quinta-feira, 21 de agosto de 2014

O garoto que fugiu de casa aos 12 anos de idade - Parte IV

...continuação
 
...naquela época, para ingressar no curso ginasial, era preciso prestar um exame admissional. Então, assim que terminei o primário freqüentei entre Janeiro e Fevereiro de 1964 um curso preparatório (reforço) para prestar o tal exame. Mais uma vez em minha vida a sala de aula foi em uma garagem, apesar que, para mim aquilo não importava, eu queria mesmo era ingressar no curso ginasial, o nome da professora era dona Generosa (pode?). Com receio de não ser aprovado no bendito exame, eu não bebia aquele refrigerante com sabor uva chamado "Grapette" devido a um comercial que existia na época que cantarolava o seguinte: " ...quem bebe Grapette repete Grapette, Grapette é gostoso de mais...", pois é, eu não queria repetir, eu queria passar no exame. Sério!
Comercial em 1.963
 
Prestei o dito cujo no Ginásio Estadual de Diadema, ueba!!! fui aprovado com as seguintes notas: Português 5, Aritmética 6 e História 8,5. De posse do certificado de aprovação fui matriculado no Ginásio Estadual de Cidade Ademar. Não preciso dizer que o bairro inteiro incrédulo ficou sabendo desta minha façanha!
Até então, somente tinha estudado em período matutino e vespertino, o horário das 17:00 às 20:00 hs foi a primeira novidade e desafio que enfrentei. Outra novidade foi saber que eu teria várias professoras e professores, um para cada matéria. Pensava eu com meus botões, não será fácil, pois um já era um "ponta pé no saco" imagine um monte deles no mesmo ano escolar. Tambem foi novidade saber que a matéria escolar denominada "Linguagem" da ai para frente seria "Português" e "Aritmética" seria "Matemática". Mas fui me adaptando ao novo sistema, em pouco tempo percebi que já estava integrado a ele.
Contava eu com 10 anos e meio no início do curso, moleque ainda, no meio de crianças com mais idade, alguns estavam cursando pela segunda vez a primeira série, a classe era mista e noventa por cento dos rostos eram novos para mim.
Ia para a escola a pé, acompanhado de uma menina mais velha que estudava na segunda série, era nossa vizinha, morava em uma rua paralela à nossa (a gente falava na rua de baixo), neste horáro, isto é, o de entrada, o dia ainda estava claro, na volta, por ser já noite, seu pai ia buscar-nos e acompanhava-me até o portão de casa, religiosamente todos os dias.
Os meses foram passando e eu ainda não tinha encarado com seriedade os estudos, vivia um mundo novo, cheio de fantasias, curiosidades, o horário noturno me fascinava, abria portas, portões, janelas, etc. para novas aventuras. Não deu outra! Pelas avaliações (notas) acumuladas no terceiro bimestre (considerando o critério de pesos, é, naquela época as notas tinham peso) ainda que eu obtivesse a nota máxima em todas as matérias no quarto bimestre o ano já estava perdido e eu também.
Antes que a bomba explodisse de vez comentei o assunto com a minha mãe logo no ínicio do quarto bimestre. Para minha sorte, ponderando a situação e ouvindo opiniões de vizinhos, do dono do empório, da benzedeira, etc. meus pais absolveram minha falta de dedicação, pois julgaram que eu tinha iniciado o curso muito precocemente. De fato, eu era muito "novinho ainda", assim, depois desse argumento milagroso, que dei todo apoio, salvei minha pele de umas boas cintadas e mais não sei o que, que poderia ter acontecido, porém, continuei freqüentando a escola até o final do ano letivo já com a recomendação e comentários de que, quem faz a primeria serie duas vezes, na segunda, tem que passar direto. O dó!
Foi aí que tudo começou. O ano já estava perdido, freqüentar as aulas para que? Ainda tinha Outubro e Novembro pela frente. Que saco! Mas, mesmo assim, conforme a determinação dos meus pais eu ia para a escola todos os dias, vejam, para a escola.
Com o perdão em casa e a minha situação definida, isto é "pau na certa no final de ano", senti-me descompromissado, minha sensação de liberdade aumentava a cada dia. As noites de Outubro eram de amenas para quentes, um convite para "cabular" aula, coisa que eu antes nunca fizera, mas tudo tem a sua primeira vez, ai que delícia! Vadiar era tudo de bom!
