Meu pai tinha como profissão
o trabalho na metalurgia, ele era torneiro mecânico, mas acima de tudo ele foi um empreendedor.
Tendo ele sinais de aptidão para negócios “na
veia”, entre os anos de 62 e 63 decidiu construir um salão
comercial na parte da frente do nosso terreno, para ali instalar um “empório
de secos e molhados” ou seja um bar e mercearia.
O salão era pequeno, porém, um pouco maior que uma garagem, tinha uma porta de aço na frente e uma porta comum nos fundos que era o nosso acesso. Nos fundos, anexo ao salão ele construiu um banheiro e um quartinho onde eram armazenadas as mercadorias de estoque para reposição. Mesmo com a construção, o galinheiro, chiqueiro, horta, a casinha do cachorro, um cercadinho onde eu e minha irmã criávamos uns preá-da-índia e um rato branco e o gramado onde vivia solta uma tartaruga, foram preservados.
O salão era pequeno, porém, um pouco maior que uma garagem, tinha uma porta de aço na frente e uma porta comum nos fundos que era o nosso acesso. Nos fundos, anexo ao salão ele construiu um banheiro e um quartinho onde eram armazenadas as mercadorias de estoque para reposição. Mesmo com a construção, o galinheiro, chiqueiro, horta, a casinha do cachorro, um cercadinho onde eu e minha irmã criávamos uns preá-da-índia e um rato branco e o gramado onde vivia solta uma tartaruga, foram preservados.
O empório foi inaugurado. Durante a semana
era a dona Diva que tomava conta do negócio e eu quando não
estava na escola a ajudava para que ela pudesse fazer também
os seus trabalhos domésticos. No inicio meu pai continuou
empregado na empresa onde trabalhava no bairro de Moema, o nome da empresa era
Fapap e estava localizada na Av. Jandira em frente a antiga Metalúrgica
Barbará. Aos sábados, domingos e feriados era ele que
cuidava do negócio e durante a semana assim que ele retornava do trabalho
ele ficava no empório até mais ou menos às 20:30hs e
depois fechava o estabelecimento.
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| Típico empório da época |
Contava eu nesta época
com nove anos e meio (aproximadamente) estava estudando o quarto ano primário.
Diariamente, antes de ir para a escola e assim que eu retornava eu ficava no
empório para minha mãe poder arrumar a casa, preparar o
almoço, lavar as louças, lavar roupa, etc., e depois mais
para o finalzinho da tarde para ela cuidar da janta. A porta do fundo do salão
ficava sempre aberta e da janela da cozinha de casa dava para minha mãe
ficar acompanhando o movimento que estava acontecendo lá no salão.
Com o empório, parte
dos meus desejos foram solucionados e novas coisas começaram a
acontecer, então comia doces escondido da minha mãe, enchia os
bolsos de balas e chicletes, era um verdadeiro paraíso. Porém,
com o tempo a ansiedade foi acabando e já não dava muita bola para essas
guloseimas. Com isso, novas coisas começaram a ser exploradas. O cigarro foi
uma delas.
Um dos meus amigos, o Mário (aquele que planejou fugir de casa comigo e depois mijou para trás) fumava, e foi com ele que aprendi a tragar a fumaça do danado. Então comecei a “surrupiar” maços de cigarro no empório e depois juntamente com uma caixa de fósforo os escondia embrulhado em plástico (para não molhar) no mato em frente de casa no meio das touceiras de sapé. Comecei com o Continental sem filtro depois passei para o Capri (este era curto, porém, com filtro) e depois já na época dos “bailinhos de garagem” nos finais de semana, o Minister, que fumei durante muito tempo.
Ele era um dos mais caros, era o cigarro das elites. Esta marca de cigarro servia também de apoio às nossas paqueras. Vou explicar: às vezes você estava sentado ao lado de uma menina, sim, uma daquelas com enxerto de algodão no sutiã (para parecer maior do que realmente era) que apontavam para todos os lados, e ambos sem assunto, então a gente puxava o maço de cigarro e perguntava para ela: - você sabe o que quer dizer Minister? – geralmente elas diziam não, então surgia a explicação romântica: - Minister significa: - Minha Inesquecível Namorada Isto Será Tua Eterna Recordação! Isto já era meio caminho andado para iniciar um relacionamento. Quanto ao "M" no centro e o simbolo da coroa, se a menina fosse mais velha que você, nós diziamos apontando no maço: morô coroa!
Continua na próxima
semana...
Um dos meus amigos, o Mário (aquele que planejou fugir de casa comigo e depois mijou para trás) fumava, e foi com ele que aprendi a tragar a fumaça do danado. Então comecei a “surrupiar” maços de cigarro no empório e depois juntamente com uma caixa de fósforo os escondia embrulhado em plástico (para não molhar) no mato em frente de casa no meio das touceiras de sapé. Comecei com o Continental sem filtro depois passei para o Capri (este era curto, porém, com filtro) e depois já na época dos “bailinhos de garagem” nos finais de semana, o Minister, que fumei durante muito tempo.
Ele era um dos mais caros, era o cigarro das elites. Esta marca de cigarro servia também de apoio às nossas paqueras. Vou explicar: às vezes você estava sentado ao lado de uma menina, sim, uma daquelas com enxerto de algodão no sutiã (para parecer maior do que realmente era) que apontavam para todos os lados, e ambos sem assunto, então a gente puxava o maço de cigarro e perguntava para ela: - você sabe o que quer dizer Minister? – geralmente elas diziam não, então surgia a explicação romântica: - Minister significa: - Minha Inesquecível Namorada Isto Será Tua Eterna Recordação! Isto já era meio caminho andado para iniciar um relacionamento. Quanto ao "M" no centro e o simbolo da coroa, se a menina fosse mais velha que você, nós diziamos apontando no maço: morô coroa!
