terça-feira, 27 de janeiro de 2015

O garoto da farmácia.


Depois de ter fugido de casa e saber que seria jubilado na escola estadual (julgava que ser jubilado era um mérito depois descobri que significava a perda de direito à nova matrícula por ter sido reprovado dois anos consecutivos), meus pais não tiveram outra alternativa senão matricular-me em uma escola particular para que eu pudesse dar continuidade aos estudos. Fui estudar no Colégio e Escola Normal Prof. Luiz Pardini. A escola tinha como lema: "Pelo civismo e cultura do Brasil" e seguia normas de ordem religiosa e militar (perfeita para garotos como eu).

No dia da matrícula meu pai entregou minha ficha completa ao professor Pardini, deste dia em diante, até o último dia que frequentei esta escola ele não saiu do meu pé (foram 6 anos). Um dia escreverei um capítulo sobre minha trajetória lá.

Em 1967 eu estava na 2ª série do ginásio. A súcia da vizinhança dizia que a escola era do tipo “PPP”, ou seja, papai pagou passou, mas não era bem assim, o regime era duro, sofri um bocado, todo o corpo docente da escola conhecia o meu passado e não davam mole. Sendo a escola particular devido a uma situação criada por mim, meu pai decidiu que eu tinha que colaborar financeiramente com o custo mensal, mas não com recursos oriundos de minha atividade no empório da família, mas sim, alhures, buscar uma fonte de renda. Desta forma, através do meu pai fui empregado na Farmácia Droga Palma (na antiga Av. Cupecê) como balconista.

Eu no balcão da farmácia
Estudava na escola das 7:00 às 12:00hs e trabalhava na farmácia das 14:00 às 22:00hs, não era fácil conjuminar as duas coisas, principalmente porque a escola exigia muita atividade extra na parte da tarde do dia. A farmácia, semana sim e semana não, trabalhava no regime de plantão nos finais de semana, significando que eu trabalhava também aos sábados e nos domingos o dia todo até as 22:00hs.

Apesar de principiante eu tinha várias atividades no meu trabalho, varria o chão duas vezes por dia, passava o espanador nas vitrines para retirar o pó, lavava as seringas após uso e colocava-as de volta no esterilizador (ainda não existiam seringas descartáveis), embrulhava antecipadamente os pacotes de "Modess da J&J", preparava fórmulas como a do "elixir paregórico" indicado para cólicas intestinais, o "relâmpago" indicado para dor de dente, álcool canforado, envelopava doses de salamargo, etc., e claro, atendia no balcão, e esta era a atividade que eu mais gostava, apesar de ficar um pouco constrangido com a venda de alguns produtos como por exemplo: camisinhas (preservativos), Modess, cinta pra Modess, supositórios, óvulos vaginais, etc. Me sentia mais à vontade no setor de cosméticos e perfumaria.

As meninas do bairro frequentavam o setor de cosméticos para a compra de esmaltes e pó compacto, era uma delícia atende-las, ficavam com aquele mostruário de unhas postiças vários minutos até decidirem se iriam comprar um esmalte cintilante ou cremoso, Colorama ou Paramount, a cor levava mais uns dez minutos pra ser decidida. Enquanto os farmacêuticos atendiam dez clientes para a venda de medicamentos eu atendia uma no setor de perfumaria, era uma venda bem orientada, dava minhas sugestões, perguntava onde as meninas moravam, estudavam, se iam a algum "bailinho" no próximo final de semana, etc. Muitos dos meus relacionamentos com paqueras começaram ali, inclusive o com minha esposa. (Quando comecei a namorar minha esposa eu não trabalhava mais na drogaria, mas tudo começou lá. Próximo à drogaria existiam dois pontos de ônibus, um em cada sentido, o para centro ficava do outro lado da rua, bem em frente, o do sentido bairro a uns cinquenta metros. Quando ela retornava do trabalho eu me preparava (sabia a hora e também conhecia o ônibus que ela vinha) ela passava em frente a farmácia e todo dia seu olhar buscava por mim e assim que achava dava um sorriso acanhado, passava rápido, então quando eu não estava ocupado, eu corria até a porta para vê-la virar a esquina e dar um tchauzinho com as mãos para mim). Por muito tempo as coisas não passaram disto, isto é, olhares e tchauzinhos.

