Continuação...
Percebi que ficaram mudos, então perguntei novamente:
-
Ceis
topam ou não topam fugir de casa comigo?
Após silêncio de ambos o Mário perguntou:
-
Como
assim fugir de casa?
-
É, disse eu, - fugir de casa, ir embora para outro lugar,
viver sózinho, trabalhar, cuidar da nossa vida sem pai sem mãe
para encher o saco!
-
Num
sei não se é fácil assim do jeito que você está pensando - disse o Mário
enquanto o Anderson continuava calado só prestando
atenção.
-
Tenho
um plano, vamos fugir para o interior de São Paulo, vamos trabalhar na roça,
é, na lavoura, andar a cavalo, nadar nos rios, fumar uns
"continempaia" (cigarro de palha), tem um montão
de coisa que nós podemos fazer por lá.
-
Mas
ir para onde? - abriu a boca o Anderson.
-
Tenho
uns tios - disse eu - que moram no interior de SP, perto de uma cidade chamada
Santa Adélia, a gente pode ir para lá e
se não der certo a gente depois se vira e vemos o que vamos
fazer. Topam ou não topam?
-
Eu
vou com você - disse o Mário. - Eu vou também
- disse o "Dersom".
Havia pouco tempo que estive com meus pais na casa dos meus
tios no interior, acredito que tinha sido no período de férias em Janeiro/Fevereiro daquele ano, viajamos de trem, portanto, conhecia mais ou menos como funcionava o "modus operandi"
na Estação da Luz. Então passei a explicar o plano de fuga:
-
Nós
vamos de trem amanhã a noite para lá, eu já tenho
o dinheiro da minha passagem e mais um pouquinho, vocês também vão precisar de grana, dêem
um jeito.
Arrumem uma sacola para colocar umas peças de roupa e sapato e o que mais vocês acham que devem levar, tem que ser uma sacola ou pacote pequeno para não chamar a atenção dos outros e não esqueçam da certidão de nascimento. O trem sai da Estação da Luz por volta das 22:00 hs, então precisamos chegar cedo lá. A hora que eu sair de casa para ir para a escola eu passo na sua casa Mário e depois nós vamos juntos para a casa do "Derson" e de lá nós pegamos o ônibus e vamos para a estação. Qualquer problema vocês avisem-me. E até lá então, "boca-de-sirí". Estamos combinados?
Arrumem uma sacola para colocar umas peças de roupa e sapato e o que mais vocês acham que devem levar, tem que ser uma sacola ou pacote pequeno para não chamar a atenção dos outros e não esqueçam da certidão de nascimento. O trem sai da Estação da Luz por volta das 22:00 hs, então precisamos chegar cedo lá. A hora que eu sair de casa para ir para a escola eu passo na sua casa Mário e depois nós vamos juntos para a casa do "Derson" e de lá nós pegamos o ônibus e vamos para a estação. Qualquer problema vocês avisem-me. E até lá então, "boca-de-sirí". Estamos combinados?
-
Estamos
- ambos responderam.
No dia seguinte logo cedo comecei os meus preparativos. Não
tinha em casa alguma sacola de que eu me pudesse apropriar sem a minha mãe
perceber, então, juntei umas folhas de jornal e guardei-as no mato em
frente de casa, eram terrenos vazios, cobertos de sapé alto
e outras arborizações nativas. Neste local construí muitas
cabaninhas..., assim, durante o dia, fui levando aos poucos umas peças
de roupa e um par de sapato. No final da tarde, o que eu tinha idéia
e podia levar já estava embrulhado no jornal sem
"dar no bico". Na hora certa era só passar
lá e pegar o pacote.
Não ví o Mário naquele dia, apesar de morar a
umas quatro casas da nossa, devia também estar se preparando ou tinha saído
com a mãe como fazia de vez em quando.
O "Derson" já era mais difícil de encontrá-lo pois morava em outra vila como já disse. Não fomos nadar na lagoa do "seu João" naquela tarde.
O "Derson" já era mais difícil de encontrá-lo pois morava em outra vila como já disse. Não fomos nadar na lagoa do "seu João" naquela tarde.
Chegou a hora. Peguei meus livros e cadernos enfiei debaixo
do braço, como se estivesse indo para a escola, dei tchau para
minha mãe, como de costume, e pus-me na rua. Peguei o pacote e fui
para casa do Mário. Lá chegando, do portão
gritei o nome dele umas três vezes, daí a pouco ele aparece, de chinelo, calção
e com cara amassada de quem passou a tarde dormindo. Então
eu disse:
- Pô meu, você não
se arrumou ainda? E aí? Vamos embora?
Desviando o olhar de mim ele disse:
-
Ô meu, eu estive pensando melhor e acho
que eu não vou com você nessa,
estou com medo das coisas não darem certo, por outro lado, de ontem para hoje andei me
acertando com o meus pais e a coisas voltaram ao normal aqui em casa. Você sabe como é, né?
-
Pô Marião! Que merda meu! E por que você não
falou comigo durante o dia sobre isto, agora chega na hora "h" você mija prá trás seu cagão! Olha, quer saber de uma coisa,
tchau, para mim não tem mais retorno, não dá pra voltar atrás, tô indo
para a casa do "Derson". E boca-de-sirí!
Estava uns 15 minutos adiantado, passei na casa da menina que íamos juntos para a escola e avisei que naquele dia eu
iria na frente, pois precisava terminar um trabalho e passar na sapataria, justificando o pacote na mão. O dó! Foi uma mentirinha leve,
mas tive que dizê-la.
