Continuação...
Contrariando meus
pensamentos, ele conduziu-me com o braço
apoiado no meu ombro como se fossemos amigos de longa data até
o guichê e comprou o bilhete com destino à
Santa Adélia. Comecei a respirar aliviado, mas
ainda faltava mais uma etapa, o embarque!
Da bilheteria, sem
perda de tempo, fomos para a área
de embarque, agora com uma fila menor. O policial foi direto ao portão principal e disse ao chefe de
embarque apresentando um documento:
- Sou policial e preciso embarcar este menino para Santa Adélia.
- Ele tem a companhia de um adulto para viajar ou autorização oficial? - perguntou o chefe de embarque.
- Sou policial e preciso embarcar este menino para Santa Adélia.
- Ele tem a companhia de um adulto para viajar ou autorização oficial? - perguntou o chefe de embarque.
- Não,
ele não tem!
- Então o senhor por favor verifica nesta fila se tem algum adulto que vai para aquela região que possa acompanha-lo durante a
viagem, caso contrário,
não será
possível.
Ferrou de novo!
Puta merda! Pensei eu! Agora teremos que achar um pessoa que vai pra aquelas bandas, não vai ser nada fácil...Santa Adélia fica no cafundó do judaslândia!
O policial então começou a perguntar às pessoas que encontravam-se na fila o
seu destino, e eu ao seu lado cada vez mais agoniado. Para nossa felicidade,
mais para a minha do que para a dele, encontramos um senhor idoso que ia para
Jales (que fica depois do cafundó do judaslândia). O policial se identificou e questionou sobre a possibilidade dele me
acompanhar. Quem diria não
a um policial?! O senhor, a pedido do policial, saiu da fila e fomos os três novamente para o portão de embarque, onde após apresentação do documento do idoso, minha certidão de nascimento, assinatura de um
papel, um sermãozinho
do policial e inúmeras
recomendações do chefe de
embarque para o senhor idoso e para mim, o embarque fora autorizado.
Agradecí ao policial, e sem
olhar para trás
comecei a descer as escadas com destino à plataforma
acompanhado do meu "tutor" temporário.
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| Trem da Ferrovia Paulista |
Entramos no vagão de segunda classe, procuramos
assentos vazios e nos acomodamos, claro eu do lado da janelinha. Fiquei
filosofando por uns instantes...em menos de uma hora minha situação tinha se mudado por completo, eu, um
moleque de 12 anos, consegui sensibilizar uma pessoa estranha, que acima de
tudo era um policial, a ajudar-me na execução
do meu plano. Como explicar essas coisas?...ingenuidade dele - não acredito, meu poder de convencimento
e argumentação
- também não creio ou seria ele meu anjo da
guarda? Bom, segui meus instintos, fiz o que tinha que ser feito, sob os olhos
e proteção policial. Dá
pra acreditar?! Acho que não vou mesmo para o céu! O trem partiu...e minha ansiedade
também. Uma nova
aventura começava.
Santa Adélia fica a aproximadamente 400 km de São Paulo, viajaria a noite toda e
depois ainda teria que pegar uma jardineira para chegar ao meu destino final.
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| Jardineira dos anos 60 |
Com a permissão do meu "tutor" de viagem não demorou muito para que eu levantasse
do assento e fosse ao banheiro. Porém,
após satisfazer minhas
necessidades fisiológicas,
aproveitei para conhecer os vagões
da primeira classe, o vagão
Pullman, o carro restaurante, etc., minutos depois retornei para o meu assento
e seguimos a viagem. Transcorridas mais de três
horas cheias, disse ao meu "tutor" que iria novamente ao banheiro e
depois iria andar um pouco para esticar as pernas, ele concordou. Esta foi a
penúltima vez que falei
com ele, a última
foi quando desci do trem em Santa Adélia.
Conheci um garoto
no trem, porém,
mais velho do que eu, a exemplo do meu responsável ia também para a cidade de Jales. Viajava sózinho, dizia-se filho do dono
da antiga Panificadora Havaí localizada no Jabaquara em frente a
também antiga garagem de ônibus
CMTC. O cara era um verdadeiro "sem noção, um porra-loca", eu era um inocente, um incauto, quando comparado a ele, eu ainda não tinha visto nada igual. Viajamos
juntos o resto do meu percurso que não
foi nada monótono
comparado com as três
primeiras horas.
Passamos boa parte
do tempo no vagão
bar/restaurante conversando, contando piadas, bebendo, comendo e fumando.
