinha, possuía vinte e três metros de profundidade. O esgoto era coletado por uma fossa de dez metros de profundidade situada na frente do terreno para evitar contaminação com o poço de água. A casa ficava no fundo do terreno (tipo edícula) sobrando espaço na frente para uns canteiros de horta, galinheiro, chiqueiro, um pé de limão, algumas flores, gramado (onde minha mãe colocava a roupa para quarar), etc. À medida em que meu pai juntava os recursos financeiros, paulatinamente, o imóvel foi tomando aspectos melhores e por volta dos meus oito/nove anos ela estava totalmente pronta, isto é, forrada, rebocada, com piso, caiada, etc., tinha até um nicho iluminado com a imagem de Nossa Senhora Aparecida.
Sarilho de poço
Vivíamos na simplicidade, beirando a raia da pobreza material extrema. Meus pais até casarem-se, viviam no interior de SP, ambos trabalhavam na lavoura. Logo após o casamento vieram para São Paulo, e como todos que para cá imigravam: começar uma nova vida. Meu pai aprendeu o ofício de "torneiro mecânico" o que sustentou nossa família por muitos anos com ajuda da minha mãe que contribuía no orçamento com trabalhos de costura. (...às vezes perguntavam-me se minha mãe costurava pra fora e eu na minha ingenuidade respondia que não, que ela costurava só pra dentro porque a máquina ficava no quarto, perto da janela). Ele naquela época trabalhava no bairro de Moema perto do antigo balão do bonde e utilizava como meio de transporte uma bicicleta que tinha até um farol que era alimentado por um dínamo (eu ficava imaginando como aquele trocinho poderia acender um farol, um dia detonei um, só para ver o que tinha dentro, fiquei decepcionado, e meu pai também, mas comigo). Ainda pequeno, aprendi a pedalar nela enfiando a perna no buraco do quadro para atingir o pedal do outro lado, andava com a "magrela" inclinada para poder manter o equilíbrio, "malemá" aguentava com o peso dela, ralei muito meus braços e joelhos nas minhas tentativas.
Desnecessário dizer que não tínhamos aparelhos eletrônicos em casa, o ferro de passar era à base de carvão, a parte baixa da pia da cozinha, por ser mais fria era considerada a nossa geladeira, para o banho, que era de bacia, tínhamos duas opções se quiséssemos quente: esquentar água num balde (tínhamos fogão a gás) ou, o mais usual, colocar a bacia com água no quintal logo após o horário do almoço e esperar o sol aquecê-la, caso contrário tinha que ser frio mesmo.
Minha irmã e eu (notem que eu já
usava calção "saint tropez")
Eu e minha irmã, que nasceu assim que mudamos, fazíamos nossas refeições utilizando latas vazias de goiabada como pratos, sim, aquelas redondas. Meu pai tirava a tampa delas e batia a borda com um martelo pra gente não se cortar, canecas também eram produzidas com a mesma criatividade utilizando latas vazias de extrato de tomate, principalmente. Pratos de louça e copos de vidro eram só para os adultos. Falando em utensílios de cozinha, as panelas, frigideiras, caldeirões, enfim, todo utensílio em alumínio, ficavam pendurados na parede da cozinha acima do vitrô, areados como um espelho, esse brilho era uma medida de avaliação de quanto dedicada ao lar eram as mulheres, as da minha mãe estavam sempre reluzentes. (Pobres, mas limpinhos). Um dos sinais de melhoria financeira em nossas vidas, foi quando minha mãe mudou o visual da cozinha, colocando uma capa plástica com umas florezinhas estampadas no botijão de gás que ficava dentro de casa, assim como uma roupa, aquilo era chique demais, causava até inveja na vizinhança.
Nossa alimentação durante a semana era básica: arroz, feijão, ovos, verdura da horta, batata, de vez em quando carne bovina, isto é, miudos (lembram do bucheiro?), somente aos domingos era que variava, principalmente quanto tinha visita em casa, domingo era dia de macarrão com frango e tubaína ou Q-suco, era uma festa. A gente costumava dizer que quando tinha frango em casa, principalmente canja, um dos dois estava doente, o frango ou um de nós.
O desjejum era feito com café com leite, pão e margarina, às vezes tinha bolacha doce, maria ou maizena. Toda vez que eu tomava café com leite ficava imaginando de onde provinha e como era extraído o leite da vaca e o café; do quintal de casa nos conseguiamos ver não muito distante, em uma parte mais elevada da vila, algumas vacas pastando diariamente, eram aquelas preto e branco (holandesas), então na minha ingenuidade de criança julgava que a parte branca da vaca era o leite e a parte preta era o café, e então,  de manhã cedinho vinha alguém com uma colher e ficava raspando a vaca para extrair o leite e o café, um balde para cada um. Bons tempos!
A maioria das minhas roupas eram confeccionadas por minha mãe. No dia a dia eu só usava "calção com elástico" que era feito com o tecido de saco de farinha de trigo adquirido em padarias. Os modelitos mais bonitinho tinham até bolso externo na parte traseira e às vezes eram tingidos, mas via de regra eram mesmos na cor natural, isto é, brancos, alguns ainda mantinham a estampa do "Moinho Santista". Camisas só usávamos para sair ou se estivesse o tempo frio, vim conhecer cueca depois dos meus dez anos de idade...mesmo porque, até então, ainda mijava na cama todas as noites...
 
