quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Infância Maravilhosa – A lagoa do seu João


Continuação...

Quando eu retornava da escola, lá por volta das 11:30hs, a primeira coisa que fazia era tirar o uniforme escolar e colocar o famoso calção branco feito de saco de farinha de trigo, eu tinha vários, era o meu segundo uniforme. A bem da verdade, grande maioria da molecada trajava esse modelito, isto é, andavamos somente de calção branco (não usávamos cueca), sem camisa e sem chinelos. Éramos quase todos iguais. Uns melquetrefezinhos”. Digamos que era a socialização dos costumes. Andar mais ou menos ajambrado era só para ocasiões especiais (visitar parentes, ir à missa, festas de casamentos, etc.).
Arapuca artesanal
O bairro onde morávamos ainda tinha ares rurais com muita arborização nativa e pequenos riachos de agua cristalina. Então, haviam dias que saíamos à caça de passarinhos, coquinho jerivá, gabiroba, girinos, peixinhos, etc. Assim, munidos de nossos embornais procuramos por tudo aquilo que poderia ser apanhado com uma arapuca de madeira, peneira, estilingue, bodoque (vocês sabem o que é um bodoque?), etc. Desta forma, com toda esta parafernália, sempre rendia alguma coisa.
Garoto com um bodoque
e embornal a tira-colo
 Um dia, numa tarde de aventuras no meio do mato descobrimos uma lagoa e perto dela a uma distância de aproximadamente uns trezentos metros uma casa que quase não dava para se ver devido à altura do mato nas redondezas. O local era calmo, tranquilo, muito silêncio, era um oásis no meio do mato. Porém, percebemos que não fomos os primeiros a descobrir a lagoa, ela já tinha sido frequentada por outros. Bom, e daí? Vamos também brincar nela, e katchabum! Todos caíram na agua!
A lagoa era formada ao lado de um brejo, tinha muita taboa em sua volta, a agua era escura, barrenta e, dando meu pitacozinho de especialista em geologia, achava que era devido à formação do solo.
Depois deste achado, pelo menos uma vez por semana nos íamos dar umas barrigadas na lagoa, claro que sem nossos pais saberem. No princípio, nadávamos com os nossos calções brancos e quando saiamos da agua era só torce-lo e mete-lo no corpo novamente, o resto da secagem a natureza através do sol cuidava no caminho de volta para casa e, tinha que secar bem para que nossas mães não percebessem por onde tínhamos andado. Outra coisa que também tínhamos que tomar cuidado era com os cabelos, pois não podiam estar molhados quando chegássemos em casa. Para secar o cabelo nós tínhamos uma técnica infalível, usávamos um pedaço fino de graveto para passar na cabeça da mesma forma como um pente. O movimento rápido do graveto (fricção) na cabeça fazia com que a agua espalhasse desprendendo-se rapidamente do cabelo, pois é, aqui vale aquele ditado de Platão: a necessidade é a mãe de toda invenção.
Porém, por mais cuidado que tomássemos para que nossas mães não soubessem por onde tínhamos andado naquelas lindas tardes as coisas começaram a complicar um pouquinho. Quando a gente não dava umas freadas no calção que justificasse a troca ele era utilizado quatro/cinco dias na semana e com o tempo eles começaram a ficar encardidos devido a cor barrenta da agua da lagoa. Ainda bem que percebi isto antes da dona Diva e pus-me a raciocinar na busca de uma solução para o problema. Não demorou muito e, uma luz divina caiu sobre mim. Eu não trocava de calção todo dia mas todo dia tinha que tomar banho, então, quando percebia que a coisa ia ficar preta eu pegava escondido da dona Diva um calção limpo e ia para o banho. No banheiro eu molhava e torcia bem o calção sujo para que ele ficasse com menor volume e jogava-o no forro da casa através do alçapão. E assim, por um bom tempo o paliativo resolveu a situação. Estava tudo indo muito bem até o dia em que a dona Diva percebeu que meu estoque de calção estava diminuindo. Falei pra ela que talvez alguém os tinha roubado do varal, acho que não fui muito convincente, mas era o que eu tinha para o momento. A verdade não veio à tona, entretanto, daquele dia em diante passei nadar pelado.
