domingo, 18 de janeiro de 2015

...encha o caco. "We deliver".

"O Estadão de terça-feira nos informa que já existe em Fortaleza um serviço especial de entrega de bêbados a domicílio. Os cadastrados – que já somam 310 paus-d’agua – ganham o direito a um anjo da guarda que os acompanha incontinenti até a última gota de seu porre, levando o biriteiro para sua (dele) casa. Assim, como se vê, trata-se de uma empresa de utilidade pública. O bebum vai “matar o bicho” e não precisa se preocupar com o caminho da roça. Jamais sairá de braços dados com dois soldados. Inezita Barroso já chamava por tal proteção quando imortalizou seu maior sucesso. A capital cearense fez escola e tem tudo para ser imitada por outras regiões do Brasil. Aqui mesmo em São Paulo, existem milhares de pé-de-cana desamparados que poderiam fazer a fortuna de algum empresário de visão que começasse sua “transportadora”. Ofereço até um slogam para o novo negócio: “Encha o caco. We deliver”. Com um toque de sofisticação, com uma frase em inglês.
Sei de casos que dão pena, quando olhados pela ótica de quem não “tomou todas” e saiu pelo mundo. Lembro-me de um cara que era caçado pela mãe em todos os botecos de Santana. A velha, uma portuguesa de maus bofes e longos bigodes, surgia no covil dos pinguços e, empunhando tamancos de madeira distribuía bordoadas no pobre manguaceiro, Sobrava também para aqueles que estavam ao redor. O cara era levado pelas orelhas de volta ao lar materno, mesmo tendo mais de 50 anos.

Meu tio Gibão, por não estar devidamente acompanhado depois de uma carraspana, se viu obrigado a andar de gatinhas, procurando a dentadura que foi projetada de sua boca até o jardim do prédio onde morava. A “cremalheira” foi encontrada – sorrindo – pelo jardineiro quando aguava as flores, dois dias depois do incidente. Caso tivesse um anjo protetor, tio Gibão não ficaria sem o “mastigo”.
Cláucio Romel Lopes e Crisanto Barros, os pais dessa “idéia mãe”, dizem que catalogam os bêbados de sua proteção em categorias diferentes: alegre, chato, romântico, agitado ou “bonequeiro” – do tipo que arruma confusão. Cada qual merece atenção diferenciada e paga por isso. Fico imaginando o que deve ser cuidar de um “bonequeiro”. Conheço muito o tipo: depois de tomar umas e outras vai logo “armando um barraco” e sentando a mão ou a orelha nos outros. Quando sentam a orelha não é problema: dar com essa parte da anatomia nos outros costuma causar mais prejuízo para o agressor. Também deve ser duro suportar o “alegre”. Pensem: o pau-d’agua vai tomando todas e ficando entusiasmado, cisma que seu protetor tem de se juntar à esbórnia, insiste em pagar uns tragos e acaba por embebedar quem deveria ficar sóbrio. Saem os dois cantando alto pelas ruas e vão dormir em local pouco apropriado. Haja fígado!
De minha parte, mesmo elogiando a iniciativa, prefiro o tradicional sistema: “a volta do bebum solitário”. Não estou nem um pouco inclinado a encher a cara tendo uma sombra abstêmia pronta para me levar para a cama. No entanto, se o serviço oferecer também um departamento de “desculpas eficientes para esposas iradas”, vou logo me filiando. Minha mulher – aquela santa que mora lá em casa – já conhece todas as possíveis argumentações explicativas para o estado etílico de uma pessoa. Sonho com o dia em que, ao chegar “cercando frango” em meu lar, a santa diria: “O seu amigo passou por aqui e explicou o porquê de sua bebedeira. Pode ir para a cama que, ao acordar, o Sonrisal estará esperando por você, querido”. Enquanto isso não acontece, acho bom manter-me abstêmio.”
 
Osmar Freitas Jr. – Dez/1990

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