quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Infância Maravilhosa - A rua de casa - II

continuação...

O bairro era constituído por famílias da mesma classe social, exceto uns e outros, mas eram poucos os mais abastados. Em casa éramos em quatro, eu, minha irmã e meus pais, mas existiam famílias com até dez filhos. Eu e mais uns seis ou sete moleques éramos uns três/quatro anos mais novos que a maioria dos primogênitos de outras famílias.  Assim como nós, os mais velhos também tinham a sua "panelinha". Algumas brincadeiras eram conjuntas, outras não, isto deixava a gente p... da vida.
Eles certa vez, numa das esquinas da rua casa, em um quarteirão totalmente de terrenos vazios, capinaram, destocaram e fizeram da área um campinho de futebol com trave e tudo!  O campo era totalmente irregular, era caído para os fundos e em uma das metades caído para a esquerda. Ali só eles se divertiam. Desta forma, tínhamos que nos contentar com o trecho plano da rua para jogarmos bola, mas não desistíamos, vivíamos implorando para brincar no meio deles, vez em quando dava certo, não tinha alegria maior do que vestir a camisa do time da vila, do Marari FC, dava até "status". Pois aquele era o campo oficial da vila, era nele que ocorria as peladas contra os times de outras vilas, valendo flâmulas e, em campeonatos, valendo troféus. Mesmo assim, nossa panelinha mantinha um timinho de futebol que participava de jogos contra adversários de outras ruas e até de outras vilas também valendo flâmulas, no famoso conceito do "vira 6 e termina 12".

Dentro do meu grupo etário, eu era considerado encrenqueiro, brigão, boca suja, etc. As mães dos outros garotos tinham o hábito de dizer: "parece que este menino não teve berço". Ledo engano delas! Muitas, anos mais tarde, mudaram completamente de opinião!

Viviam reclamando com a minha mãe. Mas a bem da verdade, nunca existiu maldade no meu coração, eu tinha sim era bastante espiritualidade, e gostava de grossas reinações. Às vezes eu tinha a mania de chegar quietinho por detrás dos meninos e rapidamente abaixar os calções deles até o joelho, deixando-os semi-nus, pronto era a conta, tinham uns mais "fresquinhos" que já saíam chorando e correndo pra casa para contar para suas mães o que eu tinha feito. Certa fez achei uma bola de madeira, daquelas usadas no jogo de "bocha", ela vivia semi-enterrada no gramado que tinha no quintal de casa, ela era marrom e, no meio da grama não dava para distinguir se era de madeira ou borracha. Num domingo recebemos a visita de parentes em casa, entre eles estava um primo meu, que era uns anos mais novo, então fomos brincar no gramado, simulei com duas latas vazias a trave de um gol, coloquei a bola de madeira há uns metros de distância e falei pra ele: - vai primo, enche o pé! "Táqueupariu"! Ele foi... e encheu mesmo... com fé! Mesmo estando calçado, o dedão do pé dele ficou inchado por duas semanas e eu de castigo quase pelo mesmo período, a bola rolou uns dois metros. Ele não tinha sido a primeira vítima da pegadinha...
Quando as mães reclamavam com a dona Diva sobre o meu comportamento eu não esquentava muito, era normal isso acontecer, mas quando envolvia os pais dos moleques aí o bicho pegava. Um dia apareceu um cidadão lá porta de casa, com o filho segurado por uma das mãos e na outra com a camisa do pirralho manchada de branco, o nome dele era sargento Wilson, olha a encrenca em que fui me meter.

Era época do carnaval. O sargento falou para minha mãe que eu tinha espirrado com uma bisnaga de plástico, água com cloro na camisa do filho dele, que a camisa era nova e tinha se estragado... e bórórí bóroró. Não me lembro o que a dona Diva resolveu com ele, só me lembro que passei o carnaval sem ir para rua brincar, além claro, de umas cintadas na bunda.
Diz a lenda, que certa ocasião, uma vizinha nossa chamada dona Izolina (parece até nome de remédio), encabeçou um abaixo-assinado visando a expulsão de nossa família da vila devido às minhas traquinices. Ainda bem que a solicitação não era de interesse comum, a ideia não foi adiante, nasceu e morreu no mesmo dia, meus pais fingiram que não souberam do ocorrido, mas a partir daquele dia fiquei de olho na "talzinha", pois a atitude dela rendeu-me umas puxadas de orelha em casa.

