Estamos todos
inclinados para o lado direito, alto, muito alto, além de todas as montanhas,
destas montanhas da Suíça, que sobrevoamos. Todos procuramos ver o espetáculo
aos nossos pés, e todos estamos transidos, mudos, arrebatados. Se respirarmos
mais forte, pode ser que desequilibremos esta poderosa tensão unânime que, mais
do que a máquina, parece estar sendo o que assim nos sustenta nos ares.
Na verdade,
não temos noção nenhuma do movimento. Estamos suspensos e parados, acima destas
imensas pedras, que formam um anfiteatro despedaçado, um teatro ciclópico
transitado por nuvens que resvalam pela cena e desaparecem nos bastidores, numa
representação interminável, para um tempo sem espectadores.
E começa a
declinar o dia de modo que o sol penetra por entre esses imensos blocos, que
ficam roxos, vermelhos, amarelos, e projetam ainda sombras, uns contra os
outros, e mostram suas finas arestas límpidas, inexoráveis. E de repente nos
ocorre que, se o vento passa por aí, deve ser em brados violentos, como na
música de Wagner.
Por mais que
esteja repleto o avião, por mais que todos os passageiros se aproximem,
procurando em cada janela o ponto de observação mais favorável, todos estamos
imensamente solitários – desligados uns dos outros, deligados dos nossos
parentes e amigos – lá muito longe, onde ficaram, sem saberem, neste momento,
por onde vamos – desligados de nós mesmos, daquilo que consta mesquinhamente de
nossos passaportes. Somos o que somos – sem profissão, idade, nome, corpo -, o
que sobra de todos esses pormenores, o que viaja sob todas essas limitações, o
que por acaso se realiza, fora de tais formalidades: o que, porventura, resistirá
quando encerrarmos nossas atribuições no mundo humano. Somos o nosso silêncio
interior, o nosso silêncio sempre enriquecido, e tão cheio de claridade
secreta. Somos a nossa grandiosa solidão, aquela em que reconhecemos desde a
infância, o espelho de nossa permanência, a constante vigilância de nossa vida.
E estamos
todos inclinados e transidos. E vemos lá embaixo a Terra, nossa morada. E pode
ser que não sejamos só da Terra...
E vemos,
longe, um horizonte de neve – com as nuvens que giram, que representam, umas
tão fluidas, outras tão obesas – que representam neste palco de cores vibrantes
o drama natural da preparação do inverno.
Todo esse
tempo – e quanto tempo ficamos assim, aparentemente imóveis, nesta
contemplação? – parecemos as únicas criaturas humanas existindo nesse profundo,
imenso deserto de pedras tumultuosas. Mas sabemos que, desde o princípio das
eras, outros passaram por ali e sentiram o mesmo espanto e a mesma emoção que
estamos sentindo. O espanto e a emoção de estarem vivos, de terem olhos, e
verem, e quererem saber, e não compreenderem, e estarem, ao mesmo tempo, sem nenhuma
esperança, e confiantes na sua ininteligível eternidade.
Depois, o
chão volta a ser uma tapeçaria quadriculada – todos os tons de verde e pardo e
ruivo – e o chão passa, daquela forma épica, a uma doçura romântica e arcádica,
e percebemos que baixamos, que vamos pousar, como num jardim, e que tomaremos
chá em Zurique, antes do pôr-do-sol.

Nenhum comentário:
Postar um comentário