terça-feira, 17 de novembro de 2015

O que é o Estado Islâmico?

" O que é o Estado Islâmico? - É uma organização terrorista que declarou, em 29 de Junho de 2.014, um califado em um território entre a Síria e o Iraque. Qual é o objetivo? - A meta do Estado Islâmico é estabelecer um califado - Estado regido pela lei do islã, a sharia-, e governar todos os mulçumanos. Como é sua bandeira? Sua bandeira segue a tradição da cor preta associada aos primeiros anos do islã. Suas palavras dizem "Não há um deus a não ser Deus, e Maomé é seu mensageiro." Quem é o seu atual líder? O líder é Abu Bakr al-Baghdadi, nascido de família salafista (vertente estrita do islã), juntou-se à Al Qaeda no Iraque em 2.003.
 
O pai do Estado Islâmico foi o jordaniano Abu Musab al-Zarqawi, um radical como diversos em sua geração, cuja formação se deu no Afeganistão durante o conflito com a antiga União Soviética.
Em 1999, Zarqawi fundou o Al- Tawhid wa al- Jihad (Monoteísmo e Jihad, em árabe).
Em menos de duas décadas, a organização iria se tornar globalmente conhecida como Estado Islâmico, com um histórico de crucificar crianças, escravizar mulheres e decapitar inocentes.
No período, estendeu seu território no oeste da Síria e o norte do Iraque para algo entre 90 mil km2 (uma Jordânia) e 250 mil km2 (Reino Unido), conforme a estimativa.
As ações terroristas de Zarqawi foram marcadas pela sua interpretação restrita do que é o islã. Ao contrário de outros líderes fundamentalistas, ele levou ao extremo a ideia de "takfir" - declarar um muçulmano apóstata e, assim justificar sua morte.

 O lraque, após a invasão americana de 2003, era terreno fértil para a ideologia do Al-Tawhíd wa al-Jihad. Ali, a organização passou a se chamar AI Qaeda no Iraque.
Zarqawi aproveitou-se das rivalidades locais para estimular a violência sectária entre sunitas e xiitas. No caos, pensava, triunfaria.
Organizações como a AI Qaeda insistiam em que a criação de um Estado islâmico era um objetivo futuro, quase idealizado. Zarqawi por outro lado, acreditava que poderia estabelecê-lo a partir da desordem política.
Não à toa a revista oficial do Estado Islâmico hoje cita Zarqawi em todas as suas edições, nas primeiras páginas: "A fagulha foi acendida aqui no Iraque e seu calor vai continuar a intensificar-se, se Deus assim permitir".
Zarqawi foi morto em 2006 por duas bombas lançadas por um avião americano, cada uma pesando 230 quilos. Sua liderança foi herdada por Abu Ayyub al-Masri e Abu Ornar al-Baghdadi por sua vez mortos em 2010.
A organização terrorista passou a ser controlada por Abu Bakr al-Baghdadi, uma misteriosa figura com uma biografia ainda carcomida por lacunas. De formação religiosa e passagem pela prisão durante a presença americana, Baghdadi espalhou sua sombra pela região.
Mais uma vez, o caos. A guerra civil na Síria, respingada no vizinho Iraque, lançou a região em novos conflitos sectários a partir de 2011.
Dois anos depois, a organização terrorista trocaria seu nome para Estado Islâmico no Iraque e no Levante.

SADDAM

Uma das figuras centrais nesse processo foi Haji Bakr. Antes membro da Inteligência de Saddam Hussein, Bakr estruturou as forças do Estado Islâmico, incluindo ex-militares iraquianos entre os líderes. Ele morreu em janeiro de 2014, no norte da Síria.
Fortalecidos, militantes infiltraram-se em cidades sírias e iraquianas, aproveitaram-se das vistas grossas dos governos regionais e em junho de 2014, moveram as peças no tabuleiro: conquistaram a cidade de Mossul, no Iraque. Ali, em 29 de junho, Baghdadi declarou seu califado.
A organização passou a ser chamada Estado Islâmico, agora com pretensão global. Em vestes negras, Baghdadi discursou na Grande Mesquita de al-Nuri. Declarou-se califa de todos os muçulmanos.
Ao dizer-se representante do islã e definir todos os outros governos regionais como apóstatas, o Estado Islâmico tomou-se inimigo de potências como a Arábia Saudita.
Apesar dos bombardeios constantes de forças ocidentais, a organização terrorista mantém o controle territorial.
Financiada por meios que incluem o tráfico de petróleo e a venda de reféns, o Estado Islâmico reúne uma multidão de militantes cuja estimativa ainda varia enormemente.
Um relatório recente afirma que 30 mil milicianos estrangeiros viajaram à Síria e ao Iraque desde 2011. Alguns deles, descontentes com a exclusão social. Outros, seduzidos pela aventura. Muitos, como o belga Brian de Mulder, filho de uma brasileira, foram convencidos pelo projeto de califado baseado na religião.
Em cidades como Raqqa e Mossul, esses guerreiros vivem a partir de regras restritas que proíbem fumo mistura entre os sexos e música.
Mas, apesar da ideia corrente de que o Estado Islâmico tenha devolvido a região à Idade Média, seu território é governado por um emaranhado de instituições públicas apropriadas por terroristas a partir das estruturas modernas que existiam ali.
Assim, numa imitação perversa, moedas foram cunhadas, passaportes foram impressos, multas de trânsito foram emitidas e currículos escolares foram modificados.

UTOPIA

O califado islâmico que esses militantes querem estabelecer no Oriente Médio é uma construção idealizada do modelo político surgido no século 7 no que é hoje a Arábia Saudita. O "califa", como explica o próprio termo em árabe, era o "sucessor" do profeta Maomé, que havia unificado a região em torno da religião islâmica.
Invasões e crises dinásticas levaram à constante reformulação de como se poderia administrar uma comunidade de muçulmanos. O califado do século 7 transformou-se, progressivamente, em uma utopia, o espelho de dias de esplendor e justiça.
Diversos pensadores voltaram a essa ideia durante a história. Mas, com o esfarelamento do Império Otomano, no início do século 20, o califado foi oficialmente abolido. E, apesar de Baghdadi, segue extinto para as principais lideranças islâmicas e quase totalidade dos muçulmanos.
Não, porém, para o Estado Islâmico organização terrorista cujo obituário, diante dos fatos recentes, ainda não pode ser escrito." 
 
