terça-feira, 27 de janeiro de 2015

O garoto da farmácia.


Depois de ter fugido de casa e saber que seria jubilado na escola estadual (julgava que ser jubilado era um mérito depois descobri que significava a perda de direito à nova matrícula por ter sido reprovado dois anos consecutivos), meus pais não tiveram outra alternativa senão matricular-me em uma escola particular para que eu pudesse dar continuidade aos estudos. Fui estudar no Colégio e Escola Normal Prof. Luiz Pardini. A escola tinha como lema: "Pelo civismo e cultura do Brasil" e seguia normas de ordem religiosa e militar (perfeita para garotos como eu).

No dia da matrícula meu pai entregou minha ficha completa ao professor Pardini, deste dia em diante, até o último dia que frequentei esta escola ele não saiu do meu pé (foram 6 anos). Um dia escreverei um capítulo sobre minha trajetória lá.

Em 1967 eu estava na 2ª série do ginásio. A súcia da vizinhança dizia que a escola era do tipo “PPP”, ou seja, papai pagou passou, mas não era bem assim, o regime era duro, sofri um bocado, todo o corpo docente da escola conhecia o meu passado e não davam mole. Sendo a escola particular devido a uma situação criada por mim, meu pai decidiu que eu tinha que colaborar financeiramente com o custo mensal, mas não com recursos oriundos de minha atividade no empório da família, mas sim, alhures, buscar uma fonte de renda. Desta forma, através do meu pai fui empregado na Farmácia Droga Palma (na antiga Av. Cupecê) como balconista.

Eu no balcão da farmácia
Estudava na escola das 7:00 às 12:00hs e trabalhava na farmácia das 14:00 às 22:00hs, não era fácil conjuminar as duas coisas, principalmente porque a escola exigia muita atividade extra na parte da tarde do dia. A farmácia, semana sim e semana não, trabalhava no regime de plantão nos finais de semana, significando que eu trabalhava também aos sábados e nos domingos o dia todo até as 22:00hs.

Apesar de principiante eu tinha várias atividades no meu trabalho, varria o chão duas vezes por dia, passava o espanador nas vitrines para retirar o pó, lavava as seringas após uso e colocava-as de volta no esterilizador (ainda não existiam seringas descartáveis), embrulhava antecipadamente os pacotes de "Modess da J&J", preparava fórmulas como a do "elixir paregórico" indicado para cólicas intestinais, o "relâmpago" indicado para dor de dente, álcool canforado, envelopava doses de salamargo, etc., e claro, atendia no balcão, e esta era a atividade que eu mais gostava, apesar de ficar um pouco constrangido com a venda de alguns produtos como por exemplo: camisinhas (preservativos), Modess, cinta pra Modess, supositórios, óvulos vaginais, etc. Me sentia mais à vontade no setor de cosméticos e perfumaria.

As meninas do bairro frequentavam o setor de cosméticos para a compra de esmaltes e pó compacto, era uma delícia atende-las, ficavam com aquele mostruário de unhas postiças vários minutos até decidirem se iriam comprar um esmalte cintilante ou cremoso, Colorama ou Paramount, a cor levava mais uns dez minutos pra ser decidida. Enquanto os farmacêuticos atendiam dez clientes para a venda de medicamentos eu atendia uma no setor de perfumaria, era uma venda bem orientada, dava minhas sugestões, perguntava onde as meninas moravam, estudavam, se iam a algum "bailinho" no próximo final de semana, etc. Muitos dos meus relacionamentos com paqueras começaram ali, inclusive o com minha esposa. (Quando comecei a namorar minha esposa eu não trabalhava mais na drogaria, mas tudo começou lá. Próximo à drogaria existiam dois pontos de ônibus, um em cada sentido, o para centro ficava do outro lado da rua, bem em frente, o do sentido bairro a uns cinquenta metros. Quando ela retornava do trabalho eu me preparava (sabia a hora e também conhecia o ônibus que ela vinha) ela passava em frente a farmácia e todo dia seu olhar buscava por mim e assim que achava dava um sorriso acanhado, passava rápido, então quando eu não estava ocupado, eu corria até a porta para vê-la virar a esquina e dar um tchauzinho com as mãos para mim). Por muito tempo as coisas não passaram disto, isto é, olhares e tchauzinhos.