Camisa psicodélica
da época
As paqueras aumentaram nesta época, então precisava cuidar da aparência, meu sonho era ter uma calça "Lee" importada (considerado contrabando na ocasião), daquelas que a gente tinha que raspar um tijolo nas pernas da calça para ela ficar desbotada e demorava seis meses para sair a goma toda, mas a grana só dava pra comprar a rancheira "Far-West" da Alpargatas, quem tinha uma "Lee" estava com tudo, demorou muito tempo até eu ter a primeira, mas para comprar uma camisa psicodélica e a botinha “Quirinale” de saldo quadrado carrapeta a gente dava um jeito. Apesar de trabalhar com um avental branco por cima da roupa a vaidade falava mais alto.

Com o tempo fui aprendendo a decifrar (ler) as receitas médicas, uma das receitas de fácil leitura era a do Dr. Francisco (aquele médico que me clinicou quando a taturana passeou pela minha orelha, o mesmo do feijão no ouvido – ver: Infância Maravilhosa - A rua de casa I) sua letra parecia de professora, mas também era o único, o resto tinha uma letra sofrível, o que facilitiva o entendimento era o nosso conhecimento do nome dos medicamentos. Sabia a localização de todos os medicamentos que existiam na farmácia e de vez em quando eu era questionado/sabatinado pelo farmacêutico/proprietário (Sr. Cláudio) sobre o local e para que era indicado cada um deles.

Um dia o Sr. Cláudio foi tomar café na padaria e o outro farmacêutico estava ocupado na sala de injeções e entrou um sujeito bem vestido, todo engomado, e logo atrás dele um senhor já de bastante idade, não estavam juntos, então o cidadão falou: "eu quero uma lata de vaselina" - imediatamente fui até a uma gaveta e peguei uma latinha daquelas que parecem alumínio, das mais barata e entreguei para o cidadão. Ele abriu a lata passou o dedo de leve de disse: "isso aqui não tem viscosidade nenhuma garoto, você não tem uma melhor?" - fechei a lata voltei à gaveta de peguei uma da marca Sidepal, entreguei pra ele que por sua vez repetiu o gesto e o velhinho só observando o que estava acontecendo e esperando para ser atendido, então o cidadão disse: "essa tem viscosidade boa mas não tem cheiro, você não tem uma perfumada?" - fechei novamente a lata e voltei à gaveta e peguei a mais cara e cheirosa que existia, ela era de qualidade superior à das melhores brilhantinas, entreguei pra ele já com a tampa aberta, passou o dedo, cheirou e disse: vou levar esta!" - pagou e saiu. Então o velhinho que observou tudo disse: "que sujeito chato heim!?" Eu disse: "chato nada, o homem é fino, ele hoje deve sair com um baita dum mulherão e por isso toda esta exigência. - "que nada" disse o velhinho "ele pra mim vai é queimar o "rogostóf", ah! com certeza que vai. Preste atenção meu filho, ninguém tem tanto cuidado com fiofó dos outros dessa forma!". A conversa acabou aqui, comprou o que tinha que comprar e foi embora.

Eu tinha uma vontade imensa de aprender a aplicar injeções. Recebi ensinamento teórico para aplicações intramusculares (braço e glúteo) e endovenoso, nada de prática por muito tempo. Um dia um dos farmacêuticos deu-me esta oportunidade. Entrou na farmácia uma senhora forte que pretendia tomar um antigripal injetável intramuscular, não deu outra. O braço da mulher era do tamanho da minha coxa, nada podia dar errado ali, então apliquei a mistura de Eucaliptol associado com vitamina C, segui as instruções à risca. Deu tudo certo. Fui até elogiado pela cliente que disse: "não senti absolutamente nada, você aplica injeções há muito tempo?" - com gotas de suor aljofrando-me a testa e o rosto enrubescido de vergonha, mas com o ego nas alturas, respondi que sim. Naquele instante parece que eu recebia o passaporte para um mundo novo, quantos "bumbuns" eu vi na minha vida a partir daquele dia! Ai que delícia! Tive problemas no caminho, mas valeu a pena.

Depois da Droga Palma trabalhei na Drogaria Jandira que ficava na esquina da rua Maracatins com Jandira no bairro de Moema (hoje não existe mais) e também na farmácia do Hospital Nossa Senhora de Lourdes, que existe até hoje no Jabaquara. Assim, encerrei minha carreira na área farmaceutica com quinze anos e meio de idade. A humanidade agradeceu!

domingo, 18 de janeiro de 2015

...encha o caco. "We deliver".