continua na próxima semana...

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Crônica - O Homem Nu


Ao acordar, disse para a mulher:
— Escuta, minha filha: hoje é dia de pagar a prestação da televisão, vem aí o sujeito com a conta, na certa.  Mas acontece que ontem eu não trouxe dinheiro da cidade, estou a nenhum.
— Explique isso ao homem — ponderou a mulher.
— Não gosto dessas coisas. Dá um ar de vigarice, gosto de cumprir rigorosamente as minhas obrigações. Escuta: quando ele vier a gente fica quieto aqui dentro, não faz barulho, para ele pensar que não tem ninguém.   Deixa ele bater até cansar — amanhã eu pago.
Pouco depois, tendo despido o pijama, dirigiu-se ao banheiro para tomar um banho, mas a mulher já se trancara lá dentro. Enquanto esperava, resolveu fazer um café. Pôs a água a ferver e abriu a porta de serviço para apanhar o pão.  Como estivesse completamente nu, olhou com cautela para um lado e para outro antes de arriscar-se a dar dois passos até o embrulhinho deixado pelo padeiro sobre o mármore do parapeito. Ainda era muito cedo, não poderia aparecer ninguém. Mal seus dedos, porém, tocavam o pão, a porta atrás de si fechou-se com estrondo, impulsionada pelo vento.
Aterrorizado, precipitou-se até a campainha e, depois de tocá-la, ficou à espera, olhando ansiosamente ao redor. Ouviu lá dentro o ruído da água do chuveiro interromper-se de súbito, mas ninguém veio abrir. Na certa a mulher pensava que já era o sujeito da televisão. Bateu com o nó dos dedos:
— Maria! Abre aí, Maria. Sou eu — chamou, em voz baixa.
Quanto mais batia, mais silêncio fazia lá dentro.
Enquanto isso, ouvia lá embaixo a porta do elevador fechar-se, viu o ponteiro subir lentamente os andares...  Desta vez, era o homem da televisão!
Não era. Refugiado no lanço da escada entre os andares, esperou que o elevador passasse, e voltou para a porta de seu apartamento, sempre a segurar nas mãos nervosas o embrulho de pão:
— Maria, por favor! Sou eu!
Desta vez não teve tempo de insistir: ouviu passos na escada, lentos, regulares, vindos lá de baixo... Tomado de pânico, olhou ao redor, fazendo uma pirueta, e assim despido, embrulho na mão, parecia executar um ballet grotesco e mal ensaiado. Os passos na escada se aproximavam, e ele sem onde se esconder. Correu para o elevador, apertou o botão.
Foi o tempo de abrir a porta e entrar, e a empregada passava, vagarosa, encetando a subida de mais um lanço de escada. Ele respirou aliviado, enxugando o suor da testa com o embrulho do pão.
Mas eis que a porta interna do elevador se fecha e ele começa a descer.
— Ah, isso é que não!  — fez o homem nu, sobressaltado.
E agora? Alguém lá embaixo abriria a porta do elevador e daria com ele ali, em pêlo, podia mesmo ser algum vizinho conhecido... Percebeu, desorientado, que estava sendo levado cada vez para mais longe de seu apartamento, começava a viver um verdadeiro pesadelo de Kafka, instaurava-se naquele momento o mais autêntico e desvairado Regime do Terror!
— Isso é que não — repetiu, furioso.
Agarrou-se à porta do elevador e abriu-a com força entre os andares, obrigando-o a parar.  Respirou fundo, fechando os olhos, para ter a momentânea ilusão de que sonhava. Depois experimentou apertar o botão do seu andar. Lá embaixo continuavam a chamar o elevador.  Antes de mais nada: "Emergência: parar". Muito bem. E agora? Iria subir ou descer?  Com cautela desligou a parada de emergência, largou a porta, enquanto insistia em fazer o elevador subir. O elevador subiu.
— Maria! Abre esta porta! — gritava, desta vez esmurrando a porta, já sem nenhuma cautela. Ouviu que outra porta se abria atrás de si.
Voltou-se, acuado, apoiando o traseiro no batente e tentando inutilmente cobrir-se com o embrulho de pão. Era a velha do apartamento vizinho:
— Bom dia, minha senhora — disse ele, confuso.  — Imagine que eu...
A velha, estarrecida, atirou os braços para cima, soltou um grito:
— Valha-me Deus! O padeiro está nu!
E correu ao telefone para chamar a radiopatrulha:
— Tem um homem pelado aqui na porta!
Outros vizinhos, ouvindo a gritaria, vieram ver o que se passava:
— É um tarado!
— Olha, que horror!
— Não olha não! Já pra dentro, minha filha!
Maria, a esposa do infeliz, abriu finalmente a porta para ver o que era. Ele entrou como um foguete e vestiu-se precipitadamente, sem nem se lembrar do banho. Poucos minutos depois, restabelecida a calma lá fora, bateram na porta.
— Deve ser a polícia — disse ele, ainda ofegante, indo abrir.
Não era: era o cobrador da televisão. 
 