A minha
bebida era refrigerante, mas de vez em quando "molhava o bico" no
copo dele que variava entre hi-fi e cuba libre, após umas três bicadas comecei a achar o meu
refrigerante fraquinho, coisa para criança. "Sacumé" molhar as palavras é muito bom né?! No meio desta festa, tinha-se juntado a nós uma garota que também foi conhecida durante a viagem pelo
meu novo amigo. Em menos de uma hora eu já estava cheio de amor para dar, estava besuntado de êxtase pela menina. Tomamos um porre homérico,
acordei quando o dia estava clareando, estávamos os três
sentados,
eu ao lado da janela, a moça
no meio e meu amigo na outra ponta de um mesmo banco da segunda classe, os três enrolados em um cobertor. Não sei como fui parar alí, ignorava também se houve ou não troca de locomotiva em Araraquara, ainda estava
"anestesiado".
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| Vagão Bar/Restaurante preservado em Rio Claro pela ABPF |
Levantei-me do
assento e fui para o vagão
onde encontrava-se meu "tutor" e minha bagagem (um pacote de roupas embrulhado em jornal e
material escolar), ele estava dormindo. Estávamos próximos de Taquaritinga que era uma estação antes de Santa Adélia, resolvi não acorda-lo, organizei minhas coisas
em cima do banco e fui despedir-me dos meus amigos que depois daquele dia nunca
mais os vi. Quando retornei, o senhor tinha despertado, avisei que a próxima parada era o meu destino, agradeci a sua ajuda, peguei minhas coisinhas e fui para outro vagão, queria ficar sózinho.
O trem parou, desci, dei uma espreguiçada no corpo, o dia estava ensolarado, caminhei até porta de saída da estação e fiquei contemplando a cidade ao longe. A terra ainda úmida pelo orvalho da noite exalava um perfume desconhecido que até hoje me fascina. Da porta escutei o apito do trem que partia novamente. Minha sensação de liberdade crescia a cada momento.
O meio de transporte para o centro da cidade era a charrete, elas ficavam estacionadas em frente à estação, porém, para econonizar dinheiro, resolvi cruzar a cidade a pé, pois o local onde eu tinha pegar a jardineira ficava no outro extremo da cidade, era um local que de um lado da rua existiam casas residencias e do outro já era uma propriedade rural conhecida por mim com o nome de Fazenda dos Fornigoni.
Meus avós maternos tinham vividos lá por um bom tempo, era a cidade natal de minha mãe, meus pais pelo menos uma vez por ano viajavam para esta cidade, principalmente no feriado de Finados, em outras oportunidades passamos férias tambem. Desta forma, eu não era uma criança totalmente desconhecida na cidade. Então a caminho do local onde eu tinha que pegar a jardineira fui por várias pessoas questionado sobre o que eu estava fazendo sózinho em Santa Adélia uma vez que meus avós tinham se mudado para São Paulo. Então tinha que explicar que estava indo para a casa dos meus tios que moravam numa fazenda perto de um local chamado (acho que era Vila Roberto) passar férias, pois meus pais não puderam vir desta vez, ...que me colocaram no trem, ...que tinha passado de ano direto na escola ...bóróró ...bórírí e que eu estava indo pegar a jardineira para chegar lá!
continua na próxima semana...
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| Estação Ferroviária de Santa Adélia - Foto de 2001 Em 1965 a frente da estação era de terra e brita fina, não existia a pavimentação da foto. |
O trem parou, desci, dei uma espreguiçada no corpo, o dia estava ensolarado, caminhei até porta de saída da estação e fiquei contemplando a cidade ao longe. A terra ainda úmida pelo orvalho da noite exalava um perfume desconhecido que até hoje me fascina. Da porta escutei o apito do trem que partia novamente. Minha sensação de liberdade crescia a cada momento.
O meio de transporte para o centro da cidade era a charrete, elas ficavam estacionadas em frente à estação, porém, para econonizar dinheiro, resolvi cruzar a cidade a pé, pois o local onde eu tinha pegar a jardineira ficava no outro extremo da cidade, era um local que de um lado da rua existiam casas residencias e do outro já era uma propriedade rural conhecida por mim com o nome de Fazenda dos Fornigoni.
Meus avós maternos tinham vividos lá por um bom tempo, era a cidade natal de minha mãe, meus pais pelo menos uma vez por ano viajavam para esta cidade, principalmente no feriado de Finados, em outras oportunidades passamos férias tambem. Desta forma, eu não era uma criança totalmente desconhecida na cidade. Então a caminho do local onde eu tinha que pegar a jardineira fui por várias pessoas questionado sobre o que eu estava fazendo sózinho em Santa Adélia uma vez que meus avós tinham se mudado para São Paulo. Então tinha que explicar que estava indo para a casa dos meus tios que moravam numa fazenda perto de um local chamado (acho que era Vila Roberto) passar férias, pois meus pais não puderam vir desta vez, ...que me colocaram no trem, ...que tinha passado de ano direto na escola ...bóróró ...bórírí e que eu estava indo pegar a jardineira para chegar lá!
continua na próxima semana...





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