Atualmente fazem aproximadamente
trinta e cinco anos que eu não fumo, só vim a fumar
na frente da dona Diva depois de adulto e já estava casado naquela época.
Porém, lembro-me perfeitamente da primeira vez que ela me pegou
fumando. O empório, na porta da frente não possuía toldo ou qualquer outro tipo de
proteção contra intempéries, assim então, quando
chovia muito forte nos éramos obrigados a baixar a porta da
frente e também fechar a do fundo para não entrar agua. Um dia, na parte da
tarde, eu estava tomando conta do empório e estava comigo mais uns três
moleques amigos (o Mário estava neste dia) e começou
a chover torrencialmente. Então gritei lá do fundo do
empório para minha mãe que eu iria fechar as portas devido à
chuva o que ela de imediato concordou. Vocês imaginem quatro moleques sem o que
fazer, chovendo e trancados em um empório o que poderia resultar. Tomamos “tubaína”,
comemos doces e ficamos conversando, depois sem perceber que o temporal tinha passado
começamos a fumar (eu e o Mário) os outros dois eram mais novos
que nós. Estávamos sentados em uma pilha de sacos
de arroz e feijão dando as nossas baforadas, de repente, a porta de aço
se abriu de uma vez, numa arrancada só, era a dona Diva! Quase caí
da pilha com o susto que levei sem saber o que fazer com o cigarro na mão.
Então minha mãe disse: - “bonito heim
Clovis! Fumando né seu moleque?! Vou contar pro seu pai assim que ele chegar!”,
eu ainda tentei me safar dizendo: “não mãe, eu não estava fumando, eu só
estava segurando o cigarro pro Mário que ia beber agua”,
então ela disse: “larga mão de ser mentiroso seu sem vergonha, eu vi pelo buraco
da fechadura que você estava sim”. Acabou ali
meus argumentos. Fedeu de novo! Bom, desnecessário dizer que a cinta comeu solta
naquele dia à noite.
Trabalhar no armazém
era de certa forma divertido para quem era espirituoso como eu. Aprontei as
minhas com os fregueses também, mas claro, que sem maldade.
Lembro-me de duas situações que me renderam uns castigos:
havia um freguês conhecido pelo nome de “Tiãozinho” que ia lá diariamente cedinho
(antes de eu ir para a escola) para tomar a famosa caninha Tatuzinho, ele ia
também durante o dia, mas começava cedo. Ele tomava um copinho de
dose cheio numa golada só, sem respirar! Um dia eu peguei uma
garrafa de Tatuzinho vazia e coloquei agua até pela metade e deixei bem à
mão
para servi-lo assim que chegasse. Não deu outra, ele chegou no horário
de sempre, pediu a cachaça, servi a da garrafa preparada, e o
Tiãozinho
sorveu a danada a um só tempo. Meu Deus!, pensei que ele
fosse morrer, deu um puta dum susto no fígado, começou a vomitar a agua e depois passou a me xingar com todos os
palavrões conhecidos na época. Tentei explicar-me dizendo que
peguei a garrafa errada, etc., mas foi tudo em vão. Apanhei depois disso, mas o
experimento foi bom, vocês precisavam ver a cara do Tiãozinho.
Não
perdemos o freguês, depois disso, antes dele beber ele passou a cheirar o
conteúdo para confirmar se de fato era cachaça.
A outra que trago em minhas lembranças
foi mais endiabrada, pois cooperou para o fato a minha criatividade e a
ingenuidade de uma menina. Naquela época era comercializado nos empórios
os sabões em pedra que vinha em caixas de madeira e eram vendidos
em pedaços para os fregueses. Eram dois os tradicionais: o Minerva para
louças de cor rosa e o Vencedor ou Sol Levante para tanque
(roupas) na cor de papelão. Um dia estava eu sentado perto de
uma destas caixas, tomando conta do empório, e sem o que fazer peguei uma
pedra do sabão Minerva e comecei a raspa-la na num canto da tampa da
caixa de madeira, gerando assim uma massinha rosa parecendo um pedaço
de chiclete ping-pong tutti-frutti. Nesse interim, entra uma menina para
comprar alguma coisa para a mãe dela e me pergunta o que era aquilo
que eu tinha na mão, então eu disse que era chiclete, e
perguntei se ela queria, ela disse que sim, então dei o pedaço de sabão
para ela e ela saiu rua abaixo correndo. Meia hora depois aparece a mãe
dela (dona Mercedes) com a menina pelas mãos. Bom, tentei explicar que não
achava que ela tinha acreditado no que eu tinha dito, pois a menina acreditou e
meteu o sabão na boca, ainda bem que não engoliu. Mais uma vez fedeu...
Vender fumo de corda e vassouras era
outro motivo para divertimento, o freguês chegava ao empório
e perguntava como (isto é,de que forma) nos vendíamos o fumo de corda, se era por quilo
ou pedaço e eu para brincar dizia que era por corrida. Como assim? Perguntavam,
e eu respondia: - é assim: quanto mais o freguês corre mais fumo leva...