A título de curiosidade, um dia meu pai resolveu limpar a caixa dagua que ficava no forro da casa bem em cima do banheiro. Advinha! Achou uma coleção completa de calções encardidos e enrolados que nem corda de sisal. Fedeu de novo! Tive que contar a verdade e, como passei a nadar pelado disse que nunca mais tinha voltado à lagoa, tanto é, que os calções não sumiram mais. Acho que a dona Diva acreditou.
Com o tempo descobri que a lagoa pertencia a um tal de Sr. João que morava naquela casa próxima dela e que ele não gostava que nós frequentássemos aquela área. Ouvíamos dizer que ele de vez em quando dava tiros de sal na molecada com uma espingarda de chumbinho, diziam os meninos de outras vilas que doía e ardia pacas. O falatório não nos assustou, mas passamos a fazer menos algazarras para não dar sinal de que lá estávamos, nos divertindo.
Numa bela tarde, eu, o Mário e o seu irmão o Maurinho fomos para a lagoa. Lá chegando observamos que não tinha ninguém nadando, mas a beira da lagoa estava bastante pisoteada, era pé de moleque para todo lado, eram pisadas bem recentes, então concluímos que os outros chegaram mais cedo e já tinham ido embora. Tiramos nossas roupas, escondemo-las numa touceira de sapé e katchabum! Dez minutos depois olhamos para a beira da lagoa e avistamos com as nossas roupas na mão o tal do seu João. Nadamos (tipo cachorrinho) até ele e pedimos que devolvesse nossas roupas. Foi em vão. Então ele disse: hoje vocês vão voltar pelado para casa. Virou as costas e caminhou em direção à sua casa. A lagoa situava-se na parte dos fundos da casa onde ficava a cozinha. Sem muito tempo a perder, pelados, corremos atrás dele e alcançamos o já próximo à porta da cozinha, ele entrou e nós entramos atrás. Já quase chorando imploramos para que ele devolvesse nossa roupa, nesse interim, apareceu a mulher e as três filhas (já crescidinhas) que ele tinha e, as quatro ficaram apreciando a negociação entre três moleques pelados protegendo o bilau e o seu João com nossas roupas na mão no meio da sua cozinha. O homem não cedia e dizia: vão embora, não quero ver vocês mais por aqui, e não vou devolver as roupas, sumam. Então eu disse: seu João, daqui até chegarmos em casa são quase dois quilômetros, como é que nós vamos pelado até lá? Isso é problema de vocês, sumam daqui molecada, vão embora que eu preciso sair com a minha família, disse ele. Fedeu! Quando vimos que não ia mesmo ter jeito, desatamos a chorar de verdade, bateu um desespero, e chorando, de joelhos no chão, com as mãos juntas como se estivesse rezando tentei uma negociação prometendo que nunca mais voltaríamos lá e também não deixaríamos que qualquer moleque da vila por lá aparecesse. O homem não se sensibilizou. O Maurinho começou a desesperar-se, chorava berrando, soluçava e tossia e o ranho escorrendo solto pelo nariz afora, coisa normal para ele (entre nós). Foi então, que a esposa dele entrou no meio da conversa pedindo para ele que devolvesse nossas roupas e acabasse com aquilo. As meninas vendo nossa situação não falavam nada, assistiam a tudo soltando de vez em quando umas risadinhas sarcásticas e isto nos deixava mais nervosos e furiosos, com elas e com a insistência do homem. Não podíamos fazer nada, estávamos à mercê do seu João, pelados, na sua cozinha. Deu-se um minuto de silencio e então ele disse: Tá bom, eu vou devolver a roupa e, espero que vocês cumpram o que prometeram, caso contrário, da próxima vez a coisa vai ser pior O senhor pode ficar tranquilo disse eu já catando os calções da mão dele. Vestimo-nos e saímos rapidinho e aliviados. A uns cinquenta metros de distância olhei pra trás e vi que ele estava na porta da cozinha apoiado no batente da porta olhando para nós. Então procurei me vingar. Abaixei o calção e com uma mão chacoalhando o bilau gritei o mais forte e alto que pude: Seu João, seu filho duma puta! Vai tomar no seu cú! Olha aqui pra você, seu viado! Enfia a lagoa no rabo! e perna pra quem tem.
Um mês depois, pelados, porém, com nossa roupas bem escondidas, estávamos de volta dando nossas barrigadas na lagoa...é isso aí..."no risk no fun"...
Os anos se passaram, eu cresci,  o seu João mudou-se com a família, a lagoa foi aterrada e sob ela foi construído uma escola que existe até hoje chamada E.E. Professor João Evangelista Costa que fica localizada quase em frente ao Parque do Nabuco. Dúvidas: seria o "nosso" seu João esse tal de professor João Evangelista Costa?...
 