Quando grossas reinações eram delatadas pelas vizinhas, o castigo vinha na sequência. Apanhava de chinelo, cinta, vara verde, etc., minha mãe usava o que tinha mais à mão, às vezes em seguida me prendia no banheiro por horas, depois ia dar continuidade aos seus trabalhos de costura, ficava tão envolvida, que de vez em quando esquecia de mim. Com minha irmã nada disso acontecia, então, quando eu pressentia que a pena seria demorada, apelava para ela e com uma voz de injustiçado pedia para ela através do vitrô que me trouxesse umas bananas, pão, bolachas, etc., para que eu me alimentasse até o término da punição. Ela sempre cooperou, gostava muito de mim. O "castigo" neste formato não durou muito tempo.

Como eu era espirituoso! O banheiro era o único lugar da casa que tinha alçapão e com o tempo aprendi a escalar as paredes, apoiando os pés nas travessas da porta e atingir o telhado, depois era só tirar umas telhas, pular no terreno vizinho, e dali para a rua, respirando o ar da liberdade. Uma hora depois estava de volta pelo mesmo caminho que saía. Quando minha mãe abria a porta, eu saía de lá com um ar triste, sofrido, mas por dentro eu estava explodindo de alegria...
 
continua na próxima semana...

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Proposta de Branco: Devolver o Brasil aos índios - Será que aceitam? - Acho que não!


Lendo a coluna do José Simão publicada na Folha de S. Paulo de ontem deparei-me com a expressão dita por um amigo dele: “Entre a Dilma e o Aécio, prefiro devolver o Brasil pros índios”. Isto lembrou-me a leitura de um texto publicado na revista Banas escrito pelo admirável Luis Fernando Veríssimo. Não consigo precisar a data, mas foi provavelmente entre os anos de 1967/1974, período em que o Sr. Delfin Neto fora ministro da Fazenda e nossa dívida externa atingia patamares altos com sinais de insolvência a médio prazo, inflação alta, insatisfação popular, etc. O texto é muito interessante e humorado e, em alguns pontos guarda ainda um pouco da nossa atual realidade. Decidi compartilhar com vocês.

Divirtam-se...

 
“O encontro se deu há algumas semanas. O local? Algum lugar no Planalto Central. Não posso entrar em detalhes. Presentes, com assessores, um cacique representando os índios, doravante identificado como “C”, e um representante do Governo, que chamaremos de “G”. O que segue é uma transcrição exata do que foi dito. O Governo negará, por razões óbvias.
 