Fernando Sabino “Todos podemos nos formar em Veterinária, mas nem todos nós seremos Veterinários.
Pois ser Veterinário está além do olhar, do palpar e do auscultar. Ser Veterinário é um sentimento de pura alma e dedicação!!"
 
Parabéns a nós Médicos Veterinários pelo nosso d
 “Todos podemos nos formar em Veterinária, mas nem todos nós seremos Veterinários.
Pois ser Veterinário está além do olhar, do palpar e do auscultar. Ser Veterinário é um sentimento de

Parabéns a nós Médicos Veterinários pelo
 

domingo, 21 de setembro de 2014

...descobri...

"...descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor não é um estado da alma e sim um signo do zodíaco."
 
Gabriel Garcia Marques

 “Todos podemos nos formar em Veterinária, mas nem todos nós seremos Veterinários.
Pois ser Veterinário está além do olhar, do palpar e do auscultar. Ser Veterinário é um sentimento de pura alma e dedicação
Parabéns a nós Médicos V
 “Todos podemos nos formar em Veterinária, mas nem todos nós seremos Veterinários.
Pois ser Veterinário está além do olhar, do palpar e do auscultar. Ser Veterinário é um sentimento

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

O garoto que fugiu de casa aos 12 anos de idade - Final

Continuação...