Continua na próxima semana...

 

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

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sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Infância Maravilhosa – A rua de casa - V


...continuação




 
Rolos de fumo de corda
...vender fumo de corda e vassouras era outro motivo para divertimento, o freguês chegava ao empório e perguntava como (isto é, de que forma) nos vendíamos o fumo de corda, se era por quilo ou pedaço e eu para brincar dizia que era por corrida. Como assim? Perguntavam. E eu respondia:- é assim: quanto mais o freguês corre mais fumo leva! Quanto às vassouras, é claro que a brincadeira não era aplicada para todas as freguesas, eu só brincava com as conhecidas perguntando quando elas compravam esse utensilio doméstico: quer que embrulhe ou já vai sair voando?! Mesmo brincando só com as mais chegadas de vez em quando eu era repreendido por elas, que normalmente diziam: toma sua linha moleque, assim que eu ver a dona Diva por aqui eu vou contar para ela o que você me disse. Ainda bem que com o passar do tempo elas esqueciam.

Desta forma, comecei a trabalhar com nove anos e meio. Ainda novo já tinha responsabilidades, meu amadurecimento foi precoce, o que fortaleceu muito meu caráter. Mas o que eu vivi na minha infância e posteriormente até os meus quinze/dezesseis anos de idade foi maravilhoso, acredito que muita gente que tornaram-se adulto com idade acima de vinte anos não tiveram um terço da infância que eu tive, o que é uma pena.

Mas voltemos ao assunto. Mesmo com as minhas atividades de balconista de empório eu tinha tempo para brincar com meus amigos na rua (vivia com a agenda cheia). Como às vezes eu queria ir brincar na área plana da rua mas não podia porque estava tomando conta do empório e em frente de casa tinha uns terrenos vazios, num dia de relampejo criativo decidi dar uma capinada num que ficava bem na frente do empório e ali montar uma (só uma) trave de campo de futebol para ficar brincando enquanto tomava conta do negócio. Nós brincávamos ali de disputar pênaltis com direito à rebote, quem foi moleque por volta desta época sabe do que estou falando, tinha até regra, era assim: quando convertido, o gol direto valia 1, o rebote valia 2 e bola na trave valia 3. Precisava de no mínimo dois e no máximo seis moleques para brincar a disputa. Além de jogar bola, em frente ao empório também dava para rodar pião, jogar bolinha de gude, figurinha a bafo, etc., quando necessário interrompia o divertimento, ia atender o freguês e depois voltava para a peleja, bom, dava para conciliar o trabalho com lazer só que ao mesmo tempo, não primeiro um e depois o outro. (Tem gente que faz isso até hoje).