C – Estou ouvindo.
G - O seguinte. Que se saiba, não existe nenhum instrumento formal de transferência de posse do Brasil, certo?
C – Certo.
G – Os portugueses foram chegando e foram tomando conta, sem qualquer cerimônia. Nem deram nada em troca da terra. Certo?
C – Deram espelhinhos.
G – Sim, mas nada de valor equivalente.
C – Certo.
G – Achavam que os índios faziam parte da paisagem, e se adonaram de tudo.
C – Isso.
G – Bom. Nossa proposta é a seguinte. Vocês movem um processo contra nós, numa corte internacional, para reaver as terras.
C – Como é?
G – Vocês nos processam por apropriação indébita da terra. Pedem nossa expulsão daqui. Afinal, se não existe nenhum documento formal, nós somos posseiros. Estamos aqui ilegalmente. Os donos legítimos da terra são vocês.
C – Isso nós sabemos. Mas, e daí?
G – Daí que, com a posse do Brasil em litígio, ninguém pode cobrar a nossa dívida externa. O caso pode durar anos, se arrastar nos tribunais. Enquanto isso, nós estamos salvos dos nossos credores.
C – Sim, mas...
G – Você não vê? É perfeito. Depois de anos, vocês perdem a causa. Fica decidido que os donos da terra somo nós. Por usucapião, sei lá. Mas a esta altura as coisas já melhoraram. A Petrobrás já descobriu petróleo. O Delfim já não é mais ministro. Ou, então, todas as plantações do país foram substituídas pela cana para fazer álcool. Ninguém come mais nada, mas pelo menos combustível não falta. Só com o minério de Carajás e o ouro de Serra Pelada, poderemos pagar a dívida antiga e todos os juros acumulados e ainda sobra para o uísque. E não der para pagar a conta, temos outra saída.
C - Qual?
G – Vocês recorrem do processo! Isso nos dará mais alguns anos. Se tivermos sorte, o mundo acabará antes que possam cobrar a nossa dívida.
C – Mas você está esquecendo uma coisa...
G – O que?
C – E se nós ganharmos a causa?
G – Já pensamos nessa possibilidade. Se vocês ganharem, ótimo. O Brasil volta a ser de vocês. Façam o que quiserem com ele. Mudem o nome...
C – E a dívida externa?
G – Vocês não se responsabilizam. Foi feita por terceiros, fraudulentamente. Se os bancos quiserem briga, serão mais algumas décadas nos tribunais. E Citibank versus índios, todas as simpatias estarão com os índios.
C – Mas vocês nos devolveriam o Brasil? Em troca de nada?
G – Bem, se vocês quiserem devolver os espelhinhos...
C – Mas não íamos querer ele de volta desse jeito. Vocês teriam que entregar como encontraram.
G – Claro.
C – Pra começar, iam limpar a praia em que desembarcou o Pedro.
G – Isso depois a gente veria. O importante é que o país seria de vocês. Quem quisesse continuar aqui, teria que virar índio. Viver da caça e da pesca. Sem muita roupa. Morar em oca. Nada de automóvel. Imagine como isso diminuiria a pressão inflacionária.
C- Mas e as grandes cidades? São Paulo, Ipanema... O que seria delas? O pessoal ia aguentar viver sem a novela?
G – Poderia haver reservas onde seria preservado o modo de vida primitivo. Parques nacionais da alta classe média, por assim dizer. Com televisão, engarrafamento de trânsito, lanchonetes... O resto da população voltaria ao estado natural, no entanto. Todo mundo de tanga. Só se vestiriam no Carnaval.
C – Temos que pensar no assunto...
G – E outra coisa. Vocês não teriam que se preocupar em administrar o país.
C – Por que?
G – Não é fácil administrar um país deste tamanho. Mesmo que volte a ser habitado só por índios. Vocês nos contratariam.
C – Como é?
G – Temos a experiência que vocês não têm. Dezesseis anos de governo. É um pequeno grupo que trabalha junto há muito tempo, todos se conhecem... Portanto, vocês ganhariam o Brasil de volta e assinariam um contrato vitalício de assessoria técnica e administrativa conosco. Nós nos livraríamos dos problemas da dívida, inflação, insatisfação popular, etc. Mas continuaríamos no governo. E...
C – Essa não.
G – Como?
C – Nada feito.
G – Mas...
C – Era só o que faltava.
G – Quer dizer que vocês recusam a proposta?
C – Se vocês quiserem continuar como caciques, têm que fazer testes para o cargo.
G – Testes?
C – Arco e flecha. Luta com sucuri. Atravessar rio com tronco nas costas. E outra coisa.
G – O que?
C – Nada de contrato vitalício. Se não forem competentes, rua. Vão ajudar as mulheres a ralar mandioca.
G – Esquece, esquece.”

domingo, 12 de outubro de 2014

...você é especial...



"Sem querer você apareceu,
não te esperava,
não esperava reencontrar o que há muito havia
perdido ou que talvez nunca tive...
 
Você me trouxe de volta o brilho no olhar...
O sorriso nos lábios...
Mas também o medo de me machucar.

Não te culpo por trazer de volta
um sentimento que eu havia prometido apagar de mim,
mas te culpo por fazer desse sentimento
o melhor que eu já senti...

De um jeito muito especial
Você me fez acreditar que o amor pode ser verdade...
Talvez nunca tenha amado,
por isso não sei bem o que essa palavra significa pra mim,
mas o importante agora é que sinto por você algo diferente, que talvez nunca senti...

Não te prometo a perfeição,
pois isso eu não tenho...
Mas te prometo uma coisa:
Dar o melhor de mim...

Você é alguém mais do que especial pra mim,
é alguém diferente, assim como eu sou...
Já te disse muitas vezes, que sou diferente ,
Por isso, você está sendo um desafio pra mim,

Você foi uma das melhores coisas que aconteceram na
minha vida...

Você é especial..."
 
Autor desconhecido

Mais ou Menos


"A gente pode morar numa casa mais ou menos, numa rua mais ou menos, numa cidade mais ou menos, e até ter um governo mais ou menos.
 
A gente pode dormir numa cama mais ou menos, comer um feijão mais ou menos, ter um transporte mais ou menos, e até ser obrigado a acreditar mais ou menos no futuro.

A gente pode olhar em volta e sentir que tudo está mais ou menos...

TUDO BEM!!