Fonte:
Folha de São Paulo
Diogo Bercito






segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Sobre caminhadas e cabrestos

"Em 515 anos de história o Brasil pós-cabralino foi atravessado por toda espécie de vícios, do patrimonialismo ao mandonismo, típicos de uma sociedade que se erigiu sob o signo da violência, tanto por parte de seus colonizadores quanto por parte das elites formadas em seu solo.
O alvo dessa violência todos nós conhecemos: o povo, o mesmo povo que, na visão de muitos analistas, saiu do ovo há poucas décadas, constituindo uma garatuja de traços frágeis e pouco definidos. Mesmo que consideremos o inegável avanço dos últimos decênios, marcados pela experiência democrática, há muito a ser feito no sentido de plasmar a cidadania e possibilitar aos eleitores uma participação mais efetiva nos processos políticos que, bem ou mal, dão rumo ao país.
Como realizar essa tarefa hercúlea sem investir em educação? Qualquer país que se pretenda democrático tem a obrigação de formar o povo, isto é, dar-lhe os instrumentos necessários ao exercício da cidadania. Assim não sendo, ele continuará apenas um esboço, uma mera expressão nos discursos políticos, dos mais esdrúxulos aos mais polidos, com vistas a angariar votos.
Dado o contexto do mundo contemporâneo, não é mais possível nem desejável que as elites brasileiras continuem a reproduzir velhas fórmulas de dominação, restringindo o espaço de participação política, tocando a massa amorfa como boiada. Precisamos de uma vez por todas nos livrar desta persistente herança coronelista  e elitista que atravanca a democracia.
Quem sabe  assim possamos vivenciar um protagonismo autêntico, rompendo com esse arcaísmo atávico e pesaroso que, embrenhado de vilanias e truculências diversas, se exprime na forma de exclusão material e cultural. Trata-se, pois, de escolher entre fixar o olhar no passados uno futuro.
Prefiro olhar o horizonte longínquo que, como diz Eduardo Galeano, nos obriga a andar para frente. No entanto, isso não significa não voltar a cabeça para trás para perceber o quanto nos deslocamos, mesmo porque isso seria um sinal de que ainda não nos livramos completamente dos velhos cabrestos.
O movimento do olhar é o termômetro de nossa real liberdade para caminhar."
 
Sidnei Ferreira de Vares
Professor da UNIFAI

domingo, 12 de julho de 2015

... o caminho do amor por uma mulher - (final).

continuação...
 
"(....)

- Porém, não acredite – declarou Darnay, em cujos ouvidos a voz pesarosa soou como uma censura – que se um dia eu tivesse a sorte de torná-la minha esposa, seria capaz de criar qualquer separação entre ela e o senhor, isso posso lhe jurar. Além de inútil, sei que seria uma grande maldade. Se essa possibilidade sequer existisse, mesmo que daqui a muitos anos, acolhida em meus pensamentos, e escondida em meu coração (se um dia ela tivesse existido), eu agora não poderia apertar a sua honrada mão.
Ele pôs a mão sobre a dele ao falar isso.
- Não, doutor Manette. Assim como o senhor, exilei-me voluntariamente da França; assim como o senhor, fui distanciado daquela nação pelas distrações, opressões e misérias que a dominavam; assim como o senhor, luto para viver longe daquela nação através de meus próprios esforços e confio num futuro melhor; desejo apenas partilhar de sua sorte, partilhar com o senhor sua vida e seu lar, e ser-lhe leal até a morte. Não quero dividir com Lucie o privilégio que ela tem de ser sua filha, companheira e amiga, mas sim de vir em seu auxílio e aproximá-la ainda mais do senhor, se tal coisa for possível.
Sua mão permanecia sobre a mão do pai de Lucie. Respondendo ao toque por um instante, mas não com frieza, o pai apoiou as mãos nos braços da poltrona e ergueu os olhos pela primeira vez desde o início da conversa. Seu semblante evidenciava uma batalha: a batalha contra aquele olhar ocasional que tendia para a dúvida sombria me o temor.
- O senhor fala com tanta sensibilidade e coragem, Charles Darnay, que lhe agradeço do fundo da alma, e abrirei meu coração totalmente... ou quase. O senhor tem algum motivo para crer que Lucie o ama?
- Nenhum. Por enquanto, nenhum.
- Seria o principal intuito dessa sua confidência averiguar se este seria o caso, com o meu conhecimento?
- Nem isso. Talvez eu não tenha confiança para fazê-lo daqui algumas semanas; talvez (enganado ou não) eu tenha confiança para fazê-lo amanhã.
- O senhor espera que eu lhe dê alguma orientação?
- Não lhe peço isso, senhor. Mas me ocorreu que talvez o senhor pudesse me dá-la, se o senhor achar essa atitude correta.
- O senhor espera que eu lhe faça alguma promessa?
- Isso sim, eu espero.
- Qual promessa?
- Entendo muito bem que, sem a ajuda do senhor não me restam esperanças. Entendo muito bem que, mesmo que neste momento a senhorita Manette me tivesse em seu coração inocente (não pense que tenho a presunção de crer em tal hipótese), eu não poderia manter-me dentre dele contra o amor que ela tem pelo pai.
- Se for este o caso, o senhor vê o que, por outro lado, isso envolve?
- Entendo igualmente bem que uma palavra do pai dela a favor de qualquer pretendente teria mais valor que eu e que o mundo inteiro. Por essa razão, doutor Manette – disse Darnay, modesto, mas firme -, eu não pediria tal palavra, nem se ela fosse salvar minha vida.
- Tenho certeza disso. Charles Darnay, mistérios surgem tanto do amor íntimo como do grande distanciamento; neste último caso, são sutis e delicados, e difíceis de se penetrar. Nesse aspecto, minha filha é para mim um grande mistério; não posso palpitar sobre o que se passa em seu coração.
- Posso lhe perguntar se o senhor acha que ela... – Como ele hesitou, o pai preencheu a lacuna.
- Que ela tem outro pretendente?
- É isso o que eu tinha a intenção de perguntar.
O pai refletiu por um instante antes de responder:
- O senhor mesmo já viu o senhor Carton aqui. O senhor Stryver também vem aqui de vez em quando. Se há algum pretendente, só pode ser um desses dois.
- Ou os dois – disse Darnay.
- Não pensei nos dois; provavelmente nem pensaria em um ou em outro. O senhor que uma promessa minha. Diga-me qual.
- A de que, se em algum momento a senhorita Manette lhe confidenciar algo semelhante ao que ousei lhe confidenciar, o senhor servirá de testemunha do que eu disse e de sua crença no que eu disse. Espero que o senhor me tenha em tão alta conta que não a influencie contra mim. Não direi mais nada a respeito de meu interesse; é isso que lhe peço. O senhor pode me impor quaisquer condições para acatar meu pedido, e é inegável que o senhor tem o direito de me impor condições e eu as aceitarei de imediato.
- Dou-lhe minha palavra – afirmou o doutor -, sem impor nenhuma condição. Acredito que sua intenção seja, pura e genuinamente, a que foi declarada. Acredito que sua finalidade seja perpetuar, e não enfraquecer, os laços que existem entre mim e meu ser mais querido. Se um dia ela me disser que o senhor é fundamental para que ela seja plenamente feliz, eu entregarei a mão dela ao senhor. Se havia... Charles Darnay, se havia...
O jovem pegara sua mão com gratidão; suas mãos estavam unidas quando o doutor continuou:
- ...Quaisquer ilusões, razões, apreensões, qualquer coisa, seja recente ou antiga, contra o homem que ela amasse de verdade... sendo que a responsabilidade por isso não coubesse de fato a ele... tudo haveria de ser esquecido pelo bem de minha filha. Ela é tudo para mim; mais do que o sofrimento, mais do que a injustiça, mais do que... Bem! Isso é conversa fiada.
Tão estranho foi o modo como ele mergulhou no silêncio e tão estranho foi seu olhar fixo ao parar de falar, que Darnay sentiu a própria mão esfriar sob a mão que devagar foi soltando e a largou....”
 
Extrato do livro: Um conto de duas cidades – Charles Dickens

domingo, 28 de junho de 2015

... o caminho do amor por uma mulher.



