...continuação
...naquela época, para ingressar no curso ginasial, era preciso prestar
um exame admissional. Então, assim que terminei o primário freqüentei entre Janeiro e Fevereiro de
1964 um curso preparatório (reforço) para prestar o tal exame. Mais uma vez em minha vida a
sala de aula foi em uma garagem, apesar que, para mim aquilo não
importava, eu queria mesmo era ingressar no curso ginasial, o nome da
professora era dona Generosa (pode?). Com receio de não ser aprovado no bendito exame, eu não
bebia aquele refrigerante com sabor uva chamado "Grapette" devido a
um comercial que existia na época que cantarolava o seguinte: " ...quem bebe
Grapette repete Grapette, Grapette é gostoso
de mais...", pois é, eu não queria repetir, eu queria passar no exame. Sério!
Prestei o dito cujo no Ginásio Estadual de Diadema, ueba!!! fui
aprovado com as seguintes notas: Português 5, Aritmética 6 e História 8,5. De posse do certificado de
aprovação fui matriculado no Ginásio Estadual de Cidade Ademar. Não
preciso dizer que o bairro inteiro incrédulo ficou sabendo desta minha façanha!
Até então, somente tinha estudado em período
matutino e vespertino, o horário das 17:00 às 20:00 hs foi a primeira novidade e
desafio que enfrentei. Outra novidade foi saber que eu teria várias
professoras e professores, um para cada matéria. Pensava eu com meus botões,
não será fácil, pois um já era
um "ponta pé no saco" imagine um monte deles
no mesmo ano escolar. Tambem foi novidade saber que a matéria escolar denominada "Linguagem" da ai para frente seria "Português" e "Aritmética" seria "Matemática". Mas fui me adaptando ao novo sistema, em pouco tempo
percebi que já estava integrado a ele.
Contava eu com 10 anos e meio no início do curso, moleque ainda, no meio
de crianças com mais idade, alguns estavam cursando pela segunda vez
a primeira série, a classe era mista e noventa por cento dos rostos eram
novos para mim.
Ia para a escola a pé, acompanhado de uma menina mais velha
que estudava na segunda série, era nossa vizinha, morava em uma rua paralela à
nossa (a gente falava “na
rua de baixo”),
neste horáro, isto é,
o de entrada, o dia ainda estava claro, na volta, por ser já
noite, seu pai ia buscar-nos e acompanhava-me até o
portão de casa, religiosamente todos os dias.
Os meses foram passando e eu ainda não
tinha encarado com seriedade os estudos, vivia um mundo novo, cheio de
fantasias, curiosidades, o horário noturno me fascinava, abria portas, portões,
janelas, etc. para novas aventuras. Não deu outra! Pelas avaliações
(notas) acumuladas no terceiro bimestre (considerando o critério
de pesos, é, naquela época as notas tinham peso) ainda que eu obtivesse a nota máxima
em todas as matérias no quarto bimestre o ano já estava
perdido e eu também.
Antes que a bomba explodisse de vez comentei o assunto com
a minha mãe
logo no ínicio
do quarto bimestre. Para minha sorte, ponderando a situação
e ouvindo opiniões de vizinhos, do dono do empório, da benzedeira, etc. meus pais
absolveram minha falta de dedicação, pois julgaram que eu tinha iniciado
o curso muito precocemente. De fato, eu era muito "novinho ainda",
assim, depois desse argumento milagroso, que dei todo apoio, salvei minha pele
de umas boas cintadas e mais não sei o que, que poderia ter acontecido, porém,
continuei freqüentando a escola até o
final do ano letivo já
com a recomendação
e comentários
de que, quem faz a primeria serie duas vezes, na segunda, tem que passar
direto. O dó!
Foi aí que tudo começou. O ano já estava
perdido, freqüentar as aulas para que? Ainda tinha Outubro e Novembro
pela frente. Que saco! Mas, mesmo assim, conforme a determinação
dos meus pais eu ia para a escola todos os dias, vejam, para a escola.