O que a gente não pode mesmo, nunca, de jeito nenhum...é amar mais ou menos, sonhar mais ou menos, ser amigo mais ou menos, namorar mais ou menos, ter fé mais ou menos, e acreditar mais ou menos.
 
Senão a gente corre o risco de se tornar uma pessoa mais ou menos."    
 

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

HCor - Meu "Day Clinic" - Uma aventura!


Há aproximadamente uns sete anos tomo um medicamento para regular a pressão arterial que fora prescrito por um médico cardiologista do HCor. Durante todo este período minha pressão tem mantendo-se excelente. Porém, de vez em quando, principalmente recentemente, perguntava a mim mesmo se seria necessário dar continuidade a medicação, visto estar levando uma vida mais saudável, equilibrada, com bastante atividade física, ter reduzido 10 quilos no meu peso corporal e ainda ter obtido um ótimo resultado de um teste ergométrico realizado em Novembro passado, etc.. Desta forma, decidi fazer nova avaliação cardiológica.
Na primeira consulta tive uma avaliação bastante positiva da médica que passaria a cuidar do meu caso (Drª Isabela Brotto) que já tinha em mãos o resultado de um eletrocardiograma realizado vinte minutos antes da consulta. Porém, mais exames precisariam ser feitos para uma avaliação mais detalhada, inclusive o acoplamento de um holter por vinte e quatro horas.
O primeiro exame que realizei foi o Teste Ergométrico Cardiopulmonar. Durante o exame cheguei até a etapa 13 a 12 km por hora. Me sentia um verdadeiro atleta, pensava, neste vou ter um resultado excelente, porque, com os meus bastantes anos de vida, 12 kph em cima de uma esteira não é para qualquer um.
Meu orgulho durou somente durante o período de repouso após o esforço. Assim que o exame foi completado, a médica que acompanhou o teste perguntou se eu tinha conhecimento que possuía arritmia cardíaca. Respondi que não. Então ela emendou – o Sr. tem uma excelente aptidão cardiorrespiratória, mas em alguns momentos do teste o Sr. apresentou arritmias, recomendo que o Sr. suspenda toda e qualquer atividade física até voltar a conversar com a Drª Isabela. Fiquei deprimido.
Voltando à consulta, a Drª confirmou tudo o que a sua colega tinha relatado e ainda proibiu-me de fazer minhas caminhadas, mesmo que tranquilas. Solicitou de imediato um exame chamado Angiografia Coronária. Agendei.
No dia do exame (sexta-feira passada) cheguei aqui no Hcor às 6:45hs, pois tinha sido informado que passaria o dia aqui. Fiquei internado no nono andar. Os preparativos iniciaram-se de imediato: jejum absoluto após o café leve da manhã, soro, alguns medicamentos, avental cirúrgico, etc.
Por volta das 11:00hs fui conduzido para a sala de hemodinâmica onde seria realizado a Angiografia. Apesar de todas as informações e orientações de que o exame iria transcorrer de forma tranquila e rápida, não conseguia evitar minha aflição.

A sala parecia uma espaçonave tipo “state of the art”, era impressionante. Uma excelente equipe de trabalho me tranquilizou bastante, a única coisa que não gostei foi que na tricotomia (raspagem de pelos) do meu “bilau” só rasparam dos lados, ficou parecendo a cabeça de um índio moicano, um topetezinho no centro da área de diversão!
O exame em si é rápido, os procedimentos de preparo antes e depois é que demoram, desta forma, retornei ao quarto por volta das 14:00hs. O almoço foi servido!
Além da medicação, uma recomendação severa:  - o Sr. terá que manter a perna direita totalmente imóvel até as 17:30 hs. Isto significava não levantar da cama até então.
Por volta das 15:00hs começou meu drama. Senti necessidade de urinar, segurei o máximo, já não conseguia identificar entre as causas naturais e o procedimento o que doía mais. Chamei a enfermagem.

Através de um sistema eletrônico de comunicação expliquei o que estava acontecendo. Em seguida adentra o quarto um técnico de enfermagem com um “compadre” na mão e diz: - o Sr. terá que usar isto aqui - mostrando-me o “compadre” e, saiu dizendo que retornava em minutos. Fazer o que né?! Sempre tem a primeira vez. Sem mexer a perna direita ajeitei-me na cama, acomodei o “compadre” entre as pernas e lá vamos nós! Uhuh! Uhuh! Que alivio!
Cinco minutos depois, percebi que não era só o número 1 que a natureza exigia! Um número 2 vinha chegando em alta velocidade, comecei a respirar fundo, agoniar em silêncio, fui administrando, tinha altos e baixos, por um instante pensei em quebrar a regra e ir para o banheiro. Num dado momento entra um médico no quarto com a notícia do resultado do exame.
- Sr. Clovis, o seu exame apresentou um resultado não muito favorável, mas nada preocupador, por ter sido descoberto em tempo. O Sr. possui duas artérias que estão comprometidas, uma em 70% e outra em 90%. Precisamos fazer uma angioplastia coronária com implante de “stent” o mais rápido possível.