"...
Diante dele, aparecia agora Charles Darnay, cuja visão o fez deixar de lado o livro e estender a mão.
- Charles Darnay! É um prazer vê-lo. Estávamos contando com o seu retorno há uns três ou quatro dias. O senhor Stryver e Sydney Carton estiveram aqui ontem, e ambos disseram que já passava da hora do senhor voltar.
- Tenho de agradecê-los por se interessarem por esta questão – respondeu ele, um pouco frio  com relação aos dois, mas bastante caloroso com o médico. – A senhorita Manette...
- Está bem – disse o médico, interrompendo-o -, e seu retorno agrada a todos nós. Ela saiu para tratar de algumas questões domésticas, mas chegará em breve.
- Doutor Manette, eu sabia que ela não estaria em casa. Aproveitei a oportunidade para pedir o favor de conversar com o senhor.
Fez-se um silêncio absoluto.
- Sim? – disse o médico, visivelmente constrangido. – Traga sua cadeira até aqui e fale.
Ele obedeceu no que dizia respeito à cadeira, mas parecia achar mais difícil a parte da fala.
- Eu tive a felicidade, doutor Manette, de ter me tornado amigo íntimo da família – começou após longa pausa – há cerca de um ano e meio, então espero que o assunto no qual tocarei não cause...
Ele foi interrompido quando o doutor estendeu a mão com a intenção de para-lo. Depois de permanecer assim durante um curto intervalo, ele disse, recolhendo-a:
- O assunto é Lucie?
- É sim.
É-me difícil falar sobre ela, não importa quando. É-me difícil ouvir alguém falando sobre ela nesse seu tom de voz, Charles Darnay.
- É um tom de admiração fervorosa, respeito genuíno e amor profundo, doutor Manette! Declarou Charles respeitosamente.
De novo fez-se um silêncio absoluto antes que o pai da moça respondesse:
- Eu acredito nisso. Faço-lhe jus: acredito nisso.
Seu constrangimento era tão óbvio, e também era óbvio que se originava de sua relutância em abordar o assunto, que Charles Darnay hesitou.
- Devo prosseguir, senhor?
Outro silêncio.
- Sim, prossiga,
- O senhor pode prever o que vou dizer, mas não tem como saber a seriedade com que o digo, a seriedade com que sinto, sem conhecer os segredos do meu coração e as esperanças, temores  e angústias que ele carrega já faz muito tempo. Caro doutor Manette, a filha do senhor afetuosamente, ternamente, desinteressadamente, devotamente. Se um dia já houve amor neste mundo, eu a amo. O senhor mesmo já amou: deixe que seu antigo amor fale por mim!
 O médico estava sentado com o rosto virado para o outro lado e os olhos mirando no chão. Ao ouvir essas últimas palavras, ele tornou a esticar a mão, às pressas, e lamentou:
- Isso não! Deixe isso de lado! Eu lhe imploro, senhor, não traga isso à tona!
Seu lamento era tão similar a um verdadeiro lamento de dor, que ecoou nos ouvidos de Charles Darnay muito depois de ter cessado. Ele gesticulou com a mão que havia estendido, e pareceu uma súplica para que Darnay parasse. Este aceitou o pedido e permaneceu calado.
- Peço-lhe perdão – disse o doutor, num tom suave, alguns instantes depois. – Não duvido do seu amor por Lucie; esta satisfação eu posso lhe dar.
Ele virou-se na direção de Darnay, mas não o encarou nem ergueu os olhos. Apoiou o queixo na mão e o cabelo grisalho lhe toldou o rosto:
- O senhor falou com Lucie?
- Não
- Nem lhe escreveu?
- Nunca.
- Seria mesquinho fingir que não sei que sua abnegação se deve à consideração que tens pelo pai dela. O pai dela lhe agradece.
Ofereceu-lhe a mão; porém, os olhos não a acompanharam.
- Eu sei, doutor Manette – disse Darnay de modo respeitoso -, como não poderia saber? Eu, que vejo ambos juntos todos os dias, vejo que entre o senhor e a senhorita Manette existe um afeto tão incomum, tão comovente, tão específico às circunstâncias em que ele foi cultivado, que não pode haver paralelos, nem mesmo na ternura existente entre um pai e uma filha. Sei, doutor Manette (como não poderia saber?), que, misturado ao afeto e ao dever de uma filha que já se tornou mulher, há no coração dela, em relação ao senhor, todo o amor e dependência próprios à infância. Eu sei que, como na infância ela não teve os pais, hoje ela lhe é devotada com toda a constância e o fervor próprios à sua idade e caráter atuais, combinados com a confiança e o apego dos primeiros anos, em que ela pensava tê-lo perdido. Sei muito bem que, caso o senhor tivesse voltado para ela d’além desta vida, dificilmente teria, aos olhos dela, uma natureza ainda mais sagrada do que esta que ela já lhe atribui. Sei que quando o abraça, é ao mesmo tempo com as mãos do bebê, da criança e da mulher que ela envolve seus ombros. Eu sei que, no amor que ela lhe devota, ela enxerga e ama a mãe quando tinha sua mesma idade, enxerga e ama o senhor na minha idade, ama sua mãe de coração partido, ama o senhor durante sua terrível provação e em sua abençoada recuperação. Sei disso, dia e noite, desde o momento em que conheci a ambos dentro de casa.
O pai dela permaneceu calado, de cabeça baixa. Sua respiração ficou um pouco mais curta; entretanto, reprimia todos os outros sinais de agitação.
- Caro doutor Manette, sabendo sempre disso, vendo sempre o senhor e sua filha com esta luz santificada que os envolve, eu me contive, e continuei me contendo, por todo o tempo que a natureza de um homem seria capaz de permitir. Eu sentia, e ainda sinto, que colocar meu amor...  até o meu próprio... entre o senhor e sua filha é tocar a história que existe entre os doi que não lhe faz jus. Porém eu a amo. Deus é testemunha de que a amo!
- Eu acredito nisso – respondeu o pai, pesaroso. – Eu já pensava ser este o caso. Eu acredito.
- Porém, não acredite – declarou Darnay, em cujos ouvidos a voz pesarosa soou como uma censura – que se um dia eu tivesse a sorte de torná-la minha esposa, seria capaz de criar qualquer separação entre ela e o senhor, ...” (continua na próxima postagem).
 
Extrato do livro: Um conto de duas cidades – Charles Dickens

quarta-feira, 27 de maio de 2015

...necessidades sexuais!


"Eu nunca havia entendido porque as necessidades sexuais dos homens e das mulheres são tão diferentes. Nunca tinha entendido isso de "Marte e Vênus".
E nunca tinha entendido porque os homens pensam com a cabeça e as mulheres com o coração.
Uma noite, semana passada, minha mulher e eu estávamos indo para a cama.
Bom, começamos a ficar a vontade, fazer carinhos, provocações, o maior "T"
E, nesse momento, ela parou e me disse:
- Acho que agora não quero, só quero que você me abrace...
Eu falei:
O QUEEE???
Ela falou:
- Você não sabe se conectar com as minhas necessidades emocionais como Mulher.
Comecei a pensar no que podia ter falhado. No final, assumi que aquela noite não ia rolar nada, virei e dormi.
No dia seguinte, fomos ao shopping. Entramos em uma grande loja de Departamentos...
Fui dar uma volta enquanto ela experimentava três modelitos caríssimos.
Como não podia decidir por um ou outro, falei para comprar os três.
Então, ela me falou que precisava de uns sapatos que combinassem, a R$ 300,00 cada Par. Respondi que tudo bem. Depois fomos seção de joalheria, onde escolheu uns brincos de diamantes.
Estava tão emocionada!! Deveria estar pensando que fiquei louco. Acho até que estava me testando quando pediu uma raquete de tênis, porque nem tênis ela joga. Acredito que acabei com seus esquemas e paradigmas quando falei que sim.
Ela estava quase excitada sexualmente depois de tudo isso. Vocês tinham que ver a carinha dela, toda feliz! Quando ela falou:
Vamos passar no caixa para pagar, amor?
Daí eu disse:
Acho que agora não quero mais comprar tudo isso, meu bem... só quero que você me abrace.
Ela ficou pálida. No momento em que começou a ficar com cara de querer me matar, falei:
Você não sabe se conectar com as minhas necessidades financeiras de Homem.
Vinguei-me, mas acredito que o sexo acabou para mim até o Natal de 2000 e trá-lá-lá."
 

