quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

... chá em Zurique, antes do pôr-do-sol.

Estamos todos inclinados para o lado direito, alto, muito alto, além de todas as montanhas, destas montanhas da Suíça, que sobrevoamos. Todos procuramos ver o espetáculo aos nossos pés, e todos estamos transidos, mudos, arrebatados. Se respirarmos mais forte, pode ser que desequilibremos esta poderosa tensão unânime que, mais do que a máquina, parece estar sendo o que assim nos sustenta nos ares.

Na verdade, não temos noção nenhuma do movimento. Estamos suspensos e parados, acima destas imensas pedras, que formam um anfiteatro despedaçado, um teatro ciclópico transitado por nuvens que resvalam pela cena e desaparecem nos bastidores, numa representação interminável, para um tempo sem espectadores.

E começa a declinar o dia de modo que o sol penetra por entre esses imensos blocos, que ficam roxos, vermelhos, amarelos, e projetam ainda sombras, uns contra os outros, e mostram suas finas arestas límpidas, inexoráveis. E de repente nos ocorre que, se o vento passa por aí, deve ser em brados violentos, como na música de Wagner.

Por mais que esteja repleto o avião, por mais que todos os passageiros se aproximem, procurando em cada janela o ponto de observação mais favorável, todos estamos imensamente solitários – desligados uns dos outros, deligados dos nossos parentes e amigos – lá muito longe, onde ficaram, sem saberem, neste momento, por onde vamos – desligados de nós mesmos, daquilo que consta mesquinhamente de nossos passaportes. Somos o que somos – sem profissão, idade, nome, corpo -, o que sobra de todos esses pormenores, o que viaja sob todas essas limitações, o que por acaso se realiza, fora de tais formalidades: o que, porventura, resistirá quando encerrarmos nossas atribuições no mundo humano. Somos o nosso silêncio interior, o nosso silêncio sempre enriquecido, e tão cheio de claridade secreta. Somos a nossa grandiosa solidão, aquela em que reconhecemos desde a infância, o espelho de nossa permanência, a constante vigilância de nossa vida.

E estamos todos inclinados e transidos. E vemos lá embaixo a Terra, nossa morada. E pode ser que não sejamos só da Terra...

E vemos, longe, um horizonte de neve – com as nuvens que giram, que representam, umas tão fluidas, outras tão obesas – que representam neste palco de cores vibrantes o drama natural da preparação do inverno.

Todo esse tempo – e quanto tempo ficamos assim, aparentemente imóveis, nesta contemplação? – parecemos as únicas criaturas humanas existindo nesse profundo, imenso deserto de pedras tumultuosas. Mas sabemos que, desde o princípio das eras, outros passaram por ali e sentiram o mesmo espanto e a mesma emoção que estamos sentindo. O espanto e a emoção de estarem vivos, de terem olhos, e verem, e quererem saber, e não compreenderem, e estarem, ao mesmo tempo, sem nenhuma esperança, e confiantes na sua ininteligível eternidade.

Depois, o chão volta a ser uma tapeçaria quadriculada – todos os tons de verde e pardo e ruivo – e o chão passa, daquela forma épica, a uma doçura romântica e arcádica, e percebemos que baixamos, que vamos pousar, como num jardim, e que tomaremos chá em Zurique, antes do pôr-do-sol.

 
 Cecília Meireles (Set/52)

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