"O Estadão de terça-feira nos informa que já existe em Fortaleza um serviço especial de entrega de bêbados a domicílio. Os cadastrados – que já somam 310 paus-d’agua – ganham o direito a um anjo da guarda que os acompanha incontinenti até a última gota de seu porre, levando o biriteiro para sua (dele) casa. Assim, como se vê, trata-se de uma empresa de utilidade pública. O bebum vai “matar o bicho” e não precisa se preocupar com o caminho da roça. Jamais sairá de braços dados com dois soldados. Inezita Barroso já chamava por tal proteção quando imortalizou seu maior sucesso. A capital cearense fez escola e tem tudo para ser imitada por outras regiões do Brasil. Aqui mesmo em São Paulo, existem milhares de pé-de-cana desamparados que poderiam fazer a fortuna de algum empresário de visão que começasse sua “transportadora”. Ofereço até um slogam para o novo negócio: “Encha o caco. We deliver”. Com um toque de sofisticação, com uma frase em inglês.
Sei de casos que dão pena, quando olhados pela ótica de quem não “tomou todas” e saiu pelo mundo. Lembro-me de um cara que era caçado pela mãe em todos os botecos de Santana. A velha, uma portuguesa de maus bofes e longos bigodes, surgia no covil dos pinguços e, empunhando tamancos de madeira distribuía bordoadas no pobre manguaceiro, Sobrava também para aqueles que estavam ao redor. O cara era levado pelas orelhas de volta ao lar materno, mesmo tendo mais de 50 anos.

Meu tio Gibão, por não estar devidamente acompanhado depois de uma carraspana, se viu obrigado a andar de gatinhas, procurando a dentadura que foi projetada de sua boca até o jardim do prédio onde morava. A “cremalheira” foi encontrada – sorrindo – pelo jardineiro quando aguava as flores, dois dias depois do incidente. Caso tivesse um anjo protetor, tio Gibão não ficaria sem o “mastigo”.
Cláucio Romel Lopes e Crisanto Barros, os pais dessa “idéia mãe”, dizem que catalogam os bêbados de sua proteção em categorias diferentes: alegre, chato, romântico, agitado ou “bonequeiro” – do tipo que arruma confusão. Cada qual merece atenção diferenciada e paga por isso. Fico imaginando o que deve ser cuidar de um “bonequeiro”. Conheço muito o tipo: depois de tomar umas e outras vai logo “armando um barraco” e sentando a mão ou a orelha nos outros. Quando sentam a orelha não é problema: dar com essa parte da anatomia nos outros costuma causar mais prejuízo para o agressor. Também deve ser duro suportar o “alegre”. Pensem: o pau-d’agua vai tomando todas e ficando entusiasmado, cisma que seu protetor tem de se juntar à esbórnia, insiste em pagar uns tragos e acaba por embebedar quem deveria ficar sóbrio. Saem os dois cantando alto pelas ruas e vão dormir em local pouco apropriado. Haja fígado!
De minha parte, mesmo elogiando a iniciativa, prefiro o tradicional sistema: “a volta do bebum solitário”. Não estou nem um pouco inclinado a encher a cara tendo uma sombra abstêmia pronta para me levar para a cama. No entanto, se o serviço oferecer também um departamento de “desculpas eficientes para esposas iradas”, vou logo me filiando. Minha mulher – aquela santa que mora lá em casa – já conhece todas as possíveis argumentações explicativas para o estado etílico de uma pessoa. Sonho com o dia em que, ao chegar “cercando frango” em meu lar, a santa diria: “O seu amigo passou por aqui e explicou o porquê de sua bebedeira. Pode ir para a cama que, ao acordar, o Sonrisal estará esperando por você, querido”. Enquanto isso não acontece, acho bom manter-me abstêmio.”
 
Osmar Freitas Jr. – Dez/1990

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

... chá em Zurique, antes do pôr-do-sol.

Estamos todos inclinados para o lado direito, alto, muito alto, além de todas as montanhas, destas montanhas da Suíça, que sobrevoamos. Todos procuramos ver o espetáculo aos nossos pés, e todos estamos transidos, mudos, arrebatados. Se respirarmos mais forte, pode ser que desequilibremos esta poderosa tensão unânime que, mais do que a máquina, parece estar sendo o que assim nos sustenta nos ares.

Na verdade, não temos noção nenhuma do movimento. Estamos suspensos e parados, acima destas imensas pedras, que formam um anfiteatro despedaçado, um teatro ciclópico transitado por nuvens que resvalam pela cena e desaparecem nos bastidores, numa representação interminável, para um tempo sem espectadores.