Temos duas opções: o Sr. continuar internado e após os procedimentos administrativos fazermos a angioplastia ou o Sr. ir embora hoje e nós agendarmos para daqui a uns 20 dias. – Então perguntei: - o que o Sr. recomenda? – Ele respondeu: - fique internado. – Concordei, porém, aproveitei a oportunidade e disse: Dr. estou sentindo cólicas intestinais (chique né), estou que não aguento mais, são 16:30hs será que não dá para me liberar antes das 17:30hs? – Então ele respondeu: - aguente pelo menos até as 17:00hs.
Despediu-se dizendo que iria providenciar a documentação de internação, e que eu seria transferido de quarto após o jantar.
Às 16:50hs chamei a enfermagem novamente, a coisa “tava” preta, iria entupir mais veias! Uma técnica de enfermagem adentrou o quarto e perguntou em que poderia ajudar. Disse que tinha conversado com médico e que o mesmo tinha me liberado para as 17:00hs, porém, eu não suportava mais e precisava ir ao banheiro e só faltavam alguns minutinhos. Então ela delicadamente disse: - “Nannaninanão!” De acordo com o seu prontuário médico o Sr. só poderá levantar-se da cama as 17:30hs e com o nosso acompanhamento. – Tentei explicar a mudança concedida pelo médico, mas não teve acordo, ela manteve firme sua postura. – Então como faço? - Disse eu. – Ela responde: - espere um instante que eu vou buscar uma “comadre”. – E saiu.
Meu Deus do céu, vocês não sabem o que é passar por isso. Ela retornou com a “comadre” e colocou uma folha de plástico liso transparente em sua volta. Eu estava ainda vestido com o avental cirúrgico, então pediu-me que apoiasse os dois cotovelos na cama e apoiasse também a perna esquerda para poder levantar o quadril e encaixar a “comadre”. Feito isto, perguntou-me se estava tudo bem, e que eu relaxasse, (...como relaxar num momento como este?), porque talvez eu não estivesse acostumado com aquela situação, mas ela estava, fazia aquilo todos os dias. Antes dela sair do quarto, percebi que a “comadre” tinha escorregado devido à pressão do meu do meu corpo, levantei o quadril novamente para os devidos ajustes e percebi que o plástico transparente tinha grudado na minha bunda, ela removeu-o e encaixou-o novamente na “comadre”. Percebi neste momento que a finalidade do plástico era para não sujar a “comadre”. Disse ela, que iria sair do quarto para que eu ficasse mais à vontade e sem nenhum tipo de constrangimento. Me deu vontade de falar para ela: que isso! Imagina! Estou me sentindo bastante confortável! Pode ficar aqui! Etc....
Imaginem o “sanduba”! A comadre embaixo, o plástico no meio e a minha bunda em cima! Só faltava o recheio! Pensei: com o plástico grudado na minha bunda, qualquer “barro” que saísse iria lambuzar-me generosamente. A vontade foi embora rapidinho!
Ás 17:10hs ela entra novamente no quarto e pergunta: - e aí Sr. Clovis? Conseguiu? – Respondi que não e solicitei que retirasse a “comadre”, pois ela estava me incomodando e, que suportaria o meu martírio por mais vinte minutos!
Dito e feito! 17:30 ele retornou. Abrolhavam algumas lágrimas disfarçadas em meus olhos! Porém, ainda antes de levantar-me tive que fazer uns exercícios com a perna para normalizar a circulação sanguínea.
Finalmente pude sentar no trono! A sensação que senti fora idêntica ao relaxante inebriante que provoca uma segunda taça de um Merlot chileno...
Ontem, fiz a angioplastia e dois “stent” foram implantados. O procedimento foi tranquilo. Terei alta na sexta-feira ou no sábado.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Infância Maravilhosa - A rua de casa! - I

