quinta-feira, 4 de setembro de 2014

O garoto que fugiu de casa aos 12 anos de idade - Parte VI


Continuação...

 ... o Mário era recém chegado de uma cidade do interior paulista, morávamos na mesma rua, tinha sotaque de caipira, era uns dois ou três  anos mais velho do que eu, não era estudante, trabalhava nos finais de semana para ajudar no orçamento da família como engraxate em frente a uma padaria perto da escola, pertencia a uma família enorme, eram  em onze considerando o pai e a mãe. O Anderson era do bairro, mas não da mesma vila, concluiu o curso primário, tentou sem êxito duas vezes ingressar no curso ginasial, não sei o que aconteceu depois, ia para a escola todas as noites acompanhando as irmãs (uma delas chamava Shirlei) que lá estudavam e por lá ficava zanzando até o final das aulas, vinha também de uma família grande, não trabalhava, era membro do "clube" fundado por nós chamado "The Little Boys" cuja bandeira, nossa "grife", ficava estadeada em frente a casa de outro moleque chamado Zé Venâncio (1), fora bordada à mão pela minha mãe em um pedaço de pano branco de alta qualidade da coleção "farinha de trigo santista" que era encontrado à venda somente em padarias. Chique não?!
Percebi que ficaram mudos, então perguntei novamente:
-    Ceis topam ou não topam fugir de casa comigo?
Após silêncio de ambos o Mário perguntou:
-    Como assim fugir de casa?
-    É, disse eu, - fugir de casa, ir embora para outro lugar, viver sózinho, trabalhar, cuidar da nossa vida sem pai sem mãe para encher o saco!
-    Num sei não se é fácil assim do jeito que você está pensando - disse o Mário enquanto o Anderson continuava calado só prestando atenção.
-    Tenho um plano, vamos fugir para o interior de São Paulo, vamos trabalhar na roça, é, na lavoura, andar a cavalo, nadar nos rios, fumar uns "continempaia" (cigarro de palha), tem um montão de coisa que nós podemos fazer por lá.
-    Mas ir para onde? - abriu a boca o Anderson.
-    Tenho uns tios - disse eu - que moram no interior de SP, perto de uma cidade chamada Santa Adélia, a gente pode ir para lá e se não der certo a gente depois se vira e vemos o que vamos fazer. Topam ou não topam?
-    Eu vou com você - disse o Mário. - Eu vou também - disse o "Dersom".
Havia pouco tempo que estive com meus pais na casa dos meus tios no interior, acredito que tinha sido no período de férias em Janeiro/Fevereiro daquele ano, viajamos de trem, portanto, conhecia mais ou menos como funcionava o "modus operandi" na Estação da Luz. Então passei a explicar o plano de fuga:
-    Nós vamos de trem amanhã a noite para lá, eu já tenho o dinheiro da minha passagem e mais um pouquinho, vocês também vão precisar de grana, dêem um jeito.
Arrumem uma sacola para colocar umas peças de roupa e sapato e o que mais vocês acham que devem levar, tem que ser uma sacola ou pacote pequeno para não chamar a atenção dos outros e não esqueçam da certidão de nascimento. O trem sai da Estação da Luz por volta das 22:00 hs, então precisamos chegar cedo lá. A hora que eu sair de casa para ir para a escola eu passo na sua casa Mário e depois nós vamos juntos para a casa do "Derson" e de lá nós pegamos o ônibus e vamos para a estação. Qualquer problema vocês avisem-me. E até lá então, "boca-de-sirí". Estamos combinados?
-    Estamos - ambos responderam.
No dia seguinte logo cedo comecei os meus preparativos. Não tinha em casa alguma sacola de que eu me pudesse apropriar sem a minha mãe perceber, então, juntei umas folhas de jornal e guardei-as no mato em frente de casa, eram terrenos vazios, cobertos de sapé alto e outras arborizações nativas. Neste local construí muitas cabaninhas..., assim, durante o dia, fui levando aos poucos umas peças de roupa e um par de sapato. No final da tarde, o que eu tinha idéia e podia levar já estava embrulhado no jornal sem "dar no bico". Na hora certa era só passar lá e pegar o pacote.
Não ví o Mário naquele dia, apesar de morar a umas quatro casas da nossa, devia também estar se preparando ou tinha saído com a mãe como fazia de vez em quando.
O "Derson" já era mais difícil de encontrá-lo pois morava em outra vila como já disse. Não fomos nadar na lagoa do "seu João" naquela tarde.
Chegou a hora. Peguei meus livros e cadernos enfiei debaixo do braço, como se estivesse indo para a escola, dei tchau para minha mãe, como de costume, e pus-me na rua. Peguei o pacote e fui para casa do Mário. Lá chegando, do portão gritei o nome dele umas três vezes, daí a pouco ele aparece, de chinelo, calção e com cara amassada de quem passou a tarde dormindo. Então eu disse:
 - Pô meu, você não se arrumou ainda? E aí? Vamos embora?
Desviando o olhar de mim ele disse:
-    Ô meu, eu estive pensando melhor e acho que eu não vou com você nessa, estou com medo das coisas não darem certo, por outro lado, de ontem para hoje andei me acertando com o meus pais e a coisas voltaram ao normal aqui em casa. Você sabe como é, né?
-    Pô Marião! Que merda meu! E por que você não falou comigo durante o dia sobre isto, agora chega na hora "h" você mija prá trás seu cagão! Olha, quer saber de uma coisa, tchau, para mim não tem mais retorno, não dá pra voltar atrás, tô indo para a casa do "Derson". E boca-de-sirí!
