quinta-feira, 14 de agosto de 2014

O garoto que fugiu de casa aos 12 anos de idade - Parte III

...continuação
 
 ...o prédio da escola nova tinha sido inaugurado no início daquele ano, contava com 10 salas de aula, uma sala para diretoria (local que, de vez em quando, eu era convidado para, digamos assim, visitar e trocar algumas idéias com a diretora, Dona Alice), uma sala de professores, secretaria, biblioteca, uma sala para dentista, 2 pátios, cozinha, banheiros e, vocês não vão acreditar, uma área destinada à implementação de uma horta! Que posteriormente foi cultivada pelos alunos e seu produto destinado à cozinha da escola (sinais da exploração de mão de obra infantil). Todo aquele complexo assustava-me e ao mesmo tempo me dava orgulho, aquilo sim era uma escola de verdade. Assim, lá vou eu, freqüentar as aulas do terceiro ano do curso primário, mais um ano para garotear. 
Todo começo de ano letivo era um motivo de alegria para mim. Era a época que abandonava-mos os cadernos e livros velhos cheios de orelhas, rabiscados, sujos, para apossar-nos dos novos sobre o curso que iniciava. Além dos cadernos (tipo brochura para: caligrafia, desenho e linguagem) e livros o "kit" completava-se mais ou menos assim: estojo de madeira ou lata, lápis de cor, lápis comum, régua de madeira, goma arábica,  folhas avulsas de papel ao maço pautado, cartolinas, tinteiro super quink, caneta com pena, mata borrão, borracha, apontador de lápis, lancheira com compartimento para colocar a garrafa (com Q-suco, isso mesmo, aquele da jarra com sorriso) e a maleta para carregar tudo isto.
Não tenho certeza, mas acredito que a capa do meu material escolar naquele ano era amarela (para identificar, cada ano do curso primário tinha uma cor, elas eram, não necessariamente nesta seqüência: azul, vermelho, verde e amarelo). O nome da professora era Maria Aparecida Gentil, que de gentil, na minha opinião não tinha absolutamente nada, mais adiante vocês saberão porque.
As janelas da sala de aula que freqüentei davam de frente para a rua principal, o muro era baixo e aramado, o que permitia uma visão do movimento lá fora (cortinas foram colocadas no ano seguinte). A área de recreação era grande e dividida em dois ambientes, um deles era coberto. Divertimento garantido inclusive em dias de chuva!
A classe neste ano também era composta por meninos e meninas, muitos deles eram remanescentes da minha turma anterior, porém, fomos nós enturmando com os novos colegas, desta vez, as carteiras escolares eram individuais. A classe era parcialmente dividida, meninas sentavam de um lado e meninos do outro. 
O primeiro semestre foi difícil em termos de estudo, como diziam "era muito puxado" o que reduziu drasticamente minha inspiração e criatividade para "fazer arte" como costumavam dizer. As minhas notas estavam baixas, porém, ainda na média mas o sinal vermelho de alerta já tinha sido acionado pela professora e comunicado aos meus pais. Adivinhem, passei as férias do meio de ano estudando. Bem que aquela bruxa (a professora) poderia ter ficada de boca fechada.
As aulas do segundo semestre iniciaram-se e um mês e pouco depois as provas. Eu, talvez, deveria ter alertado a professora mais ou menos assim, como o "Joãozinho" uma vez fizera: "feeesssora! não é por nada não, mas meu pai disse que se eu tirar nota baixa outra vez, "alguém"  vai tomar uma surra, depois não vai dizer que eu não avisei heim!" Vai que colava...nunca se sabe!