Não fui para escola, fui direto para a casa do
"Derson". Lá chegando, do portão,
gritei pelo seu nome e uma voz feminina vinda do escuro de um corredor
respondeu:
-
O
Anderson não está em casa!
-
Você sabe para onde ele foi? - perguntei.
-
Ele
foi para a cidade com a mãe dele e já estão para chegar.
-
Tá bom. Obrigado. Tchau.
Que merda, pensei eu! Bom, menos mal. A "cidade"
que a voz feminina referia-se era o centro de São Paulo. Decidi esperar. O ponto de ônibus
não era muito longe da casa dele, então fiquei circulando pelos quarteirões,
vi o momento em que as irmãs dele saíram e foram para a escola sózinhas e mais ou menos a cada dez
minutos perguntava aos transeuntes que horas eram. O tempo foi passando e
nenhum sinal do "viado", bati palmas no portão da casa dele mais umas três
vezes e nada, a resposta era sempre a mesma, isto é, não tinha chegado. Na minha última
frustada tentativa, já de saco cheio, deixei recado para que
avisasse a ele que estive lá. Puto da vida com os dois, praguejando, peguei o ônibus
e sózinho fui para a Estação da Luz.
O ponto final do ônibus era no Viaduto do Chá,
não eram todas as conduções que eu sabia pegar, então
fui a pé até a
estação.
Até aqui, exceto pelo contratempo com os
dois amigos do "peito", tudo bem! Mas assim que botei o pé dentro da estação comecei a sentir um cagaço.
Precisava comprar o bilhete do trem, mas cadê a
coragem? Tinha medo do bilheteiro recusar a venda pelo fato de eu ser criança
e chamar a polícia ou qualquer coisa parecida. Passei em frente da
bilheteria várias vezes e em nenhuma delas tive a ousadia de chegar perto
do guichê.
O tempo foi passando, e da parte superior da estação que ficava no nível da rua já dava para ver o trem na parte de baixo estacionado na plataforma para as inspeções de praxe (lembram do cara que ficava dando umas marteladinhas nas rodas?) e uma fila de pessoas já se formava perto do portão de embarque, que através de uma escada dava acesso à plataforma.
O tempo foi passando, e da parte superior da estação que ficava no nível da rua já dava para ver o trem na parte de baixo estacionado na plataforma para as inspeções de praxe (lembram do cara que ficava dando umas marteladinhas nas rodas?) e uma fila de pessoas já se formava perto do portão de embarque, que através de uma escada dava acesso à plataforma.
Com os cadernos debaixo do braço e o pacote de roupas na mão
fiquei apoiado em um parapeito observando o movimento na plataforma, olhando
para o relógio da estação e, pensando como eu iria resolver o impasse, pois não
tinha pensado nisto antes.
De repente, naqueles meus momentos de relampejos, uma luz
caiu sobre mim. Percebi ao meu lado um rapaz, aparentando uns vinte e
cinco anos, bem vestido, usando uma camisa tipo polo vermelha, calça preta, barba feita, cabelo bem
penteado, inspirava confiança. Então, limpei o pigarro da garganta, engrossei a voz, aproximei-me dele e perguntei:
-
Este é o trem que faz a
linha paulista, não é?
-
É - respondeu o moço e continuou - por que?
-
Acho que vou perdê-lo.
-
Por que você vai perdê-lo?
-
Moro em São
Paulo com minha tia e ela trabalha aqui na cidade. Vim prá cá para
estudar, os meus pais são do interior eles
moram em Santa Adélia, passei de ano
direto na escola, fechei minhas notas no terceiro bimestre e vou voltar pra lá para passar as férias com eles. Minha tia pediu que eu viesse aqui, nos moramos na Cidade Ademar, ficamos de nos encontrar por volta das 8:00 horas da noite, ela compraria o bilhete e me colocaria no trem, mas até agora
ela não apareceu, não sei o que aconteceu! E o tempo está passando,
tá quase
em cima da hora.
-
É, de fato está mesmo
em cima da hora. Olha, se você quiser eu posso comprar o bilhete para
você.
-
Pode mesmo?
-
Claro que posso. Me dá o
dinheiro e vamos lá para a bilheteria. Como você se chama? Clovis - respondi!
O cara ficou me examinando com os olhos. Coloquei o pacote de roupas no chão, enfiei a mão no bolso da calça puxei um pacotinho com elástico em volta e separei um pouco de dinheiro. Assim que entreguei o
dinheiro suficiente para a compra do bilhete, ele olhou severamente para mim e
disse:
-
Nunca mais faça
isso na sua vida garoto! Como que você entrega dinheiro para uma pessoa que
você nunca
viu?! A sua sorte é que eu sou da polícia, estou de serviço aqui, à paisana e, aqui na estação está cheio de malandro esperando uma oportunidade como esta!
Tremendo na base como uma vara verde,
quase com a calça borrada, com vontade de jogar no chão o pacote de roupas e os cadernos e sair correndo estação afora, pensei
comigo de novo, ferrou de vez..., ô diazinho do "baralho". Já estava imaginando o noticiário na TV Tupi no dia seguinte no "O seu reporte Esso: Garoto que tentava fugir de casa foi detido na Estação da Luz por um policial à paisana".
Continua na próxima
semana...
(1) Zé Venancio: posteriormente concluímos o curso ginasial juntos e prestamos tambem o serviço militar no 2º Batalhão de Polícia do Exército (PE) no mesmo período. Depois nunca mais nos encontramos.
(1) Zé Venancio: posteriormente concluímos o curso ginasial juntos e prestamos tambem o serviço militar no 2º Batalhão de Polícia do Exército (PE) no mesmo período. Depois nunca mais nos encontramos.




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