Estava uns 15 minutos adiantado, passei na casa da menina que íamos juntos para a escola e avisei que naquele dia eu iria na frente, pois precisava terminar um trabalho e passar na sapataria, justificando o pacote na mão. O dó! Foi uma mentirinha leve, mas tive que dizê-la.
Não fui para escola, fui direto para a casa do "Derson". Lá chegando, do portão, gritei pelo seu nome e uma voz feminina vinda do escuro de um corredor respondeu:
-    O Anderson não está em casa!
-    Você sabe para onde ele foi? - perguntei.
-    Ele foi para a cidade com a mãe dele e já estão para chegar.
-    Tá bom. Obrigado. Tchau.
Que merda, pensei eu! Bom, menos mal. A "cidade" que a voz feminina referia-se era o centro de São Paulo. Decidi esperar. O ponto de ônibus não era muito longe da casa dele, então fiquei circulando pelos quarteirões, vi o momento em que as irmãs dele saíram e foram para a escola sózinhas e mais ou menos a cada dez minutos perguntava aos transeuntes que horas eram. O tempo foi passando e nenhum sinal do "viado", bati palmas no portão da casa dele mais umas três vezes e nada, a resposta era sempre a mesma, isto é, não tinha chegado. Na minha última frustada tentativa, já de saco cheio, deixei recado para que avisasse a ele que estive lá. Puto da vida com os dois, praguejando, peguei o ônibus e sózinho fui para a Estação da Luz.
O ponto final do ônibus era no Viaduto do Chá, não eram todas as conduções que eu sabia pegar, então fui a pé até a estação.
Até aqui, exceto pelo contratempo com os dois amigos do "peito", tudo bem! Mas assim que botei o pé dentro da estação comecei a sentir um cagaço. Precisava comprar o bilhete do trem, mas cadê a coragem? Tinha medo do bilheteiro recusar a venda pelo fato de eu ser criança e chamar a polícia ou qualquer coisa parecida. Passei em frente da bilheteria várias vezes e em nenhuma delas tive a ousadia de chegar perto do guichê.
O tempo foi passando, e da parte superior da estação que ficava no nível da rua já dava para ver o trem na parte de baixo estacionado na plataforma para as inspeções de praxe (lembram do cara que ficava dando umas marteladinhas nas rodas?) e uma fila de pessoas já se formava perto do portão de embarque, que através de uma escada dava acesso à plataforma.
Com os cadernos debaixo do braço e o pacote de roupas na mão fiquei apoiado em um parapeito observando o movimento na plataforma, olhando para o relógio da estação e, pensando como eu iria resolver o impasse, pois não tinha pensado nisto antes.
De repente, naqueles meus momentos de relampejos, uma luz caiu sobre mim. Percebi ao meu lado um rapaz, aparentando uns vinte e cinco anos, bem vestido, usando uma camisa tipo polo vermelha, calça preta, barba feita, cabelo bem penteado, inspirava confiança. Então, limpei o pigarro da garganta, engrossei a voz, aproximei-me dele e perguntei:
-   Este é o trem que faz a linha paulista, não é?
-   É - respondeu o moço e continuou - por que?
-   Acho que vou perdê-lo.
-   Por que você vai perdê-lo?
-   Moro em São Paulo com minha tia e ela trabalha aqui na cidade. Vim prá cá para estudar, os meus pais são do interior eles moram em Santa Adélia, passei de ano direto na escola, fechei minhas notas no terceiro bimestre e vou voltar pra lá para passar as férias com eles. Minha tia pediu que eu viesse aqui, nos moramos na Cidade Ademar, ficamos de nos encontrar por volta das 8:00 horas da noite, ela compraria o bilhete e me colocaria no trem, mas até agora ela não apareceu, não sei o que aconteceu! E o tempo está passando, tá quase em cima da hora.
-   É, de fato está mesmo em cima da hora. Olha, se você quiser eu posso comprar o bilhete para você.
-   Pode mesmo?
-   Claro que posso. Me dá o dinheiro e vamos lá para a bilheteria. Como você se chama? Clovis - respondi! 
 
O cara ficou me examinando com os olhos. Coloquei o pacote de roupas no chão, enfiei a mão no bolso da calça puxei um pacotinho com elástico em volta e separei um pouco de dinheiro. Assim que entreguei o dinheiro suficiente para a compra do bilhete, ele olhou severamente para mim e disse:
-   Nunca mais faça isso na sua vida garoto! Como que você entrega dinheiro para uma pessoa que você nunca viu?! A sua sorte é que eu sou da polícia, estou de serviço aqui, à paisana e, aqui na estação está cheio de malandro esperando uma oportunidade como esta!
Tremendo na base como uma vara verde, quase com a calça borrada, com vontade de jogar no chão o pacote de roupas e os cadernos e sair correndo estação afora, pensei comigo de novo, ferrou de vez..., ô diazinho do "baralho". Já estava imaginando o noticiário na TV Tupi no dia seguinte  no "O seu reporte Esso: Garoto que tentava fugir de casa foi detido na Estação da Luz por um policial à paisana".
 
Continua na próxima semana...

(1) Zé Venancio: posteriormente concluímos o curso ginasial juntos e prestamos tambem o serviço militar no 2º Batalhão de Polícia do Exército (PE) no mesmo período. Depois nunca mais nos encontramos.

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