O empório mudou muita coisa na vida de nossa família. Além do divertimento na rua, com brilhantina no cabelo cortado tipo escovinha (americano) comecei a ir aos domingos à tarde assistir as matinês no antigo Cine Astro na Av. Cupece, perto da Casa Palma, que antes era conhecido como Cine Ouro Verde, depois o local virou salão de baile, igreja e hoje é uma empresa. Nesta época eu tinha duas fontes de renda para satisfazer minhas vontades. Uma delas provinha do meu trabalho de engraxate aos sábados e domingos na porta do empório (eram os dias da minha folga) e a outra para complementar, vinha do caixa do bar que eventualmente, durante a semana, sem que meus pais soubessem, de forma comedida, eu creditava aos meus bolsos parte dos lucros, pois a minha atividade não era remunerada. A minha participação no negócio, dentro desta modalidade controversa, foi o que proporcionou fundos para que eu fugisse de casa aos 12 anos de idade.

Com o tempo, mas ainda moleque, as guloseimas (doces, balas, chocolates, etc.) foram sendo substituídas pelos refrigerantes, salgadinhos, etc. Adorava dar umas escapadas na parte da tarde e ir até uma padaria chamada Castelo Branco (próximo da rua Baquirivu, o local era tambem conhecido na época por "Ponto Final") na Cidade Ademar tomar Coca-Cola e comer torta de palmito e na volta para casa, como era no caminho, passar na lagoa do seu João para dar uns mergulhos (capítulo à parte) e fumar uns cigarrinhos escondido na beira da lagoa. (Quando falo em cigarrinhos eu quero dizer o cigarro convencional, nunca usei qualquer tipo de droga, naquela época a palavra maconha era impronunciável, ela estava ligada ao crime, aos bandidos e nós tínhamos medo até de passar perto de pessoas que sabidamente eram usuários).

Fiquei 10 anos de minha vida sem beber bebidas alcoólicas. É isso mesmo, 10 anos! É brincadeira?! Sempre que digo isto as pessoas perguntam se eu estava doente, se era grave, etc. Mas a verdade é que até os meus 5 anos de idade levei a vida na base do leite e dos 5 aos 10 na base de sucos e refrigerantes, depois desse período ingressei (não de cabeça) num mundo totalmente novo. O mundo dos etílicos e sedentos. Comecei a molhar as palavras cedo.
O empório facilitava muito as coisas, minha primeira bebida forte foi cachaça com groselha (mais groselha que cachaça) mas o suficiente para me deixar nas nuvens e bem alegrinho por longo período. Depois desta mistura que veio a ser mais divulgada nos anos 80 batizada com o nome de bombeirinho passei a apreciar a cachaça coquinho ela tinha um sabor suave e doce. Vale lembrar que eu só bebia recreativamente, principalmente a cuba libre nos bailinhos em finais de semana. Tomei muitas carraspanas na minha vida, porém, hoje em dia, só de vez em quando...e ainda sob os protestos da família...Ah! ia esquecendo, recentemente fiz uma ultra sonografia do abdome total e quanto ao fígado o resultado foi o seguinte: "Fígado com dimensões normais, contornos regulares e bordos finos. Parêquemia com ecotextura homogênea. Veias hepáticas e ramos portais preservados". Joinha né?!

 
Continua na semana seguinte...

 

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Infância Maravilhosa - A rua de casa - IV

...continuação

Meu pai tinha como profissão o trabalho na metalurgia, ele era torneiro mecânico, mas acima de tudo ele foi um empreendedor. Tendo ele sinais de aptidão para negócios na veia, entre os anos de 62 e 63 decidiu construir um salão comercial na parte da frente do nosso terreno, para ali instalar um empório de secos e molhados ou seja um bar e mercearia.
O salão era pequeno, porém, um pouco maior que uma garagem, tinha uma porta de aço na frente e uma porta comum nos fundos que era o nosso acesso. Nos fundos, anexo ao salão ele construiu um banheiro e um quartinho onde eram armazenadas as mercadorias de estoque para reposição. Mesmo com a construção, o galinheiro, chiqueiro, horta, a casinha do cachorro, um cercadinho onde eu e minha irmã criávamos uns preá-da-índia e um rato branco e o gramado onde vivia solta uma tartaruga, foram preservados.

