....perto de casa tinha um empório que praticamente
vendia tudo o que podíamos
comprar dentro do nosso padrão
de vida, isto é, o
essencial. Meu pai comprava "para marcar na caderneta", o famoso fiado, o põe na conta. Ele fazia uma
compra grande no começo
do mês e depois íamos comprando aos
pouquinhos as coisas que faltavam e as rotineiras como pão, leite, margarina, querosene, etc.. Mensalmente quando meu pai pagava a conta (*) nós
ganhávamos um brinde que podia ser escolhido entre uma lata de
goiabada/marrom glacê/marmelada, uma lata de doce em calda ou ainda um litro de vinho
"Capelinha". Quando ele escolhia um dos doces em lata era uma festa
em casa pra mim e para minha irmã,
caso contrário,
durante uma semana "ficávamos
de mal" dele.
Eu era o "office boy" da casa e sempre ia ao empório comprar as coisas pra
minha mãe e às vezes também ´para os vizinhos mais velhos que não tinham filhos. Chegando
lá
ficava parado em frente à vitrine
de doces admirando-os, comendo-os com os olhos. Lembro-me que a vitrine era
dividida em três
prateleiras, nas duas de cima ficavam os doces comuns e chicletes e na debaixo
os chocolates, sob o balcão
ficava o baleiro. Raramente meus pais davam dinheiro para nós comprarmos essas
guloseimas e marcar na caderneta nem pensar!
Para satisfazer nossa vontade, vez em quando saíamos à cata de latas, ferro
velho, papelão, caco
de vidro, etc. que posteriormente eram negociados por peso com um sucateiro que
passava toda semana com sua carroça
na rua de casa, (sempre achei que ele roubava nós
na pesagem), a sorte grande era achar nos lixos uma panela ou bacia velha em
alumínio, dava sempre
um ótimo retorno no
mercado das guloseimas, papéis
de seda, bolinhas de gude, figurinhas, piões,
etc.. Éramos
empreendedores e não
sabíamos, para esta finalidade, chegamos até nos organizar (sem saber) em regime
de cooperativa sem ter a mínima
noção do que se
tratava aquilo tecnicamente,
só na base da confiança, um menino sempre confia em
outro menino e por aí nos entendiamos. Apesar que de vez em quando a "metade maior" ou a “parte
maior” da partilha dividida “igualitariamente”
ficava comigo, assim, dividimos em nossas vidas muitas “marias-moles”, suspiros
cor-de-rosa, cocadas, canudinho recheado, etc. e quando a receita era baixa só dava para dividir balas e chicletes.
Com o passar dos anos, já
com energia elétrica na vila, meus pais conseguiram terminar a casa onde
morávamos, isto é, colocou taco de madeira na sala e no
único
quarto que a casa tinha, na cozinha, banheiro e na varanda da sala foi feito um
cimentado liso queimado com vermelhão (pó xadrez), rebocou e pintou com cal (látex
era só para os ricos) a casa por dentro e por fora. As portas internas faltantes foram instalada, etc. Ficou muito
chique!
Uma vez por semana minha passava cera “Parquetina” na casa toda e eu e minha irmã éramos os que davam o brilho nos pisos e tacos após a secagem da cera, usávamos um pedaço de pano geralmente lã ou flanela sob um escovão de ferro e, pro “troço ficar bom” minha irmã sentava sobre a base do escovão e eu saia puxando ela pela casa afora, era puro divertimento, claro que minha mãe sempre tinha que refazer o nosso árduo trabalho.
Uma vez por semana minha passava cera “Parquetina” na casa toda e eu e minha irmã éramos os que davam o brilho nos pisos e tacos após a secagem da cera, usávamos um pedaço de pano geralmente lã ou flanela sob um escovão de ferro e, pro “troço ficar bom” minha irmã sentava sobre a base do escovão e eu saia puxando ela pela casa afora, era puro divertimento, claro que minha mãe sempre tinha que refazer o nosso árduo trabalho.
Tempos depois meu pai comprou uma
televisão nas lojas Emerson que ficava na Rua Direita no centro de São
Paulo. A televisão levava o nome da loja e foi adquirida para pagamento a longo
prazo, desnecessário dizer que era à válvula, preto e branco e precisava de
um transformador para manter a energia estabilizada. Fomos os primeiros da rua
a ter TV em casa.
Quando o aparelho foi entregue foi uma festa, ele foi
entregue num dia útil da semana, ficamos o resto do dia em estado de inquietação,
sentados ao lado dela, aguardando meu pai chegar do trabalho para tirá-la
da caixa e fazer a instalação. Mesmo com a caixa fechada, eu e
minha irmã, cheios de orgulho, chamamos a molecada da rua para mostrar a nova aquisição
e assim a novidade correu pela vila inteira, nosso circulo de amizade aumentou bastante. A caixa de papelão
que acondicionava a TV serviu para brincarmos de casinha pelo menos por um período
de dois meses até se deteriorar totalmente.
Com a novidade, a nossa casa passou a
ser mais frequentada pelos vizinhos, principalmente aos sábados,
os “televizinhos” vinham para assistir o programa de
luta livre chamado “Os Reis do Ringue”
que tinha como protagonistas o Fantomas, Teddy Boy Marinho, Aquiles, Tigre
Paraguaio, Mumia, Cigano, etc.. Assistiam também o programa “Astros dos
Discos” que era apresentado pelo Randal Juliano e a Idalina de
Oliveira (agora eu fui fundo!), Praça da Alegria, etc.. A sala era pequena,
então ficava gente sentada no sofá, no chão, em pé, era uma montoeira só!
Nós, a molecada, tínhamos
como opção durante a semana os programas: Capitão
7, A Turma do 7, Pullman Jr., Sessão Zig Zag, Sessão Zás-Tras,
Roy Rogers, Rin-Tin-Tin, Zorro, Lassie, O Homem Submarino, etc. e aos domingos
o Cirquinho do Arrelia, Gincana Kibon, etc.
Meu pai tinha como profissão o trabalho na metalurgia, ele era torneiro mecânico, mais acima de tudo ele foi um empreendedor...
Meu pai tinha como profissão o trabalho na metalurgia, ele era torneiro mecânico, mais acima de tudo ele foi um empreendedor...
(*) Comecei a desenvolver meu raciocínio
aritmético (matemático) conferindo a soma da nossa
caderneta.
continua na semana seguinte...