E começa a declinar o dia de modo que o sol penetra por entre esses imensos blocos, que ficam roxos, vermelhos, amarelos, e projetam ainda sombras, uns contra os outros, e mostram suas finas arestas límpidas, inexoráveis. E de repente nos ocorre que, se o vento passa por aí, deve ser em brados violentos, como na música de Wagner.

Por mais que esteja repleto o avião, por mais que todos os passageiros se aproximem, procurando em cada janela o ponto de observação mais favorável, todos estamos imensamente solitários – desligados uns dos outros, deligados dos nossos parentes e amigos – lá muito longe, onde ficaram, sem saberem, neste momento, por onde vamos – desligados de nós mesmos, daquilo que consta mesquinhamente de nossos passaportes. Somos o que somos – sem profissão, idade, nome, corpo -, o que sobra de todos esses pormenores, o que viaja sob todas essas limitações, o que por acaso se realiza, fora de tais formalidades: o que, porventura, resistirá quando encerrarmos nossas atribuições no mundo humano. Somos o nosso silêncio interior, o nosso silêncio sempre enriquecido, e tão cheio de claridade secreta. Somos a nossa grandiosa solidão, aquela em que reconhecemos desde a infância, o espelho de nossa permanência, a constante vigilância de nossa vida.

E estamos todos inclinados e transidos. E vemos lá embaixo a Terra, nossa morada. E pode ser que não sejamos só da Terra...

E vemos, longe, um horizonte de neve – com as nuvens que giram, que representam, umas tão fluidas, outras tão obesas – que representam neste palco de cores vibrantes o drama natural da preparação do inverno.

Todo esse tempo – e quanto tempo ficamos assim, aparentemente imóveis, nesta contemplação? – parecemos as únicas criaturas humanas existindo nesse profundo, imenso deserto de pedras tumultuosas. Mas sabemos que, desde o princípio das eras, outros passaram por ali e sentiram o mesmo espanto e a mesma emoção que estamos sentindo. O espanto e a emoção de estarem vivos, de terem olhos, e verem, e quererem saber, e não compreenderem, e estarem, ao mesmo tempo, sem nenhuma esperança, e confiantes na sua ininteligível eternidade.

Depois, o chão volta a ser uma tapeçaria quadriculada – todos os tons de verde e pardo e ruivo – e o chão passa, daquela forma épica, a uma doçura romântica e arcádica, e percebemos que baixamos, que vamos pousar, como num jardim, e que tomaremos chá em Zurique, antes do pôr-do-sol.

 
 Cecília Meireles (Set/52)

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

O poeta no bar...


“Conversa que ouvi num bar, em horas crepusculares, de um poeta com três ou quatro aperitivos no bucho com um amigo, pelo visto, não menos provido de combustível. Dizia o poeta:
- Pois é como eu te digo, caboclo, chegou a hora da onça beber água, ou seja, o instante mágico do êxtase poético. Pede mais gelo. E vê se me arranjas um para-brisa de silêncio, para proteger dos tumultos do dia esta ilha de sonho. A vida parou.
- Deixa disso, velhinho.
- Quero beber solidão.
- Não mistura. Bebe outro uísque.
-  Quero beber solidão, bruto ignaro, que estou sentindo o poema percorrer meu corpo, com seus pés sutis.
- É. Já reparei que neste bar tem pulga. Vou falar com o Ronoel.


- É o poema, cretino. Para seu governo, acho-me em transe poético. Não tem pulga nenhuma, estou suando lirismo e sempre que chego a este ponto sinto cócegas versejadoras insinuando-se pelo meu ser, entre a camisa e a pele. Acho que isto se chamava antigamente inspiração. No meu caso é transpiração.
- “Ok” meu chapa.
- O fato é que esse crepúsculo me deixa nervoso e comovido. E eu perambulo, sonâmbulo, pelas margens do silêncio do lago do devaneio. Paisagens de beira-sonho...
- Está legal pra burro!
- Anoiteço com meiguice. A estrela que fica além, além da Serra da Estrela, conduz meus passos incertos, pisando a esmo, assim mesmo, os estilhaços do dia. Beijei a boca da noite.
- Se tua mulher sabe disso!...
- Que sabe a mulher do homem – e o homem que sabe dela? Dá me tua mão suavíssima, oh! doce amiga, imaculada e bela!
- Sai pra lá!... Que conversa é essa? Está me estranhando?
-Não é você, cavalgadura! Falo da noite.
- Ahn! Bom! Então, antes que eu me esqueça: vamos pro penúltimo?
- Os penúltimos serão os primeiros; e muitos serão os chamados, porém, poucos os escolhidos.
-  Esta eu matei. Você está falando da instalação de telefones. É ou não é?
Chegou uma pessoa conhecida e pôs-se a conversar comigo; não pude, assim, ouvir o resto da conversa do poeta que queria beber solidão, mas, enquanto a solidão não vinha, ia mesmo bebendo uísque.”
 

