quinta-feira, 28 de agosto de 2014

O garoto que fugiu de casa aos 12 anos de idade - Parte V

continuação...

...sem interesse algum, com os pensamentos voltados para o que poderia estar "rolando" fora da escola, assisti às aulas do primeiro bimestre. Uma vez ou outra "enforquei" algumas aulas nesse período, principalmente as de Português, não gostava do professor cujo nome era Lelis. Ele tinha um rosto bochechudo que parecia a daqueles moleques que chuparam chupeta e mamadeira até os dez anos de idade (lembram daquele bicão de borracha vermelho?), o apelido dele entre nós era "fuinha".
bicão de mamadeira
Em um dos dias que cabulei a aula dele, resolvi também dar folga para o resto da classe (era a terceira aula, isto é, a primeira depois do recreio). Saí da escola e como de costume fui direto para a quitanda, alí era o "point". Encontrei minha turminha lá e, conversa vai conversa vem, percebi que tinha uns ovos de galinha separados num canto do balcão, eles não estavam na prateleira no local habitual, então, curioso como sempre, perguntei para o filho do dono (outro moleque da mesma idade) o por que daquilo e ele disse-me  que eram ovos chocos, que estavam estragados, podres e que seriam jogados fora, não perto dalí, pois se quebrassem ninguém iria agüentar o cheiro nas imediações. Adivinhem? Questionei se poderia me dar uns 3, disse que sim, então coloquei os três em um saco de papel amarelo (não existia saquinho plástico naquela época). Voltei para escola e, com cuidado para não ser visto, através de um vidro quebrado de uma das janelas, do lado externo, agachado, arremessei um de cada vez em três pontos diferentes da sala de aula e perna pra quem tem. Correria e gritaria geral. Eu soube posteriormente que os alunos evacuaram a sala em dois minutos sem saberem o que de fato, além do mau cheiro indescritível, tinha acontecido. Levaram dois dias para o cheiro sair totalmente. Pena não ter acertado a cabeça do "fuinha". Ainda estão procurando por quem fez aquilo. O caso sem solução, ficou marcado nos anais da escola. Será que vou pro céu?

Na contra mão do que tinha sido planejado no final do ano anterior, as notas do primeiro bimestre foram absurdamente péssimas. Mas ainda eu tinha a expectativa de que poderia ser melhorado no segundo. Ledo engano meu.

No segundo bimestre, a cada dia que passava, sentia que a escola estava apenas servindo de pretexto para as minhas excitantes aventuras de moleque. Começaram então surgir as primeiras paqueras na escola, o coração andava "xonado", aí as coisas desandaram de vez.
Eram namoricos que duravam pouco tempo, no máximo seis ou oito semanas, desta forma, a Kimiko (que parecia uma boneca de louça), a Keiko (apesar do personagem no cinema ter sido criado muito tempo depois, ela já era sem dúvida um "Rambo" de saia,...a japonezinha me deu muito trabalho!), a Regina (que me trocou por um garoto que trabalhava em uma relojoaria), a Janete (que tinha o beiço caído, parecia fumante de cachimbo), e outras, cujo nome não lembro mas tenho recordações, fizeram com que eu despendesse muito tempo com bilhetinhos e encontros escondidos em vez de me dedicar aos estudos. Enforcava-mos aulas juntos e saíamos a passear de mãos dadas pelas ruas nas redondezas da escola. Que romântico, não era lindo!!!? Um dia, tinha combinado de sair com uma delas, livrei-me do material escolar (a quitanda, como sempre, era o fiel depositário) e a caminho do encontro, em uma rua tranqüila, avistei no jardim de uma casa que possuia um muro de tijolo na parte baixa e gradeado na parte de cima, uma linda rosa amarela, da qual resolvi apossar-me para que romanticamente pudesse oferecer à incauta.
Assim que, do lado de fora da casa, me apoiei no muro e enfiei o braço através da grade para colhê-la senti minha bunda ser abocanhada pela boca de um cachorro, que além de cravar os seus dentes, chacoalhou, puxou e rasgou minha calça. Dancei. Doeu durante uns cinco dias. Acabei perdendo a namorada (não por isso). Dias depois passei no mesmo local e nem a rosa nem tão pouco o cachorro estavam mais lá.

