"O Estadão de terça-feira nos
informa que já existe em Fortaleza um serviço especial de entrega de bêbados a
domicílio. Os cadastrados – que já somam 310 paus-d’agua – ganham o direito a
um anjo da guarda que os acompanha incontinenti até a última gota de seu porre,
levando o biriteiro para sua (dele) casa. Assim, como se vê, trata-se de uma
empresa de utilidade pública. O bebum vai “matar o bicho” e não precisa se
preocupar com o caminho da roça. Jamais sairá de braços dados com dois
soldados. Inezita Barroso já chamava por tal proteção quando imortalizou seu
maior sucesso. A capital cearense fez escola e tem tudo para ser imitada por
outras regiões do Brasil. Aqui mesmo em São Paulo, existem milhares de
pé-de-cana desamparados que poderiam fazer a fortuna de algum empresário de
visão que começasse sua “transportadora”. Ofereço até um slogam para o novo
negócio: “Encha o caco. We deliver”. Com um toque de sofisticação, com uma
frase em inglês.
Sei de casos que dão pena,
quando olhados pela ótica de quem não “tomou todas” e saiu pelo mundo.
Lembro-me de um cara que era caçado pela mãe em todos os botecos de Santana. A
velha, uma portuguesa de maus bofes e longos bigodes, surgia no covil dos
pinguços e, empunhando tamancos de madeira distribuía bordoadas no pobre
manguaceiro, Sobrava também para aqueles que estavam ao redor. O cara era
levado pelas orelhas de volta ao lar materno, mesmo tendo mais de 50 anos.
Meu tio Gibão, por não estar
devidamente acompanhado depois de uma carraspana, se viu obrigado a andar de
gatinhas, procurando a dentadura que foi projetada de sua boca até o jardim do
prédio onde morava. A “cremalheira” foi encontrada – sorrindo – pelo jardineiro
quando aguava as flores, dois dias depois do incidente. Caso tivesse um anjo
protetor, tio Gibão não ficaria sem o “mastigo”.
Cláucio Romel Lopes e Crisanto
Barros, os pais dessa “idéia mãe”, dizem que catalogam os bêbados de sua
proteção em categorias diferentes: alegre, chato, romântico, agitado ou “bonequeiro”
– do tipo que arruma confusão. Cada qual merece atenção diferenciada e paga por
isso. Fico imaginando o que deve ser cuidar de um “bonequeiro”. Conheço muito o
tipo: depois de tomar umas e outras vai logo “armando um barraco” e sentando a
mão ou a orelha nos outros. Quando sentam a orelha não é problema: dar com essa
parte da anatomia nos outros costuma causar mais prejuízo para o agressor.
Também deve ser duro suportar o “alegre”. Pensem: o pau-d’agua vai tomando
todas e ficando entusiasmado, cisma que seu protetor tem de se juntar à
esbórnia, insiste em pagar uns tragos e acaba por embebedar quem deveria ficar
sóbrio. Saem os dois cantando alto pelas ruas e vão dormir em local pouco
apropriado. Haja fígado!
De minha parte, mesmo elogiando
a iniciativa, prefiro o tradicional sistema: “a volta do bebum solitário”. Não
estou nem um pouco inclinado a encher a cara tendo uma sombra abstêmia pronta
para me levar para a cama. No entanto, se o serviço oferecer também um
departamento de “desculpas eficientes para esposas iradas”, vou logo me
filiando. Minha mulher – aquela santa que mora lá em casa – já conhece todas as
possíveis argumentações explicativas para o estado etílico de uma pessoa. Sonho
com o dia em que, ao chegar “cercando frango” em meu lar, a santa diria: “O seu
amigo passou por aqui e explicou o porquê de sua bebedeira. Pode ir para a cama
que, ao acordar, o Sonrisal estará esperando por você, querido”. Enquanto isso
não acontece, acho bom manter-me abstêmio.”
Osmar Freitas Jr. – Dez/1990



Nenhum comentário:
Postar um comentário