...continuação
 
...a rua que sucedeu a trilha que existia em frente de casa tornou-se um parque de diversões! Era estreita, devia ter no máximo uns dez metros de largura, a parte plana onde brincávamos tinha uma extensão de aproximadamente cinquenta metros, o que, quando se é criança, parece uma área de proporções enorme. Foi ali, então, que passei brincando a maior parte da minha infância.
Este trecho da rua foi tudo para nós, tanto para meninos quanto para meninas, vinham até crianças de outras ruas para ali brincarem. Minha mãe (a dona Diva) tinha o hábito de dizer: "...parece que tem doce naquele pedaço, meu Deus do céu!" O espaço que tinhamos, com as marcações necessárias, era transformado rapidamente em quadra esportiva de acordo com a modalidade que queríamos nos divertir. Assim, ali jogávamos futebol, taco, brincávamos com bolinhas de gude em todas as suas modalidades (uma birosca, quatro biroscas, triângulo e mata-mata), brincávamos de pular pauzinhos, rodávamos pião, jogávamos figurinha a "bafo", lia-mos ou só via-mos "catecismos" (Esta era parte cultrural do crescimento infantil).

"Catecismos"
Se você avistasse uma rodinha fechada de moleques, todos em absoluto silêncio, numa concentração profunda, poderia apostar que um catecismo estava sendo exibido vagarosamente, página por página, repetidas várias vezes). Ali também era organizado o campeonato de cuspe e outros ainda mais indecentes como por exemplo o do "Processo Unilateral de Normalização Hormonal por Estimulação Temporária Auto-induzida" (una as iniciais maiúsculas para ter uma definição mais clara), etc., enfim, era uma verdadeira área recreativa e cultural (kkkkk!). Não precisavamos de mais nada para sermos felizes. Era a nossa "rualandia"!
De um lado da rua, na parte plana, existia uma chácara, que beirando sua cerca que fazia frente para a rua, tinha vários pés de eucaliptos, que nos dias ensolarados, em parte coava o sol e, em outra proporcionava sombra tranquila e fechada. Era o local onde tambem, nas tardes quentes, ficavamos sentados filosofando sobre a vida e, por falta de alguma coisa mais interessante para fazer, ficávamos à procura no chão de sementinhas secas de eucaliptos, elas pareciam um piãozinho, que com o dedo polegar e o indicador colocávamos a rodar.
Sementes de eucaliptos
Além dos eucaliptos, a chácara na parte interna tinha também uns pés de goiaba, ameixa, laranja, gabiroba, etc., que de vez e sempre à pretexto de pegar-mos uma bola que tinha sido lá jogada ou uma pipa que lá tinha caído ou ainda a captura de uma galinha fugida do seu galinheiro que lá tinha se instalado, eram visitados por nós à cata de frutas da estação.
Certa vez, eu estava encarapitado em um pé de ameixa, me deliciando com as amarelinhas, quando distraidamente esbarrei uma das orelhas em um galho que tinha em uma de suas folhas uma fdp de uma taturana que de imediato provocou uma queimação danada a ponto de derrubar-me da árvore de tanta dor. Fui correndo pra casa gritando e chorando que nem um doido. O médico mais próximo ficava a uns três quilômetros de casa e tinha que ser percorrido a pé. A dona Diva pegou-me pelo braço e lá fomos nós, sujo, do jeito que eu estava. Eu aos berros durante o caminho todo e minha mãe dizendo: "tá vendo, fica fazendo arte, Deus castiga!" e eu dizia: "fica quieta, não enche tá, tá doendo muito mãe!", e aos prantos, com o nariz escorrendo, que de vez em quando, limpava com o braço, eu caminhava.