A jardineira passou mais ou menos lá pelo horário esperado. Esperei atravessar o trajeto de terra para então começar a prestar atenção onde eu deveria descer. A parte asfaltada do percurso era a rodovia Washington Luis no sentido interior, desci nas proximidades de um acesso de terra, rodeado por plantações (os acessos de terra da estrada se pareciam muito, precisava ter certeza do local), depois tive que percorrer a pé uns quilômetros para chegar à fazenda onde, como colonos, moravam e trabalhavam meus tios com a família.
Meus tios - Cecília e Lino
No caminho ia pensando no que diria a eles quando chegasse lá. Mentiria ou contaria a verdade?! Me aceitariam ou me mandariam de volta para os meus pais?!
Finalmente cheguei no meu destino, claro que ficaram surpresos com a minha presença ali sozinho, não me lembro o que disse a eles, mas enfim, deve ter sido meio verdade e meio mentira. Não percebi nenhuma ação deles no sentido de me mandarem de volta para São Paulo, concluí então, que me aceitaram.
Naquela noite, pela primeira vez, depois de 24 horas fora de casa, fiquei pensando como meus pais e minha irmã estavam se sentindo com a minha ausência. Claro que a perda do ano escolar contribuiu muito na minha decisão de abandonar o lar, mas isto não era tudo, na minha cabeça eu julgava que estava dando uma lição a eles, dizendo: estão vendo, é nisso que dá,  chega de repreensão!
Meus primos sete anos depois
Tá certo que em alguns caso eu merecia, mas a coisa tinha virado rotina, assim não dava para continuar! Pensando desta forma sentia-me mais aliviado, sem remorsos, perdoado pelo tribunal da minha consciência.  Pensei também nos meus amigos do "peito", Mário e Anderson, ...será que se arrependeram de não terem vindo comigo?...será que que eles contaram para meus pais o meu plano? Pensando bem, foi melhor que não tivessem vindo, tudo seria mais difícil de se ajeitar com três moleques, fora as suspeitas que poderiam ter sido levantadas.
A casa onde moravam meus tios era simples, era uma casa de colonia, sem forro no teto, não muito ampla,  lembro me que na frente da casa tinha uma  grande plantação de café e ao lado um pé de manga, não tinha energia elétrica e agua encanada, o banheiro ficava no quintal, o banho era de bacia e, tudo mais que se possa imaginar para viver na simplicidade do campo,  lá existia. Os divertimentos eram somente nos finais de semana e consistiam a um campo de futebol e baile com sanfoneiro e violeiro numa área coberta na sede da fazenda. 
Meus primos sete anos depois
Diariamente, acordava no mesmo horário que meus primos, tomava café, se aquecia um pouco à beira de um fogão a lenha, que era disputadíssimo e, depois ia para a roça com eles. O almoço era às 10:00 horas da manhã e o jantar às 5:00 horas da tarde, as atividades diárias eram praticamentes definidas pela claridade da luz sol. Meu tio e primos às vezes trabalhavam como meeiros, as vezes por empreitada, etc., eu não entendia muito bem sobre isso, somente queria trabalhar para ajudar no sustento, pois como sempre na minha vida, a essência prevaleceu sobre a forma. Aprendi com eles alguma coisa sobre o manejo manual de alguns implementos agrícolas, principalmente o arado manual. Os dias foram passando...
Arado manual tracionado por animal
No quinto dia fora de casa, numa manhã ensolarada, com cigarrinho de palha na boca, eu estava na roça com os meus primos passando o arado (meia lua) numa plantação de feijão (era uma aula prática, kkkkk...!) cujo arado era tracionado por uma égua que pertencia ao meu tio, seu nome era "margoza", de repente eu avisto no horizonte da lavoura uma figura humana, que reluzia no meio da radiação que desprendia-se da terra, vinha se aproximando a passos lentos, a cada instante a figura tomava contornos mais nítidos, trazia um paletó nas costas pendurado pelo dedo indicador da mão esquerda. Ao aproximar-se mais, meu coração começou a acelerar, fiquei sem ação, nervoso. Era meu pai...!!! Naquele instante não dava para escafeder-se de novo. Tinha que enfrentar as consequências.
Aproximou-se, cumprimentou os parentes e disse: - Clovis, eu vim buscar você. Saímos da roça e voltamos todos para a casa na colonia, no caminho ele não falou absolutamente nada para mim. Lá chegando pediu que eu arrumasse minhas coisas, enquanto conversava com meus tios comeu alguma coisa, mas o assunto não era eu e meu caso. Ótimo ou péssimo sinal? Despedimo-nos dos parentes e pé na estrada. Voltamos de ônibus para São Paulo.
A exemplo do que aconteceu antes, viemos mudos até chegarmos em casa, exceto pela pergunta no meio do caminho se eu queria comer alguma coisa.
Chegando em casa fui recepcionado pela minha mãe que chorou muito, de alegria, claro, e também pela minha irmã. Nesse interin meu pai tirou do bolso do paletó um pedaço de papel e colocou-o aberto em cima da mesa, era um telegrama, que dizia: "O Clovis está em Santa Adélia fugido ou a passeio?". Então concluí que a delação fora feita pelos conhecidos dos meus avós que me questionaram na manhã em que cheguei em Santa Adélia, o que eximia o Mário e o Anderson de levar uns cascudos de mim.
Percebi que o clima em casa tinha mudado, nem parecia o lar que eu tinha deixado há seis dias, estava muito tranquilo, ameno, ninguem tocou no assunto. Começamos uma vida nova.
Dias depois meu pai me levou a um psicólogo, a conversa foi longa, primeiro conversamos juntos os três, depois ele e meu pai, depois eu e ele, depois nos tres juntos novamente, (um dia eu conto como foi a sessão). Ao sairmos, já em pé despedindo-se, na porta do consultório, o psicólogo falou com muita ênfase para mim com um ar de orador no pulpito: "Clovis de Oliveira Campos, seu nome me diz que você será um grande homem e uma pessoa muito importante na vida das pessoas".
Será?!