O tempo passava e nada de estudos, meus pais não sabiam que a minha situação estava preta. Quando perguntado sobre como as coisas estavam indo na escola eu sempre dizia que tudo estava bem e sempre arrumava uma desculpa para não apresentar a caderneta escolar. Dizem que "pior que está não fica", ficou sim. No segundo e terceiro bimestre mais vadiei do que freqüentei as aulas. Desnecessário dizer que as notas ficaram abaixo do esperado, uma vergonha. "Que merda hein "Clovinho"? Tarde demais. Reprovação a vista. Seria jubilado na escola, iria dar continuidade nos estudos aonde? Desta vez não haveria perdão em casa, eu não sabia o que poderia acontecer comigo. O que fazer agora? O medo de apanhar do meu pai era maior que qualquer coisa no mundo. Achava que ia morrer. (Podem dizer que eu tinha medo mas não tinha vergonha!)

Na minha cabeça só existia uma saída. Estávamos no mês de Outubro, precisava agir o mais rápido possível.

Poucos dias depois de confirmado que de fato a vaca tinha ido pro brejo, numa tarde ensolarada e preguiçosa,  sentado na beira da lagoa do "seu João", que merece uns capítulos à parte, fumando um cigarrinho da marca Continental, curto e sem filtro (era o que tinha para o momento e ainda tinha que deixar a bituca para pelo menos mais dois moleques fumarem também, não sobrava nada! De vez em quando a gente usava dois pedaços de pauzinhos para segurar o cigarro, evitando queimaduras nos dedos e lábios), entre uma tragada e outra, filosofando e jogando conversa fora, falei sobre minha situação e receios com dois amigos do "peito" (vejam bem, amigos do peito e não de troca-troca) de nomes Mário e Anderson e, ambos comentaram que por razões diferentes da minha eles também estavam enfrentando problemas em casa com os pais. Apesar que, na minha opinião, os problemas deles não eram tão graves assim quanto aos meus, ouvir isto deles me deu uma sensação de alívio, senti uma cumplicidade estabelecida naquele momento, não era só eu que estava "fu...", poderiam ser meus aliados, podia então contar com eles para por meu plano nada complexo em andamento. Então, tinha que aproveitar aquele momento de fragilidade deles e, sem remorsos, resoluto, aguerrido, com ar de um grande estrategista, olhando seriamente (acreditem ou não) para ambos, perguntei:
 
- ceis topam fugir de casa?

 continua na próxima semana...

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Década de 70 - Teorema da Situação Economica

Um ministro, em um jantar oferecido por empresários, em sua homenagem, fez, por escrito, o seguinte discurso numérico no quadro-negro (naquela época o quadro era negro):


As Interpretações
 
Entre os presentes, todas as explicações divergiam, não levando a conclusão alguma, fato que denunciou mais uma vez a já indiscutivel genialidade do ministro. Porém, ao final do jantar, depois que boa parte dos homenageantes tinham ido embora, o faxineiro, antes de passar o pano no quadro-negro, ficou parado, estarrecido, diante da composição doutoral e logogrífica. Procurando entender os cabalísticos hieróglifos, balbuciou a seguinte análise, considerada a melhor interpretação pelos empresários que permaneciam no local esvaziando as última garrafas:
 
"Se os zero vírgula dois por cento dos capitalistas (c) do país continuarem a pagar salários (s) iguais ao ano anterior (aa) e aumentarem os preços (p) dos seus produtos a duzentos e setenta por cento, terão uma vantangem (V) (ou mais valia?) que vai possibilitar um lucro (L)  multiplicado várias vezes. Assim, todo faturamento do país (TFP) será igual ao do ano anterior (aa) correspondente ao produto interno bruto (PIB), desde que o salário-mínimo seja mantido (SM). Desta forma, o governo (G) poderá aumentar os impostos (1) em duzentos e oitenta por cento, os capitalistas aumentarão (c) seus lucros (L) muitas vezes mais, e O Povo Estará Fodido (OPEF)."