O nome do médico era Drº Francisco (o mesmo que tempo atrás tinha tirado um grão de feijão do meu ouvido, eu já era um cliente conhecido de outros carnavais). Lá chegando, fiz um baita de um escândalo na sala de espera que estava lotada de pessoas, xingava o médico e todos os seus ascendentes e descendentes com todos os mais terríveis palavrões que eu tinha no meu repertório de moleque reinador. O Drº Francisco ouvindo aquele fuzuê todo, de imediato veio atender-nos.
A orelha já era grande, ficou pior, inchada e vermelha, parecia meio "Dumbo" o que foi motivo de gozações pelos outros moleques da vizinhança. Demorou uns quatro dias para voltar ao normal após o uso de uma pomadinha milagrosa. Aprendi com aquele episódio. Daquele dia em diante, minhas novas investidas à chácara passaram a ser mais cautelosas.
Do lado direito à nossa casa era onde ficava a parte plana da rua e do lado esquerdo ela possuia uma inclinação mais ou menos acentuada, era o suficiente para brincármos com carrinhos de rolimã numa distância de aproximadamente uns duzentos metros rua abaixo. Na parte frontal, os lotes (terrenos) iniciando já do lado da chácara eram vazios, cobertos de arborização nativa baixa e inclinados para os fundos o que proporcionava uma excelente área para empinar pipa, fazer cabanas, brincar de esconde-esconde, etc..
O terreno de casa era cercado com arame farpado pregados em toras de eucaliptos, possuía um portãozinho de madeira, cuja trava, era uma argola de arame liso que ficava na parte superior. difícil de ser alcançada por uma criança. Quando não tinha permissão da minha mãe, minhas escapadinhas para a rua se davam através desta cerca.
De tanto a dona Diva ir buscar-me na rua com a cinta na mão e eu ter que voltar correndo pra casa para não apanhar na frente dos outros moleques adquiri a habilidade de um gato para passar voando pelos vãos da cerca entre os arames farpados, mesmo assim, volta e meia, rasgava um calção ou arranhava os braços, joelhos, pernas ou as costas...era um "The Flash" tupiniquim infantil...
 
continua na próxima semana...



quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Infância Maravilhosa - Primeiros anos de vida! - II


...continuação
 
....camisas só usávamos para sair ou se estivesse o tempo frio, vim conhecer cueca depois dos meus dez anos de idade, mesmo porque, até então, mijava na cama todas as noites.
Durante o dia andava descalço (para brincar na rua, jogar bola, ir ao empório, etc.), calçados eram somente para passear, ir para escola, isto é, eventos "sociais". O calçado mais popular naquela época era a "Alpargatas Roda" o símbolo máximo da pobreza, depois vieram o "Sete Vidas" e "Conga/Bamba" na sequência as sandálias Havaianas. Usei muito também o sapato Verlon, feito de plástico, que saía do pé toda hora devido a transpiração, o pé ficava escorregando dentro dele.  Por ser elaborado com material plástico era fácil de abrir nas laterais (rasgar), então, para quebrar um galho até comprar outro a gente dava uns pontos com barbante. Imaginem como ficava lindo. Os calçados de couro que usei viviam com os bicos ralados, eram tropeçadas constantes, eu não gostava muito deles, principalmente quando eram novos. Como machucavam os pés! O hábito de andar descalço fazia com que sempre andasse machucado, as vezes eram tropeços e topadas que arrancavam a unha do dedão, furo na sola do pé com pregos enferrujados, cortes com caco de vidro, etc.
Tudo curava-se com a maior simplicidade, ou seja, mercúrio cromo, água oxigenada, pó pra tapá taio" (sulfanilamida da Squibb) e um pedaço de pano, (gase, atadura e esparadrapo eram coisas raras, só para "grandes machucados" ou "eventos sociais"). Quando o acidente era provocado por um prego enferrujado precisava-se de uma técnica mais elaborada que consistia na mistura de fumo de corda e urina, fervia-se ambos e depois aplicava no local e deixava protegido o local com um pano durante uma semana ou mais, era tiro e queda o remédiozinho.
Brinquedos só ganhávamos no Natal e era um só por ano, era aquele que o Papai Noel trazia mediante solicitação via carta e ainda após uma rigorosa análise do seu comportamento durante o ano. Não era usual, pelo menos na nossa família, você ganhar presentes dos avós, tios, padrinhos, etc. como é hoje, então, esta época era muito esperada.
Os meus presentes não duravam mais que dois meses, então precisava criar os meus por mim mesmo para passar o resto do ano, o que não era difícil, material para isto tinha de sobra, eu não podia ver uma construção de casa que logo já ia fazer uma visitinha atrás de pedaços de madeira (caibros, sarrafos e tábuas). Com um pedaço de caibro cortado de forma chanfrada, um prego, uma lata de sardinha um martelo, em um minuto, um caminhãozinho com caçamba ficava pronto. Com uma ou mais latas vazias do leite "Sol", terra e um pedaço de arame, em poucos instantes você criava um "roletezinho de puxar", e assim, bambolê com pneu de bicicleta, carrinhos de rolimã, tratores de madeira, carrinhos feitos com carretéis de linha, ônibus "imaginário", pé de lata, perna de pau, patinetes, eram engenheirados, era só botar a criatividade para funcionar e começar a brincar.
Além disso, tínhamos o que se poderia dizer: as brincadeiras de épocas, que eram: empinar pipa, rodar pião, jogar bolinha de gude, brincar de polícia e ladrão, jogar taco, jogar bola, pular corda, cobra cega, passar anel (que era uma puta sacanagem), fazer cabanas no mato, brincar de casinha, etc. (mais adiante conversaremos mais sobre estas brincadeiras).
Com passar do tempo, uma rua de terra vermelha substituiu a trilha que existia em frente da nossa casa, lembro-me do dia em que o trator de esteira passou fazendo a terraplanagem, o trator fascinava qualquer moleque, sua cor amarela, o barulho do motor, sua força, tudo aquilo dava um brilho especial aos olhos e os deixavam rasos d'agua. Vinham até moleques de outras ruas assistir de perto aquele trabalho colossal. Quando a máquina parava, fazíamos fila para dar uma subidinha no equipamento, sentar no banco do tratorista, girar o volante, buzinar, etc., era assunto pra mais de um mês, sem contar, com que orgulho, nós contávamos para os outros que um trator estivera em nossa rua. Era muita prosperidade...
...voltando ao assunto sobre mijar na cama: Era um trauma! Por causa disto só dormia em casa, quando tinha que dormir fora de casa era um caos, ficava acordado até tarde da noite e às vezes nem dormia, tinha vergonha. 
Por mais medidas que tomasse para evitar mijar enquanto dormia, sempre acontecia, não tinha controle. Não bebia água à noite, ia ao banheiro antes de deitar, não ficava perto de fogueira à noite, fazia simpatias, etc. Não tinha jeito, minha mãe levou-me ao médico e segundo o diagnóstico dele eu era uma criança despreocupada e que isso só iria mudar quando começasse a preocupar-me com a vida. O médico estava enganado. Ainda bem!, parei de mijar na cama aos dez anos de idade e não estava nenhum pouquinho preocupado com a vida! Com certeza!...
 