Nota: A história sobre "O garoto que fugiu de casa aos 12 anos de idade" foi um capítulo à parte da minha infância, que por sinal foi maravilhosa, em breve publicarei mais histórias sobre minhas aventuras de moleque!
 

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

O garoto que fugiu de casa aos 12 anos de idade - Parte VII


Continuação...
 
Contrariando meus pensamentos, ele conduziu-me com o braço apoiado no meu ombro como se fossemos amigos de longa data até o guichê e comprou o bilhete com destino à Santa Adélia. Comecei a respirar aliviado, mas ainda faltava mais uma etapa, o embarque!
Da bilheteria, sem perda de tempo, fomos para a área de embarque, agora com uma fila menor. O policial foi direto ao portão principal e disse ao chefe de embarque apresentando um documento:
-  Sou policial e preciso embarcar este menino para Santa Adélia.
-  Ele tem a companhia de um adulto para viajar ou autorização oficial? - perguntou o chefe de embarque.
-  Não, ele não tem!
-  Então o senhor por favor verifica nesta fila se tem algum adulto que vai para aquela região que possa acompanha-lo durante a viagem, caso contrário, não será possível.
Ferrou de novo! Puta merda! Pensei eu! Agora teremos que achar um pessoa que vai pra aquelas bandas, não vai ser nada fácil...Santa Adélia fica no cafundó do judaslândia! 
O policial então começou a perguntar às pessoas que encontravam-se na fila o seu destino, e eu ao seu lado cada vez mais agoniado. Para nossa felicidade, mais para a minha do que para a dele, encontramos um senhor idoso que ia para Jales (que fica depois do cafundó do judaslândia). O policial se identificou e questionou sobre a possibilidade dele me acompanhar. Quem diria não a um policial?! O senhor, a pedido do policial, saiu da fila e fomos os três novamente para o portão de embarque, onde após apresentação do documento do idoso, minha certidão de nascimento, assinatura de um papel, um sermãozinho do policial e inúmeras recomendações do chefe de embarque para o senhor idoso e para mim, o embarque fora autorizado. Agradecí ao policial, e sem olhar para trás comecei a descer as escadas com destino à plataforma acompanhado do meu "tutor" temporário.