 Luíz Fernando Veríssimo

sábado, 9 de maio de 2015

Mulheres Inteligentes


"Era uma garota culta. Notoriamente culta. Poucos atrativos físicos, mas um cérebro de causar inveja. Cursava o último ano de artes. Nas horas vagas, ouvia Pachelbel, lia Jean-Paul Sartre, contemplava Dali, consumia Godard. Não simplesmente vivia. Estimulava-se. Exalava saber. Inspirava criação. Criava inspiração.
Entre tanto inspirar, ele transpirava paixão. Ele, perdidamente apaixonado pela “Garota Saber” que sequer sabia de sua existência. Como ela, ele também não era dotado de atrativos físicos. Diferentemente, era burro como uma porta.
Mas o amor consegue ser destemidamente desbravador quando quer. Por isso, ele estudou tanto quanto pôde todas as preferências dela, seus gostos. Demasiada informação. Repetição. Associação. Recapitulação. Noites e noites em claro.
Mas, ao menos, a recompensa lhe parecia perfeita e eterna.
Num barzinho universitário, ela sozinha junto ao balcão. Ele respira fundo. Bem fundo. Aproxima-se, um andar cautelosamente calculado. Senta-se, ao lado, fingindo distração.
Ele, após pedir a bebida, sem olhar para ela:
- Esse ambiente é um tanto quanto claustrofóbico. Remete-me a Misery.
- Como?
- Digo: esse bar. Claustrofóbico. Misery.
- Misery? – Ainda reposicionando-se ante a abordagem do “estranho”.
- Uhum. Sir King.
- Ah – um “ah” de quem compreende. Ótimo. Ponto positivo.
- Só faltava estar nevando – brinca, nova referência ao livro.
- É. – Desanimadoramente monossilábica.
E então faz silêncio. Ele esperava um comentário convidativo, algo que fugisse às interjeições desestimuladas. Nada bom. Mas o amor consegue ser tapadamente persistente quando quer. Por isso, ele espera uma “deixa”.
A música ambiente, algum jazz que ele não conhece (o que não é de surpreender), termina, deixando uma aura de silêncio onde sussurros podem ser ouvidos. Ele suspira profundamente. Arremata:
- Play it again, Sam!
Ela sorri. Outro ponto positivo.
- Também amo Casablanca – ela.
- Assisti três vezes.
- Três?
- Essa semana.
- Puxa!
- Sabe como é?!? Um fã inveterado de Humphrey Bogart.
- Eu nem tanto. – E faz silêncio.
Ela discorda. Ponto negativo. E ainda por cima, o silêncio. Ele precisa continuar o assunto que conseguiu arrancar-lhe um sorriso. Mas falar o quê? Nunca assistira Casablanca em toda sua vida. E não conseguia se lembrar dos detalhes do filme que havia estudado, em alguma revista. Pouco importa. Continue. Continue.
- Pobre Scarlett O´Hara – arrisca.
- Como? – Ela ri. – Scarlett O´Hara em Casablanca?
Excesso de informação. Dados cruzados. Reorganize. Reorganize. Scarlett O´Hara. Nunca mais sentirei fome em minha vida. “Minha Vida de Cachorro”? Não. Tente se lembrar das associações. Scarlett. Fome. Sem comida. Sem, porque alguém levou. Comida que o vento levou. Aham, é isso!!!
Pontos de suor aflorando na testa, apressando-se em ressalvar:
- Refiro-me à sessão de logo mais. E o Vento Levou… quarta vez essa semana. Só de lembrar o que a pobre Scarlett vai passar, fico emocionado.
- Sério? Costuma chorar nos filmes?
- Até em Chaplin Marx.
- Quem?
Dados cruzados. Simplifique. Simplifique.
- Hãã… Chaplin, o vagabundo.
- Ah, sim. Ele tempera as piadas com emotividade. Consegue emostar as lágrimas.
- Concordo. – Deixaria a palavra “emostar” para o próximo encontro com o Aurélio. – Mas nada que um pouco de Mercury Rev após não resolva.
- Hum… Boa pedida. Mas quer uma sugestão: prefira Smiths (*). É mais simbiôntico.
Simbiôntico? Biôntico. Biônico. Olho biônico. Eletrônica.
- Sim, um som eletrônico é uma ótima sugestão.
- Smiths, eletrônico?
- Hãã… – Mais suor. Reorganize. Reorganize. Que inferno é esse tal de Smiths? Seria Will Smith??? Arrisque. – É que o rap tem algo de eletrônico.
- Rap?? The Smiths é rock.
- Rock? Sim. Foi o que eu disse. RAP. “Rock to Alternative People”. Um movimento musical ocorrido nos guetos londrinos, iniciado nos anos noventa.
- Smiths nos anos noventa? – rindo.
Anta. Por que não colocou ponto final depois de “londrinos”? Agora se vira.
- Hãã… bem… É que talvez você não tenha ouvido a demo que lançaram na década de noventa, antes de estourarem nos anos dois mil.
- Anos dois mil? – quase gargalhando.
Ele pigarreia. Demasiadamente embaraçado. Quase entregue. Quase… Mas o amor consegue ser insensivelmente cara-de-pau quando quer.
- Me desculpe. Estou um pouco confuso. Qualquer um ficaria após contemplar Rembrandt por duas horas seguidas.
Surpresa:
- Você gosta de Rembrandt? Não acredito! Eu amo Rembrandt. Amo, amo, amo. Me diga: qual seu quadro preferido?
Quadro preferido? E agora? Acesso ao banco de dados mental. Qual era o nome daquela coisa cheia de rabiscos? “La Gioconda”? Não. “Peloton”? Não, esse é um disco do Delgados. “Sagrada Família”? Melhor não arriscar. Cruzamento de informação. Miscelânea. Mistura indigesta. E agora?
Ele, evasivo:
- Prefiro aquela fase após ele cortar a própria orelha.
- Mas quem cortou a orelha foi Van Gogh.
- É… Então… Pra ser bem sincero, estou começando agora a apreciar os pintores italianos.
- Italiano? – Rindo de novo. – Rembrandt era holandês.
- Era? Bem, isso era o que se acreditava no século 15…
- Mas Rembrandt viveu no século 17.
– CHEEEEEGA!!! – grita.
Ele se levanta, furioso, e retira-se do bar sem dizer mais uma palavra sequer. Das aulas com a Garota Saber, aprendeu uma importante lição: mulheres inteligentes são complicadas demais.
E nessas horas, nem o amor.."

 (*) The Smiths – banda britânica formada em Manchester em 1.982 e dissolvida em 1.987.



