Todo começo de ano letivo era um motivo de alegria para mim. Era a época
que abandonava-mos os cadernos e livros velhos cheios de orelhas, rabiscados,
sujos, para apossar-nos dos novos sobre o curso que iniciava. Além dos cadernos
(tipo brochura para: caligrafia, desenho e linguagem) e livros o
"kit" completava-se mais ou menos assim: estojo de madeira ou lata,
lápis de cor, lápis comum, régua de madeira, goma arábica, folhas avulsas
de papel ao maço pautado, cartolinas, tinteiro super quink, caneta com pena,
mata borrão, borracha, apontador de lápis, lancheira com compartimento para
colocar a garrafa (com Q-suco, isso mesmo, aquele da jarra com sorriso) e a
maleta para carregar tudo isto.
Não tenho certeza, mas acredito que a capa do meu material escolar
naquele ano era amarela (para identificar, cada ano do curso primário tinha uma
cor, elas eram, não necessariamente nesta seqüência: azul, vermelho, verde e
amarelo). O nome da professora era Maria Aparecida Gentil, que de gentil, na
minha opinião não tinha absolutamente nada, mais adiante vocês saberão porque.
As janelas da sala de aula que freqüentei davam de frente para a rua
principal, o muro era baixo e aramado, o que permitia uma visão do movimento lá
fora (cortinas foram colocadas no ano seguinte). A área de recreação era grande
e dividida em dois ambientes, um deles era coberto. Divertimento garantido
inclusive em dias de chuva!
A classe neste ano também era composta por meninos e meninas, muitos
deles eram remanescentes da minha turma anterior, porém, fomos nós enturmando
com os novos colegas, desta vez, as carteiras escolares eram individuais. A
classe era parcialmente dividida, meninas sentavam de um lado e meninos do
outro.
O primeiro semestre foi difícil em termos de estudo, como diziam
"era muito puxado" o que reduziu drasticamente minha inspiração e
criatividade para "fazer arte" como costumavam dizer. As minhas notas
estavam baixas, porém, ainda na média mas o sinal vermelho de alerta já tinha
sido acionado pela professora e comunicado aos meus pais. Adivinhem, passei as férias
do meio de ano estudando. Bem que aquela bruxa (a professora) poderia ter
ficada de boca fechada.
As aulas do segundo semestre iniciaram-se e um mês e pouco depois as
provas. Eu, talvez, deveria ter alertado a professora mais ou menos assim, como o
"Joãozinho" uma vez fizera: "feeesssora! não é por nada
não, mas meu pai disse que se eu tirar nota baixa outra vez, "alguém"
vai tomar uma surra, depois não vai dizer que eu não avisei heim!" Vai que colava...nunca se sabe!
As provas foram realizadas e chegou o dia da entrega dos boletins
escolares, meu Deus!, era um vermelhão só. Já estava pensando na surra que eu
ia levar em casa. Não pretendia entregar o boletim escolar naquele dia para a
minha mãe, pois precisava de tempo para arrumar uma saída para evitar o
castigo. De repente, num momento de relampejo, olhando para as notas no boletim
que naquela época iam de zero a cem, percebi que um 40 poderia virar um 90, que
um 30 poderia virar um 80 e que um 10 poderia virar um 100. Não tive dúvida,
procurei por uma caneta cuja tinta parecia-se com a usada no boletim e mandei
bala (1). Ficou um trabalho de artista. Minha mãe viu, não me lembro se precisa
assinar, me deu parabéns e no dia seguinte eu o entreguei na escola para a
professora. Tudo tranquilo? Que nada. Dois dias depois precisei levar um
comunicado para meus pais para que comparecessem na escola. Minha mãe perguntou
se eu sabia do que se tratava, claro que eu disse que não fazia a mínima idéia.
Passei noites em claro até o fatídico dia. Pensava, o que será que deu errado?
Pior que levar uma surra era ficar na expectativa de que a qualquer momento ela
iria acontecer.
O dia chegou. Após a narrativa dos fatos pela professora, minha mãe
ficou vermelha igual a um perú, de vergonha, e com razão, e eu ali junto delas
já chorando, tudo isso acontecendo na sala dos professores, meu mundo desabou.
Não preciso contar o final disso tudo. Meu pai enquanto batia (é claro que a
sua intenção era me educar) dizia: – isto é para você aprender a tomar jeito
moleque, é para você nunca mais fazer isso, quem é que te ensina a fazer essas
coisas? É a rua que te ensina? Seu sem vergonha!
A “cinta comeu solta”. Naquela noite fui dormir com o lombo quente, mas
feliz, afinal tinha pago pela minha travessura, a agonia acabara-se, nos três
dias seguintes precisei tomar banho na salmoura.
Não pense vocês que eu não era consciente de tudo aquilo, era sim, chegava até, ter
arrependimento, mas passava rapidinho, o amanhã, sempre seria um novo dia.
No ínterim do terceiro e antes das provas do quarto bimestre, estudei
muito, precisava reverter o quadro para ir para o quarto ano. Tudo corria bem,
até o dia em que tive um arranca-rabo com una menina da minha classe, não
recordo os motivos (acho que quebrei a ponta do lápis dela), só lembro que ela
era uma menina sardenta, metidinha (2), incherida, uma lambisgóia. A garota desabou a chorar.
Meu conceito não andava bom, a professora, a tal de Maria Aparecida Gentil, não
vacilou, pregou suas unhas compridas em minha orelha conduzindo-me até a porta
solicitando que eu me dirigi-se até a sala da diretora, que por sua vez, após
ouvir as razões de eu estar lá, dispensou-me das atividades escolares daquele
dia. Bom, chegar cedo em casa nem pensar, ia falar o que para minha mãe? Fiquei
assistindo a aula até o final pelo lado de fora da classe próximo das janelas
que davam para a rua principal. Esse caso, felizmente, encerrou-se ali mesmo
sem maiores consequências. Ufa!
Passei de ano raspando. Fui para o quarto grau do primário! Acreditam?
O nome da professora era Hebe, pessoa muito liberal e tranqüila, era uma
classe só de meninos, além das matérias curriculares, a professora falava muito
sobre sexo conosco, o que era um pouco constrangedor, mas foi ali que começamos
aprender alguma coisa, pois em casa nunca se tocava neste assunto.
Como este era o último ano do primário, eu precisei controlar meus
instintos. A não ser um dia, por uma briga na hora da saída da aula, já na rua,
com um menino cujo nome era Fábio, e que fora apartada por umas mães que
ali se achavam e foi sem maiores consequências além do meu tinteiro ter se
aberto dentro da mala e manchando todo seu conteúdo e um olho roxo, o ano
escolar transcorreu dentro da normalidade sem muitas alterações.
E finalmente, após quatro anos de estudos, fui considerado apto para
prestar o exame admissional para ingressar no ginásio...
(1) junto com as disciplinas/notas na última linha do boletim era calculado
a media aritmética (que não alterei, isto é, alterei as notas e não mudei a
media, a obra não ficou assim tão perfeita, quem sabe na próxima!)
(2) metidinha naquela época era uma pessoa indesejável.
...continua na próxima semana.
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