Fonte:
Na República de Primeiro de Abril - Paulo Celso Rangel

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Um telefone toca num fim de tarde, começo de noite ...

" Alô?
- Pronto.
Ele: - Voz estranha... Gripada?
Ela: - Faringite.
Ele: - Deve ser o sereno. No mínimo tá saindo todas as noites pra badalar.
Ela: - E se estivesse? Algum problema?
Ele: - Não, imagina! Agora, você é uma mulher livre.
Ela: - E você? Sua voz também está diferente. Faringite?
Ele: - Constipado.
Ela: - Constipado? Você nunca usou esta palavra na vida.
Ele: - A gente aprende.
Ela: - Tá vendo? A separação serviu para alguma coisa.
Ele: - Viver sozinho é bom. A gente cresce.
Ela: - Você sempre viveu sozinho. Até quando casado só fez o que quis.
Ele: - Maldade sua, pois deixei de lado várias coisas quando a gente se casou.
Ela: - Evidente! Só faltava você continuar rebolando nas discotecas com as amigas.
Ele: - Já você não abriu mão de nada. Não deixou de ver novela, passear no shopping, comprar jóias, conversar ao telefone com as amigas durante horas.
. . . Silêncio . . .
Ela: - Comprar jóias? De onde você tirou essa idéia? A única coisa que comprei em quinze anos de casamento foi um par de brincos.
Ele: - Quinze anos? Pensei que fosse bem menos.
Ela: - A memória dos homens é um caso de polícia!
Ele: - Mas conversar com as amigas no telefone ...
Ela: - Solidão, meu caro, cansaço ... Trabalhar fora, cuidar das crianças e ainda preparar o jantar para o HERÓI que chega à noite... Convenhamos, não chega a ser uma roda-gigante de emoções ...
Ele: - Você nunca reclamou disso.
Ela: - E você me perguntou alguma vez?
Ele: - Lá vem você de novo... As poucas coisas que eu achava que estavam certas... Isso também era errado!?
Ela: - Evidente, a gente não conversava nunca ...
Ele: - Faltou diálogo, é isso? Na hora, ninguém fala nada. Aparece um impasse e as mulheres não reclamam. Depois, dizem que faltou diálogo. As mulheres são de Marte !
Ela: - E vocês são de Saturno!
. . . Silêncio . . .
Ele: - E aí, como vai a vida?
Ela: - Nunca estive tão bem. Livre para pensar, ninguém pra Me dizer o que devo fazer ...
Ele: - E isso é bom?
Ela: - Pense o que quiser, mas quinze anos de jornada são de enlouquecer qualquer uma.
Ele: - Eu nunca fui autoritário!
Ela: - Também nunca foi compreensivo!
Ele: - Jamais dei a entender que era perfeito. Tenho minhas limitações como qualquer mortal ...
Ela: - Limitado e omisso como qualquer mortal.
Ele: - Você nunca foi irônica.
Ela: - Isso a gente aprende também.
Ele: - Eu sempre te apoiei.
Ela: - Lógico. Se não me engano foi no segundo mês de casamento que você lavou a única louça da tua vida. Um apoio inestimável ... Sinceramente, eu não sei o que faria sem você? Ou você acha que fazer vinte caipirinhas numa tarde para um bando de marmanjos que assistem ao jogo da Copa do Mundo era realmente o meu grande objetivo na vida ?
Ele: - Do que você está falando?
Ela: - Ah, não lembra?
Ele: - Ana, eu detesto futebol.
Ela: - Ana!? Esqueceu meu nome também? Alexandre, você ficou louco?
Ele: - Alexandre? Meu nome é Ronaldo!
. . . Silêncio . . .
Ele: - De onde está falando?
Ela: - 2578 9922
Ele: - Não é o 2578 9222?
Ela: - Não.
Ele: - Ah, desculpe, foi engano.

Depois de um tempo ambos caem na gargalhada.