Camisa psicodélica
da época
As paqueras aumentaram nesta época, então precisava cuidar da aparência, meu sonho era ter uma calça "Lee" importada (considerado contrabando na ocasião), daquelas que a gente tinha que raspar um tijolo nas pernas da calça para ela ficar desbotada e demorava seis meses para sair a goma toda, mas a grana só dava pra comprar a rancheira "Far-West" da Alpargatas, quem tinha uma "Lee" estava com tudo, demorou muito tempo até eu ter a primeira, mas para comprar uma camisa psicodélica e a botinha “Quirinale” de saldo quadrado carrapeta a gente dava um jeito. Apesar de trabalhar com um avental branco por cima da roupa a vaidade falava mais alto.

Com o tempo fui aprendendo a decifrar (ler) as receitas médicas, uma das receitas de fácil leitura era a do Dr. Francisco (aquele médico que me clinicou quando a taturana passeou pela minha orelha, o mesmo do feijão no ouvido – ver: Infância Maravilhosa - A rua de casa I) sua letra parecia de professora, mas também era o único, o resto tinha uma letra sofrível, o que facilitiva o entendimento era o nosso conhecimento do nome dos medicamentos. Sabia a localização de todos os medicamentos que existiam na farmácia e de vez em quando eu era questionado/sabatinado pelo farmacêutico/proprietário (Sr. Cláudio) sobre o local e para que era indicado cada um deles.

Um dia o Sr. Cláudio foi tomar café na padaria e o outro farmacêutico estava ocupado na sala de injeções e entrou um sujeito bem vestido, todo engomado, e logo atrás dele um senhor já de bastante idade, não estavam juntos, então o cidadão falou: "eu quero uma lata de vaselina" - imediatamente fui até a uma gaveta e peguei uma latinha daquelas que parecem alumínio, das mais barata e entreguei para o cidadão. Ele abriu a lata passou o dedo de leve de disse: "isso aqui não tem viscosidade nenhuma garoto, você não tem uma melhor?" - fechei a lata voltei à gaveta de peguei uma da marca Sidepal, entreguei pra ele que por sua vez repetiu o gesto e o velhinho só observando o que estava acontecendo e esperando para ser atendido, então o cidadão disse: "essa tem viscosidade boa mas não tem cheiro, você não tem uma perfumada?" - fechei novamente a lata e voltei à gaveta e peguei a mais cara e cheirosa que existia, ela era de qualidade superior à das melhores brilhantinas, entreguei pra ele já com a tampa aberta, passou o dedo, cheirou e disse: vou levar esta!" - pagou e saiu. Então o velhinho que observou tudo disse: "que sujeito chato heim!?" Eu disse: "chato nada, o homem é fino, ele hoje deve sair com um baita dum mulherão e por isso toda esta exigência. - "que nada" disse o velhinho "ele pra mim vai é queimar o "rogostóf", ah! com certeza que vai. Preste atenção meu filho, ninguém tem tanto cuidado com fiofó dos outros dessa forma!". A conversa acabou aqui, comprou o que tinha que comprar e foi embora.

Eu tinha uma vontade imensa de aprender a aplicar injeções. Recebi ensinamento teórico para aplicações intramusculares (braço e glúteo) e endovenoso, nada de prática por muito tempo. Um dia um dos farmacêuticos deu-me esta oportunidade. Entrou na farmácia uma senhora forte que pretendia tomar um antigripal injetável intramuscular, não deu outra. O braço da mulher era do tamanho da minha coxa, nada podia dar errado ali, então apliquei a mistura de Eucaliptol associado com vitamina C, segui as instruções à risca. Deu tudo certo. Fui até elogiado pela cliente que disse: "não senti absolutamente nada, você aplica injeções há muito tempo?" - com gotas de suor aljofrando-me a testa e o rosto enrubescido de vergonha, mas com o ego nas alturas, respondi que sim. Naquele instante parece que eu recebia o passaporte para um mundo novo, quantos "bumbuns" eu vi na minha vida a partir daquele dia! Ai que delícia! Tive problemas no caminho, mas valeu a pena.

Depois da Droga Palma trabalhei na Drogaria Jandira que ficava na esquina da rua Maracatins com Jandira no bairro de Moema (hoje não existe mais) e também na farmácia do Hospital Nossa Senhora de Lourdes, que existe até hoje no Jabaquara. Assim, encerrei minha carreira na área farmaceutica com quinze anos e meio de idade. A humanidade agradeceu!

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