Fonte: Crônicas Homorísticas

domingo, 22 de março de 2015

Primeiro encontro

"No seu primeiro encontro romântico com uma garota, levou junto a mãe. Rapaz criado sob os mimos da mãe viúva e de duas tias solteironas, não se sentia seguro nem para assinar o próprio nome. A ausência de qualquer uma das três figuras femininas fazia com que Alfredo perdesse até a fala.
A independente Paloma, que se produzira para o grande encontro com tamanha vivacidade, agora olhava para a cena berrante com uma estranheza perturbadora.
- Oi Paloma, essa é minha mamãe.
Após uma eternidade para recuperar o fôlego, Paloma manteve o decoro e não tocou no assunto. Trocou dois beijinhos com o Alfredo, dois beijinhos com a mãe e se sentou à mesa do restaurante. Durante o jantar, a mãe, sob os tufos de cabelos brancos e uma pele desgastada, falava sem parar. Até de boca cheia. Falava sobre receitas, o clima, a violência da cidade, e sobre cada um dos programas de TV, desde os Bom Dia Qualquer Coisa até os Boa Noite Coisa Qualquer.
Em dado momento, a mãe foi ao banheiro. Delicada como uma duquesa, disse sem rodeios:
- Dá licencinha que vou ali no banheiro dar uma urinadinha, mas já volto. Vocês esperem eu voltar pra conversar que não quero perder nadinha. – Era só o que faltava.
Foi só a figura embalsamada desaparecer, e Paloma disse entre dentes:
- Alfredo, você tá louco? Por que você trouxe sua mãe no nosso encontro?
 - Ah, Paloma, me desculpe, mas eu não podia deixar a mamãe em casa. Ela tem medo de ficar sozinha.
- Medo de ficar sozinha? Medo de ficar sozinha? E o que eu tenho a ver com isso?
- Mas, o que você queria que eu fizesse?
- Eu queria que… – Falar e bufar são duas coisas difíceis de se fazer ao mesmo tempo. – Eu queria que você tivesse feito qualquer coisa, qualquer coisa: deixado ela sozinha, levado ela pra casa do vizinho, acertado ela com uma pá e enterrado no fundo do quintal, menos ter trazido ela com você pro nosso encontro.

- Puxa, Paloma. Como você é insensível. Até parece que nunca teve uma mamãe.
- Para, para. Ela não é sua “mamãe”.
- Como não?
- Ela é sua “mãe”. Você já tá crescidinho demais pra ficar com essa de “mamãe” daqui, “mamãe” dali.
- Na verdade, eu costumo chamar ela de “mamãezinha”, mas achei que você ia me achar meio infantil.
- Oh, você infantil? Imagina, Alfredo! Um homem que traz a “mamãe” num primeiro encontro não tem nada de infantil.
- Eu não gosto desse seu cinismo.
- Homens infantis fazem outras coisas: fazem xixi no penico, usam shampoo de bebê, e só dormem com a luz acesa.
Alfredo ficou embaraçado. Tentou desviar os olhos, mas o encabulamento o entregou.
- Eu não acredito, Alfredo. Eu não acredito. Qual dessas três coisas você faz ainda?
- Ééé…
- Todas elas
- Não, todas não. Eu não durmo com a luz acesa. Porque a luz incomoda a mamãe.
- O quê??? Você dorme com sua mãe?
- E com as minhas tias, também. Mas por elas, poderia deixar a luz acesa.
- Com as suas…? Não, não. Pra mim, chega. Adeus.
- Paloma, espera. Espera.
Apesar das súplicas de Alfredo, ela se levanta e desaparece de sua vista.
Quando a mãe volta, percebe o filho sozinho e triste, e pergunta:
- Que foi, meu bebê? Que cara é essa?
- Mamãe, tenho uma notícia triste pra te dar.
- O quê?
- A Paloma terminou com a gente."


Juliano Martinz
 

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Crônica de Carnaval: reflexões sobre uma aquarela de Debret

"Carnaval terminando, ou nem tanto. Da mesma forma que o pré-Carnaval começa cada vez mais cedo no Rio de Janeiro, antecipando-se mesmo ao Natal, o pós-Carnaval ainda se estenderá por vários finais de semana, enchendo as ruas de alegria e desespero, de fantasia e sujeira, de travestidos e piriguetes. As fronteiras estão cada vez mais tênues, e chegará o dia em que desaparecerão de vez: o ano inteiro será um baile de máscaras, uma mistura confusa de folia e rotina, trabalho e beijo na boca, samba, suor e cerveja, para o bem e para o mal.
Ainda não li nos jornais a tradicional reportagem dando conta da prisão de centenas de mijões que emporcalham as ruas, fazendo de banheiro as árvores, postes, esquinas e monumentos públicos, mas ela virá, tão certa quanto a Quarta-Feira de Cinzas. O assunto me vem à cabeça quando, folheando o livro ‘Debret e o Brasil’, de Julio Bandeira e Pedro Corrêa do Lago, me deparo com uma aquarela de Jean-Baptiste Debret, reveladora sobre a origem do nosso mau costume de urinar na rua, mas que também diz muito sobre o presente, sobre quem somos hoje.
 
Pintada entre 1817 e 1829, a aquarela mostra um aristocrata português enfatiotado se aliviando numa calçada, sob a proteção de uma sombrinha empunhada com diligência por um escravo. A imagem não chega a ser chocante, porque muitos traços daquela sociedade escravagista se perpetuaram, persistem na nossa linguagem, nos nossos hábitos, nos nossos valores, talvez no nosso inconsciente (que se assista, por exemplo, ao filme ‘O som ao redor’, de Kleber Mendonça Filho, que deixa isso tão claro). Ao contrário, se há algo de chocante na aquarela é o fato de nos reconhecermos nela com tanta naturalidade. Não vou me estender numa interpretação sociológica, mas, pela crueldade involuntária, um detalhe pouco evidente me chama a atenção: na parte inferior da imagem, os pés descalços do escravo têm algo de animal na tensão com que se esticam, como se o negro, sub-humano, estivesse a meio caminho entre as patas do cavalo e as botas pesadas do nobre, representante da civilização e da ordem que aqui se instituíam. Tudo ali sinaliza que não poderíamos dar certo: poder e mijo, sol e roupas pesadas, falta de higiene, cooperação entre classes que se odeiam.

Note-se que a indefinição da data da aquarela também é reveladora: a imagem pode ter sido produzida antes ou depois da Independência; mas isso importa pouco, porque a ruptura política não afetou nem os hábitos nem as relações de poder entre as classes sociais. A própria Independência, aliás, está diretamente associada à fisiologia: li que, naquele 7 de setembro, o Príncipe parou às margens do Ipiranga para se aliviar, quando chegou por um mensageiro a carta do Conselho de Estado pedindo providências em relação a Portugal, seguindo-se o famoso brado. (Dois anos depois, já na condição de Imperador, D.Pedro I assistia a uma parada de militares alemães na Fortaleza da Praia Vermelha quando pediu licença, se agachou e “obrou” junto a um muro; e um daqueles soldados registrou em seu diário que D.Pedro gostava de urinar do alto de uma varanda do Palácio de São Cristóvão sobre as cabeças dos cortesãos).
 