Com o perdão
em casa e a minha situação definida, isto é "pau
na certa no final de ano", senti-me descompromissado, minha sensação
de liberdade aumentava a cada dia. As noites de Outubro eram de amenas para
quentes, um convite para "cabular" aula, coisa que eu antes nunca
fizera, mas tudo tem a sua primeira vez, ai que delícia! Vadiar era tudo de bom!
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| Carrossel Mexicano e Roda Gigante ao fundo |
Diariamente, chegando à escola,
como todos eu aguardava no pátio o sinal para o início da primeira aula para que me
vissem por ali nas redondezas, porém, quando o sinal tocava, enquanto a
maioria se dirigia para a sala de aula eu caminhava para o banheiro e de lá,
cinco minutos depois, para a rua. Às vezes o portão principal encontrava-se fechado, então,
eu tinha que pular o muro, que já tinha
sido previamente estudado e observado, pois eu não era o único que fazia aquilo. Existiam três
locais onde a fuga e o retorno era possível
sem você ser visto de ambos lados.
Uma vez fora da escola iniciava-se o processo variado de
vadiagem, tínhamos três horas livres para as atividades de recreação.
Às vezes neste horário eu me juntava com outros alunos da
escola que estavam na mesma situação de “ano perdido”, em outras, com amigos da vila onde
morava. Existia nas proximidades da escola uma quitanda que além
da atividade principal também
fazia lanches, churrasquinho no espeto, vendia bebidas alcoolicas, cigarros,
fogos de artifícios,
etc., éramos fregueses assíduos, bons gastadores (qualquer dia eu
conto da onde vinha o dinheiro). Mais ou menos como uma troca de “favores”
era alí que constantemente nosso material
escolar ficava guardado até retornarmos da farra. Haverão
de convir, que não dava para gandaiar levando livros e cadernos debaixo do
braço!
As opções eram muitas, dentre elas, as que eu mais gostava não
necessariamente nesta ordem eram:
- comer pizza nos reservados das padarias, para quem não
sabe, antigamente as padarias possuiam um local mobiliado, geralmente nos
fundos do prédios
para esta finalidade, a bem da verdade, este local era usado por quem não
queria ser visto;
![]() |
| Aeroporto de Congonhas |
- freqüentar os parques de diversões que esporadicamente instalavam-se
na região por um determinado período e a parte mais legal, alem claro,
dos brinquedos, era quando pedíamos para oferecer uma música, através do serviço de auto-falantes, para uma garota
que você admirava. Era mais ou menos assim que
o locutor com aquela voz romântica e melada dizia: o garoto que está ali de blusa amarela, cabelo escovinha, com as mãos
no bolso, perto do carrossel mexicano oferece a música "O Ritmo da Chuva" com
o cantor Demetrius para a garota morena de cabelos compridos, saia xadrez e blusa
vermelha que encontra-se próxima à
roda gigante ao lado do carrinho do algodão doce e maçã do amor. E em seguida ele colocava o
78 rotações
para tocar, como chiava! Enquanto isso, não saímos do lugar até que a garota nos procurasse com os olhos, uma vez no foco
dela, a gente acenava um alôzinho
com a mão e se fosse correspondido, meio que encabulado procurava
uma aproximação ou dava uma de difícil e continuava o “footing”
sem perder de vista a inocente pretendida;
- ir de vez em quando (claro que de ônibus)
até o aeroporto de Congonhas ver as
decolagens e aterrissagem dos aviões, naquela época, o que hoje é
o piso superior do aeroporto era uma area descoberta e aberta para esta
finalidade; etc..
Neste embalo diário, Outubro e Novembro passaram
voando, prestei as provas do quarto bimestre, cujo resultado, como esperado,
foi um desastre total. O ano letivo encerrou-se e vieram os meses de férias
com muitas atividades de rua, a gandaia noturna ficou suspensa durante este período
aguardando o inicio das aulas no ano seguinte.
Iniciaram-se as aulas, agora no horário das 20:00 às 23:00 hs. Eu, de certa forma, já era um aluno reconhecido pelos meus feitos, tanto por alunos como por professores. Adjetivaram-me de "Clovis o repetente", no início tive vergonha de ser
chamado assim,
o termo "repetente" depreciava muito..., mas depois de um certo tempo eu estava cagando e andando para o assunto...
...continua na próxima semana.



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