Trem da Ferrovia Paulista
Entramos no vagão de segunda classe, procuramos assentos vazios e nos acomodamos, claro eu do lado da janelinha. Fiquei filosofando por uns instantes...em menos de uma hora minha situação tinha se mudado por completo, eu, um moleque de 12 anos, consegui sensibilizar uma pessoa estranha, que acima de tudo era um policial, a ajudar-me na execução do meu plano. Como explicar essas coisas?...ingenuidade dele - não acredito, meu poder de convencimento e argumentação - também não creio ou seria ele meu anjo da guarda? Bom, segui meus instintos, fiz o que tinha que ser feito, sob os olhos e proteção policial. Dá pra acreditar?! Acho que não vou mesmo para o céu! O trem partiu...e minha ansiedade também. Uma nova aventura começava.
Santa Adélia fica a aproximadamente 400 km de São Paulo, viajaria a noite toda e depois ainda teria que pegar uma jardineira para chegar ao meu destino final.
Jardineira dos anos 60
Com a permissão do meu "tutor" de viagem não demorou muito para que eu levantasse do assento e fosse ao banheiro. Porém, após satisfazer minhas necessidades fisiológicas, aproveitei para conhecer os vagões da primeira classe, o vagão Pullman, o carro restaurante, etc., minutos depois retornei para o meu assento e seguimos a viagem. Transcorridas mais de três horas cheias, disse ao meu "tutor" que iria novamente ao banheiro e depois iria andar um pouco para esticar as pernas, ele concordou. Esta foi a penúltima vez que falei com ele, a última foi quando desci do trem em Santa Adélia.
Conheci um garoto no trem, porém, mais velho do que eu, a exemplo do meu responsável ia também para a cidade de Jales. Viajava sózinho, dizia-se filho do dono da antiga Panificadora Havaí localizada no Jabaquara em frente a também antiga garagem de ônibus CMTC. O cara era um verdadeiro "sem noção, um porra-loca", eu era um inocente, um incauto, quando comparado a ele, eu ainda não tinha visto nada igual. Viajamos juntos o resto do meu percurso que não foi nada monótono comparado com as três primeiras horas.
Passamos boa parte do tempo no vagão bar/restaurante conversando, contando piadas, bebendo, comendo e fumando. 
Vagão Bar/Restaurante preservado em Rio Claro pela ABPF
A minha bebida era refrigerante, mas de vez em quando "molhava o bico" no copo dele que variava entre hi-fi e cuba libre, ap
ós umas três bicadas comecei a achar o meu refrigerante fraquinho, coisa para criança. "Sacumé" molhar as palavras é muito bom né?! No meio desta festa, tinha-se juntado a nós uma garota que também foi conhecida durante a viagem pelo meu novo amigo. Em menos de uma hora eu já estava cheio de amor para dar, estava besuntado de êxtase pela menina. Tomamos um porre homérico, acordei quando o dia estava clareando, estávamos os três sentados, eu ao lado da janela, a moça no meio e meu amigo na outra ponta de um mesmo banco da segunda classe, os três enrolados em um cobertor. Não sei como fui parar alí, ignorava também se houve ou não troca de locomotiva em Araraquara, ainda estava "anestesiado".
Levantei-me do assento e fui para o vagão onde encontrava-se meu "tutor" e minha bagagem (um pacote de roupas embrulhado em jornal e material escolar), ele estava dormindo. Estávamos próximos de Taquaritinga que era uma estação antes de Santa Adélia, resolvi não acorda-lo, organizei minhas coisas em cima do banco e fui despedir-me dos meus amigos que depois daquele dia nunca mais os vi. Quando retornei, o senhor tinha despertado, avisei que a próxima parada era o meu destino, agradeci a sua ajuda, peguei minhas coisinhas e fui para outro vagão, queria ficar sózinho.
Estação Ferroviária de Santa Adélia - Foto de 2001
Em 1965 a frente da estação era de terra e
brita fina, não existia a pavimentação da foto.
 

O trem parou, desci, dei uma espreguiçada no corpo, o dia estava ensolarado, caminhei até porta de saída da estação e fiquei contemplando a cidade ao longe. A terra ainda úmida pelo orvalho da noite exalava um perfume desconhecido que até hoje me fascina. Da porta escutei o apito do trem que partia novamente. Minha sensação de liberdade crescia a cada momento.
O meio de transporte para o centro da cidade era a charrete, elas ficavam estacionadas em frente à estação, porém, para econonizar dinheiro, resolvi cruzar a cidade a pé, pois o local onde eu tinha pegar a jardineira ficava no outro extremo da cidade, era um local que de um lado da rua existiam casas residencias  e do outro já era uma propriedade rural conhecida por mim com o nome de Fazenda dos Fornigoni.
Meus avós maternos tinham vividos lá por um bom tempo, era a cidade natal de minha mãe, meus pais pelo menos uma vez por ano viajavam para esta cidade,  principalmente no feriado de Finados, em outras oportunidades passamos férias tambem. Desta forma, eu não era uma criança totalmente desconhecida na cidade. Então a caminho do local onde eu tinha que pegar a jardineira fui por várias pessoas questionado sobre o que eu estava fazendo sózinho em Santa Adélia uma vez que meus avós tinham se mudado para São Paulo. Então tinha que explicar que estava indo para a casa dos meus tios que moravam numa fazenda perto de um local chamado (acho que era Vila Roberto) passar férias, pois meus pais não puderam vir desta vez, ...que me colocaram no trem, ...que tinha passado de ano direto na escola ...bóróró ...bórírí e que eu estava indo pegar a jardineira para chegar lá!

continua na próxima semana...