Xixi na rua é assunto pouco elegante, o que explica a escassez de pesquisas acadêmicas sobre o mau costume. Entre os historiadores clássicos, Luiz Edmundo, em “O Rio de Janeiro no tempo dos vice-reis” citou nobres que interrompiam cortejos para urinar nas ruas, prática que continuou Império adentro. Entre os contemporâneos, aprendo com Milton de Mendonça Teixeira que, na época da aquarela de Debret, as ruas do Rio de Janeiro eram mesmo imundas, e que as casas não tinham banheiros: o “número um” era recolhido de fossas nos quintais por um escravo, em tonéis de barro, e despejado na praia ou terreno baldio mais próximo. Já a urina era simplesmente atirada pelas janelas, dos urinóis, na calçada. Daí uma lei criada no final do século 18 pelo Marquês de Lavradio, após ser ele próprio vítima desavisada de um desses arremessos; numa espécie choque de ordem da época, ele decretou: “Todo sujeito que for arremessar águas servidas pela janela deverá bradar antes ‘Água vai!’”. (Aprendo com meu amigo Deonísio da Silva que a palavra mictório foi criada pelo Visconde de Taunay a pedido da princesa Isabel, que não gostava de “mijadouro”: ela mandou construir os primeiros, no centro do Rio.)
 
Se no cotidiano a desordem já era a ordem, como mostram os registros de Debret, outra historiadora, Marlene Soares Pinheiro, relata que o artista francês ficou estarrecido com as cenas que presenciou durante o Entrudo, o precursor do nosso Carnaval: em cartas enviadas a Paris e no livro que escreveu mais tarde sobre sua permanência de 15 anos no Brasil, Debret descreveu os “horrores” que viu nas ruas durante os três dias de festa (o carnaval começava no domingo). Mas desenhos como ‘Cena de carnaval’, de 1823, que mostra uma negra sendo atacada na rua por um negro de cartola (fantasiado portanto de “senhor”), também chamam a atenção por outro motivo. Além de registrar uma prática precursora das troglodices que se veem hoje nos blocos da cidade, a imagem mostra como os escravos gostavam de emular as práticas dos senhores. “Vi certo Carnaval em que alguns grupos de negros mascarados e fantasiados de velhos europeus imitavam-lhes os gestos”, escreveu o artista.

Como se sabe, Debret veio para o Brasil em 1816, já quase cinquentão, quando, derrotado o império napoleônico, participou da missão cultural francesa formada a convite de D.João VI. Este, como todo português, gostava de uma procissão, não perdendo uma chance de sair pelas ruas da cidade com sua Corte, mestre-sala e porta-bandeira à frente, seguindo-se uma ala de notáveis e uma banda. Consta que Debret contribuiu para imprimir algum senso estético a esses desfiles oficiais, ao qual escravos e povo em geral assistiam embasbacados; incorporaram então o exemplo a seus próprios cortejos populares, ao som de tambores e zabumbas, fantasiando-se de aristocratas, maior transgressão social de que eram capazes. Imitar o mau exemplo que vem de cima parece ser a eterna sina da sociedade brasileira, na qual os pobres sonham ser como os ricos, na qual os ricos odeiam os pobres. Duas alas de um mesmo bloco, cujo desfile nunca termina."

Tácito Costa

 

Carnaval no céu

"Ele se fantasiava de mulher no bloco que saía todo domingo de Carnaval. Passava boa parte do ano às voltas com a roupa, experimentava-a enquanto ganhava forma, exigia os ajustes necessários em seu corpo, que jamais seria admitido numa passarela. Gostava de sofisticação. No ano em que esbanjou elegância como Dona de Bordel, adquiriu a meia arrastão preta diretamente em Paris e provocou frisson numa sapataria perto da Praça Sete: depois da luta para achar em BH uma sandália plataforma na cor vermelha, bem berrante, número 43, desfilou com ela por toda a loja, acostumando-se ao salto alto, sob o espanto de senhoras que se entreolhavam e vendedoras que não continham o riso. Careca, cinquentão, com óculos grossos, barriga bem nutrida à base de cerveja e torresmo, calças arregaçadas, ele não ligou para as reações. O mais importante era conseguir o item que completaria a indumentária.
Não se fantasiava sozinho. Contava com a ajuda da mulher, companheira de décadas, orgulhosa de ver o maridão despontar como a mais elegantérrima do bloco, para tristeza de esposas que não tinham a mesma dedicação e criatividade para preparar os consortes. E ele era um cara com sorte. Da primeira lantejoula à derradeira renda, ela o seguia cidade afora, sem poupar as pernas. Também no Carnaval, o casal se entrosava muito bem.

No ano em que saiu de Bailarina Tresloucada, teve direito a peruca loura caindo até os ombros, mais saiote de filó, malha bem justa, sapatilhas com ponta, tudo tingido de rosa-choque. Ficou linda!, foi o comentário geral. Durante o desfile triunfal do bloco de mais de 100 homens travestidos e bêbados, quando o aplauso das ruas os fazia soltar o ego, o superego e a franga, ele de repente caiu no asfalto e começou a dar uns tremeliques esquisitos. As companheiras de farra logo concluíram que fazia parte do script, e gritaram em delírio, invejosas de não terem tido a ideia antes. A Garota do Alto da Afonso Pena, chefe de CTI em BH, mesmo tonta, diagnosticou um violento infarto e deu o alarme. A Fada Sininho e a Tanajura com Varizes, também médicos experientes, acudiram a vítima e iniciaram os primeiros socorros. O boca a boca foi muito aplaudido pelo público, que pediu bis. A Libélula Vesga, oftalmologista de renome, trouxe um jipe caolho, sem um farol e sem capota, e a Bailarina Tresloucada, desfalecida, foi levada às pressas para o hospital, debaixo de consagradora ovação da multidão, encantada com o realismo da performance. O quarteto de doutoras engrossou a voz, assumiu a postura profissional e, sem tempo para tirar as fantasias, invadiu a sala de emergência, carregando a Bailarina, agora sem peruca, porém ainda maquiada. Gargalhadas seguiram-nas por onde passaram.
A Bailarina Tresloucada sobreviveu ao ataque e, mesmo com marca-passo, mais comedida, continuou saindo no bloco nos anos seguintes, hors-concours. Numa tarde, recebeu um convite de ninguém menos que São Pedro para animar a festa no céu e se foi, serena, sereníssima.
Todo domingo de Carnaval fico imaginando como anda a comemoração lá em cima, decerto comandada por ela, agora auxiliada por algumas antigas e queridas colegas de bloco, especialmente convocadas pelos anjos e arcanjos para abrilhantar o desfile. Olho para o alto, um raio cor-de-rosa risca o espaço, o trovão imita um bumbo, relâmpagos menores soam como reco-recos, a ventania chora feito cuíca, pareço escutar risos e aplausos nas nuvens, e tenho certeza de que o paraíso ficou muito mais alegre."

Luis Giffoni

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

O garoto da farmácia.


Depois de ter fugido de casa e saber que seria jubilado na escola estadual (julgava que ser jubilado era um mérito depois descobri que significava a perda de direito à nova matrícula por ter sido reprovado dois anos consecutivos), meus pais não tiveram outra alternativa senão matricular-me em uma escola particular para que eu pudesse dar continuidade aos estudos. Fui estudar no Colégio e Escola Normal Prof. Luiz Pardini. A escola tinha como lema: "Pelo civismo e cultura do Brasil" e seguia normas de ordem religiosa e militar (perfeita para garotos como eu).

No dia da matrícula meu pai entregou minha ficha completa ao professor Pardini, deste dia em diante, até o último dia que frequentei esta escola ele não saiu do meu pé (foram 6 anos). Um dia escreverei um capítulo sobre minha trajetória lá.