Luís Martins (Dez/61)

sábado, 3 de janeiro de 2015

...mudanças...

Drible velhos hábitos!
Arrisque novos vôos!
"Nenhuma queima de fogos promete um futuro iluminado. Nenhum ponteiro marcando meia-noite transforma quereres em realidade. Nenhum ano novo garante uma vida nova.
Se seu coração deseja mudança é preciso trocar mais do que o calendário...é preciso abandonar medos e encarar desafios. Driblar velhos hábitos e arriscar novos vôos. Deixar de esperar que os próximos meses surpreendam a si mesmos.
Acreditar é seguir! Tentar, ousar!
Se o seu coração deseja um novo tempo, agora é a hora de fazer acontecer!"
 
Autor desconhecido.

Entre dois amores, melhor ficar o dito pelo não dito


"Era uma voz angustiada que o chamava lá embaixo na rua, tirando-o do sono. Acendeu a luz, olhou o relógio: uma hora da madrugada.
- Você está sentindo alguma coisa? – a mulher voltou-se na cama, estremunhada.
- Estão me chamando lá na rua. Acho que é o Gil. – Foi até a janela. Era o Gil, acenando-lhe freneticamente da calçada.
- Joga a chave!
Jogou a chave dentro de um maço de cigarros vazio. Depois vestiu o roupão e foi esperar na sala.
Em pouco o Gil irrompia apartamento adentro, esbaforido:
- Entrei numa fria do diabo. Pelo amor de Deus, me ajuda a sair dessa.
- Matou alguém? – disse o advogado, já alerta par as atenuantes. Só que não militava no crime, apenas no cível.
- Estou perdido – gemeu o Gil, sem ouvir – Me arranja pelo menos um troço para beber. Aceitou um conhaque. – E contou então a sua história. A mulher tinha ido fazer uma estação de águas em Poços de Caldas e levara as crianças. Aproveitou a folga para dar uma bordejada por aí, repassar um velho caso… Pois, naquela noite vinha muito fagueiro em companhia do velho caso quando o carro, também velho, ao entrar na praia de Botafogo, derrapou e bateu de cheio noutro carro. Gritos, confusão, desespero:
- Minha amiga não teve nada, só o susto. Meti a desgraçada num táxi para que ela se mandasse dali, fosse para o diabo. Eu também não tive nada, a não ser uma pancada no joelho, que posso contar ter sido no futebol de praia. Mas o outro carro! Ficou lá arrebentado. A impressão que tenho é que quem estava lá dentro vai ter de ser enterrado com carro e tudo. Como cheguei até aqui, só Deus sabe.
- Calma que tudo se arranja. Você não devia ter fugido, mas agora não interessa. O jeito é a gente ir até lá para ver o que houve.
Avisou a mulher, enquanto se vestia.
- O Gil se meteu numa fria. Sofreu um acidente.
“Isso tudo foi combinado” – pensava a mulher: – “esses dois vão pra farra”.
 No local do desastre deram com os dois carros meio destroçados, em meio a pequeno grupo de curiosos. Nenhum ferido, nenhum cadáver pudera observar à distância. A menos que já tivessem sido removidos.
- Conheço o comissário deste distrito. Vamos lá para ajeitar as coisas. Na delegacia os dois passaram por um senhor agitado, enraivecido, andando de um lado para o outro. O comissário informou-lhes que tomara conhecimento do desastre. E olhava para o Gil, penalizado.
- Então foi o senhor, é? Esse homem que vocês viram aí fora é o dono do outro carro. Está uma fera. O carro dele virou farinha. E o pior é que ele é coronel, parece. Daí pra cima. Disse que não sai daqui enquanto não resolver o caso. Como não houve vítimas…
- Não houve vítimas! – os dois respiraram, aliviados, embora pairasse no ar, ameaçadora, a patente militar mencionada. Antes que perguntassem o que estava pretendendo o coronel, este irrompeu na sala:
- Como é, comissário? O senhor não vai fazer nada? Não vai tomar nenhuma providência? Quem é esse homem? O carro é dele?
- O carro é aqui do meu amigo – interveio o advogado, conciliador. – Sou advogado dele. O senhor tenha calma, coronel, não precisa se exaltar, que tudo se arranja. Graças a Deus só houve danos materiais.
- Danos materiais? – e o coronel arregalava os olhos, fora de si, muito além da compreensão.
- Tenha calma, coronel. Com calma tudo se resolve. Talvez a gente possa chegar a um acordo.
- Acordo?… – balbuciou o coronel, tão transtornado que o outro, precavido, deu um pulo para trás. –  O senhor falou em acordo?
E respirou fundo, erguendo os braços dramaticamente:
- Acordo! Meu Deus, há duas horas estou esperando ouvir esta palavra bendita! Tomou o advogado pelo braço com a maior familiaridade e o levou a um canto, para lhe explicar a situação. Servia numa unidade em São Paulo. Tivera de vir ao Rio a serviço, apenas por um dia, e fizera crer à mulher que viera de ônibus – ele tinha horror de avião, assim ficaria tranqüila.
- E vim de carro, porque resolvi trazer uma velha amiga… O senhor compreende, não? Felizmente ela não sofreu nada. Ninguém sofreu nada, e não se sabe de quem foi a culpa, de modo que um acordo… Se por acaso minha mulher… Meu Deus, o senhor não conhece minha mulher. Faço qualquer acordo! Qualquer acordo! Como no verso de Bandeira, só falta o coronel apoplético, sair gritando: “Je vois des anges! Je vois des anges!” – O advogado lhe disse mais uma vez que não precisava se exaltar, estava tudo resolvido.
- O acordo está feito. Uma mão lava a outra.
O coronel deixou escapar sua satisfação num sorriso:
- Isso mesmo.
- Fica o dito pelo não dito – insistiu o outro.
- O dito pelo não dito. Dito e feito! Ou, melhor dizendo – e o coronel piscou um olho, – elas por elas."
 