Carrossel Mexicano e Roda Gigante ao fundo
Diariamente, chegando à escola, como todos eu aguardava no pátio o sinal para o início da primeira aula para que me vissem por ali nas redondezas, porém, quando o sinal tocava, enquanto a maioria se dirigia para a sala de aula eu caminhava para o banheiro e de lá, cinco minutos depois, para a rua. Às vezes o portão principal encontrava-se fechado, então, eu tinha que pular o muro, que já tinha sido previamente estudado e observado, pois eu não era o único que fazia aquilo. Existiam três locais onde a fuga e o retorno  era possível sem você ser visto de ambos lados.
Uma vez fora da escola iniciava-se o processo variado de vadiagem, tínhamos três horas livres para as atividades de recreação. Às vezes neste horário eu me juntava com outros alunos da escola que estavam na mesma situação de ano perdido, em outras, com amigos da vila onde morava. Existia nas proximidades da escola uma quitanda que além da atividade principal também fazia lanches, churrasquinho no espeto, vendia bebidas alcoolicas, cigarros, fogos de artifícios, etc., éramos fregueses assíduos, bons gastadores (qualquer dia eu conto da onde vinha o dinheiro). Mais ou menos como uma troca de favores era alí que constantemente nosso material escolar ficava guardado até retornarmos da farra. Haverão de convir, que não dava para gandaiar levando livros e cadernos debaixo do braço!
As opções eram muitas, dentre elas, as que eu mais gostava não necessariamente nesta ordem eram:
- comer pizza nos reservados das padarias, para quem não sabe, antigamente as padarias possuiam um local mobiliado, geralmente nos fundos do prédios para esta finalidade, a bem da verdade, este local era usado por quem não queria ser visto;
Aeroporto de Congonhas
- freqüentar os parques de diversões que esporadicamente instalavam-se na região por um determinado período e a parte mais legal, alem claro, dos brinquedos, era quando pedíamos para oferecer uma música, através do serviço de auto-falantes, para uma garota que você admirava. Era mais ou menos assim que o locutor com aquela voz romântica e melada dizia: o garoto que está ali de blusa amarela, cabelo escovinha, com as mãos no bolso, perto do carrossel mexicano oferece a música "O Ritmo da Chuva" com o cantor Demetrius para a garota morena de cabelos compridos, saia xadrez e blusa vermelha que encontra-se próxima à roda gigante ao lado do carrinho do algodão doce e maçã do amor. E em seguida ele colocava o 78 rotações para tocar, como chiava! Enquanto isso, não saímos do lugar até que a garota nos procurasse com os olhos, uma vez no foco dela, a gente acenava um alôzinho com a mão e se fosse correspondido, meio que encabulado procurava uma aproximação ou dava uma de difícil e continuava o footing sem perder de vista a inocente pretendida;
- ir de vez em quando (claro que de ônibus) até o aeroporto de Congonhas ver as decolagens e aterrissagem dos aviões, naquela época, o que hoje é o piso superior do aeroporto era uma area descoberta e aberta para esta finalidade; etc..
Neste embalo diário, Outubro e Novembro passaram voando, prestei as provas do quarto bimestre, cujo resultado, como esperado, foi um desastre total. O ano letivo encerrou-se e vieram os meses de férias com muitas atividades de rua, a gandaia noturna ficou suspensa durante este período aguardando o inicio das aulas no ano seguinte.
Iniciaram-se as aulas, agora no horário das 20:00 às 23:00 hs. Eu, de certa forma, já era um aluno reconhecido pelos meus feitos, tanto por alunos como por professores. Adjetivaram-me de "Clovis o repetente", no início tive vergonha de ser chamado assim, o termo "repetente"  depreciava muito..., mas depois de um certo tempo eu estava cagando e andando para o assunto...
 
...continua na próxima semana.

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