Foi
no início de uma madrugada, madrugada de um azul profundo, madrugada que preparava-se para romper a
aurora, muito fria, porém, um frio que mantinha-se fora dos nossos corações,
quando as trombetas sob a lua crescente e a proteção do Anjo Nanael anunciavam
a vinda deste leonino a este mundo. Minha mãe deu à luz esta criatura às zero hora e doze minutos numa quinta-feira de um 23 de
Julho qualquer
no Hospital Santa Helena na rua São Joaquim, bairro da Liberdade. O hospital nunca mais foi o mesmo, mas, assim como eu, graças a Deus, sobrevive até hoje.
Moramos
até os meus dois anos e pouco de vida na Av. Iraí em Moema em uma casa que
pertencia a um tio chamado Antônio (tio Toni), irmão de meu pai, cuja arquitetura
tenho até hoje em minha mente. Posteriormente mudamos, mesmo que precariamente,
para um loteamento denominado Vila Mararí na Cidade Ademar, cujo terreno fora
adquirido em prestações por meu pai.
Não existiam ruas no loteamento, eram
trilhas que nos conduzia aonde queríamos chegar, a área possuia muita arborização nativa.
Ainda possuía ares de zona rural, o que na minha opinião contribuiu para nossa assimilaçao às variaveis da vida.
A
casa, construída com a ajuda de parentes e colegas do meu pai, era pequena e
ficou inacabada por um bom tempo, tinha três cômodos, sem forro no teto, o piso
era terra batida, as paredes não tinham reboco, existia somente as portas que
davam acesso externo, isto é, duas, a da cozinha e a da sala, internamente no
local das portas eram colocadas nos vãos, presas em barbante, cortinas de plástico para dar privacidade aos
ambientes.
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| Sarilho de poço |
Vivíamos
na simplicidade, beirando a raia da pobreza material extrema. Meus pais até casarem-se,
viviam no interior de SP, ambos trabalhavam na lavoura. Logo após o casamento
vieram para São Paulo, e como todos que para cá imigravam: começar uma nova
vida. Meu pai aprendeu o ofício de "torneiro mecânico" o que
sustentou nossa família por muitos anos com ajuda da minha mãe que contribuía
no orçamento com trabalhos de costura. (...às vezes perguntavam-me se minha mãe
costurava pra fora e eu na minha ingenuidade respondia que não, que ela
costurava só pra dentro porque a máquina ficava no quarto, perto da janela).
Ele naquela época trabalhava no bairro de Moema perto do antigo balão do bonde
e utilizava como meio de transporte uma bicicleta que tinha até um farol que
era alimentado por um dínamo (eu ficava imaginando como aquele trocinho poderia acender um farol, um dia detonei um, só para ver o que tinha dentro, fiquei decepcionado, e meu pai também, mas comigo). Ainda pequeno, aprendi a pedalar nela enfiando
a perna no buraco do quadro para atingir o pedal do outro lado, andava com a
"magrela" inclinada para poder manter o equilíbrio, "malemá" aguentava com o peso dela, ralei muito meus braços e
joelhos nas minhas tentativas.
Desnecessário
dizer que não tínhamos aparelhos eletrônicos em casa, o ferro de passar era à base
de carvão, a parte baixa da pia da cozinha, por ser mais fria era considerada a
nossa geladeira, para o banho, que era de bacia, tínhamos duas opções se quiséssemos
quente: esquentar água num balde (tínhamos fogão a gás) ou, o mais usual,
colocar a bacia com água no quintal logo após o horário do almoço e esperar o
sol aquecê-la, caso contrário tinha que ser frio mesmo.
Eu e minha irmã, que
nasceu assim que mudamos, fazíamos nossas refeições utilizando latas vazias de
goiabada como pratos, sim, aquelas redondas. Meu pai tirava a tampa delas e
batia a borda com um martelo pra gente não se cortar, canecas também eram
produzidas com a mesma criatividade utilizando latas vazias de extrato de
tomate, principalmente. Pratos de louça e copos de vidro eram só para os
adultos. Falando em utensílios de cozinha, as panelas, frigideiras, caldeirões,
enfim, todo utensílio em alumínio, ficavam pendurados na parede da cozinha
acima do vitrô, areados como um espelho, esse brilho era uma medida de avaliação
de quanto dedicada ao lar eram as mulheres, as da minha mãe estavam sempre
reluzentes. (Pobres, mas limpinhos). Um dos sinais de melhoria financeira em
nossas vidas, foi quando minha mãe mudou o visual da cozinha, colocando uma
capa plástica com umas florezinhas estampadas no botijão de gás que ficava dentro de casa, assim como uma
roupa, aquilo era chique demais, causava até inveja na vizinhança.
| Minha irmã e eu (notem que eu já usava calção "saint tropez") |
Nossa
alimentação durante a semana era básica: arroz, feijão, ovos, verdura da horta,
batata, de vez em quando carne bovina, isto é, miudos (lembram do bucheiro?), somente aos domingos era que variava,
principalmente quanto tinha visita em casa, domingo era dia de macarrão com
frango e tubaína ou Q-suco, era uma festa. A gente costumava dizer que quando
tinha frango em casa, principalmente canja, um dos dois estava doente, o frango ou um de nós.
O desjejum era feito com café com leite, pão e margarina, às vezes tinha bolacha doce, maria ou maizena. Toda vez que eu tomava café com leite ficava imaginando de onde provinha e como era extraído o leite da vaca e o café; do quintal de casa nos conseguiamos ver não muito distante, em uma parte mais elevada da vila, algumas vacas pastando diariamente, eram aquelas preto e branco (holandesas), então na minha ingenuidade de criança julgava que a parte branca da vaca era o leite e a parte preta era o café, e então, de manhã cedinho vinha alguém com uma colher e ficava raspando a vaca para extrair o leite e o café, um balde para cada um. Bons tempos!
O desjejum era feito com café com leite, pão e margarina, às vezes tinha bolacha doce, maria ou maizena. Toda vez que eu tomava café com leite ficava imaginando de onde provinha e como era extraído o leite da vaca e o café; do quintal de casa nos conseguiamos ver não muito distante, em uma parte mais elevada da vila, algumas vacas pastando diariamente, eram aquelas preto e branco (holandesas), então na minha ingenuidade de criança julgava que a parte branca da vaca era o leite e a parte preta era o café, e então, de manhã cedinho vinha alguém com uma colher e ficava raspando a vaca para extrair o leite e o café, um balde para cada um. Bons tempos!
A
maioria das minhas roupas eram confeccionadas por minha mãe. No dia a dia eu só
usava "calção com elástico" que era feito com o tecido de saco de
farinha de trigo adquirido em padarias. Os modelitos mais bonitinho tinham até bolso
externo na parte traseira e às vezes eram tingidos, mas via de regra eram mesmos na cor natural, isto é, brancos, alguns ainda mantinham a estampa do "Moinho
Santista". Camisas só usávamos para sair ou se estivesse o tempo frio, vim
conhecer cueca depois dos meus dez anos de idade...mesmo porque, até então, ainda mijava na cama todas as noites...
continua na próxima semana...


