terça-feira, 13 de janeiro de 2015

O poeta no bar...


“Conversa que ouvi num bar, em horas crepusculares, de um poeta com três ou quatro aperitivos no bucho com um amigo, pelo visto, não menos provido de combustível. Dizia o poeta:
- Pois é como eu te digo, caboclo, chegou a hora da onça beber água, ou seja, o instante mágico do êxtase poético. Pede mais gelo. E vê se me arranjas um para-brisa de silêncio, para proteger dos tumultos do dia esta ilha de sonho. A vida parou.
- Deixa disso, velhinho.
- Quero beber solidão.
- Não mistura. Bebe outro uísque.
-  Quero beber solidão, bruto ignaro, que estou sentindo o poema percorrer meu corpo, com seus pés sutis.
- É. Já reparei que neste bar tem pulga. Vou falar com o Ronoel.


- É o poema, cretino. Para seu governo, acho-me em transe poético. Não tem pulga nenhuma, estou suando lirismo e sempre que chego a este ponto sinto cócegas versejadoras insinuando-se pelo meu ser, entre a camisa e a pele. Acho que isto se chamava antigamente inspiração. No meu caso é transpiração.
- “Ok” meu chapa.
- O fato é que esse crepúsculo me deixa nervoso e comovido. E eu perambulo, sonâmbulo, pelas margens do silêncio do lago do devaneio. Paisagens de beira-sonho...
- Está legal pra burro!
- Anoiteço com meiguice. A estrela que fica além, além da Serra da Estrela, conduz meus passos incertos, pisando a esmo, assim mesmo, os estilhaços do dia. Beijei a boca da noite.
- Se tua mulher sabe disso!...
- Que sabe a mulher do homem – e o homem que sabe dela? Dá me tua mão suavíssima, oh! doce amiga, imaculada e bela!
- Sai pra lá!... Que conversa é essa? Está me estranhando?
-Não é você, cavalgadura! Falo da noite.
- Ahn! Bom! Então, antes que eu me esqueça: vamos pro penúltimo?
- Os penúltimos serão os primeiros; e muitos serão os chamados, porém, poucos os escolhidos.
-  Esta eu matei. Você está falando da instalação de telefones. É ou não é?
Chegou uma pessoa conhecida e pôs-se a conversar comigo; não pude, assim, ouvir o resto da conversa do poeta que queria beber solidão, mas, enquanto a solidão não vinha, ia mesmo bebendo uísque.”
 

Luís Martins (Dez/61)

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