O empório foi inaugurado. Durante a semana era a dona Diva que tomava conta do negócio e eu quando não estava na escola a ajudava para que ela pudesse fazer também os seus trabalhos domésticos. No inicio meu pai continuou empregado na empresa onde trabalhava no bairro de Moema, o nome da empresa era Fapap e estava localizada na Av. Jandira em frente a antiga Metalúrgica Barbará. Aos sábados, domingos e feriados era ele que cuidava do negócio e durante a semana assim que ele retornava do trabalho ele ficava no empório até mais ou menos às 20:30hs e depois fechava o estabelecimento.

Típico empório da época
Contava eu nesta época com nove anos e meio (aproximadamente) estava estudando o quarto ano primário. Diariamente, antes de ir para a escola e assim que eu retornava eu ficava no empório para minha mãe poder arrumar a casa, preparar o almoço, lavar as louças, lavar roupa, etc., e depois mais para o finalzinho da tarde para ela cuidar da janta. A porta do fundo do salão ficava sempre aberta e da janela da cozinha de casa dava para minha mãe ficar acompanhando o movimento que estava acontecendo lá no salão.

Com o empório, parte dos meus desejos foram solucionados e novas coisas começaram a acontecer, então comia doces escondido da minha mãe, enchia os bolsos de balas e chicletes, era um verdadeiro paraíso. Porém, com o tempo a ansiedade foi acabando e já não dava muita bola para essas guloseimas. Com isso, novas coisas começaram a ser exploradas. O cigarro foi uma delas.
Um dos meus amigos, o Mário (aquele que planejou fugir de casa comigo e depois mijou para trás) fumava, e foi com ele que aprendi a tragar a fumaça do danado. Então comecei a surrupiar maços de cigarro no empório e depois juntamente com uma caixa de fósforo os escondia embrulhado em plástico (para não molhar) no mato em frente de casa no meio das touceiras de sapé. Comecei com o Continental sem filtro depois passei para o Capri (este era curto, porém, com filtro) e depois já na época dos bailinhos de garagem nos finais de semana, o Minister, que fumei durante muito tempo.
Ele era um dos mais caros, era o cigarro das elites. Esta marca de cigarro servia também de apoio às nossas paqueras. Vou explicar: às vezes você estava sentado ao lado de uma menina, sim, uma daquelas com enxerto de algodão no sutiã (para parecer maior do que realmente era) que apontavam para todos os lados, e ambos sem assunto, então a gente puxava o maço de cigarro e perguntava para ela: - você sabe o que quer dizer Minister? geralmente elas diziam não, então surgia a explicação romântica: - Minister significa: - Minha Inesquecível Namorada Isto Será Tua Eterna Recordação! Isto já era meio caminho andado para iniciar um relacionamento. Quanto ao "M" no centro e o simbolo da coroa, se a menina fosse mais velha que você, nós diziamos apontando no maço: morô coroa!

Atualmente fazem aproximadamente trinta e cinco anos que eu não fumo, só vim a fumar na frente da dona Diva depois de adulto e já estava casado naquela época. Porém, lembro-me perfeitamente da primeira vez que ela me pegou fumando. O empório, na porta da frente não possuía toldo ou qualquer outro tipo de proteção contra intempéries, assim então, quando chovia muito forte nos éramos obrigados a baixar a porta da frente e também fechar a do fundo para não entrar agua. Um dia, na parte da tarde, eu estava tomando conta do empório e estava comigo mais uns três moleques amigos (o Mário estava neste dia) e começou a chover torrencialmente. Então gritei lá do fundo do empório para minha mãe que eu iria fechar as portas devido à chuva o que ela de imediato concordou. Vocês imaginem quatro moleques sem o que fazer, chovendo e trancados em um empório o que poderia resultar. Tomamos tubaína, comemos doces e ficamos conversando, depois sem perceber que o temporal tinha passado começamos a fumar (eu e o Mário) os outros dois eram mais novos que nós. Estávamos sentados em uma pilha de sacos de arroz e feijão dando as nossas baforadas, de repente, a porta de aço se abriu de uma vez, numa arrancada só, era a dona Diva! Quase caí da pilha com o susto que levei sem saber o que fazer com o cigarro na mão. Então minha mãe disse: - bonito heim Clovis! Fumando né seu moleque?! Vou contar pro seu pai assim que ele chegar!, eu ainda tentei me safar dizendo: não mãe, eu não estava fumando, eu só estava segurando o cigarro pro Mário que ia beber agua, então ela disse: larga mão de ser mentiroso seu sem vergonha, eu vi pelo buraco da fechadura que você estava sim. Acabou ali meus argumentos. Fedeu de novo! Bom, desnecessário dizer que a cinta comeu solta naquele dia à noite.