Em 1967 eu estava na 2ª série do ginásio. A súcia da vizinhança dizia que a escola era do tipo “PPP”, ou seja, papai pagou passou, mas não era bem assim, o regime era duro, sofri um bocado, todo o corpo docente da escola conhecia o meu passado e não davam mole. Sendo a escola particular devido a uma situação criada por mim, meu pai decidiu que eu tinha que colaborar financeiramente com o custo mensal, mas não com recursos oriundos de minha atividade no empório da família, mas sim, alhures, buscar uma fonte de renda. Desta forma, através do meu pai fui empregado na Farmácia Droga Palma (na antiga Av. Cupecê) como balconista.

Eu no balcão da farmácia
Estudava na escola das 7:00 às 12:00hs e trabalhava na farmácia das 14:00 às 22:00hs, não era fácil conjuminar as duas coisas, principalmente porque a escola exigia muita atividade extra na parte da tarde do dia. A farmácia, semana sim e semana não, trabalhava no regime de plantão nos finais de semana, significando que eu trabalhava também aos sábados e nos domingos o dia todo até as 22:00hs.

Apesar de principiante eu tinha várias atividades no meu trabalho, varria o chão duas vezes por dia, passava o espanador nas vitrines para retirar o pó, lavava as seringas após uso e colocava-as de volta no esterilizador (ainda não existiam seringas descartáveis), embrulhava antecipadamente os pacotes de "Modess da J&J", preparava fórmulas como a do "elixir paregórico" indicado para cólicas intestinais, o "relâmpago" indicado para dor de dente, álcool canforado, envelopava doses de salamargo, etc., e claro, atendia no balcão, e esta era a atividade que eu mais gostava, apesar de ficar um pouco constrangido com a venda de alguns produtos como por exemplo: camisinhas (preservativos), Modess, cinta pra Modess, supositórios, óvulos vaginais, etc. Me sentia mais à vontade no setor de cosméticos e perfumaria.

As meninas do bairro frequentavam o setor de cosméticos para a compra de esmaltes e pó compacto, era uma delícia atende-las, ficavam com aquele mostruário de unhas postiças vários minutos até decidirem se iriam comprar um esmalte cintilante ou cremoso, Colorama ou Paramount, a cor levava mais uns dez minutos pra ser decidida. Enquanto os farmacêuticos atendiam dez clientes para a venda de medicamentos eu atendia uma no setor de perfumaria, era uma venda bem orientada, dava minhas sugestões, perguntava onde as meninas moravam, estudavam, se iam a algum "bailinho" no próximo final de semana, etc. Muitos dos meus relacionamentos com paqueras começaram ali, inclusive o com minha esposa. (Quando comecei a namorar minha esposa eu não trabalhava mais na drogaria, mas tudo começou lá. Próximo à drogaria existiam dois pontos de ônibus, um em cada sentido, o para centro ficava do outro lado da rua, bem em frente, o do sentido bairro a uns cinquenta metros. Quando ela retornava do trabalho eu me preparava (sabia a hora e também conhecia o ônibus que ela vinha) ela passava em frente a farmácia e todo dia seu olhar buscava por mim e assim que achava dava um sorriso acanhado, passava rápido, então quando eu não estava ocupado, eu corria até a porta para vê-la virar a esquina e dar um tchauzinho com as mãos para mim). Por muito tempo as coisas não passaram disto, isto é, olhares e tchauzinhos.

Camisa psicodélica
da época
As paqueras aumentaram nesta época, então precisava cuidar da aparência, meu sonho era ter uma calça "Lee" importada (considerado contrabando na ocasião), daquelas que a gente tinha que raspar um tijolo nas pernas da calça para ela ficar desbotada e demorava seis meses para sair a goma toda, mas a grana só dava pra comprar a rancheira "Far-West" da Alpargatas, quem tinha uma "Lee" estava com tudo, demorou muito tempo até eu ter a primeira, mas para comprar uma camisa psicodélica e a botinha “Quirinale” de saldo quadrado carrapeta a gente dava um jeito. Apesar de trabalhar com um avental branco por cima da roupa a vaidade falava mais alto.

Com o tempo fui aprendendo a decifrar (ler) as receitas médicas, uma das receitas de fácil leitura era a do Dr. Francisco (aquele médico que me clinicou quando a taturana passeou pela minha orelha, o mesmo do feijão no ouvido – ver: Infância Maravilhosa - A rua de casa I) sua letra parecia de professora, mas também era o único, o resto tinha uma letra sofrível, o que facilitiva o entendimento era o nosso conhecimento do nome dos medicamentos. Sabia a localização de todos os medicamentos que existiam na farmácia e de vez em quando eu era questionado/sabatinado pelo farmacêutico/proprietário (Sr. Cláudio) sobre o local e para que era indicado cada um deles.

Um dia o Sr. Cláudio foi tomar café na padaria e o outro farmacêutico estava ocupado na sala de injeções e entrou um sujeito bem vestido, todo engomado, e logo atrás dele um senhor já de bastante idade, não estavam juntos, então o cidadão falou: "eu quero uma lata de vaselina" - imediatamente fui até a uma gaveta e peguei uma latinha daquelas que parecem alumínio, das mais barata e entreguei para o cidadão. Ele abriu a lata passou o dedo de leve de disse: "isso aqui não tem viscosidade nenhuma garoto, você não tem uma melhor?" - fechei a lata voltei à gaveta de peguei uma da marca Sidepal, entreguei pra ele que por sua vez repetiu o gesto e o velhinho só observando o que estava acontecendo e esperando para ser atendido, então o cidadão disse: "essa tem viscosidade boa mas não tem cheiro, você não tem uma perfumada?" - fechei novamente a lata e voltei à gaveta e peguei a mais cara e cheirosa que existia, ela era de qualidade superior à das melhores brilhantinas, entreguei pra ele já com a tampa aberta, passou o dedo, cheirou e disse: vou levar esta!" - pagou e saiu. Então o velhinho que observou tudo disse: "que sujeito chato heim!?" Eu disse: "chato nada, o homem é fino, ele hoje deve sair com um baita dum mulherão e por isso toda esta exigência. - "que nada" disse o velhinho "ele pra mim vai é queimar o "rogostóf", ah! com certeza que vai. Preste atenção meu filho, ninguém tem tanto cuidado com fiofó dos outros dessa forma!". A conversa acabou aqui, comprou o que tinha que comprar e foi embora.

Eu tinha uma vontade imensa de aprender a aplicar injeções. Recebi ensinamento teórico para aplicações intramusculares (braço e glúteo) e endovenoso, nada de prática por muito tempo. Um dia um dos farmacêuticos deu-me esta oportunidade. Entrou na farmácia uma senhora forte que pretendia tomar um antigripal injetável intramuscular, não deu outra. O braço da mulher era do tamanho da minha coxa, nada podia dar errado ali, então apliquei a mistura de Eucaliptol associado com vitamina C, segui as instruções à risca. Deu tudo certo. Fui até elogiado pela cliente que disse: "não senti absolutamente nada, você aplica injeções há muito tempo?" - com gotas de suor aljofrando-me a testa e o rosto enrubescido de vergonha, mas com o ego nas alturas, respondi que sim. Naquele instante parece que eu recebia o passaporte para um mundo novo, quantos "bumbuns" eu vi na minha vida a partir daquele dia! Ai que delícia! Tive problemas no caminho, mas valeu a pena.