Ele: - Quer dizer que você faz uma ótima caipirinha, hein?
Ela: - Modéstia à parte... Mas não gosto, prefiro vinho tinto.
Ele: - Mesmo? Vinho é a minha bebida preferida!
Ela: - E detesta futebol?
Ele: - Deus me livre... 22 caras correndo atrás de uma bola... Acho ridículo!
Ela: - Bem, você me dá licença, mas eu vou preparar o jantar.
Ele: - Que pena... O meu já está pronto. Risoto, minha especialidade!
Ela: - Mentira! É o meu prato predileto...
Ele: - Mesmo! Bem, a porção dá pra dois, e estou abrindo um Chianti também. Você não gostaria de...
Ela: - Adoraria!

Ele dá o endereço."

Luis Fernando Veríssimo


domingo, 24 de agosto de 2014

Relembrar sempre é bom...

Soneto de Fidelidade



 

 

 

 
 

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

 
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

 
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

 

Vinícius de Moares

sábado, 23 de agosto de 2014

Humor - Ocê gósdevinho?

Degustação de vinho em Minas

- Hummm...
- Hummm...
- Eca!!!
- Eca?! Quem falou Eca?
- Fui eu, sô! O senhor num acha que esse vinho tá com um gostim estranho?
- Que é isso?! Ele lembra frutas secas adamascadas, com leve toque de trufas brancas, revelando um retrogosto persistente, mas sutil, que enevoa as papilas de lembranças tropicais atávicas...

- Putaquepariu sô! E o senhor cheirou isso tudo aí no copo ?!
- Claro! Sou um enólogo laureado. E o senhor?
- Cebesta, eu não! Sou isso não senhor !! Mas que isso aqui tá me cheirando iguarzinho à minha egüinha Gertrudes depois da chuva, lá isso tá!
- Ai, que heresia! Valei-me São Mouton Rothschild!
- O senhor me desculpe, mas eu vi o senhor sacudindo o copo e enfiando o narigão lá dentro. O senhor tá gripado, é ?
- Não, meu amigo, são técnicas internacionais de degustação entende? Caso queira, posso ser seu mestre na arte enológica. O senhor aprenderá como segurar a garrafa, sacar a rolha, escolher a taça, deitar o vinho e, então...
- E intão moiá o biscoito, né? Tô fora, seu frutinha adamascada!
- O querido não entendeu. O que eu quero é introduzi-lo no...
- Mais num vai introduzi mais é nunca! Desafasta, coisa ruim!
- Calma! O senhor precisa conhecer nosso grupo de degustação. Hoje, por exemplo, vamos apreciar uns franceses jovens...
- Hã-hã... Eu sabia que tinha francês nessa história lazarenta...
- O senhor poderia começar com um Beaujolais!
- Num beijo lê, nem beijo lá! Eu sô é home, safardana!
- Então, que tal um mais encorpado?
- Óia lá, ocê tá brincano com fogo...
- Ou, então, um suave fresco!
- Seu moço, tome tento, que a minha mão já tá coçando de vontade de meter um tapa na sua cara desavergonhada!
- Já sei: iniciemos com um brut, curto e duro. O senhor vai gostar!
- Num vô não, fio de um cão! Mas num vô, messs! Num é questão de tamanho e firmeza, não, seu fióte de brabuleta. Meu negócio é outro, qui inté rima com brabuleta...
- Então, vejamos, que tal um aveludado e escorregadio?
- E que tal a mão no pédovido, hein, seu fióte de Belzebu?
- Pra que esse nervosismo todo? Já sei, o senhor prefere um duro e macio, acertei?
- Eu é qui vô acertá um tapão nas suas venta, cão sarnento! Engulidô de rôia!
- Mole e redondo, com bouquet forte?
- Agora, ocê pulô o corguim! E é um... e é dois... e é treis! Num corre, não, fiodaputa! Vorta aqui que eu te arrebento, sua bicha fedorenta!...

Luiz Fernando Veríssimo

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Procura-se um amigo...

Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor.. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.

Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.

Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.

Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.
 