Trabalhar no armazém era de certa forma divertido para quem era espirituoso como eu. Aprontei as minhas com os fregueses também, mas claro, que sem maldade. Lembro-me de duas situações que me renderam uns castigos: havia um freguês conhecido pelo nome de Tiãozinho que ia lá diariamente cedinho (antes de eu ir para a escola) para tomar a famosa caninha Tatuzinho, ele ia também durante o dia, mas começava cedo. Ele tomava um copinho de dose cheio numa golada só, sem respirar! Um dia eu peguei uma garrafa de Tatuzinho vazia e coloquei agua até pela metade e deixei bem à mão para servi-lo assim que chegasse. Não deu outra, ele chegou no horário de sempre, pediu a cachaça, servi a da garrafa preparada, e o Tiãozinho sorveu a danada a um só tempo. Meu Deus!, pensei que ele fosse morrer, deu um puta dum susto no fígado, começou a vomitar a agua e depois passou a me xingar com todos os palavrões conhecidos na época. Tentei explicar-me dizendo que peguei a garrafa errada, etc., mas foi tudo em vão. Apanhei depois disso, mas o experimento foi bom, vocês precisavam ver a cara do Tiãozinho. Não perdemos o freguês, depois disso, antes dele beber ele passou a cheirar o conteúdo para confirmar se de fato era cachaça.

A outra que trago em minhas lembranças foi mais endiabrada, pois cooperou para o fato a minha criatividade e a ingenuidade de uma menina. Naquela época era comercializado nos empórios os sabões em pedra que vinha em caixas de madeira e eram vendidos em pedaços para os fregueses. Eram dois os tradicionais: o Minerva para louças de cor rosa e o Vencedor ou Sol Levante para tanque (roupas) na cor de papelão. Um dia estava eu sentado perto de uma destas caixas, tomando conta do empório, e sem o que fazer peguei uma pedra do sabão Minerva e comecei a raspa-la na num canto da tampa da caixa de madeira, gerando assim uma massinha rosa parecendo um pedaço de chiclete ping-pong tutti-frutti. Nesse interim, entra uma menina para comprar alguma coisa para a mãe dela e me pergunta o que era aquilo que eu tinha na mão, então eu disse que era chiclete, e perguntei se ela queria, ela disse que sim, então dei o pedaço de sabão para ela e ela saiu rua abaixo correndo. Meia hora depois aparece a mãe dela (dona Mercedes) com a menina pelas mãos. Bom, tentei explicar que não achava que ela tinha acreditado no que eu tinha dito, pois a menina acreditou e meteu o sabão na boca, ainda bem que não engoliu. Mais uma vez fedeu...

Vender fumo de corda e vassouras era outro motivo para divertimento, o freguês chegava ao empório e perguntava como (isto é,de que forma) nos vendíamos o fumo de corda, se era por quilo ou pedaço e eu para brincar dizia que era por corrida. Como assim? Perguntavam, e eu respondia: - é assim: quanto mais o freguês corre mais fumo leva...

 
Continua na próxima semana...