quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Infância Maravilhosa - A rua de casa - III

...continuação

....perto de casa tinha um empório que praticamente vendia tudo o que podíamos comprar dentro do nosso padrão de vida, isto é, o essencial. Meu pai comprava "para marcar na caderneta", o famoso fiado, o põe na conta. Ele fazia uma compra grande no começo do mês e depois íamos comprando aos pouquinhos as coisas que faltavam e as rotineiras como pão, leite, margarina, querosene, etc.. Mensalmente quando meu pai pagava a conta (*) nós ganhávamos um brinde que podia ser escolhido entre uma lata de goiabada/marrom glacê/marmelada, uma lata de doce em calda ou ainda um litro de vinho "Capelinha". Quando ele escolhia um dos doces em lata era uma festa em casa pra mim e para minha irmã, caso contrário, durante uma semana "ficávamos de mal" dele.
Eu era o "office boy" da casa e sempre ia ao empório comprar as coisas pra minha mãe e às vezes também ´para os vizinhos mais velhos que não tinham filhos. Chegando lá ficava parado em frente à vitrine de doces admirando-os, comendo-os com os olhos. Lembro-me que a vitrine era dividida em três prateleiras, nas duas de cima ficavam os doces comuns e chicletes e na debaixo os chocolates, sob o balcão ficava o baleiro. Raramente meus pais davam dinheiro para nós comprarmos essas guloseimas e marcar na caderneta nem pensar! 
Para satisfazer nossa vontade, vez em quando saíamos à cata de latas, ferro velho, papelão, caco de vidro, etc. que posteriormente eram negociados por peso com um sucateiro que passava toda semana com sua carroça na rua de casa, (sempre achei que ele roubava nós na pesagem), a sorte grande era achar nos lixos uma panela ou bacia velha em alumínio, dava sempre um ótimo retorno no mercado das guloseimas, papéis de seda, bolinhas de gude, figurinhas, piões, etc.. Éramos empreendedores e não sabíamos, para esta finalidade, chegamos até nos organizar (sem saber) em regime de cooperativa sem ter a mínima noção do que se tratava aquilo tecnicamente, só na base da confiança, um menino sempre confia em outro menino e por aí nos entendiamos. Apesar que de vez em quando a "metade maior" ou a parte maior da partilha dividida igualitariamente ficava comigo, assim, dividimos em nossas vidas muitas marias-moles, suspiros cor-de-rosa, cocadas, canudinho recheado, etc. e quando a receita era baixa só dava para dividir balas e chicletes.
Nossa casa
Com o passar dos anos, já com energia elétrica na vila, meus pais conseguiram terminar a casa onde morávamos, isto é, colocou taco de madeira na sala e no único quarto que a casa tinha, na cozinha, banheiro e na varanda da sala foi feito um cimentado liso queimado com vermelhão (pó xadrez), rebocou e pintou com cal (látex era só para os ricos) a casa por dentro e por fora. As portas internas faltantes foram instalada, etc. Ficou muito chique!
Uma vez por semana minha passava cera Parquetina na casa toda e eu e minha irmã éramos os que davam o brilho nos pisos e tacos após a secagem da cera, usávamos um pedaço de pano geralmente lã ou flanela sob um escovão de ferro e, pro troço ficar bom minha irmã sentava sobre a base do escovão e eu saia puxando ela pela casa afora, era puro divertimento, claro que minha mãe sempre tinha que refazer o nosso árduo trabalho.
Tempos depois meu pai comprou uma televisão nas lojas Emerson que ficava na Rua Direita no centro de São Paulo. A televisão levava o nome da loja e foi adquirida para pagamento a longo prazo, desnecessário dizer que era à válvula, preto e branco e precisava de um transformador para manter a energia estabilizada. Fomos os primeiros da rua a ter TV em casa.
Quando o aparelho foi entregue foi uma festa, ele foi entregue num dia útil da semana, ficamos o resto do dia em estado de inquietação, sentados ao lado dela, aguardando meu pai chegar do trabalho para tirá-la da caixa e fazer a instalação. Mesmo com a caixa fechada, eu e minha irmã, cheios de orgulho,  chamamos a molecada da rua para mostrar a nova aquisição e assim a novidade correu pela vila inteira, nosso circulo de amizade aumentou bastante. A caixa de papelão que acondicionava a TV serviu para brincarmos de casinha pelo menos por um período de dois meses até se deteriorar totalmente.
Com a novidade, a nossa casa passou a ser mais frequentada pelos vizinhos, principalmente aos sábados, os televizinhos vinham para assistir o programa de luta livre chamado Os Reis do Ringue que tinha como protagonistas o Fantomas, Teddy Boy Marinho, Aquiles, Tigre Paraguaio, Mumia, Cigano, etc.. Assistiam também o programa Astros dos Discos que era apresentado pelo Randal Juliano e a Idalina de Oliveira (agora eu fui fundo!), Praça da Alegria, etc.. A sala era pequena, então ficava gente sentada no sofá, no chão, em pé, era uma montoeira só!
Nós, a molecada, tínhamos como opção durante a semana os programas: Capitão 7, A Turma do 7, Pullman Jr., Sessão Zig Zag, Sessão Zás-Tras, Roy Rogers, Rin-Tin-Tin, Zorro, Lassie, O Homem Submarino, etc. e aos domingos o Cirquinho do Arrelia, Gincana Kibon, etc.
Meu pai tinha como profissão o trabalho na metalurgia, ele era torneiro mecânico, mais acima de tudo ele foi um empreendedor...
 
(*) Comecei a desenvolver meu raciocínio aritmético (matemático) conferindo a soma da nossa caderneta.
 
continua na semana seguinte...