...continua na próxima semana.
 

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

A idiotice é vital para a felicidade.

"Gente chata essa que quer ser séria, profunda e visceral sempre. Putz! A vida já é um caos, por que fazermos dela, ainda por cima, um tratado? Deixe a seriedade para as horas em que ela é inevitável: mortes, separações, dores e afins.
No dia-a-dia, pelo amor de Deus, seja idiota! Ria dos próprios defeitos. E de quem acha defeitos em você. Ignore o que o boçal do seu chefe disse. Pense assim: quem tem que carregar aquela cara feia, todos os dias, inseparavelmente, é ele. Pobre dele.
Milhares de casamentos acabaram-se não pela falta de amor, dinheiro, sexo, sincronia, mas pela ausência de idiotice. Trate seu amor como seu melhor amigo, e pronto.
Quem disse que é bom dividirmos a vida com alguém que tem conselho pra tudo, soluções sensatas, mas não consegue rir quando tropeça? Hahahahhahahaha! Alguém que sabe resolver uma crise familiar, mas não tem a menor ideia de como preencher as horas livres de um fim de semana? Quanto tempo faz que você não vai ao cinema?
É bem comum gente que fica perdida quando se acabam os problemas. E daí o que elas farão se já não têm por que se desesperar?
Desaprenderam a brincar. Eu não quero alguém assim comigo. Você quer? Espero que não.
Tudo que é mais difícil é mais gostoso, mas... a realidade já é dura; piora se for densa.
Dura, densa, e bem ruim.
Brincar é legal. Entendeu?

Esqueça o que te falaram sobre ser adulto, tudo aquilo de não brincar com comida, não falar besteira, não ser imaturo, não chorar, não andar descalço, não tomar chuva.
Pule corda!
Adultos podem (e devem) contar piadas, passear no parque, rir alto e lamber a tampa do iogurte.
Ser adulto não é perder os prazeres da vida - e esse é o único "não" realmente aceitável.
Teste a teoria. Uma semaninha, para começar.
Veja e sinta as coisas como se elas fossem o que realmente são: passageiras. Acorde de manhã e decida entre duas coisas: ficar de mau humor e transmitir isso adiante ou sorrir...
Bom mesmo é ter problema na cabeça, sorriso na boca e paz no coração!
Aliás, entregue os problemas nas mãos de Deus e que tal um cafezinho gostoso agora?
A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso cante, chore, dance e viva intensamente antes que a cortina se feche."
 
Arnaldo Jabor