As provas foram realizadas e chegou o dia da entrega dos boletins escolares, meu Deus!, era um vermelhão só. Já estava pensando na surra que eu ia levar em casa. Não pretendia entregar o boletim escolar naquele dia para a minha mãe, pois precisava de tempo para arrumar uma saída para evitar o castigo. De repente, num momento de relampejo, olhando para as notas no boletim que naquela época iam de zero a cem, percebi que um 40 poderia virar um 90, que um 30 poderia virar um 80 e que um 10 poderia virar um 100. Não tive dúvida, procurei por uma caneta cuja tinta parecia-se com a usada no boletim e mandei bala (1). Ficou um trabalho de artista. Minha mãe viu, não me lembro se precisa assinar, me deu parabéns e no dia seguinte eu o entreguei na escola para a professora. Tudo tranquilo? Que nada. Dois dias depois precisei levar um comunicado para meus pais para que comparecessem na escola. Minha mãe perguntou se eu sabia do que se tratava, claro que eu disse que não fazia a mínima idéia. Passei noites em claro até o fatídico dia. Pensava, o que será que deu errado? Pior que levar uma surra era ficar na expectativa de que a qualquer momento ela iria acontecer.
O dia chegou. Após a narrativa dos fatos pela professora, minha mãe ficou vermelha igual a um perú, de vergonha, e com razão, e eu ali junto delas já chorando, tudo isso acontecendo na sala dos professores, meu mundo desabou. Não preciso contar o final disso tudo. Meu pai enquanto batia (é claro que a sua intenção era me educar) dizia: – isto é para você aprender a tomar jeito moleque, é para você nunca mais fazer isso, quem é que te ensina a fazer essas coisas? É a rua que te ensina? Seu sem vergonha!
A “cinta comeu solta”. Naquela noite fui dormir com o lombo quente, mas feliz, afinal tinha pago pela minha travessura, a agonia acabara-se, nos três dias seguintes precisei tomar banho na salmoura.
Não pense vocês que eu não era consciente de tudo aquilo, era sim, chegava até, ter arrependimento, mas passava rapidinho, o amanhã, sempre seria um novo dia.
Olha eu aí!
No ínterim do terceiro e antes das provas do quarto bimestre, estudei muito, precisava reverter o quadro para ir para o quarto ano. Tudo corria bem, até o dia em que tive um arranca-rabo com una menina da minha classe, não recordo os motivos (acho que quebrei a ponta do lápis dela), só lembro que ela era uma menina sardenta, metidinha (2), incherida, uma lambisgóia. A garota desabou a chorar. Meu conceito não andava bom, a professora, a tal de Maria Aparecida Gentil, não vacilou, pregou suas unhas compridas em minha orelha conduzindo-me até a porta solicitando que eu me dirigi-se até a sala da diretora, que por sua vez, após ouvir as razões de eu estar lá, dispensou-me das atividades escolares daquele dia. Bom, chegar cedo em casa nem pensar, ia falar o que para minha mãe? Fiquei assistindo a aula até o final pelo lado de fora da classe próximo das janelas que davam para a rua principal. Esse caso, felizmente, encerrou-se ali mesmo sem maiores consequências. Ufa!
Passei de ano raspando. Fui para o quarto grau do primário! Acreditam?
O nome da professora era Hebe, pessoa muito liberal e tranqüila, era uma classe só de meninos, além das matérias curriculares, a professora falava muito sobre sexo conosco, o que era um pouco constrangedor, mas foi ali que começamos aprender alguma coisa, pois em casa nunca se tocava neste assunto.
Como este era o último ano do primário, eu precisei controlar meus instintos. A não ser um dia, por uma briga na hora da saída da aula, já na rua, com um menino cujo nome era Fábio, e que fora apartada por umas  mães que ali se achavam e foi sem maiores consequências além do meu tinteiro ter se aberto dentro da mala e manchando todo seu conteúdo e um olho roxo, o ano escolar transcorreu dentro da normalidade sem muitas alterações.
E finalmente, após quatro anos de estudos, fui considerado apto para prestar o exame admissional para ingressar no ginásio...

(1) junto com as disciplinas/notas na última linha do boletim era calculado a media aritmética (que não alterei, isto é, alterei as notas e não mudei a media, a obra não ficou assim tão perfeita, quem sabe na próxima!)
(2) metidinha naquela época era uma pessoa indesejável.
 

...continua na próxima semana.

 

 

 

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