"... na estrada para Bagdá eu e Bereniz Samir (o Homem
que Calculava) acomodados em cima do meu camelo (único que possuíamos)
caminhavamos em direção à gloriosa cidade. Bereniz era de gênio alegre e comunicativo.
Muito moço ainda – pois não completara vinte e seis anos – era dotado de
inteligência extremamente viva e notável aptidão para a ciência dos números, “raro
talento matemático”. Poucas horas havia que viajávamos sem interrupção, quando
nos ocorreu uma aventura digna de registro, na qual meu companheiro Bereniz,
com grande talento, pôs em prática suas habilidades de exímio algebrista.
Encontramos perto de um antigo caravançara (1) meio
abandonado, três homens que discutiam acaloradamente ao pé de um lote de
camelos.
Por entre pragas e impropérios gritavam possessos,
furiosos:
- Não pode ser!
- Isto é um roubo!
- Não aceito!
O inteligente Bereniz procurou informar-se do que se
tratava.
- Somos irmãos – esclareceu o mais velho – e recebemos,
como herança, esses 35 camelos. Segundo a vontande expressa de meu pai, devo
receber a metade, o meu irmão Hamed Namir uma terça parte ao Harim, o mais
moço, deve tocar a nona parte. Não sabemos, porém, como dividir dessa forma 35
camelos e a cada partilha proposta segue-se a recusa dos outros dois, pois a
metade de 35 é 17 e meio. Como fazer a partilha se a terça parte e a nona parte
de 35 também não são exatas?
- É muito simples – atalhou o Homem que Calculava. –
Encarrego-me de fazer, com justiça, essa divisão, se permitirem que eu junto
aos 35 camelos da herança este belo animal que, em boa hora, aqui nos trouxe!
Neste ponto, procurei intervir na questão:
- Não posso consentir em semelhante loucura! Como
poderíamos concluir a viagem, se ficássemos sem o camelo?
- Não te preocupes com o resultado, ó bagdali! –
replicou em voz baixa Bereniz. – Sei muito bem o que estou fazendo. Cede-me o
teu camelo e verás no fim a que conclusão chegar.
Tal foi o tom de segurança com que ele falou, que não
tive dúvida em entregar-lhe o meu belo jamal (2) que, imediatamente, foi
reunido aos 35 ali presentes, para serem repartidos pelos três herdeiros.
- Vou, meus amigos – disse ele, dirigindo-se aos três
irmãos – fazer a divisão justa e exata dos camelos que são agora, como vêem, em
numero de 36.
E, voltando-se para o mais velho dos irmãos, assim
falou:
- Deverias receber, meu amigo, a metade de 35, isto é,
17 e meio. Receberás a metade de 36 e, portanto, 18. Nada tens a reclamar, pois
é claro que saíste lucrando com esta divisão!
E, dirigindo-se ao segundo herdeiro, continuou:
- E tu, Hamed Namir, deverias receber um terço de 35,
isto é, 11 e pouco. Vais receber um terço de 36, isto é, 12. Não poderás
protestar, pois tu também saíste com visivel lucro na transação.
E disse, por fim, ao mais moço:
- E tu, jovem Harim Namir, segundo a vontade de teu
pai, deverias receber um nona parte de 35, isto é, 3 e tanto. Vais receber uma
nona parte de 36, isto é, 4. O teu lucro foi igualmente notável. Só tens a
agradecer-me pelo resultado!
E concluiu com a maior segurança e serenidade:
- Pela vantajosa divisão feita entre os irmãos Namir –
partilha em que todos três saíram lucrando – couberam 18 camelos ao primeiro,
12 ao segundo e 4 ao terceiro, o que dá um resultado (18+12+4) de 34 camelos.
Dos 36 camelos, sobram, potando, dois. Um pertence, como sabem, ao bagdali, meu
amigo e companheiro, o outro toca por
direito a mim, por ter resolvido, a contento de todos, o complicado problema da
herança.
- Sois inteligente, ó Estrangeiro! – exclamou o mais
velho dos três irmãos – Aceitamos a vossa partilha na certeza de que foi feita
com justiça e eqüidade!
E o astucioso Bereniz – o Homem que Calculava – tomou logo
posse de um dos mais belos “jamales” do grupo e disse-me, entregando-me pela
rédea o animal que me pertencia:
- Poderás agora, meu amigo, continuar a viagem no teu
camelo manso e seguro! Tenho outro, especialmente para mim!
E continuamos nossa jornada para Bagdá.
(2) Jamal –
Uma das muitas denominações que os árabes dão ao camelo.”
Malba Tahan
Nenhum comentário:
Postar um comentário