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

O garoto que fugiu de casa aos 12 anos de idade - Parte IV

...continuação
 
...naquela época, para ingressar no curso ginasial, era preciso prestar um exame admissional. Então, assim que terminei o primário freqüentei entre Janeiro e Fevereiro de 1964 um curso preparatório (reforço) para prestar o tal exame. Mais uma vez em minha vida a sala de aula foi em uma garagem, apesar que, para mim aquilo não importava, eu queria mesmo era ingressar no curso ginasial, o nome da professora era dona Generosa (pode?). Com receio de não ser aprovado no bendito exame, eu não bebia aquele refrigerante com sabor uva chamado "Grapette" devido a um comercial que existia na época que cantarolava o seguinte: " ...quem bebe Grapette repete Grapette, Grapette é gostoso de mais...", pois é, eu não queria repetir, eu queria passar no exame. Sério!
Comercial em 1.963
 
Prestei o dito cujo no Ginásio Estadual de Diadema, ueba!!! fui aprovado com as seguintes notas: Português 5, Aritmética 6 e História 8,5. De posse do certificado de aprovação fui matriculado no Ginásio Estadual de Cidade Ademar. Não preciso dizer que o bairro inteiro incrédulo ficou sabendo desta minha façanha!
Até então, somente tinha estudado em período matutino e vespertino, o horário das 17:00 às 20:00 hs foi a primeira novidade e desafio que enfrentei. Outra novidade foi saber que eu teria várias professoras e professores, um para cada matéria. Pensava eu com meus botões, não será fácil, pois um já era um "ponta pé no saco" imagine um monte deles no mesmo ano escolar. Tambem foi novidade saber que a matéria escolar denominada "Linguagem" da ai para frente seria "Português" e "Aritmética" seria "Matemática". Mas fui me adaptando ao novo sistema, em pouco tempo percebi que já estava integrado a ele.
Contava eu com 10 anos e meio no início do curso, moleque ainda, no meio de crianças com mais idade, alguns estavam cursando pela segunda vez a primeira série, a classe era mista e noventa por cento dos rostos eram novos para mim.
Ia para a escola a pé, acompanhado de uma menina mais velha que estudava na segunda série, era nossa vizinha, morava em uma rua paralela à nossa (a gente falava na rua de baixo), neste horáro, isto é, o de entrada, o dia ainda estava claro, na volta, por ser já noite, seu pai ia buscar-nos e acompanhava-me até o portão de casa, religiosamente todos os dias.
Os meses foram passando e eu ainda não tinha encarado com seriedade os estudos, vivia um mundo novo, cheio de fantasias, curiosidades, o horário noturno me fascinava, abria portas, portões, janelas, etc. para novas aventuras. Não deu outra! Pelas avaliações (notas) acumuladas no terceiro bimestre (considerando o critério de pesos, é, naquela época as notas tinham peso) ainda que eu obtivesse a nota máxima em todas as matérias no quarto bimestre o ano já estava perdido e eu também.
Antes que a bomba explodisse de vez comentei o assunto com a minha mãe logo no ínicio do quarto bimestre. Para minha sorte, ponderando a situação e ouvindo opiniões de vizinhos, do dono do empório, da benzedeira, etc. meus pais absolveram minha falta de dedicação, pois julgaram que eu tinha iniciado o curso muito precocemente. De fato, eu era muito "novinho ainda", assim, depois desse argumento milagroso, que dei todo apoio, salvei minha pele de umas boas cintadas e mais não sei o que, que poderia ter acontecido, porém, continuei freqüentando a escola até o final do ano letivo já com a recomendação e comentários de que, quem faz a primeria serie duas vezes, na segunda, tem que passar direto. O dó!
Foi aí que tudo começou. O ano já estava perdido, freqüentar as aulas para que? Ainda tinha Outubro e Novembro pela frente. Que saco! Mas, mesmo assim, conforme a determinação dos meus pais eu ia para a escola todos os dias, vejam, para a escola.