 Fernado Sabino

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Borboletas



"...o meu raio de sol, o primeiro, depois de tantos dias, envolveu a cerca toda num grande amplexo, como que a matar a saudade. Transformou em diamantes e pérolas todas as gotas de água debruçadas à beira das folhas...e enquanto eu olhava, deslumbrado, a demonstração de magia, elas surgiram.
Não sei como, não sei donde: mas, de repente ali estavam. As borboletas. Dir-se-ia que haviam sido criadas pelo sol. Não eram muito grandes, tamanho médio. Todas iguais. Amarelas, de um amarelo claro e vivo, a destacar-se como um grito de alegria sobre o verde lavado da folhagem. Surgiam em bando numeroso, não sei quantas, como um corpo de baile, em piruetas. E em torno dos cachos cor-de-rosa iniciaram o bailado. Subiam, desciam, avançavam, recuavam, cruzavam-se, pousavam um momento para logo alçar-se de novo em voo ondulante, traçando no ar os arabescos complexo de uma coreografia delirante cujas curvas meus olhos hipnotizados não conseguiam acompanhar. Era uma explosão pirotécnica de alegria, em voltejos e rodopios, a celebrar a glória do sol.
O sol demorou-se pouco. Distribuiu carícias e sorrisos e, satisfeito ao ver que tudo estava em ordem neste pedacinho do seu mundo, recolheu-se de novo atrás da cortina para envolver-se no cobertor das nuvens.
O céu fechou-se mais uma vez. A capa cinzenta tornou a se unir, recobertos os rasgões e esgarçados. Não mais se adivinhou o forro azul. E a chuva voltou a cair, mansinha e persistente, prometendo enfiar pelo resto do dia e pela noite adentro.
E as borboletas? As borboletas desapareceram. De repente, como haviam surgido, sem deixar vestígios. Sumiram. Não sei como nem sei para onde. Possivelmente estarão por aí, escondidas no meio da folhagem, esperando que apareça, por poucos momentos que seja, outro raio de sol dentro do qual possam bailar. Esperam serenas porque sabem que outros raios de sol hão de vir. E saboreiam em silêncio a alegria que tiveram..."



(trecho de "Borboletas", de Vivaldo Coaracy)