A jardineira passou mais ou menos lá pelo horário esperado.
Esperei atravessar o trajeto de terra para então começar a prestar atenção
onde eu deveria descer. A parte asfaltada do percurso era a rodovia
Washington Luis no sentido interior, desci nas proximidades de um acesso
de terra, rodeado por plantações (os acessos de terra da estrada se
pareciam muito, precisava ter certeza do local), depois tive que percorrer
a pé uns quilômetros para chegar à fazenda onde, como colonos, moravam e
trabalhavam meus tios com a família.
| Meus tios - Cecília e Lino |
Finalmente cheguei no meu destino, claro que ficaram surpresos com
a minha presença ali sozinho, não me lembro o que disse a eles, mas enfim, deve
ter sido meio verdade e meio mentira. Não percebi nenhuma ação deles no sentido
de me mandarem de volta para São Paulo, concluí então, que me aceitaram.
Naquela
noite, pela primeira vez, depois de 24 horas fora de casa, fiquei pensando
como meus pais e minha irmã estavam se sentindo com a minha ausência.
Claro que a perda do ano escolar contribuiu muito na minha decisão de abandonar
o lar, mas isto não era tudo, na minha cabeça eu julgava que estava dando uma
lição a eles, dizendo: estão vendo, é nisso que dá, chega de
repreensão!
| Meus primos sete anos depois |
Tá certo que em alguns caso eu merecia, mas a coisa tinha virado rotina, assim não dava para continuar! Pensando desta forma sentia-me mais aliviado, sem remorsos, perdoado pelo tribunal da minha consciência. Pensei também nos meus amigos do "peito", Mário e Anderson, ...será que se arrependeram de não terem vindo comigo?...será que que eles contaram para meus pais o meu plano? Pensando bem, foi melhor que não tivessem vindo, tudo seria mais difícil de se ajeitar com três moleques, fora as suspeitas que poderiam ter sido levantadas.
A casa onde moravam meus tios era simples, era uma casa de colonia, sem forro no teto, não muito ampla, lembro me que na frente da casa tinha uma grande plantação de café e ao lado um pé de manga, não tinha energia elétrica e agua encanada, o banheiro ficava no quintal, o banho era de bacia e, tudo mais que se possa imaginar para viver na simplicidade do campo, lá existia. Os divertimentos eram somente nos finais de semana e consistiam a um campo de futebol e baile com sanfoneiro e violeiro numa área coberta na sede da fazenda. | Meus primos sete anos depois |
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| Arado manual tracionado por animal |
Aproximou-se, cumprimentou os parentes e disse: - Clovis, eu vim buscar você. Saímos da roça e voltamos todos para a casa na colonia, no caminho ele não falou absolutamente nada para mim. Lá chegando pediu que eu arrumasse minhas coisas, enquanto conversava com meus tios comeu alguma coisa, mas o assunto não era eu e meu caso. Ótimo ou péssimo sinal? Despedimo-nos dos parentes e pé na estrada. Voltamos de ônibus para São Paulo.
A exemplo do que aconteceu antes, viemos mudos até chegarmos em casa, exceto pela pergunta no meio do caminho se eu queria comer alguma coisa.
Chegando em casa fui recepcionado pela minha mãe que chorou muito, de alegria, claro, e também pela minha irmã. Nesse interin meu pai tirou do bolso do paletó um pedaço de papel e colocou-o aberto em cima da mesa, era um telegrama, que dizia: "O Clovis está em Santa Adélia fugido ou a passeio?". Então concluí que a delação fora feita pelos conhecidos dos meus avós que me questionaram na manhã em que cheguei em Santa Adélia, o que eximia o Mário e o Anderson de levar uns cascudos de mim.
Percebi que o clima em casa tinha mudado, nem parecia o lar que eu tinha deixado há seis dias, estava muito tranquilo, ameno, ninguem tocou no assunto. Começamos uma vida nova.
Dias depois meu pai me levou a um psicólogo, a conversa foi longa, primeiro conversamos juntos os três, depois ele e meu pai, depois eu e ele, depois nos tres juntos novamente, (um dia eu conto como foi a sessão). Ao sairmos, já em pé despedindo-se, na porta do consultório, o psicólogo falou com muita ênfase para mim com um ar de orador no pulpito: "Clovis de Oliveira Campos, seu nome me diz que você será um grande homem e uma pessoa muito importante na vida das pessoas".
Será?!
Nota: A história sobre "O garoto que fugiu de casa aos 12 anos de idade" foi um capítulo à parte da minha infância, que por sinal foi maravilhosa, em breve publicarei mais histórias sobre minhas aventuras de moleque!
Dias depois meu pai me levou a um psicólogo, a conversa foi longa, primeiro conversamos juntos os três, depois ele e meu pai, depois eu e ele, depois nos tres juntos novamente, (um dia eu conto como foi a sessão). Ao sairmos, já em pé despedindo-se, na porta do consultório, o psicólogo falou com muita ênfase para mim com um ar de orador no pulpito: "Clovis de Oliveira Campos, seu nome me diz que você será um grande homem e uma pessoa muito importante na vida das pessoas".
Será?!
Nota: A história sobre "O garoto que fugiu de casa aos 12 anos de idade" foi um capítulo à parte da minha infância, que por sinal foi maravilhosa, em breve publicarei mais histórias sobre minhas aventuras de moleque!