Com o perdão em casa e a minha situação definida, isto é "pau na certa no final de ano", senti-me descompromissado, minha sensação de liberdade aumentava a cada dia. As noites de Outubro eram de amenas para quentes, um convite para "cabular" aula, coisa que eu antes nunca fizera, mas tudo tem a sua primeira vez, ai que delícia! Vadiar era tudo de bom!
Carrossel Mexicano e Roda Gigante ao fundo
Diariamente, chegando à escola, como todos eu aguardava no pátio o sinal para o início da primeira aula para que me vissem por ali nas redondezas, porém, quando o sinal tocava, enquanto a maioria se dirigia para a sala de aula eu caminhava para o banheiro e de lá, cinco minutos depois, para a rua. Às vezes o portão principal encontrava-se fechado, então, eu tinha que pular o muro, que já tinha sido previamente estudado e observado, pois eu não era o único que fazia aquilo. Existiam três locais onde a fuga e o retorno  era possível sem você ser visto de ambos lados.
Uma vez fora da escola iniciava-se o processo variado de vadiagem, tínhamos três horas livres para as atividades de recreação. Às vezes neste horário eu me juntava com outros alunos da escola que estavam na mesma situação de ano perdido, em outras, com amigos da vila onde morava. Existia nas proximidades da escola uma quitanda que além da atividade principal também fazia lanches, churrasquinho no espeto, vendia bebidas alcoolicas, cigarros, fogos de artifícios, etc., éramos fregueses assíduos, bons gastadores (qualquer dia eu conto da onde vinha o dinheiro). Mais ou menos como uma troca de favores era alí que constantemente nosso material escolar ficava guardado até retornarmos da farra. Haverão de convir, que não dava para gandaiar levando livros e cadernos debaixo do braço!
As opções eram muitas, dentre elas, as que eu mais gostava não necessariamente nesta ordem eram:
- comer pizza nos reservados das padarias, para quem não sabe, antigamente as padarias possuiam um local mobiliado, geralmente nos fundos do prédios para esta finalidade, a bem da verdade, este local era usado por quem não queria ser visto;
Aeroporto de Congonhas
- freqüentar os parques de diversões que esporadicamente instalavam-se na região por um determinado período e a parte mais legal, alem claro, dos brinquedos, era quando pedíamos para oferecer uma música, através do serviço de auto-falantes, para uma garota que você admirava. Era mais ou menos assim que o locutor com aquela voz romântica e melada dizia: o garoto que está ali de blusa amarela, cabelo escovinha, com as mãos no bolso, perto do carrossel mexicano oferece a música "O Ritmo da Chuva" com o cantor Demetrius para a garota morena de cabelos compridos, saia xadrez e blusa vermelha que encontra-se próxima à roda gigante ao lado do carrinho do algodão doce e maçã do amor. E em seguida ele colocava o 78 rotações para tocar, como chiava! Enquanto isso, não saímos do lugar até que a garota nos procurasse com os olhos, uma vez no foco dela, a gente acenava um alôzinho com a mão e se fosse correspondido, meio que encabulado procurava uma aproximação ou dava uma de difícil e continuava o footing sem perder de vista a inocente pretendida;
- ir de vez em quando (claro que de ônibus) até o aeroporto de Congonhas ver as decolagens e aterrissagem dos aviões, naquela época, o que hoje é o piso superior do aeroporto era uma area descoberta e aberta para esta finalidade; etc..
Neste embalo diário, Outubro e Novembro passaram voando, prestei as provas do quarto bimestre, cujo resultado, como esperado, foi um desastre total. O ano letivo encerrou-se e vieram os meses de férias com muitas atividades de rua, a gandaia noturna ficou suspensa durante este período aguardando o inicio das aulas no ano seguinte.
Iniciaram-se as aulas, agora no horário das 20:00 às 23:00 hs. Eu, de certa forma, já era um aluno reconhecido pelos meus feitos, tanto por alunos como por professores. Adjetivaram-me de "Clovis o repetente", no início tive vergonha de ser chamado assim, o termo "repetente"  depreciava muito..., mas depois de um certo tempo eu estava cagando e andando para o assunto...
 
...continua na próxima semana.