Depois da Droga Palma trabalhei na Drogaria Jandira que ficava na esquina da rua Maracatins com Jandira no bairro de Moema (hoje não existe mais) e também na farmácia do Hospital Nossa Senhora de Lourdes, que existe até hoje no Jabaquara. Assim, encerrei minha carreira na área farmaceutica com quinze anos e meio de idade. A humanidade agradeceu!

domingo, 18 de janeiro de 2015

...encha o caco. "We deliver".

"O Estadão de terça-feira nos informa que já existe em Fortaleza um serviço especial de entrega de bêbados a domicílio. Os cadastrados – que já somam 310 paus-d’agua – ganham o direito a um anjo da guarda que os acompanha incontinenti até a última gota de seu porre, levando o biriteiro para sua (dele) casa. Assim, como se vê, trata-se de uma empresa de utilidade pública. O bebum vai “matar o bicho” e não precisa se preocupar com o caminho da roça. Jamais sairá de braços dados com dois soldados. Inezita Barroso já chamava por tal proteção quando imortalizou seu maior sucesso. A capital cearense fez escola e tem tudo para ser imitada por outras regiões do Brasil. Aqui mesmo em São Paulo, existem milhares de pé-de-cana desamparados que poderiam fazer a fortuna de algum empresário de visão que começasse sua “transportadora”. Ofereço até um slogam para o novo negócio: “Encha o caco. We deliver”. Com um toque de sofisticação, com uma frase em inglês.
Sei de casos que dão pena, quando olhados pela ótica de quem não “tomou todas” e saiu pelo mundo. Lembro-me de um cara que era caçado pela mãe em todos os botecos de Santana. A velha, uma portuguesa de maus bofes e longos bigodes, surgia no covil dos pinguços e, empunhando tamancos de madeira distribuía bordoadas no pobre manguaceiro, Sobrava também para aqueles que estavam ao redor. O cara era levado pelas orelhas de volta ao lar materno, mesmo tendo mais de 50 anos.

Meu tio Gibão, por não estar devidamente acompanhado depois de uma carraspana, se viu obrigado a andar de gatinhas, procurando a dentadura que foi projetada de sua boca até o jardim do prédio onde morava. A “cremalheira” foi encontrada – sorrindo – pelo jardineiro quando aguava as flores, dois dias depois do incidente. Caso tivesse um anjo protetor, tio Gibão não ficaria sem o “mastigo”.
Cláucio Romel Lopes e Crisanto Barros, os pais dessa “idéia mãe”, dizem que catalogam os bêbados de sua proteção em categorias diferentes: alegre, chato, romântico, agitado ou “bonequeiro” – do tipo que arruma confusão. Cada qual merece atenção diferenciada e paga por isso. Fico imaginando o que deve ser cuidar de um “bonequeiro”. Conheço muito o tipo: depois de tomar umas e outras vai logo “armando um barraco” e sentando a mão ou a orelha nos outros. Quando sentam a orelha não é problema: dar com essa parte da anatomia nos outros costuma causar mais prejuízo para o agressor. Também deve ser duro suportar o “alegre”. Pensem: o pau-d’agua vai tomando todas e ficando entusiasmado, cisma que seu protetor tem de se juntar à esbórnia, insiste em pagar uns tragos e acaba por embebedar quem deveria ficar sóbrio. Saem os dois cantando alto pelas ruas e vão dormir em local pouco apropriado. Haja fígado!
De minha parte, mesmo elogiando a iniciativa, prefiro o tradicional sistema: “a volta do bebum solitário”. Não estou nem um pouco inclinado a encher a cara tendo uma sombra abstêmia pronta para me levar para a cama. No entanto, se o serviço oferecer também um departamento de “desculpas eficientes para esposas iradas”, vou logo me filiando. Minha mulher – aquela santa que mora lá em casa – já conhece todas as possíveis argumentações explicativas para o estado etílico de uma pessoa. Sonho com o dia em que, ao chegar “cercando frango” em meu lar, a santa diria: “O seu amigo passou por aqui e explicou o porquê de sua bebedeira. Pode ir para a cama que, ao acordar, o Sonrisal estará esperando por você, querido”. Enquanto isso não acontece, acho bom manter-me abstêmio.”
 
Osmar Freitas Jr. – Dez/1990

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

... chá em Zurique, antes do pôr-do-sol.

Estamos todos inclinados para o lado direito, alto, muito alto, além de todas as montanhas, destas montanhas da Suíça, que sobrevoamos. Todos procuramos ver o espetáculo aos nossos pés, e todos estamos transidos, mudos, arrebatados. Se respirarmos mais forte, pode ser que desequilibremos esta poderosa tensão unânime que, mais do que a máquina, parece estar sendo o que assim nos sustenta nos ares.

Na verdade, não temos noção nenhuma do movimento. Estamos suspensos e parados, acima destas imensas pedras, que formam um anfiteatro despedaçado, um teatro ciclópico transitado por nuvens que resvalam pela cena e desaparecem nos bastidores, numa representação interminável, para um tempo sem espectadores.

E começa a declinar o dia de modo que o sol penetra por entre esses imensos blocos, que ficam roxos, vermelhos, amarelos, e projetam ainda sombras, uns contra os outros, e mostram suas finas arestas límpidas, inexoráveis. E de repente nos ocorre que, se o vento passa por aí, deve ser em brados violentos, como na música de Wagner.

Por mais que esteja repleto o avião, por mais que todos os passageiros se aproximem, procurando em cada janela o ponto de observação mais favorável, todos estamos imensamente solitários – desligados uns dos outros, deligados dos nossos parentes e amigos – lá muito longe, onde ficaram, sem saberem, neste momento, por onde vamos – desligados de nós mesmos, daquilo que consta mesquinhamente de nossos passaportes. Somos o que somos – sem profissão, idade, nome, corpo -, o que sobra de todos esses pormenores, o que viaja sob todas essas limitações, o que por acaso se realiza, fora de tais formalidades: o que, porventura, resistirá quando encerrarmos nossas atribuições no mundo humano. Somos o nosso silêncio interior, o nosso silêncio sempre enriquecido, e tão cheio de claridade secreta. Somos a nossa grandiosa solidão, aquela em que reconhecemos desde a infância, o espelho de nossa permanência, a constante vigilância de nossa vida.

E estamos todos inclinados e transidos. E vemos lá embaixo a Terra, nossa morada. E pode ser que não sejamos só da Terra...

E vemos, longe, um horizonte de neve – com as nuvens que giram, que representam, umas tão fluidas, outras tão obesas – que representam neste palco de cores vibrantes o drama natural da preparação do inverno.

Todo esse tempo – e quanto tempo ficamos assim, aparentemente imóveis, nesta contemplação? – parecemos as únicas criaturas humanas existindo nesse profundo, imenso deserto de pedras tumultuosas. Mas sabemos que, desde o princípio das eras, outros passaram por ali e sentiram o mesmo espanto e a mesma emoção que estamos sentindo. O espanto e a emoção de estarem vivos, de terem olhos, e verem, e quererem saber, e não compreenderem, e estarem, ao mesmo tempo, sem nenhuma esperança, e confiantes na sua ininteligível eternidade.

Depois, o chão volta a ser uma tapeçaria quadriculada – todos os tons de verde e pardo e ruivo – e o chão passa, daquela forma épica, a uma doçura romântica e arcádica, e percebemos que baixamos, que vamos pousar, como num jardim, e que tomaremos chá em Zurique, antes do pôr-do-sol.

 
 Cecília Meireles (Set/52)